Broken Strings
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Por mais cedo que eu acordasse, nunca na vida conseguiria acordar mais cedo que Granny. Até parecia que aquela senhorinha não dormia. Quando olhei sonolenta no relógio da cozinha e percebi que, apesar de serem cinco e meia da manhã, Granny já estava pronta para mais um dia, não pude deixar de dar risada, antes de plantar um beijo em sua bochecha enrugada. Ela me despachou com um agitar das mãos, mandando-me parar de sentimentalismo e me espertar, mas eu sabia que ela gostava quando eu era carinhosa com ela. Voltei sorrindo para o meu quarto.
A primeira coisa que fiz foi arrumar a cama e qualquer outra bagunça que havia por ali. Como passava o dia todo na lanchonete ou na recepção da pousada, eu não tinha tempo para organizar minhas coisas, mas me sentia aflita quando via as coisas fora do lugar. Sendo assim, sacrificava algumas horas a mais de sono todas as manhãs para ter tempo para a faxina. Depois de terminar tudo, fui direto para o chuveiro, onde deixei que a água bem quente avermelhasse minha pele e lavasse todo o suor. Quando saí do banheiro, estava bem disposta e com toda a animação que me era necessária.
Diante do guarda roupa, outra vez fiquei em dúvida. Ultimamente vinha usando apenas roupas sóbrias, que passavam despercebidas em meio à multidão. Eu fizera de uma calça jeans e uma jaqueta preta meu uniforme de trabalho, mas enquanto procurava essas roupas, meus olhos passaram de relance sobre meu antigo uniforme, da Ruby de antigamente – um mini short que deixava muito de minhas coxas à mostra e uma blusa ainda mais curta, evidenciando bastante minha barriga que, modéstia a parte, estava em muito boa forma. A roupa estava pendurada em um cabide, escondida no meio de várias outras peças, e fazia muito tempo que eu não a usava. Torci a boca de lado, pensativa. Por fim, puxei as peças de roupa e joguei-as sobre a cama, sem pensar muito. Eu me sentia mais Ruby do que Red hoje. Não sabia o que me fizera ter vontade de usar aquelas roupas atrevidas outra vez, mas decidi satisfazer esse pequeno desejo, afinal eu merecia um pouco de diversão.
Quando cheguei ao Granny’s, minha avó lançou um olhar de esgueira, com a sobrancelha levantada para minha roupa. Eu apenas dei de ombros, antes de começar a ajudá-la a preparar tudo o que era necessário antes que o Granny’s finalmente abrisse suas portas.
Às sete em ponto, mudei a plaquinha da porta de vidro da frente para “aberto”, e então corri para a cozinha, onde Granny me chamava. Ela estava preparando suas famosas panquecas – que só não eram mais famosas do que sua lasanha divina que, por sua vez, só perdia para a lendária lasanha da prefeita da cidade. Eu tinha que dar um crédito a Regina por ser tão boa cozinheira. Na festa de boas vindas à Mary Margaret e Emma, depois que elas voltaram de uma viagem acidental à Floresta Encantada, logo depois da quebra da maldição, todos os convidados haviam ficado receosos por comer a lasanha preparada por Regina, mas todos esqueceram que fora a própria Evil Queen quem fizera o prato quando colocaram o primeiro pedaço na boca. Realmente, Storybrooke era uma cidade pequena e sem muitos atrativos, mas a comida compensava tudo isso. Quer coisa melhor?
O cheiro maravilhoso naquela cozinha me trazia esses pensamentos gulosos, e só depois de um tempo lembrei que deveria voltar para o balcão da lanchonete, pois poderia haver algum cliente adiantado por ali. David, por exemplo, gostava de tomar seu café antes de fazer qualquer coisa que fizesse na vida. Saí da cozinha ajeitando o avental em meu corpo.
Olhei para cima e paralisei. Sentada em um dos reservados estava a vampira da outra noite. Ela olhava fixamente para frente e tamborilava os dedos sobre o cardápio, aparentemente impaciente. O que? Vampiros agora tomavam café da manhã? Depois de franzir a testa por um longo momento, finalmente me livre da paralisia e, deixando a Ruby profissional (se é que se podia chamar minha atitude de “profissional”) fluir por todo o meu corpo, rebolei até sua mesa com um pequeno caderninho e uma caneta vermelha das mãos.
— Bom dia! — cantarolei, olhando diretamente para ela. — O que vai ser hoje?
Desloquei o peso do corpo para uma perna, enquanto meu pé batia no chão em certo ritmo. Se eu não estivesse com meu habitual batom vermelho, teria começado a morder o lábio. Fazia muito tempo que eu não agia assim, mas as palavras daquela mulher na noite passada ficavam martelando na minha mente. Ela insinuara que eu não tinha educação suficiente. Era assim? Pois então eu faria questão de reforçar essa ideia. Era uma atitude extremamente infantil e não muito lógica de minha parte, confesso, mas eu não ligava nenhum pouco. Sorri abertamente para a vampira.
— Um café especial com gotas de chocolate e dois croquetes de queijo. — Ela fez o pedido completo, sem ao menos se dignar a olhar para cima. Continuou encarando o espaço à sua frente com aquele ar esnobe que me irritava.
Só para manter as aparências, fingi que anotava o pedido na caderneta, mas eu não precisava daquilo quando possuía uma memória fotográfica de lobo infalível. Apenas para ganhar algum tempo observando de canto de olho a vampira, fiz alguns rabiscos indefinidos na folha de papel amarela, arranquei-a com estardalhaço e a enfiei no bolso do avental de qualquer jeito. Estava pronta para abrir outra vez o sorriso de sempre, quando a porta do estabelecimento se abriu com veemência.
Regina:
Estacionei meu Mercedes preto do outro lado da rua, em frente ao Granny’s Dinner. O local parecia vazio, pelo que eu via pelas janelas. Aliás, a cidade ainda estava deserta. Geralmente, a esse horário, os habitantes deste lugar já estavam de pé, começando mais um de seus dias, mas hoje era diferente. Um vento gelado assobiava tão forte que eu podia ouvir de dentro do carro, mesmo com o vidro fechado. Era como se uma aura sombria encobrisse o céu de Storybrooke, deixando tudo meio cinza – mas, pensando bem, essa cidade nunca fora muito colorida para ninguém.
Ainda segurando o volante, apesar de já ter desligado o veículo, eu sondei a extensão da rua, observando o vento carregar algumas folhas secas, resquícios do outono. O único ser vivo ali, além de mim, era o Sr. Gold, se arrastando com sua bengala quase no final da rua, antes de entrar em sua loja. O único carro, além do meu, era o odioso fusca amarelo daquela loira infernal. Eu não sabia por que motivo a Srta. Swan resolvera deixar seu carrinho horroroso estacionado nesta rua, tão longe do apartamento onde ela morava com aqueles dois idiotas que ela chamava de “mãe e pai” e com o meu filho (Henry nunca seria dela). Talvez, através disso, eu pudesse até arranjar um pretexto para encher o saco dela. Quem sabe uma multa por estacionar em local inapropriado? Ajudaria se ela não fosse a Xerife da cidade, mas eu podia dar um jeito nisso. Quem sabe...
Mas não agora. Agora, eu tinha coisa mais importante pra fazer. Deixando pensamentos bobos de vingança de lado, peguei minha bolsa do banco do carona, coloquei-a no ombro e saí do carro. Ajeitei meu vestido social preto, me equilibrei sobre meu salto alto de cor nude e comecei a caminhar em direção ao Granny’s.
Enquanto andava, pensei sobre minha manhã um tanto quanto agitada.
Eu havia acordado cedo – ou melhor, havia levantado da cama cedo; não conseguira pregar os olhos sequer por um minuto durante a noite toda. Na noite anterior, depois de a Srta. Lucas ter me deixado em casa, eu tivera um acesso de fúria e havia quebrado vários objetos de decoração de minha casa, de início apenas tendo em vista aliviar minha raiva. Depois que percebi que aquilo era inútil, decidi usar meus móveis e enfeites caros para praticar magia – ou pelo menos tentar. Concentrar todo o poder que havia dentro de mim para levantar apenas um vaso de flores era estafante e estava se mostrando um exercício completamente sem sentido, mas eu não iria desistir. Por que eu precisaria de um mero livro de feitiços para manifestar a magia negra que eu possuía em truquezinhos de circo? Eu era muito mais poderosa do que isso, pelo amor de Deus. Se eu podia arrancar corações do peito de pessoas que ainda continuavam vivas depois do processo, eu podia muito bem acender uma maldita vela com um piscar de olhos. Tendo isso em mente, pratiquei durante horas madrugada adentro, até finalmente conseguir me transportar da sala até o andar de cima, no quarto, envolta em uma fumaça roxa. Sorri, um sorriso maligno digno da Rainha Regina mais impiedosa de todos os tempos. "Gold que se prepare", pensei. "Ele não é capaz de me impedir e, definitivamente, não é mais poderoso do que eu." Depois de ter minha tarefa concluída, caí satisfeita sobre o colchão, mas aí já era tarde, ou antes, cedo demais para qualquer tipo de sono. Eu tinha algo mais a fazer.
Antes do horário considerado educado para se bater à porta de alguém, eu entrei como um furacão na loja de Gold. Ele já estava de pé, mas isso não era de se estranhar; depois que sua amada Belle atravessou a fronteira da cidade e esqueceu de seu tão adorado monstro, ele não tinha muita coisa pra fazer a não ser ficar enfiado naquela lojinha deplorável (apesar de um tanto útil). Oh, e claro, ficar correndo atrás do perdão de seu filho, Neal, feito um cachorrinho, mas isso já era outra longa história. Ele não pareceu surpreso ao me ver chegando tão imperiosamente em seu estabelecimento. Pelo contrário, parecia saber exatamente quais eram minhas intenções. E eu nem precisei barganhar muito para conseguir o que queria, afinal, ele estava em grande dívida comigo por ter roubado o livro de minha mãe e, com isso, ter me colocado em perigo na noite passada. Apenas precisei lembrá-lo de suas ações não muito ortodoxas, e ele prontamente se moveu para me ajudar.
Ele pegou uma bola de cristal de aparência duvidosa e a colocou em cima do balcão. Ao meu olhar de descrença, ele apenas segurou meu dedo indicador e, com um objeto pontiagudo que não consegui distinguir, fez brotar uma minúscula gota de sangue da pontinha do dedo, que pingou sobre o objeto de cigano. Depois de recuperada da surpresa, tive outra surpresa maior ainda ao constatar que, ao contato com meu sangue, a bola de cristal girou misteriosamente, transformando-se em um mapa. Um pontinho de luz faiscante mostrava exatamente a localização que eu queria saber. Respirando fundo de emoção, assenti para Gold, mostrando que estava satisfeita com o nosso negócio, e saí de sua loja, indo direto para meu carro. Eu não precisaria dirigir muito; a pessoa que eu queria encontrar estava a menos de duzentos metros dali, sentada sossegadamente em um dos reservados do Granny’s. Eu não poderia ficar mais satisfeita.
Agora, enquanto adentrava o local, a primeira coisa que me chamou a atenção foi aquele cabelo de um tom ridiculamente verde. Ela estava de costas para mim, mas eu podia jurar que percebera minha entrada. Ótimo; eu realmente não estava me escondendo.
A outra pessoa no recinto também percebeu minha entrada, e me lançou um olhar alarmado. Não era como se a Srta. Lucas estivesse me alertando do “perigo” que aquela vampirinha podia representar; era mais como se soubesse exatamente o motivo de eu estar ali. Sorri de maneira superior para ela, e ela se recompôs. Se tinha uma coisa que eu admirava em Ruby Lucas, era a sua frieza. Um ponto a mais para ela.
Me aproximei a passos firmes do local onde as duas criaturas se encontravam. O modo como Ruby me olhava agora era respeitoso, como se tivesse apagado de sua memória os momentos de fraqueza pelos quais ela me vira passar na noite passada. Outro ponto.
— Bom dia, Sra. Prefeita — ela me cumprimentou formalmente. Eu apenas assenti.
Postei-me exatamente ao lado da vampira de cabelos verdes. Pigarreei, e então minha voz soou grave.
— Srta. Picard.
Outra vantagem de fazer negócios com Gold é que ele realmente era muito bom com nomes. Eu não só podia encontrá-la onde quer que fosse, como também agora sabia sobre toda a sua história. "Ah, isso vai ser interessante"; essa frase era tudo o que me passava pela cabeça.
A vampira continuou na mesma posição, sem se alterar. Quando falou, sua voz tinha aquele mesmo tom enjoativo da noite passada, em um tom cadenciado e aquele sotaque que revelava logo de cara suas origens do outro continente.
— Fico lisonjeada que saiba meu nome, mas desconfio que eu seja capaz de dizer-lhe o seu nome com tal potencial. Fico perguntando-me o que minha presa mais desejada nesta cidade por enquanto gostaria comigo, e posso até suspeitar. Seria uma revanche?
Oh querida, agora quem fica lisonjeada sou eu, tive vontade de dizer, mas me contive. Apenas sorri diante do fato de aquela criatura estar tão interessada em mim. Mas não era novidade, certo? Com aquele joguinho ridículo e aquele ar de superioridade e frieza que ela tentava passar, só deixava ainda mais evidente que o modo como ela agia era perigosamente (para ela, claro) semelhante ao modo como meus súditos no Reino Encantado me tratavam. Todo esse interesse mascarado com essa distância que ela tentava postar entre nós... Eu poderia dizer que aquilo não era saudável para ela, mas o fato é que eu adorava isso. Era divertido.
Eu poderia ter lhe respondido, mas pelo jeito ela tinha um pequeno probleminha em segurar a língua, já que não deu trégua e continuou falando, sem se preocupar em ouvir o que eu tinha a dizer.
— Se você me permitisse, eu gostaria primeiramente de tomar meu café. Quem sabe você poderia até me acompanhar, o que acha?
Então era isso? Pobrezinha. Logo se notava que ela era realmente nova na cidade e não sabia com quem estava lidando. Ao olhar para Ruby Lucas, pude ver que ela concordava comigo nisso. Seus olhos estavam preocupados.
— Por que não vai buscar o pedido da Srta. Picard, Ruby?
Os olhos da garota dançaram entre mim e a vampira, indecisos, mas meu tom não era o de uma pergunta; era uma ordem. Sabendo disso, ela se resignou.
— Sai num instantinho, ok? — ela disse à sua clientezinha, com um sorriso que vacilou um pouco. Porém, semelhante à minha frase, a dela também tinha algo subliminar. Era um aviso de que ela estava de olho. Olha só; parecia que a Srta. Lucas estava destinada a ganhar meu respeito aos pouquinhos.
Enquanto ela se afastava, eu dei alguns passos a frente, contornando o reservado. Sentei-me no banco acolchoado, deixando minha bolsa de lado, e então coloquei as mãos em cima da mesa, cruzando os dedos. Encarei-os por um breve segundo, então meu olhar pétreo cravou-se nos olhos verdes daquela criatura.
— Primeiramente, senhorita, peço que me perdoe se eu não conseguir te responder como deseja, afinal não consigo compreender muito bem tudo o que fala. Sabe como é, muitas palavras sem trégua para que o ouvinte assimile, isso acaba tirando todo o brilho do discurso...
Estreitei os olhos, como se não falasse por mal. E então, deixando as provocações infantis de lado, meu rosto se tornou sério.
— Você é nova na cidade. Não conhece as regras, e não sabe quem as dita. Eu entendo isso. Sendo assim, preciso te informar que não sou o tipo de pessoa que espera por revanches, pois isso implica alguma chance do adversário vencer e, honestamente, aqui você não tem nenhuma chance. Então, se sabe ouvir sábios conselhos, sugiro que ouça esse... — Meu rosto se aproximou do seu. — Saia da cidade, enquanto essa opção ainda é viável.
Meu próprio discurso fora muito mais longo do que eu planejara, mas, sinceramente, eu não esperava uma resposta de sua parte. E no mais, eu era a rainha aqui; era eu quem tinha a última palavra. E se ela fosse esperta, como eu sabia que era, não se daria ao trabalho de responder. Mas se fosse uma provocadora tola, levaria para o lado do conflito e aí, bem... Eu já tinha avisado.
Eu podia ver, no reflexo de seus olhos, que os meus próprios eram negros como a noite. Aquilo era a minha magia, e eu senti um arrepio na espinha ao senti-la formigar por toda a extensão de meu corpo. Era delicioso saber que todo o esforço da noite passada ainda estava valendo a pena.
Esperando sua reação, tive um sobressalto quando ela começou a dar risada, exatamente como na noite anterior, e estreitei os olhos diante de sua atitude inapropriada. E o mais inapropriado ainda foi que ela não se deu ao trabalho de responder. De que forma eu poderia interpretar aquilo? Claro, poderia ser uma tática para me vencer na discussão verbal, mas eu não apostaria nisso, levando em conta sua tagarelice anterior. Talvez ela apenas não tivesse argumentos suficientes. Eu ficaria satisfeita com isso.
Ruby já havia chegado à mesa com o café da manhã da vampira, e ela também se surpreendeu com a gargalhada da criatura. Franziu a testa para mim, achando aquilo estranho, e eu apenas suspirei, revirando os olhos. De certa forma, eu já podia ter esperado por isso. Já havia lidado com vampiros antes. Não no Reino Encantado, onde eles nunca chegaram, mas em outros mundos. Certa vez, até tive uma chance de ouro de me enfrentar com um vampiro insolente que, por acidente, fora parar em Wonderland justamente na mesma época em que eu fazia uma visitinha àquele Reino. Não preciso nem dizer quem venceu o confronto. Aquela criatura detestável só continuava respirando naquele lugar porque o tempo não existe no País das Maravilhas então, tecnicamente, ele não podia morrer, mas assim que ele pusesse os pés fora do país mágico... Sua vidinha imortal inútil acabaria.
A vampira agora tomava seu café, me desafiando a tomar alguma atitude precipitada. Certo. Ela que ficasse esperando.
Levantei-me, arrastando comigo minha bolsa.
— Vejo que é inteligente. Muito bem — Dei alguns passos, e então parei. Peguei algo na bolsa. — Um presentinho de boas vindas, apesar de a senhorita não ser bem vinda aqui. Aproveite o café.
Depositei algumas notas de dinheiro amassadas em cima da mesa e então me virei, começando a andar em direção à porta outra vez. Um sorriso diabólico trespassou meu rosto. Eu não conseguia sequer expressar a satisfação que eu sentia ao imaginar a reação que aquela vampira teria diante de meu ato de pagar pelo seu café da manhã.
Caminhando majestosamente para a porta, o sorriso estampado de fora a fora em meu rosto, eu pude perceber um movimento em minha visão periférica, mas não me surpreendi com isso, não de imediato, pelo menos. Eu sabia que minha atitude fora extremamente afrontosa, e isso não foi sem querer; eu torcia para que ela reagisse de alguma forma, talvez tagarelando outra vez ou no mínimo tentando me atacar. Eu queria vê-la fazendo isso, e assim ter o desejado pretexto para humilhá-la várias vezes, e das mais variadas formas.
Mas o que me surpreendeu totalmente, pegando-me completamente desprevenida, foi a súbita dor forte que senti na face esquerda. Depois de sentir meu rosto ser virado violentamente para o lado, demorei mais do que o previsto para assimilar o que fora aquilo, dado ao atordoamento. Então, minha boca se encheu com o gosto de sangue e meus olhos lacrimejaram involuntariamente, e eu levei a mão ao rosto. Permaneci com o olhar baixo, cobrindo o rosto ferido com a mão, e algo revirou no meu estomago. Algo maligno.
Certamente, Emma Swan e eu já tivéramos muitos enfrentamentos neste mundo, desde que ela chegara à cidade. Pouco antes de Emma quebrar a maldição, havíamos brigado feio no hospital onde Henry corria sério risco de vida por consequência de uma de minhas tentativas de vingança contra a mãe biológica de meu filho. E até mesmo não muito tempo atrás, momentos antes de perder minha mãe (essa lembrança não era muito confortável, mas eu já começara a superar), eu tive meu próprio pescoço sob a adaga que a Srta. Swan possuía. Essas duas situações eram só as primeiras de que eu conseguia me lembrar. Mas nenhuma delas, nenhuma mesmo, se igualava a outra lembrança, passada no cemitério de Storybrooke, em frente ao mausoléu de minha família, muito tempo antes de a maldição ser quebrada.
É claro – na ocasião, fora eu mesma a dar o primeiro soco. A satisfação correu em minhas veias quando senti os nós de meus dedos afundarem no rosto de Emma. Mas então, quando ela revidou, e com muita força por sinal, a situação perdera toda a graça. Eu nunca estive acostumada com as pessoas revidando meus atos de violência. Como rainha, eu estava acostumada a que meus súditos se curvassem aos meus pés e até mesmo morressem, se eu assim decidisse, sem terem o direito de contestar minha decisão. A primeira pessoa que realmente me enfrentara sem medo fora Emma Swan. Com certeza eu não gostei dessa mudança. Porém, naquela época, presa na maldição de uma terra sem magia, eu não pude fazê-la realmente pagar por ousar me tocar, a não ser com violência bruta, humana. Ah sim – e depois, como um aviso para não se meter no meu caminho outra vez, esmaguei o coração de Graham, xerife da cidade na época, já que esse era o único modo de usar um pouquinho de magia em Storybrooke no momento.
Levar um soco – e desta vez sem nem ter começado a briga primeiro – despertou as emoções incomodas que eu sentira naquela época, uma fúria tão grande que eu pensara só poder sentir pela Srta. Swan e pela sua mãe sonsa, Snow White. Mas aquela vampirinha insolente se mostrara capaz de muito mais do que eu imaginava.
Finalmente levantei os olhos, ainda segurando o rosto na mão. Encarei os olhos frios daquela mulher, que agora não continham sequer um pingo de deboche ou até mesmo a diversão que ela demonstrara antes. Percebi que ela estava realmente furiosa.
Subitamente, meus lábios se alargaram, enquanto eu baixava lentamente a mão. Não era um sorriso; eu não seria capaz de sorrir sequer com sarcasmo nesse momento. Não; neste momento, a expressão da verdadeira Evil Queen se apoderou de meu rosto.
Ao contrário de meu enfrentamento com a Srta. Swan naquele cemitério, eu agora tinha meus poderes de volta. E também não estava abalada por emoções de abandono e sensação de perda que eu sentia naquela época. A única forma que essa vampira me atingia hoje era com a sua terrível mania de não saber com quem estava se metendo.
Levantei outra vez a mão direita, mas esta parou a meio caminho, e meus dedos se curvaram como garras. Apontei-os na direção da vampira e, como só o uso da magia fazia comigo, meus lábios outra vez demonstraram aquele sorriso maligno.
O corpo da vampira levitou por um leve segundo, e eu o mantive daquela forma apenas para que ela assimilasse bem o que eu estava prestes a fazer. Então, com um leve movimento da mão, ela voou do outro lado do recinto, batendo com força as costas na parede.
Dei alguns passos em sua direção. Seu corpo começou a escorregar para o chão com o impacto com a parede, mas outra vez eu ergui a mão e, sem encostar ao menos um dedo nela fisicamente, eu a segurei fortemente contra a parede. Quase ri quando percebi o papel de parede do lugar, que era de flores. Iria usar outra vez aquele truquezinho que amava, e que até já havia experimentado no príncipe encantado da minha pior inimiga.
Com um forte estalo, as flores começaram a criar vida e a sair do papel, e seus galhos instantaneamente se envolveram no corpo da vampira. Um dos ramos se enrolou convenientemente em seu pescoço. Mexendo um dedo em um gesto quase imperceptível, eu forcei ainda mais o aperto. Se ela fosse humana, alguns breves segundos daquilo já acabariam com sua vida, mas eu já havia lidado com vampiros antes, e sabia que não seria tão fácil. Eu poderia me divertir um pouquinho, pelo menos, antes de chegar ao ápice, que era minha marca registrada: eu arrancaria seu coração e o esmagaria em frente ao seus próprios olhos.
Me aproximei ainda mais da vampira, meus saltos ecoando fortemente pela sala, até estar a poucos centímetros de seu rosto.
— Eu avisei, querida — Meu tom de voz não era nada cordial. — Disse para sair da cidade enquanto podia. Sinto informá-la, mas não sou o tipo de pessoa que dá segundas chances. Seu tempo acabou.
Meu olhar pétreo firmou-se no seu, enquanto eu fazia as raízes se apertarem ainda mais em seu pescoço.
— Oh! Era para sentir medo?
Por um segundo, pensei que não poderia estar escutando direito.
Era impressionante! Até quando estava totalmente rendida, presa sem nenhuma chance de escapar, aquela criatura desprezível ainda tinha disposição para zombar de mim. Ela fez um esforço para manter sua voz o mais debochada possível, apesar de esta sair estrangulada em razão das raízes que apertavam seu pescoço. Raízes estas que fiz questão de que a apertassem ainda mais.
— Regina, devo confessar — ela deu uma pausa para tomar fôlego, afinal precisava dele para continuar expelindo aquele fluxo de palavras que parecia não ter fim. —, que você realmente é muito divertida! Vou chamar meus colegas para terem um round com você. Eles vão achar o máximo se divertir às suas custas. Fazendo um papelzinho desses, você até parece que gosta de ser ridícula.
Aquilo foi a gota d’água. Eu estava realmente disposta a prolongar aquele joguinho, brincar com a criatura até que visse o pavor genuíno em seus olhos, mas não valia a pena. Certos indivíduos eram simplesmente tão desprovidos de inteligência e amor à própria vida que não conseguiam enxergar a morte nem que esta aparecesse em sua frente vestida com capuz preto e foice na mão. Aquela vampira parecia verdadeiramente crente de que eu lhe pouparia a vida. Ou talvez de que ainda pudesse me vencer, à essa altura do confronto. Não conseguia enxergar que o fim de sua existência deplorável estava perigosamente próximo.
Apertando os lábios com força, os olhos estreitos de fúria, dei o último passo, aproximando-me o bastante para que meu hálito atingisse o seu rosto. E sem dar qualquer aviso prévio, minha mão afundou dentro de seu peito.
A mulher ofegou, completamente surpreendida pelo meu ato inesperado. Minha mão dentro de seu corpo alcançou um órgão que em seres humanos normais era quente e pulsante, mas eu não me admirava por nesse momento ter a impressão de que segurava uma pedra de gelo. Envolvi os dedos naquele coração duro, gelado e imóvel, segurando-o completamente dentro de minha mão, e fiz questão de apertá-lo com certa força. Ela poderia não sentir dor, mas definitivamente não era nada confortável ter alguém com a mão dentro de seu corpo. Olhei fixamente nos olhos verdes arregalados, deixando claro que era somente eu quem tinha o controle de toda aquela situação, e então puxei a mão com força, trazendo seu coração junto.
O órgão possuía uma cor de vermelho esbranquiçado que eu só havia visto uma vez na vida – justamente no vampiro detestável de Wonderland. Era completamente imóvel e não emitia qualquer luz mágica, coisa que um coração humano faria. Ergui-o na altura dos nossos olhos, bem entre o rosto da criatura e do meu, para que ela tivesse uma visão completa de seu próprio coração. Analisei-o curiosamente. Aquele vermelho quase apagado me dizia que quando parou de bater, o coração ainda era relativamente puro, sem muitas manchas de maldade. Se ela tivesse sido uma pessoa ruim quando humana, o órgão agora teria uma tonalidade acinzentada, o negro de sua vida humana congelado pelo veneno do vampiro que a transformou. Ao contrário disso, porém, pude deduzir que ela ainda era apenas uma jovem inocente quando teve sua vida interrompida, e as atrocidades que tenha vindo a cometer depois de ter se tornado um ser sobrenatural não mais influenciavam seu coração, já que ele parou de bater antes disso. O branco gelo que envolvia aquele órgão era a própria manifestação da maldade típica de um vampiro.
Tudo aquilo pude constatar em apenas três segundos de análise. Quando voltei a fitar os olhos da vampira, ela olhava estupefata para seu próprio coração. E quando o olhar voltou-se para o meu rosto outra vez, fiz questão de dar o sorriso torto maligno que era típico meu. Meus dedos envolveram novamente toda a forma do coração, e eu o apertei com certa intensidade, fazendo a mulher ofegar, se contorcendo entre as raízes do papel de parede.
Observei aquela cena com um misto de triunfo e satisfação, absorvendo a visão prazerosa que era uma vítima totalmente dependente de minha misericórdia – algo que eu não praticava com muita frequência. Apertei outra vez o coração, fazendo-a se contorcer ainda mais. E então, ouvi aquela voz.
— Mãe!
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