Notas iniciais
Olá, gente! Esta é a minha primeira fic, e apesar de escrever muito e desde sempre, é a primeira vez que resolvo postar meus escritos em algum lugar, então peço a paciência e a compreensão de vocês caso qualquer coisa não esteja ao agrado de todo mundo. A ideia da história foi tirada de um jogo de RPG Orb com a minha amiguinha linda Luzy (diz oi, Luzy! hahaha), e claro, ela deve receber os seus devidos créditos por me ajudar a desenvolver tudo isso, principalmente com certa personagem aí, rs.

A fic é pra ser Red Queen (muito pouco shippado, eu sei), mas as coisas não vão acontecer rápido demais. Sei que alguns podem ficar impacientes, por isso vou logo avisando que não vai ter nada hot neste capítulo e nem enquanto eu não achar que deva existir. Minha intenção é escrever uma história de amor entre Regina e Ruby, por isso tudo vai acontecer naturalmente e eu não vou apressar as coisas. Espero que compreendam.

E uma última coisinha: o capítulo é meio longo, admito, mas juro pra vocês que se derem uma chance, não vão se arrepender, haha. No mais, espero de coração que gostem! Boa leitura, gente!

— Chega — eu bufei, tirando o avental com força e o abandonando em cima do balcão. — Não aguento mais. Meu turno acabou por hoje, ta? Boa noite!

Ajeitei meu uniforme passando a mão na parte da frente e saí quase desfilando, indo em direção à porta do Granny’s Dinner.

— Ruby, eu ainda não te liberei! — ouvi Granny gritando lá de dentro da cozinha. Alguns poucos clientes que ainda se enrolavam por ali me olharam de maneira estranha. Eu revirei os olhos.

— Mas eu estou me liberando. Tchauzinho! — gritei de volta, antes de bater a porta de vidro, fazendo a plaquinha de “aberto” balançar veementemente.

Respirei o ar refrescante da noite, fechando os olhos. Um pequeno sorriso se espalhou por meus lábios. Fazia tanto tempo que eu não aproveitava a noite, não tirava uma folga só pra curtir, sem preocupações. Na verdade, a última vez em que havia saído de verdade fora com Emma, Mary Margaret e Ashley, em uma noitada só de garotas, isso muito tempo antes de a maldição ser quebrada. Agora, Mary Margaret e Emma haviam descoberto serem mãe e filha e curtiam a família, enquanto Ashley desaparecera de vista com Thomas, seu marido, e sua linda filhinha que nascera não há muito tempo.

E eu? Bom... Eu continuava a mesma de sempre; garçonete no Granny’s, vivendo com minha avó, sem liberdade para viver minha própria vida. Depois que Emma quebrou a maldição, todos encontraram seus amados, suas famílias, e agora tinham a chance de tentar construir de volta seus finais felizes, exatamente como rezava a lenda. Mas não eu. Meu final feliz fora despedaçado há muito tempo, lá no Reino Encantado, antes mesmo de a Rainha sequer pensar em lançar a maldição, quando eu comi – literalmente – o meu namorado, e depois matei minha própria mãe para salvar a vida de minha melhor amiga, Snow White – ou Mary Margaret, nesse mundo. O que eu havia ganhado com a quebra da maldição? Apenas lembranças dolorosas de coisas que eu preferia esquecer. A única coisa com que eu estava feliz agora era poder finalmente me transformar em loba outra vez, principalmente depois que David, marido de Mary Margaret, me ajudara a retomar o controle sobre ela. Desde o incidente com o Rei George, o chapéu mágico de Jefferson, minha capa encantada e todo aquele rolo, eu vinha praticando o autocontrole incansavelmente, com o auxilio de David, Mary Margaret e até mesmo do Sr. Gold, em seus raros momentos de boa vontade. Minha obsessão por me livrar do encanto da capa vermelha e conseguir controlar a loba por mim mesma em dias de lua cheia era gigantesca, e me recompensou. Eu já conseguia, com muito custo e concentração, me transformar em humana outra vez, caso estivesse na forma de loba e algo me motivasse o suficiente. Não era fácil, mas eu estava cada dia melhor nisso. Pelo menos agora eu podia correr livre, e sinceramente, isso era o que eu mais apreciava na vida – liberdade.

Contornei o estabelecimento de minha avó e entrei em sua pousada. Os dois ficavam no mesmo prédio, mas felizmente suas entradas eram separadas, o que era uma vantagem porque assim não teria que enfrentar Granny. Passei pela recepção vazia e, antes de chegar às escadas que levavam aos quartos dos hóspedes, virei em um corredor, que levava aos cômodos grandes e confortáveis onde Granny e eu vivíamos. Fui direto para meu quarto, onde me tranquei para poder me arrumar em paz.

Meu guarda roupa era um festival de vermelho – calças vermelhas, jaquetas de couro vermelhas, mini-blusas vermelhas, até mesmo botas de salto alto vermelhas –, reflexo da Ruby da maldição. Particularmente, eu, Red, gostava de vermelho, mas não era tão tendenciosa. No Reino Encantado todos me conheciam por Red em função da capa vermelha encantada que Granny havia feito para me proteger da maldição da loba, e eu pegara gosto pela cor. Mas agora, olhando para aquele armário todo cor de sangue... Franzi o cenho, revirando as pilhas de tecido até encontrar uma calça jeans escura e uma jaqueta de couro marrom. Só pra não perder o costume, e alegrar a Ruby que ainda vivia dentro de mim, peguei um xale vermelho e uma boina da mesma cor. Em frente ao espelho, exagerei no batom rubro, até que meus lábios grandes demais estavam exatamente da cor de meus acessórios. Eu estava pronta para a noite.

Enquanto saía pela porta dos fundos, que dava para floresta, eu fiquei pensando... Por que eu havia caprichado tanto no look? Essa roupa seria perfeita para uma noitada entre amigos, mas não era isso o que eu iria fazer hoje. Hoje, eu iria me entregar ao mais puro prazer da minha vida. Eu iria correr.

Levantei os olhos, sorrindo para a grande lua cheia bem no alto do céu sem estrelas de Storybrooke. E foi então que um arrepio de pressentimento ruim atravessou todo o meu corpo.

Enquanto eu estava me arrumando, havia começado a sentir alguma coisa estranha, um tipo de opressão que me dizia disfarçadamente que algo estava errado. De início não compreendi o que era, e havia começado a me preocupar, mas tentava esquecer, alegando a mim mesma que hoje eu tinha o direito de me divertir sem ter que me preocupar em ajudar ninguém. Mas eu simplesmente não conseguia ignorar esse tipo de coisa. E agora que, enquanto eu olhava para a lua, a sensação havia voltado com toda a força... Eu não podia ignorar. Eu tinha que saber o que estava acontecendo.

Meus instintos de loba começaram a se manifestar mesmo enquanto eu ainda assumia minha forma humana. Meu olfato extremamente aguçado vasculhava o ar, tentando descobrir qualquer odor desconhecido, ou até mesmo conhecido, que me desse uma pista do que havia errado. Eu conseguia sentir todos os cheiros de cada pessoa que havia passado perto do local onde eu estava no mínimo 24 horas antes. Não eram muitas pessoas, e não havia nada de alarmante. O cheiro mais penetrante era o de Henry, filho de Emma, e isso era até aceitável, afinal ultimamente ele estava vivendo uma fase um tanto revoltada por causa de problemas na família extremamente complicada que eu não entendia muito bem. Ele costumava passar horas na floresta, pelo que eu entendi, tentando descobrir um jeito de acabar com a magia em Storybrooke. Eu não sabia como ele planejava fazer isso, mas não ficava me preocupando.

Até agora.

Pensando bem, era bem provável que quem estivesse em perigo fosse Henry. Ele sempre conseguia se meter nas mais impossíveis confusões. Realmente preocupada, comecei a seguir seu cheiro, adentrando a floresta de braços firmemente cruzados em frente ao corpo. Eu não podia deixar algo acontecer com aquele garotinho. Ele era neto de Snow, amiga de extremo valor para mim, e filho de Emma, alguém de quem eu havia me aproximado bastante nos últimos tempos. Eu devia isso às duas.

Enquanto seguia a trilha de Henry – que levava, percebi com a testa franzida, de volta para a cidade –, o cheiro de outra pessoa atravessou meu caminho. Um cheiro cítrico, que trazia à mente a imagem inconfundível de maçãs.

Regina.

Eu não me preocuparia sequer em perceber isso, se o cheiro não fosse tão estranho. Eu podia sentir o medo em seu odor corporal. Meu instinto agora gritava que a pessoa em perigo era justamente a prefeita da cidade.

Hesitei por um breve segundo. Se a pessoa em perigo era Regina... Bem, eu não deveria me preocupar. Ela era a mulher mais poderosa da cidade. Pelos céus, ela era a Evil Queen. Ela já tentara matar Snow White incontáveis vezes. Ela mesma lançara aquela maldição terrível que trouxe todos os moradores da Floresta Encantada para o mundo real, para essa cidadezinha inóspita chamada Storybrooke. Ela sabia muito bem se defender sozinha. E se não soubesse, bem... Por que eu deveria ajudá-la?

“Porque ela também é mãe do Henry”, uma vozinha em minha cabeça lembrou. “Mesmo que seja mãe adotiva.” Revirei os olhos. E, além disso, eu era uma pessoa boa. Não importava o que ela tivesse feito, eu não seria igual a ela. Eu iria ajudá-la.

Seguindo o seu cheiro, voltei para dentro da floresta a passos decididos. O cheiro do medo aumentava a cada passo. A trilha adentrava cada vez mais na escuridão do bosque, e logo eu não conseguiria enxergar muita coisa com meus olhos humanos, e teria que assumir a forma de loba se quisesse continuar com essa caçada estranha. Olhei ansiosamente para o relógio de pulso. Eu só conseguiria me transformar depois da meia noite. Felizmente, faltava apenas um minuto e alguns segundos para esse horário crucial.

— Regina? — Chamei, um pouco hesitante. Minha voz ecoou no vazio, e eu não obtive resposta. Desse jeito não funcionaria. —Regina! — Dessa vez, minha voz saiu em alto e bom som. Se houvesse alguém ali, poderia me escutar.

E então, minha audição apurada captou um barulho, não muito longe de onde eu estava. Em seguida, a voz.

— Quem é você?

Era Regina. O tom era aquele já conhecido tom de Evil Queen, forte e decidido, tentando passar superioridade. Mas eu podia perceber que um tremor assaltava suas palavras. Ela estava tentando esconder o medo com arrogância. Típico.

Estranhei sua pergunta. Quem é você? Ela conhecia bem minha voz. Será que ela estava falando comigo? Ou havia outra pessoa com ela? Meus ouvidos não registraram outro tipo de barulho que denunciasse a presença de mais alguém junto a ela. Aquilo estava ficando cada vez mais esquisito.

Orientada pelo som de sua voz, comecei a correr pela floresta, seguindo até onde eu sabia que ela estaria. Não demorou muito para chegar, porém meu minuto estava esgotado. Parei bruscamente quando senti uma luz clara me envolvendo, e logo minhas mãos tocaram o chão – só que agora eu não tinha mais mãos, e sim patas. Na forma de loba, passei silenciosamente por cima do troco de árvore coberto de musgo que estava bem no caminho, e então pude ver a cena mais estranha de minha vida.

Regina estava caída no chão, sua roupa preta social de prefeita suja de folhas e terra. Seu cabelo negro, curto até o ombro, estava bagunçado e apontava para todas as direções. E pude ver, em seus olhos chocolate arregalados, algo que nunca havia visto nela antes, tanto na impiedosa Evil Queen do Reino Encantado, quanto na controladora Regina Mills, prefeita de Storybrooke: terror genuíno.

Ela não olhava em minha direção; na verdade, talvez ela nem tivesse notado minha aproximação. Confusa, segui seu olhar, tentando descobrir quem conseguira a façanha de aterrorizar a mulher mais maldosa que eu conhecera em toda minha vida.

A primeira coisa que registrei foram longos e fulgurantes cabelos de um tom de verde impressionante que eu nunca tinha visto na vida. Foi só o que pude notar, antes de perceber a postura de caçadora que aquela criatura assumira. Ela avançava a passos decididos em direção a Regina, e então pude notar o olhar que aqueles olhos negros, com as pupilas totalmente dilatadas, lançavam para sua vitima. Sede de sangue e puro prazer pela maldade. Ela se aproximou de Regina mais rápido do que um humano normal era capaz de fazer.

“Não!” Essa única palavra ecoou em meus pensamentos.

Meus lábios – a grande boca de loba – se abriram em um sorriso infernal, e minhas presas longas e afiadas cintilaram sob a luz da lua cheia que atravessava a copa alta das árvores. Um rosnado gutural escapou de minha garganta, alto o bastante para chamar a atenção da predadora, assim como de sua presa. A primeira girou a cabeça com uma velocidade incrível, alarmada e preparada para qualquer tipo de ameaça. Regina, porém, tinha o terror estampado em suas feições, que só fez aumentar ao ver uma loba gigantesca rosnando em sua direção.

Só tive uma fração mínima de segundo para absorver toda a cena, porque no próximo segundo, eu estava atacando.

Minhas patas dianteiras se chocaram com força brutal contra o corpo da criatura, lançando-a há vários metros. Antes mesmo que ela tivesse tempo para registrar sua queda, eu estava em cima dela, prendendo seus braços e pernas no chão com as patas, não me preocupando se minhas garras afiadas iriam machucá-la. Meu focinho se aproximou de seu rosto até que os dois estivessem a centímetros de distância, e eu rosnei ferozmente outra vez, com a boca aberta, meu hálito fazendo com que os fios de cabelo verde daquela mulher – se é que se podia chamar aquilo de mulher – esvoaçassem em volta de seu rosto branco como osso. Meus olhos castanhos de loba fitaram de maneira desafiadora aqueles olhos negros de demônio.

Enquanto meus olhos perfuravam os olhos daquela criatura, pude ver que ela ficara muito surpresa com meu ataque. Ela não havia percebido minha aproximação. Essa era uma das vantagens que eu adorava; como um ser sobrenatural da noite, eu tinha a capacidade de me movimentar sem fazer o menor ruído, o que facilitava muito nas caçadas. Claro, agora eu não fazia mais caçadas – eu não machucava seres humanos –, mas pelo menos tinha vantagem em situações como as de agora, por mais improvável que esta fosse.

O momento de confusão e surpresa da mulher passou extremamente rápido e, antes que eu pudesse registrar, senti uma enorme pancada no peito, que me jogou vários metros longe. Meu corpo se chocou contra o tronco enorme de uma árvore, e eu caí de lado, esparramada no chão. Não pude evitar o ganido de dor que escapou de minha garganta. Mas levantei-me rapidamente, balançando a cabeça para recuperar a clareza da mente.

— Quem você pensa que é, loba imunda? — A mulher falou. Sua voz era surpreendentemente feminina e penetrante, nem um pouco como eu imaginaria, e seu tom era enjoativo, de um modo que eu não conseguia explicar, mas que não me agradava. – Consegui sentir seu cheiro de fossa a quilômetros mas, como estava prestes a me alimentar, não me concentrei em você. Mas olha que coincidência, você atrapalhou minha refeição! E ainda me sujou toda.

Se eu estivesse em minha forma humana, teria franzido as sobrancelhas, talvez até rido. É sério isso? Aquilo parecia mais algo que uma patricinha líder de torcida de filme ruim diria. E aquilo sobre se alimentar... Comecei a prestar mais atenção nela, em sua aparência, farejando o ar para sentir seu cheiro. Tentando descobrir o que ela era.

Regina estava caída no mesmo lugar de antes, paralisada. Observava a cena com os olhos tão arregalados que eu temia que eles pudessem ficar dessa forma para sempre.

— Não se preocupe. — A criatura falou, e eu pude notar o deboche em sua voz. Ela olhava para Regina com um sorrisinho falso que me dava náuseas. Seu tom era suave, e me trazia a mente o barulho de chocalho de uma cascavel. — Logo, logo tudo vai passar. Serei bem rápida, eu prometo!

Ah, mas não vai ser mesmo. Corri de volta até a zona de combate que aquela clareira havia se transformado e me coloquei entre Regina e sua inimiga. Rosnei outra vez, alto, quase como um latido, mostrando minhas presas àquela mulher de forma ameaçadora. Em seguida virei minha cabeça para trás, olhando de forma penetrante nos olhos de Regina. Fiz um gesto com a cabeça para que ela fugisse dali.

Em toda a minha vida, eu nunca sequer pensei que um dia estaria naquela situação – me colocando entre Regina e seu agressor. Quem imaginaria que a grande Evil Queen pudesse se tornar uma vítima indefesa? Era tão ridículo que minha mente custava a compreender tudo aquilo. E outra coisa que eu simplesmente não conseguia entender era por que Regina não se defendera. Ela conseguira de volta seus poderes há muito tempo e, sinceramente, eu nunca conhecera alguém tão poderosa quanto ela. Talvez Rumplestiltskin, mas era só. Todos temiam a Rainha porque ela era capaz de arrancar um coração humano de dentro do corpo, e possuindo-o, poderia controlar a vitima e a incitar a fazer tudo o que ela quisesse. Isso se ela não o esmagasse em suas mãos, matando o dono do coração instantaneamente. Como diabos ela agora fazia o papel de princesa em apuros, sendo que durante toda a sua vida era fora a vilã mais temível de todas?

Eu estava doida para descobrir isso, mas no momento eu não tinha tempo. Depois de eu acenar para Regina, ela se levantou cambaleante e deu alguns passos para trás, mas então deve ter percebido que não adiantaria correr. Ela ficou em uma pose defensiva, com as palmas das mãos abertas levantadas para cima como quem se rende. Percebi que seu corpo tremia. No fundo do meu âmago, comecei a sentir compaixão por ela. Ela estava apavorada e indefesa. Eu era a sua única chance.

Voltei a fitar a inimiga à frente. Dei mais alguns passos em sua direção, rosnando baixo, alertando-a. Ela era forte – percebi isso quando ela me lançou longe segundos antes – mas eu também era, tanto quanto ela ou talvez mais. Seria uma briga bastante justa, se ela quisesse partir para esse ponto. Eu odiava lutar, mas não hesitaria. Eu não a deixaria encostar um dedo sequer em Regina. Essa mulher não podia simplesmente chegar na cidade e atacar seus moradores, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Não; esta cidade tinha suas sentinelas, e essas sentinelas honravam seu compromisso.

A risada que a mulher de cabelos verdes deu em seguida me sobressaltou, pegando-me totalmente desprevenida. Aquela então era uma figura muito excêntrica, capaz de rir de uma situação que não continha qualquer tipo de humor – pelo menos, não que eu tivesse percebido. Mas não deixei que ela percebesse minha surpresa. Eu era uma ótima jogadora de pôquer, digamos assim, e minha forma animal me dava ainda mais vantagens para encobrir minhas emoções. Enquanto esperava a criatura se recompor, meus olhos eram fixos em sua forma, atentos a qualquer mínimo movimento que ela pudesse fazer. E eu continuava conjecturando, tentando descobrir que tipo de criatura era aquela...

E então tive um insight de compreensão. É claro! Como todas as lendas de criaturas místicas e sobrenaturais, a lenda dos vampiros era bastante conhecida no Reino Encantado, apesar de esses seres não habitarem aquele mundo. Todos sabíamos que em outros mundos existiam criaturas que se alimentavam de sangue humano, e eram tão maldosas que poderiam aterrorizar uma vila inteira, provocando um massacre teatral e desnecessário apenas pelo prazer de ver o mal disseminado por suas próprias mãos... Nós nos considerávamos abençoados por não ter que enfrentar esse tipo de praga, mas tínhamos em mente que outros reinos passavam por terrores sem poder se defender. Eu só nunca imaginei que esse tipo de criatura pudesse existir aqui neste mundo, no mundo “real”... Esse lugar não parava de me surpreender, a cada dia mais.

Enquanto eu passava por meu momento de entendimento, a criatura finalmente parou de rir e respirou fundo, cravando então seu olhar no meu.

— Ah, veja só como são as coisas, não?! Você está defendendo alguém de quem nem gosta, de quem sente arrepio só de estar perto, e assim mesmo quer me impedir de acabar com essa esnobe metida.

Outra vez me surpreendi. Seria tão obvio? Não; é claro que não. Claramente, aquela vampira tinha meios de descobrir através da percepção quais eram os sentimentos e intenções de outras pessoas. Talvez até algum tipo de “poder” ou “dom” de vampiro; eu não podia duvidar disso, afinal não conhecia muitosobre esses seres.

Como estava de costas para Regina, não pude ver sua reação às palavras da mulher. Só podia imaginar o que a grande prefeita Mills sentia ao ser chamada de “esnobe metida”. Ah, é muita sorte dessa vampirinha Regina aparentemente estar sem seus poderes, pensei.

A vampira olhou para Regina.

— Você acha que eu não notei seu poder de manipulação? Você não é fraca, eu sei disso. Está só arquitetando o melhor jeito de me pegar. Não sou burra, passei por diversas pessoas como você; elas escondem as percepções para si, e estão só bolando um melhor jeito de apunhalar todos!

Bem, eu tinha que dar um crédito àquela criatura. Ela com certeza acertou em cheio com relação à Regina querer “apunhalar” todos a sua volta. O que talvez ela não soubesse era que, nesse momento, sem sua magia e todo aquele poder, Regina era, sim, tão fraca quanto qualquer outro ser humano. Talvez só mais inteligente do que a média, mas mesmo assim, continuava indefesa. A não ser por mim, claro.

Outra vez os olhos negros da criatura se fixaram nos meus.

— Se eu fosse você, tomaria cuidado ao defender uma mulher desse tipo. Só pela postura e o cheiro dela, já dá para notar que ela está planejando algo, e acho que você provavelmente vai se arrepender mais tarde. Mas vou deixar você se arriscar. Quem sabe você gosta de ser enganada?

Estreitei os olhos, e fiquei aliviada por não estar em minha forma humana. O tom debochado da vampira não me passou despercebido, mas como loba, eu não poderia discutir. Só podia rosnar e mostrar os dentes, alertando-a para que ficasse longe.

Mas o que eu não podia negar, era que ela me surpreendia a cada palavra, demonstrando essa facilidade em decifrar Regina tão rapidamente. Para quem conhecia a prefeita, e para quem conheceu tão de perto a Evil Queen... Isso não era novidade alguma. Regina planejando algo? Bem, isso era meio que uma regra universal. Se eu me arrependeria mais tarde por ter salvado a vida dela? Talvez; muito provavelmente. Mas o fato de ela ser uma pessoa ruim, não deveria automaticamente me transformar em alguém como ela. Ao contrário de muitos, eu conseguia ver a humanidade em Regina, a mulher quebrantada por trás daquela fachada de maldade e poder, e não podia ignorar isso. Além de tudo, eu não havia prometido nunca mais machucar um ser humano? Em meu ponto de vista, saber que alguém estava em perigo e simplesmente olhar para o outro lado era a mesma coisa que matá-lo com as próprias mãos. Essa não era eu.

Minha tática de rosnar e ameaçar não funcionou muito bem. Com meus olhos sondando cada um de seus movimentos, pude prever um milésimo de segundo antes o avanço da mulher, mas era tarde demais. Ela correu tão rápido quanto um raio, contornando a mim e a Regina, parando por um segundo atrás de nossas costas e então, correndo de novo, dessa vez para longe. Só pude ver seu vulto acenando, lançando palavras de despedidas e uma promessa de reencontro que eu não podia ignorar.

Involuntariamente, um uivo se desprendeu de meu peito, escapando pela minha boca e fazendo minha cabeça se levantar na direção da lua. Me preparei para correr atrás da vampira, mas apenas alguns passos depois, algo me deteve.

— Srta. Lucas!

Notas finais
That's all, guys! Talvez tenham percebido que algumas pequenas coisinhas vão ser diferentes da série, nada muito grande. Por favor, comentem o que acharam, se gostaram ou odiaram, se eu devo continuar ou parar agora mesmo. A opinião de quem leu vai ser de extrema importância pra mim.

Ah, e mais uma vez, agradeço a Luzy pela ajudinha com a nossa vampirinha toda excêntrica. A Georgina é toda dela! Valeu, guria! hahaha.

Beijos! ♥