Notas iniciais
"Devo ater-me a meus próprio estilo e seguir meu próprio caminho." (Jane Austen) ♥

Évora, 1807.

— Ficamos entendidos então, Meu caro. Preciso desses documentos em meu escritório até o fim do dia de amanhã, quando me encontrarei com o Visconde Lamartine — disse o Barão ao seu comparsa.

— Estou certo de que o senhor não perderá nessa negociação. Afinal, o Lamartine tem muito apreço por mim tendo em vista a nossa grande amizade. Ele nada perceberá — esboçou um sorriso frio, indiferente às consequências.

— Muito bem. Afinal, me deves esse favor. Se possui, hoje, o periódico de maior influência eborense, é por minha causa.

— De fato. O Semanário é uma arma poderosa nas mãos certas. É satisfatório pensar que podemos moldar a opinião das pessoas e tem sido muito eficaz, não é mesmo? — soltou uma risada afetada.

Luís Coutinho Gomes de Carvalhal, ou Duque de Carvalhal, era um homem capcioso, com habilidade para manipular quem fosse preciso e cujos ideais raramente eram frustrados. Adquirira com a ajuda do barão, a maior fonte de informação de toda região do Alentejo, o Jornal O Semanário, com o intuito de usá-lo como aparelho de manobras sociais e abuso de poder. O antigo dono do periódico, um jornalista considerado franco demais em suas crônicas sociais, desistira, de modo curioso, de sua carreira sem dar explicações.

Luís Coutinho também tinha laços estreitos com o Visconde Maurice Lamartine, porém, não retribuía com a mesma sinceridade tal amizade. Muitas tramas em prol do poder eram planejadas às escondidas com o barão Rui D’alboquerque.

Havia uma negociação com Maurice, que era dono de propriedades rurais em várias províncias portuguesas, todavia, a ambição de Rui e o fato de estar em uma posição inferior a ele fazia disso o seu propósito de vida e, assumir o controle das fazendas cultiváveis de sobreiros, era o começo, não importava as circunstâncias.

No entanto, o ressentimento do Barão vinha de muito antes. Rui era amigo e pretendente à mão da jovem Amélia Catarina Ferraz, filha do Conde do Alentejo, Joaquim Abílio de Ávila Ferraz. Não havia obtido sucesso em suas tentativas de cortejá-la e soube por fontes seguras que um nobre francês de nome Maurice Lamartine, recém-chegado à Évora, tinha planos para desposá-la e faria o pedido em breve. Contudo, ele não estava disposto a perdê-la. Conversou a portas fechadas com o Conde e firmou acordo entre as famílias.

Por mais que conseguira se casar com a moça, o Barão criara uma espécie de competição com o seu rival. Este era bom nos negócios e, sua riqueza e influência, aumentavam a olhos vistos.

Tempos depois, Maurice se casara com a filha de José Abranches, outro nome importante na sociedade eborense.

— Rui, já pensou na possibilidade de unir as famílias D’alboquerque e Lamartine? — perguntou o Duque, testando-o.

— Ora veja, meu senhor, não me ofendas! Nunca darei a mão de minhas filhas aos filhos daquele homem!

— Mas o senhor há de concordar comigo que seria um negócio muito vantajoso. A união das duas famílias mais respeitadas daqui, lhe renderia muito mais poder e prestígio, além das facilidades para destruir o seu rival — argumentou. — As damas são ainda muito jovens, mas nada que o impeça de firmar um acordo para o futuro.

— Esse tipo de acordo, não faria nem sob tortura! Além do mais, há outros meios para vencê-lo. Minhas filhas sequer terão contato com essa gente.

— Pois bem. Nos encontraremos amanhã, ao findar da negociação.

Luís Coutinho deu a conversa por encerrada, mas a retomaria em momento oportuno. Afinal, ele tinha um filho e um sobrinho que, certamente, lhes renderiam alianças promissoras, casando-se com as moças D’alboquerque. E se conseguisse convencer o Visconde ou o Barão a se aliançarem, poderia, controlar os negócios destes, no futuro.

A estratégia do Duque era mediar um golpe, passando-se por amigo de ambos. O Barão pensaria ter vencido o rival, por outro lado, incitaria o ódio do Visconde desejando vingança. Nesta hora, ele ofereceria a melhor opção: casar seus filhos com as filhas do golpista e usá-las para tomar tudo o que lhes pertencia.

Com o filho e o sobrinho casados, o golpe se tornaria inevitável. Um eliminaria o rival; o outro firmaria uma aliança. E o poder estaria, finalmente, em suas mãos.

~~*~~

— Não entendo por que faz tanta questão das terras do de Setúbal, senhor D’alboquerque, já que elas são improdutivas para o plantio e, se bem me lembro, o senhor disse-me que pretendia investir no ramo de agricultura, já que é o negócio de maior rentabilidade no momento — questionou o Visconde no ato do acordo.

— Sim, tens razão, senhor Lamartine. Porém, acredito que o local seja interessante para exploração de alguns minérios, ainda que eu tenha que investir um pouco mais, todavia pretendo arriscar — respondeu com firmeza.

— Como quiser. Mas devo lembrá-lo de que cederei apenas parte das terras, não tenho a intenção de desfazer de toda a herança de minha família. Afinal, foi a partir dessas terras que a família Lamartine conquistou toda a sua fortuna.

— Certamente, vossa família é deveras importante. Será uma honra adquirir parte deste tesouro. É só o senhor assinar esses papéis e tudo estará pronto.

As terras de Setúbal, na província de Estremadura, correspondiam a 65% das posses dos Alcântara Lamartine, porém, o Visconde negociaria apenas 25% ao Barão, uma vez que a quantia oferecida era generosa. Com essa renda, poderia, assim, expandir suas plantações de sobreiros e ainda manteria boa parte da herança.

Maurice assinou os documentos sob os olhos atentos do inimigo, acreditando estar fazendo um bom negócio. Mal sabia que estava caindo nas armadilhas daquele homem sagaz.

Dias depois, o advogado dos Alcântara Lamartine recebeu uma carta selada. Era um documento constatando a transferência total das terras de Setúbal ao Barão D’alboquerque, contendo a assinatura permissiva.

O advogado correu até a Casa Lamartine a fim de verificar o tal fato, já cogitando algo muito errado. Maurice, que se encontrava em uma refeição com a família, levantou-se rapidamente diante do aviso do mordomo. Não era normal o Dr. Brandão aparecer sem uma entrevista marcada.

— Bom dia, Dom Maurice! Desculpe a inconveniência, mas há coisas importantes que preciso esclarecer com o senhor.

Com o advogado visivelmente nervoso, pediu que o acompanhasse até o seu escritório.

— O que foi homem? Fale logo o que se passa!

— Recebi uns documentos hoje pela manhã e... houve alguma mudança na negociação das terras de Setúbal que eu não fui informado?

— Obviamente que não. Qual o motivo da indagação?

— Esses documentos vieram por parte do advogado do Barão, nos quais mencionam a transferência de todas as terras de Setúbal a ele — declarou mostrando os papéis ao Visconde.

— Como? — tomou-os de suas mãos, abruptamente. — O senhor deve estar enganado! — E pôs-se a ler o documento.

— Como podes ver, senhor, o documento possui a sua assinatura.

Os papéis nas mãos de Maurice começaram a tremer e depois caíram ao chão. Ele levou a mão ao peito e fez uma careta como se estivesse sentindo uma forte dor. O homem estava tendo um ataque.

— Senhor! Senhor! — Gritou Dr. Brandão, socorrendo-o. — Alguém ajude. Henrique! Pedro!

Os jovens entraram no escritório e viram o pai caído sendo amparado pelo advogado. Correram para acudir.

— Pai, meu Pai! — Gritou Henrique. — Fred, vá com o cocheiro e chame o Dr. Fontana! — Ordenou ao irmão.

Pedro foi amparar a mãe e a irmã que choravam abraçadas.

— O que aconteceu, senhor Brandão? — Questionou o jovem assustado.

— Vocês acabam de perder a herança da família Lamartine.

— O quê??

Nesse mesmo instante, na Fazenda D’alboquerque, um homem saboreava em silêncio o seu conhaque com um sorriso perverso nos lábios, como um ritual após a vitória.


Notas finais
Deixem suas considerações, ok? ♥