Notas iniciais
"Em toda vida ocorre um momento decisivo. Um instante tão extraordinário, tão claro e tão nítido que temos a sensação de havermos sido golpeados no peito, deixados sem fôlego, sabendo, sem a menor sombra de dúvida, que nossa vida jamais será a mesma." (Julia Quinn) ♥

As irmãs Vasquez D’alboquerque eram as donzelas mais cobiçadas pela corte eborense e por toda a Província do Alentejo. O fato de o temido Barão lhes vedar bailes e eventos sociais nos círculos elitistas de Portugal aguçava a curiosidade de todos, em especial a dos cavalheiros.

Viviam numa vasta fazenda afastada do centro de Évora e poucas vezes eram vistas em compras ou rápidos passeios pela cidade.

Sentadas à varanda do casarão, em uma tarde rotineira, estavam elas: Adelaide, com vinte e cinco anos; Joana, com vinte e três; Liana, vinte e um; Emília, dezenove anos; Beatrice, com seus dezoito; Celeste, dezessete e, Cecília, com quase catorze anos.

— Não sei como ainda somos convidadas a bailes e temporadas em casas de campo, se papai nunca nos deixa participar — Celeste, com o convite nas mãos, estava desanimada.

— E quando pelo menos três de nós já são consideradas velhas demais para debutarem — completou Beatrice.

— O dote, minhas queridas, o dote! — respondeu a astuta Joana. — Ou vocês acham que a beleza das irmãs D’alboquerque são atributos suficientes para que os interessados cavalheiros queiram desposar-nos? — diz irônica — Veja Adelaide, por exemplo, considerada a mais bela das donzelas de Évora, no entanto...

— Ora veja! — ralhou Adelaide. — Como chegaram a essa conclusão se quase nunca sou vista? Além do mais, eu nunca me preocupei com isso se querem saber.

Celeste retomou a fala:

— Isso porque perdeu tempo demais sendo mãe antes da hora...

— Não vejo isso como perda de tempo, eu sempre me senti na responsabilidade desde que mamãe se foi — contrapôs, pensativa.

Fez-se silêncio entre elas.

A Baronesa D’alboquerque partira depois de uma árdua batalha contra a doença, ao contrair pneumonia. Nem mesmo riqueza e a perícia dos mais afamados médicos puderam salvá-la de tão fatal destino. Havia sido uma mãe dedicada e amável enquanto pôde; Cecília tinha apenas dois anos quando tudo aconteceu, e, excluindo ela que não entendia o que ocorria, todos sofreram bastante. Inclusive o Barão que, apesar de sua insensibilidade, venerava a esposa.

Dois dias depois do cortejo fúnebre, ainda trancafiado em seu escritório, de repente saiu, como se nada tivesse acontecido. Ordenou que preparasse sua carruagem para uma viagem de negócios. Seus olhos eram implacáveis.

E assim, Adelaide, com apenas catorze anos, tomou as rédeas da casa junto a Hilda, dama de companhia de sua mãe desde a mocidade, e, carinhosamente chamada Didila pelas meninas.

Joana quebrou o silêncio:

— Emília, quando vai nos contar sobre os misteriosos cavalheiros que você e Liana conheceram?

— Como? Que história é essa? — quis saber Adelaide, enquanto as irmãs “acusadas” coravam de vergonha.

— Bem... — começou Liana, temerosa — Emília e eu estávamos saindo da modista quando decidimos entrar rapidamente na livraria. Então, encontramos os cavalheiros em questão, que iniciaram uma conversa. Trocamos algumas palavras e eles se ofereceram educadamente para nos acompanhar até a carruagem.

— E quando foi isso? — questionou, mas antes que alguma delas pudesse responder, Joana interveio:

— Depende de qual das vezes você se refere — cantarolou, deixando Emília e Liana, mais ruborizadas ainda e com olhares matadores sobre ela.

— Isso aconteceu mais de uma vez? — Beatrice indagou, alarmada.

Celeste e Cecília acompanhavam tudo com doses elevadas de curiosidade.

— Ah, eu adoro histórias de amor! — Cecília suspirou e algumas riram.

— Digam-me meninas, desde quando isso acontece? Não sabem que podem comprometer a reputação de vocês?

— Mais comprometida do que está? — Joana interferiu novamente — Somos conhecidas como As Pérolas Intocáveis, Adelaide. Isso é um despropósito! Só contribui ainda mais para selar o nosso destino como velhas beatas — indignou-se.

— Cale-se Joana! — repreendeu a mais velha. — Sabes coisas demais para o meu gosto.

Talvez Joana tivesse razão, pensou Adelaide, mas não queria mais pensar nisso. Já havia desistido de sonhar com um grande amor. Um cavalheiro que a amasse e a desposasse.

— Só digo verdades! — retrucou Joana recebendo um olhar reprovador da irmã, e apenas bufou.

— Agora, deixem que as meninas respondam a minha pergunta. — E olhou para as duas irmãs, aguardando a resposta. Emília tomou coragem:

— Já nos encontramos algumas vezes, e todas aconteceram na livraria. Eles são educados e agradáveis, não ultrapassaram nenhum limite adequado. São muito gentis e verdadeiros cavalheiros! — disse com um suspiro.

— Ah, meu Deus! Você está apaixonada, Emília! — observou Beatrice. — E quem são os cavalheiros? Quem sabe papai permita que eles as cortejem?!

Liana e Emília se entreolharam, enquanto as outras ficaram na expectativa. Joana, contudo, continuava com seu sorriso zombeteiro como se esperasse a bomba explodir.

— Eles são... — Emília sussurrou o sobrenome.

— Hã??! — indagaram todas, sem compreender.

— Eles são Lamartine — Liana soltou de uma vez.

Todas prenderam a respiração, como se vissem uma assombração, enquanto Joana ria sem controle e batia palmas.

— Oh, céus! — Adelaide se levantou num pulo. — Vocês sabem que é expressamente proibida qualquer menção do nome deles, no que dirá ter contato com eles! Como deixaram isso acontecer?

— Bem, na verdade, não sabíamos quem eles eram. Como saberíamos se nunca participamos de nada nessa cidade? Ficamos presas nessa fazenda como animais enjaulados! — reclamou Liana.

— Concordo — Beatrice se pronunciou e algumas irmãs menearam a cabeça.

— E eles passam muito tempo em outras províncias ajudando o pai nos negócios da família.

— O fato é que só descobriram sobre nós, quando nos acompanharam até a carruagem e viram o brasão — completou Emília.

— E…? — perguntou Celeste com curiosidade extrema.

— Eles se assustaram, obviamente, e perguntaram se éramos as irmãs D’alboquerque, e confirmamos. Eles então se apresentaram como Pedro e Frederico Lamartine.

Liana retomou:

— Então pedimos licença e subimos apressadamente na carruagem e partimos. Mas acabamos nos encontrando outras vezes na livraria quando Emília e eu voltamos à cidade.

— Então é por isso que vocês duas sempre se oferecem para irem à cidade, suas danadinhas! — brincou Celeste.

— E isto significa que as duas estão definitivamente proibidas de voltarem lá, exceto quando estiverem acompanhadas por mim ou por Didila — Adelaide foi firme.

Liana correu até a irmã e segurou as mãos dela.

— Por favor, minha irmã, não nos impeça de vê-los. Eu sei que fomos criadas para odiá-los, mas se você os conhecesse diria que tudo o que papai sempre disse não é bem assim. Longe de mim contrapor o julgamento de papai, mas eu... me afeiçoei a Pedro, assim como Emília por seu irmão. Por favor, não nos prive de vê-los!

Aquele pedido era preocupante e dilacerante. As outras irmãs permaneceram em silêncio, sentindo a gravidade da situação. Se havia uma coisa que aprenderam após a morte da mãe, foi se unirem. Cuidavam umas das outras e sempre procuravam se ajudar. Mas agora...

— Meu Deus! E isso, agora… — suspirou Adelaide, com grande conflito em seu coração.


Notas finais
Beijocas! *-)