As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I
4 Capítulo 3 - Os Alcântara Lamartine
Notas iniciais

— Mas que diabos! — praguejou Maurice. — Eu ainda mato esse Barão de merda, com minhas próprias mãos!
O Visconde Lamartine estava em uma reunião de negócios com os filhos Henrique, Pedro e Frederico sobre a aquisição de novas terras na região do Alto Alentejo, com o intuito de expandir a agricultura. Mas quando Henrique, o responsável pelos negócios, informou que o Barão entrara na negociação oferecendo um valor maior e que os trabalhadores estavam duvidosos sobre as propostas, Maurice colapsou.
— Pai, eu tentei aumentar a oferta, mas o Avelar, capacho do Barão, prometeu cobrir qualquer valor. Então, decidiram nos dar um resposta dentro de um mês.
— Um mês? É muito.
— Meu pai... — sugeriu Frederico, com cautela — vamos dar esse prazo aos agricultores, afinal, se eles não aceitaram de imediato a oferta do Barão mesmo sendo maior, acredito que ponderarão tal decisão, visto que nossa proposta é mais vantajosa para eles. Compraremos suas terras e manteremos os trabalhadores.
Maurice pensou um pouco. A opinião dos filhos era relevante, afinal, eles cresceram negociando junto com ele. Entendiam do assunto. Ao expandir a agricultura por diversas regiões do Alentejo, cada um deles ficara responsável por uma área. Henrique, contudo, era seu braço direito, a liderar a maior parte dos negócios da família Alcântara Lamartine. Possuía a desenvoltura necessária para lidar com trabalhadores e técnicas de extração nos sobreiros e descortiçamento.
Pedro e Frederico abriam espaço em outro ramo: o de cereais. Apesar de não ser algo muito lucrativo naquele momento, apostar em novos investimentos, com os cuidados financeiros adequados, poderiam fazer a sorte lhes sorrir.
— Está certo! Vamos esperar já que não tem outro jeito. E como vão os negócios em Santarém?
— Já conseguimos firmar cinco contratos com negociantes espanhóis para o fornecimento de trabalhadores destinados aos montados na região — informou Pedro ao pai, referindo-se às plantações de sobreiros espalhadas pelas terras da família.
— Ótimo, ótimo! Precisamos alavancar a exportação! E você Fred? Dê-me notícias de Beja.
— A produção de cereais ainda está em baixa. Precisamos pensar em melhores estratégias de expansão e técnicas de culturas. Esperarei o retorno de Afonso da Universidade para me ajudar.
— E que seja promissor. Não podemos perder tempo — reforçou o patriarca servindo-se de seu conhaque. — Em breve nos reuniremos para discutirmos essas novas técnicas na melhoria do sistema de produção e não iremos mais fornecer cortiça para as fábricas daquele canalha, mesmo que o Duque Carvalhal me peça de joelhos. Aquele cão desleal não merece minha ajuda. Ele já nos tirou demais, não vou mais permitir que lucre às minhas custas — deu o último gole — Falarei com o duque sobre essa questão.
— Sim, senhor — responderam os filhos.
— Meu pai... Fred e eu gostaríamos de conversar com o senhor. Assunto de natureza particular — pediu Pedro.
Frederico ficou tenso e Henrique permaneceu imóvel com os braços cruzados. Eles sabiam que seria o assunto mais difícil de tratar com o pai.
— Falaremos após o jantar.
Todos os irmãos Lamartine eram jovens de aparência desejável.
Henrique era o primogênito. Alto, de cabelos louro-acinzentados, postura imponente e sedutores olhos azuis-escuros, seu parecer rude não espantava as damas; aliás, as atraía. Apesar de ser um dos alvos das mães casamenteiras, ele não demonstrava nenhuma disposição para contrair matrimônio. Por isso, era sempre visto na companhia de algumas mulheres maduras que não tivessem tais ilusões.
Certa vez, a coluna do O Semanário publicou uma nota:
“Henrique de Alcântara Lamartine, um dos cavalheiros mais observados desde que teve idade para se casar, foi visto com uma nova dama no sarau promovido pela família Diaz Castel. Porém, fontes seguras afirmam que o belo herdeiro, de vinte e oito anos, não tem nenhuma intenção de se casar, já que pelo visto, sua principal inclinação é estar com muitas damas.”
Frederico e Pedro eram gêmeos e nada parecidos fisicamente. Eram divertidos e adoravam importunar o irmão mais velho com brincadeirinhas e comentários que o faziam bufar de raiva. Mesmo sendo assíduos frequentadores de bailes e temporadas, os dois eram sossegados em relação a cortejos. Ainda não se ouvira falar de compromissos com alguma dama, apesar dos esforços de sua mãe.
Pedro também tinha olhos azuis, carregando a genética da família, mas os cabelos castanhos; enquanto Frederico tinha cabelos louros claros e olhos verdes.
Afonso, o mais novo dos irmãos e de boa aparência, era o mais pacato. Falava pouco e mantinha a calma nos momentos de tensão em família.. Quando mais novos, era sempre ele quem apartava as brigas entre os irmãos. O único de olhos e cabelos escuros. Aos vinte e um anos, estava prestes a voltar da Universidade de Coimbra, onde fora estudar Economia e Negócios. Não era adepto aos eventos dos quais era obrigado a participar quando estava em Évora. Preferia uma boa leitura quando não estava ajudando nos negócios do pai.
Além dos filhos homens, Maurice e Eleonor tiveram uma filha mais nova, Elisa. A jovem linda de cabelos dourados e doces olhos azuis, como os de sua mãe. Cortejada por muitos admiradores, e também, afugentados pelos superprotetores pai e irmãos, sob o julgamento de serem cavalheiros inadequados para desposar a moça de dezoito anos.
Apesar de carrancudo, o Visconde Maurice apreciava os hábitos em família, mormente as conversas durante o jantar.
— Elisa e eu iremos à modista amanhã para encomendarmos novos vestidos, já que o Baile de Outono se aproxima e nossa filha precisa estar vistosa — disse Eleonor ao marido.
— Que seja — resmungou Maurice. — Não sei por que as mulheres fazem tanta questão de vestidos e mais vestidos.
— Ora papai! Sou a filha de um dos homens mais respeitados de Évora e isso pesa-me muito mais a responsabilidade para encontrar um marido à altura, o senhor não acha? — disse Elisa, provocando o pai, de forma divertida.
— Humpf! — bufou o velho — Acho que não viverei para ver minha filha desposada por um homem decente. E olha que não tenho a intenção de morrer tão cedo.
— Ora, vejam só que despropósito! — indignou-se a viscondessa. — Há muitos cavalheiros ilustres nesta cidade interessados em desposar nossa filha. O que ocorre é que o senhor e meus filhos fazem o favor de espantá-los sempre que se aproximam.
— É por que eles não suportam mais do que dois minutos de interrogatório sem borrar as calças. Bando de borra-botas! — implicou Frederico e todos riram.
— Olha o palavreado! — ralhou a mãe e Elisa interveio:
— Se continuarem agindo assim, eu ficarei como as donzelas intocáveis de Évora. Nunca irei me casar!
Os gêmeos se entreolharam e todos na mesa ficaram em silêncio. Falar daquela família não era um assunto agradável, sobretudo para Maurice.
— Já pensaram que aquelas moças nunca poderão viver o amor, pois vosso pai as mantêm presas naquela fazenda? Vão envelhecer sozinhas, coitadinhas…
— Isso não é da nossa conta — Henrique retrucou.
— Bem verdade que quase ninguém as vê por aí — Eleonor observou. — Eu mesma só as vi de longe umas poucas vezes. Será que são tão bonitas quanto falam? — indagou seca, levando uma colher de sopa à boca.
— São! — respondeu Pedro sem pensar, atraindo os olhares de todos. — Ora, pelo menos foi o que disseram...
O velho visconde resmungou alguma coisa incompreensível.
— Se nossas famílias não nutrissem essa desavença notória, vocês poderiam se casar com elas e formaríamos a família mais famosa de toda Província do Alentejo — Elisa disse em sua inocência, aos irmãos.
Maurice soltou seu talher no prato com estardalhaço enquanto olhava furiosamente para a filha.
— Jamais! — gritou o pai à filha, alarmando a todos — Jamais repita uma coisa dessas, entendeu senhorita? Nunca teremos algum tipo de vínculo com aquela gente!
Elisa abaixou a cabeça, com lágrimas formando nos olhos e sussurrou um “sim, senhor”.
Todos se calaram. Naquele momento, os gêmeos souberam que não podiam nutrir esperanças em cortejar as irmãs D’alboquerque, que tanto já lhes tocavam.
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