As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I
19 Capítulo 18 - Lembranças (Bônus)
Notas iniciais

A história de Maurice Lamartine, Amélia Ferraz e Rui D’alboquerque
Baile Rosa, 1784.
A Casa Ávila Ferraz estava em festa. A Condessa Lorínia de Ávila Ferraz era a mulher por detrás deste evento que acontecia todos os anos em Évora. Uma mulher requintada e respeitada por toda a região alentejana, por seu temperamento impetuoso e justo. Não perdia tempo com conversas fúteis e visitas desnecessárias, à vista disto, era tanto admirada quanto criticada pelos lugares onde passava, com seu nariz impoluto e sorriso cativante.
Mas o baile, e em especial o Baile Rosa, era o evento preferido da Condessa de Évora. Ela considerava o evento uma oportunidade para os jovens se conhecerem e exporem suas ideias. No fundo, era uma revolucionária mesmo sem poder se revelar. Somente o marido entendia seu espírito inquieto e cheio de indagações.
Mas havia também, outro motivo por trás dos bailes promovidos por Lorínia: encontrar o cavalheiro perfeito para sua única filha, Amélia Catarina de Ávila Ferraz. A dama de olhos azuis e cachos dourados desejada pelos senhores e invejada pelas damas.
A cobiçada jovem, em seus plenos dezenove anos, ainda não havia escolhido o homem que deveria desposá-la. Não era exigente, apenas gostaria de se casar por amor, como seus pais bem sabiam. Portanto, seu coração não tinha dado o sinal tão aguardado.
Já o ciumento pai, o Conde Joaquim Abílio, não aceitava qualquer cavalheiro para desposar sua filha, mas também não dispensava a oportunidade de casá-la bem, pois como ele mesmo dizia: “eu quero sua felicidade, minha rosa, mas amor não enche barriga”.
Amélia sabia que seu pai faria de tudo para atender seu pedido, mas igualmente sabia que ele não dispensaria uma boa aliança.
A jovem recebia flores diariamente, entre outros presentes, sobretudo de seu admirador mais insistente, Rui Vasquez D’alboquerque, filho do temível Dom Edmundo D’alboquerque.
Amélia não o rejeitava, apenas não sentia nada especial por ele apesar de ser extremamente cavalheiro. Tinham conversas agradáveis enquanto caminhavam pelos imensos campos da Casa Ferraz.
Ela o tinha como um grande amigo. Ele resolvera esperar o tempo que fosse preciso.
Contudo, as coisas começaram a mudar com a chegada de um jovem francês. Seu jeito polido e cativante lhe chamou a atenção. Ele estava no país a negócios, mas pretendendo estabelecer moradia em Évora, a fim de expandir os negócios da família Lamartine.
Amélia ainda não sabia, mas seu coração começaria a dar sinais de que ele era o homem tão esperado. Ponderou, refletiu. Não queria ser impulsiva nesta hora. Mas ao descer as escadas, no dia do Baile Rosa, e vê-lo com um sorriso encantador para ela, retribuiu. Sentiu algo diferente, emocionante.
Então teve a certeza.
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— Não me venha com patavinas, Rui! Seu coração é feito de pedra. Não consegues amar a si próprio — brincou Luís Coutinho.
— Veja bem, meu caro Luís, sou um homem precavido. Gosto de pensar que os negócios me darão poder e, consequentemente, atrairá um ótimo casamento — respondeu o D’alboquerque.
— E nesse caso, com a filha do Conde? Acorda Rui, Amélia não é uma moça que se deixa levar tão facilmente. Além do mais, olhe e veja quantas beldades! — apontou para o salão referindo-se as damas solteiras.
Rui rodou o corpo devagar a fim de dar uma olhada pelo salão. Várias damas com seus vestidos cor-de-rosa, cada qual em seu tom, abanando seus leques impacientes. Muito belas, de fato, outras, nem tanto, porém, nenhuma delas era a mulher almejada.
— Nenhuma delas me parece alcançar a formosura e graciosidade de Amélia. Aliás, ainda não a vi — e olhou mais uma vez na tentativa de avistá-la.
Luís Coutinho riu novamente e alfinetou:
— Você sabe o que dizem? Que o coração da senhorita Ferraz já foi fisgado e não foi por você, meu caro.
— O que dizes? Seria você?
— Quem me dera! O felizardo chama-se Maurice Lamartine e é um estrangeiro. Veio para herdar as terras de Setúbal, antes pertencentes ao seu pai, o Visconde da Província de Borgonha, na França e aliado do Imperador. Ao que tudo indica, o tal homem tem tino para os negócios. Olhe, eis ali — e apontou para um grupo de senhores conversando, no qual estava também o Conde Ferraz.
Rui o fuzilou com o olhar. Sua fúria cresceu ao ver o rival com sorriso fácil e postura respeitável. Ele não podia roubá-la.
— Ouvi dizer que ele ainda não pediu a mão dela, mas fará esta noite — provocou Luís Coutinho.
— Não se eu puder evitar — constatou sem deixar de olhar o francês.
Coutinho ia responder algo, mas o olhar do amigo se iluminou ao se voltar numa direção que, ele e todo o salão, repetiram. Era ela, Amélia Catarina Ferraz, linda e suave, descendo as escadas junto com sua mãe e sorrindo estonteantemente.
Fugazmente, a admiração de D’alboquerque foi substituída pela fúria quando percebeu que aquele sorriso era direcionado a um cavalheiro especifico, e não era ele.
~~*~~
Linda! Formosa! A moça mais bela que já conhecera! Pensou Maurice ao vê-la.
Ele viera da França a pouco mais de dois meses a pedido do pai, antes de seu falecimento, para tomar posse da herança. A França passava por um período socioeconômico turbulento, e era preciso mudar as estratégias antes de uma falência iminente.
O velho Visconde concedera ao filho as terras portuguesas, uma vasta região adquirida anos antes, quando se casara com a filha de um nobre português. Excelente para iniciar seus negócios agricultores e implantar técnicas de plantio avançadas. As alianças entre o Visconde e o Imperador, também foi o motivo pelo qual o título foi concedido ao filho após a sua morte.
O Conde de Ávila Ferraz ficara interessadíssimo nas propostas do jovem negociador o que lhe rendeu vários convites para jantares e reuniões e, oportunizou a apresentação e aproximação de sua bela filha.
Foram muitas conversas sobre política, livros, negócios e perspectivas. O Lamartine ficara encantado com a desenvoltura e inteligência de Amélia com assuntos que não era comum às mulheres, e foi isso que fez com que ele pensasse nela como sua esposa.
Ainda era muito cedo para firmar algum compromisso. Não queria assustar a moça e ele ainda precisava voltar ao seu país para resolver assuntos inacabados. Mas, conforme os dias passavam e eles se conheciam, mais ele tinha mais certeza do seu amor por ela. Seu pai não lhe negaria sua mão já que, por várias vezes, insinuara a questão entre uma conversa e outra. Não tinha como evitar. Ele iria desposá-la e aproveitaria o Baile Rosa para fazer o pedido.
E lá estava ela, sorrindo para ele a poucos metros.
O Conde a esperava com a mão estendida, ao pé da escada, e assim, foi anunciada a primeira valsa da noite. Todos olhavam admirados pai e filha valsando levemente pelo salão.
Maurice esperava ansioso por sua vez. Queria dançar com ela e expor seus sentimentos. De vez em quando seus olhos se cruzavam.
Mas, o encanto daquele momento foi quebrado ao sentir uma mão em seu ombro.
— Senhor Lamartine?
— Sim, sou eu. O senhor é...
— Rui Vasquez D’alboquerque — e estendeu a mão para apertar a do adversário. — Soube que és um ótimo negociador? — indagou.
— Bem — sorriu —, vim para investir nas terras de Setúbal, são produtoras de sobreiro. Também pretendo inserir novas técnicas para a extração e exportações. Espero que seja um empreendimento rentável, já que pretendo me estabelecer por aqui — explicou.
Maldito! Pensou Rui.
— Ótima visão, senhor Lamartine. Tenho certeza de que terá excelentes retornos.
— Assim espero. E o senhor? Em que ramo investe? — perguntou o jovem interessado naquela conversa.
— Temos fábricas de rolhas. Tem sido um negócio bem promissor.
— Certamente — falou Maurice. — Acredito que seremos sócios, já que sua produção depende da minha matéria-prima — sorriu abertamente.
— Absolutamente. Ainda faremos grandes tratos.
— Sem dúvida.
O Conde já se aproximava com a filha ao seu lado.
— Senhores. Vejo que já se deram bem. Homens visionários sempre se atraem — riu com fervor.
— De fato — concordou Rui. — Senhorita Ferraz! — fez-lhe uma reverência.
Maurice repetiu o gesto e perguntou:
— Senhor Conde, me concede uma dança com vossa filha?
— Faço muito gosto, senhor Lamartine. — E olhou para a moça — Amélia, o que me diz?
— Será uma honra, papai.
Os dois se entreolharam sorrindo e Rui tivera que controlar para não praguejar. Pigarreou.
— Senhor Conde, gostaria de falar-lhe em particular. Sei que não é a ocasião mais apropriada, mas julgo ser de extrema importância — pediu Rui.
O Conde estranhou. Não se solicitava uma audiência em pleno baile. No entanto, não poderia negar, ele era filho de seu grande amigo.
— Mas é claro. Vamos ao meu escritório — e indicou o caminho — Senhor Lamartine; querida, dê-nos licença — e saiu enquanto o casal se preparava para uma dança.
~~*~~
— Senhor D’alboquerque, sei de sua afeição por minha filha, mas entenda, eu prometi que a deixaria escolher visando sua felicidade...
— Oras, senhor Conde! Não quero ser desrespeitoso, mas, desde quando o coração de uma moça é termômetro para bons negócios? — questionou — Eu tenho grande estima por sua filha e estou certo de que é recíproco. Além do mais, sou um homem de posses. Não consideras um bom acordo?
— Sim, com toda certeza, porém, eu já havia decidido dar a mão de Amélia a outro cavalheiro...
— O Senhor Lamartine?
— Como sabes?
— Não sou cego, meu senhor. Sei que a senhorita Amélia está encantada pelo tal rapaz, porém, temo por ela. Afinal, o que sabemos do tal francês? Quem garante que és de confiança e não um charlatão?
— Ora, meu rapaz! Eu sei bem o terreno em que piso. E peço-te, não insistas mais nesse pedido, pois terei que negá-lo. Minha decisão é definitiva. Acredito que o jovem fará o pedido ainda esta noite. Sinto muito.
Rui se encheu de ira.
— Pois digo que sentirás mesmo, Conde Ferraz — escarneceu. — O senhor acha que nasci ontem? Sei muito bem o que pretendes. Estás de olho na fortuna dos Lamartine e prestes a dar um golpe.
— O que disse? — arregalou os olhos — O senhor perdeu a razão? Posso expulsá-lo deste baile.
— Se é de garantias que o senhor precisa, então posso dá-las. Tenho total controle dos negócios de meu pai, eu as administro. Não lhe cobrarei o dote de Amélia. Apenas dê-me sua mão e o futuro dela e dos senhores estarão assegurados — negociou.
— Como se atreve? — enfureceu-se — Saia daqui imediatamente! Amélia não está à venda e se casará com o senhor Lamartine. Faço muito gosto dessa união. Dê esse assunto por encerrado!
E direcionou-se para abrir a porta, a fim de mandar o D’alboquerque embora. Entretanto, ele tinha uma carta na manga.
— Sei que estás falido, Conde Ferraz. O que escondes por detrás dessa fachada, nada mais é do que a vergonha de um homem desonrado por não conseguir administrar as finanças de sua própria casa — despejou friamente.
— O que estás... — os olhos do homem lampejavam e suas mãos tremiam — Co..como..
— Meu pai relatou-me sua condição atual, não há como negar. Diga-me, sua esposa e filha sabem? — deu um sorriso perverso diante da cara de desespero do homem — E eis aqui minha proposta: ou conceda-me a mão de Amélia ou revelarei sua falência ante a sociedade eborense, ainda esta noite. Isso será sua derrota.
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— Falarei com seu pai ainda esta noite, minha bela — disse Maurice enquanto dançava com Amélia —, e serás em breve, minha noiva.
Amélia sorriu para ele não contendo de felicidade.
— Eu estou muito feliz por ter esperado e não aceitado qualquer outra proposta — confessou. — Pois, agora eu sei que és o meu par ideal. O homem da minha vida.
E flertavam sem se preocupar com os olhares curiosos. Tão somente queriam viver aquele belo momento como se fosse o último.
A Condessa veio ter com eles:
— Desculpe interrompê-los, mas é extremamente necessário. Seu pai não passa bem, querida.
— O que há, mamãe?
— Algo que eu possa ajudar, Condessa? — perguntou o rapaz.
— Obrigada, senhor Lamartine, mas o Conde já se recolheu. Eu não sei o que houve. Ele estava bem há pouco... Enfim, vim pedir que se recolha também Amélia, não é bom para uma moça solteira ficar no baile sem a presença de seu pai.
— Sim, mamãe — concordou tristemente.
— Eu conduzirei tudo até o findar do baile. As pessoas quererão explicações. Senhor Lamartine, mil perdões! Sei que pretendia falar com meu marido esta noite, mas estou certa de que não faltarão oportunidades.
— Certamente, senhora. É realmente uma pena. Falarei com o Conde assim que eu voltar de minha viagem — respondeu. — Transmita minhas estimas, por gentileza.
— Transmitirei. — E sorriu gentilmente.
— Quando voltarás? — perguntou Amélia, ansiosa.
— Não ficarei mais do que trinta dias, eu prometo — levantou suas mãos para beijá-las.
E no dia seguinte, o jovem já estava de partida para sua terra natal como o coração desejoso por regressar logo.
~~*~~
Um mês depois...
A carruagem chegava ao centro de Évora. Maurice, mal acreditou quando desceu a frente da Casa Ferraz e pediu para ser anunciado. Ansiava por vê-la. Trazia nas mãos um generoso ramalhete de rosas brancas.
A Condessa veio recebê-lo com seu sorriso sempre revigorante.
— Senhor Lamartine, que prazer em revê-lo! Sente-se, por favor. Como foi a viagem? — perguntou amistosamente, recebendo as rosas de suas mãos e repassando-as para uma criada colocá-las em um vaso.
— Cansativa, mas bem, obrigado! Condessa... sei que posso parecer afoito e não pretendo ser descortês, mas eu poderia falar com o Conde Ferraz e, se possível, com Amélia também.
A senhora se ajeitou no sofá, apertando as mãos sobre os joelhos, e ele percebeu o desconforto.
— Há algo errado, senhora?
— Senhor Lamartine, tenho algo a dizer e, infelizmente, de teor lastimável.
E então soube ali, que sua amada havia se casado, a pouco mais de uma semana, com Rui Vasquez D’alboquerque, numa cerimônia simples, sob exigência de seu pai. Nem os protestos de sua esposa, a quem ele tanto respeitava, surtiram efeitos.
Amélia estava comprometida definitivamente e ouvir tal coisa foi como uma flechada no peito. Não viu quando se despediu, dispensou o cocheiro e saiu caminhando, sem rumo, pelas ruas da cidade. Pensando, questionando, tentando entender o que dera errado. Estava sem chão.
Passaram-se dias, meses. Eles ainda não haviam se reencontrado. Seus negócios iam se expandindo e sua fama se espalhado por toda a Alentejo. Vários convites o levaram até a casa de José Américo de Lima Abranches, um homem muitíssimo respeitado, e pai da jovem Eleonor Abranches.
Por mais que seu coração ainda pertencesse à Amélia, Maurice sabia que precisava seguir em frente, constituir família. A bela Eleonor era uma boa moça, alegre e muito educada. Um pouco desastrada, é verdade, mas ela o fazia rir com facilidade.
Firmaram compromisso em uma tarde de primavera. Uma pomposa festa de casamento, onde todos os influentes estavam presentes.
Então ele a viu. Linda. Graciosa. Com o braço apoiado ao de seu marido. Seus olhos se cruzaram e se prenderam por um instante. A expressão de tristeza em ambos na certeza de que nunca seriam um do outro.
Eleonor os observava. Esse era o preço que deveria pagar, e ela não era alheia. Diante de tal realidade, decidiu que faria o seu melhor para encontrarem harmonia e a felicidade no seio de sua vida matrimonial, mas acima de tudo, para que seu marido a amasse de verdade.
— Meu marido, dança comigo? — pediu, tirando-o de seus devaneios. Seu sorriso meigo e sincero o fez perceber que ela também merecia ser amada. Não tinha culpa de nada. Tinha o dever de fazê-la feliz. E sorriu para a esposa com a convicção dessa promessa.
— Será um prazer, minha bela esposa.
O que lhe restava agora era viver e enfrentar seus pesadelos. Já era um homem influente e respeitado.
Os anos se passaram e soube que o Barão Rui D’alboquerque estava interessado na compra das terras de Setúbal e, negócios são negócios. Seu amigo, agora o Duque Luís Coutinho, orientou-o a vender parte de suas terras para novos investimentos e intermediaria essa transação. Depois de muitas análises, chegou à conclusão de que a proposta do Barão era a mais vantajosa.
— Estamos acertados, então. Diga ao D’alboquerque que estarei no escritório dele no dia marcado — O Visconde Lamartine informou ao advogado.
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Maurice estava sentado em sua poltrona, recordando o passado. Amara Amélia com todas as forças e entendia, agora, que podia fazer algo por suas filhas, principalmente, porque elas precisavam de ajuda. Negar isso seria virar as costas para as lembranças dela e ele não queria fazer isso, apesar de tudo.
A vida podia ter lhe tirado muitas coisas, mas dera tantas outras. Era agradecido pelo o que tinha hoje. Sua esposa, seus filhos, seus bens... Tudo conquistado honestamente.
Tomara que ele pudesse, ainda, se redimir, antes de morrer.
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