As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I

20 Capítulo 19 - O Diário da Baronesa


Notas iniciais
"Como doem as perdas para sempre perdidas, e portanto irremediáveis, transformadas em memórias iguais pequenos paraísos-perdidos." (Caio Fernando Abreu) ♥ Boa leitura a todos ♥

“Rui mandou-me flores novamente. Rosas brancas, minhas prediletas. Ele é gentil e cavalheiro, mas... meu coração não palpita por ele. Tenho-o como um bom amigo, porém, sei que ele almeja algo mais. Não sei se devo lhe dar esperanças...”

Diário de Amélia C. A. Ferraz – julho de 1783.

~~*~~

A Viscondessa entrou no casarão com os filhos e Álvaro. Joana esperava que houvesse alguma cumplicidade entre as partes para que chegassem a um objetivo comum, por isso, não hesitara em receber a matriarca da família rival.

— Senhora — cumprimentou-a. — É uma grande surpresa recebê-la aqui.

— Desculpe vir sem aviso, entretanto, julguei necessário fazer o quanto antes — explicou com certo cansaço na voz.

— Não te preocupes Viscondessa, acredito que esteja aqui em paz, então, és bem-vinda. — E sorriram cordialmente. Joana olhou para os jovens que estavam ao lado da senhora.

— Ah, desculpe-me, estes são meus filhos Afonso e Elisa.

— Lembro-me da senhorita no Baile de Outono — disse Joana à Elisa. — Por favor, vamos até o salão.

As outras irmãs já se encontravam no ambiente e se admiraram quando a senhora atravessou a porta. O que ela buscava ali? Era a pergunta na cabeça de todas e o medo de serem acusadas pelo o que acontecera ao filho. Mesmo com a insegurança do momento, Celeste se alegrou ao ver sua nova amiga e se adiantou para recepcioná-la.

— Ah, Elisa, fico feliz que nos encontramos novamente, apesar da ocasião trágica.

— Não faltarão oportunidades — falou a outra —, e eu preciso tanto lhe falar...

Celeste olhou para o rapaz ao lado que a analisava atentamente.

“Então essa é a jovem por quem Matias é apaixonado... será que ela também tem estima por ele?” Pensou Afonso.

— Este é o meu irmão Afonso.

— Senhorita — inclinou a cabeça.

— Senhor Lamartine, é um prazer.

Mas seus olhos continuavam presos nela causando certo constrangimento. Elisa deu um cutucão no irmão a fim de despertá-lo.

— Por favor, sentem-se — Celeste apontou a poltrona para os irmãos se acomodarem.

O clima estava ameno. Joana pedira refrescos e biscoitos de gengibre. Álvaro conversava com Liana, enquanto Emília e Beatrice prestavam atenção na conversa de Cecília com a Viscondessa.

— Ficarei honrada em conhecer o roseiral — falou Eleonor à Cecília. — Lembro-me muito bem quando mencionou gostar de botânica, no baile.

—Ficarei feliz em compartilhar conhecimentos com a senhora — respondeu a menina, sorridente.

Era admirável ver as duas conversando abertamente como se já fossem grandes amigas. Joana chamou a atenção de todos:

— Bom, espero que estejam famintos, pois, acabei de pedir três bandejas de refresco e biscoitos. De todas as mulheres dessa casa, sou considerada a mais glutona. Adelaide sempre me chamou de bicho-da-seda — falou divertida, mas sua expressão mudou em seguida. — Me desculpem. Não é o momento para brincadeiras quando dois dos nossos estão naquele hospital.

— Não se sinta culpada — disse a Viscondessa —, vocês têm sido fortes e corajosas, não somente agora, mas toda a vossa vida, e por isso eu vim. — Se explicou diante dos olhares atentos. — Eu sempre as julguei mal devido às desavenças do passado, contudo, desde o baile — tentava encontrar as palavras — notei o quanto sentiam medo do Barão e o tratamento dele com vocês... era como se estivessem pedindo ajuda. E isso despertou em mim o desejo de fazer algo como... uma mãe faria.

Era surpreendente, deveras, ouvir da mulher que a vida inteira fora uma adversária, tais palavras.

— Não sei se me entenderão, mas é o que sinto. E, Liana — a senhora olhou para jovem com olhos chorosos —, não se culpe pelas coisas que aconteceram. Pedro vai ficar bem, assim como eu sei que sua irmã também. Tenha esperanças, vocês ainda serão felizes.

Liana balançou a cabeça.

— Agradeço profundamente, senhora.

— E como forma de gratidão — reiterou Joana —, digo que devolveremos os documentos das terras de Setúbal, assim que nós os encontrarmos.

— Eu já os encontrei! — confessou, Cecília, causando surpresa. Envergonhada, continuou a falar, olhando para Eleonor — Eu ouvi seu filho falar com Adelaide sobre os tais documentos quando nos encontramos na Casa de Contas. No dia que papai surtou, eu entrei no gabinete para falar com ele e vi uma gaveta aberta com vários papéis, fotos de minha mãe e outras coisas... Eu o convenci a ir para seu aposento e o acompanhei. Quando ele dormiu, voltei para verificar, e eu os encontrei, além de outros documentos.

— Ceci! — repreendeu Joana. — Não sei se te agradeço ou se fico brava. Isso foi muito perigoso! E se ele desconfiasse?

A menina abaixou os olhos, mas a irmã sabia que queria apenas ajudar. Como também sabia que, para ela, era algo difícil, por ser apegada ao pai. Compadeceu-se.

— Desculpe. Sei que tinha boas intenções — levantou-se e deu um beijo em sua testa. — Bom, então nos cabe devolver a quem lhes pertence, não é? — continuou Joana.

— Se me permite, senhorita D’alboquerque, gostaria de dar uma sugestão — disse Eleonor. — Bem, pensei que podíamos oferecer um jantar para a entrega dos documentos, na nossa casa. O que acham?

— Acho magnífico! — Cecília se alegrou. — Podemos, Joana?

— Seria um prazer. Mas o Visconde concordará?

— Diante disso? Com toda a certeza, minha querida. Então estamos acertados — Eleonor disse contente. — Pedirei para avisá-las.

As bandejas chegaram e a interação era bastante agradável, sobretudo, entre Elisa, Afonso e Celeste.

— Senhorita D’alboquerque, soube que tens ajudado o vilarejo? — indagou Afonso tomando um gole de chá.

Celeste o olhou surpreendida. Elisa também, pois não sabia de seu envolvimento com as pessoas de lá.

— Como assim? Você conhece o vilarejo, Celeste? — inquiriu Elisa.

— Conheço mas... como sabes que eu os ajudo, senhor Lamartine?

— Sou amigo de infância de Matias, por mais que incrível que pareça. Fui visitá-lo, assim que cheguei da minha estadia em Coimbra, e na ocasião, ele a mencionou. Aliás, com muita admiração, se me permite dizer — falou o rapaz e Celeste corou.

— Celeste, conte-me! — animou-se Elisa — Eu sempre quis ir até lá, mas Afonso nunca deixou! — olhou de cara feia para o irmão.

— Eu os ajudo levando roupas, alimentos, pois, aquelas pessoas vivem em extrema escassez, fico até envergonhada em saber que são trabalhadores das fábricas de meu pai. Mas o meu maior objetivo é ensinar as crianças e mulheres a ler e a escrever.

— Eu adoraria ajudar. Por favor, Afonso, me leve até lá?!

— Bem... marcaremos um dia e iremos todos juntos. Vamos esperar passar esse momento difícil.

A irmã deu um grito de alegria e beijou o rosto do irmão agradecendo-o sem parar. A mãe ralhou baixo, devido ao comportamento de Elisa, e Celeste riu com a graça dos irmãos.

Pensou em como seria bom que eles se unissem a ela para ajudar aquele povo sofrido. Então, Afonso era amigo de Matias? Pensou ela. Isso era muito curioso. Estava com saudades de voltar ao vilarejo, de Matias... Há muito não o via devido aos inúmeros acontecimentos.

— Senhor Lamartine, tens a intenção de visitar o vilarejo por esses dias? — perguntou Celeste.

— Sim. Pretendo voltar sem demora.

— Com todos esses acontecimentos, não pude ir ao vilarejo. Eu ficaria muito grata se pudesse entregar uma carta minha a Matias.

— Garantirei que a carta esteja em mãos o quanto antes, senhorita — respondeu sincero.

— Obrigada. O senhor é muito gentil. A propósito, pode me chamar de Celeste.

Afonso não pôde deixar de perceber o motivo pelo qual seu amigo se apaixonara por Celeste. Era uma moça cativante. Desviou seu olhar. Novamente, a situação estava constrangedora. Ela só não percebera porque estava conversando com Elisa.

A mãe se levantou para partir. Depois disso, Joana e Liana subiram na carruagem rumo ao hospital, acompanhadas por Álvaro.

~~*~~

Diogo andava de um lado para outro pensando em como entraria naquele hospital. Os Lamartine pareciam cães de guarda. Se um saía, o outro já estava de prontidão, principalmente o tal de Henrique. Idiota!

Depois daquela noite, Diogo fugira da cidade escondendo-se em uma hospedaria de beira-estrada. Mas agora precisava voltar. Com toda certeza o Barão precisava dele. “Se estiver vivo” pensou. De todo modo, teria que verificar.

Oscar, seu informante, trouxera-lhe as notícias: Os Lamartine e as D’alboquerque estavam em uma espécie de aliança. Joana estava na liderança da casa e Adelaide não havia morrido. Menos mal! Não podia prever que aquela infeliz passaria na frente para livrar o tal Henrique. Provavelmente mais uma imbecil apaixonada.

Além do mais, precisava ver Beatrice e saber o seu julgamento a respeito dele. A estas horas, deveria estar com muita raiva e precisava reverter a situação. Todos poderiam ficar contra ele, mas ela não! Não suportaria sua rejeição novamente. Logo agora que eles estavam se entendendo e tomando coragem para pedir sua mão ao Barão. Maldição!

Soubera também que Frederico Lamartine andava fazendo perguntas demais e havia feito uma visita ao magistrado. Isso era mal, muito mal!

No fim, queria apenas resolver logo essas pendências e ir embora com sua amada.

~~*~~

— Senhor...? — assustou o magistrado Fernam de Moraes ao ver Frederico passar pela porta de seu escritório sem ser mencionado.

— Frederico Lamartine, filho do Visconde — completou.

— Sim, claro. E a que devo a honra?

— Sou futuro noivo de Emília D’alboquerque e sei que o senhor fez acordos escusos com o Barão para se casar com ela.

— Como ousa? Eu sou a lei aqui e se não retirares da minha sala neste momento, o prenderei.

— Aconselho a me escutar primeiro, senhor Moraes, pois quererá saber que posso colocá-lo em graves circunstâncias se eu levar o caso diretamente ao Conselho de Estado.

Ao falar isso, o magistrado ficou alarmado. Tinha uma reputação imaculada. Nenhum escândalo se fizera em seu nome até então, não poderia arriscar, e era verídico seus acordos com o Barão.

— Sente-se — resmungou.

— Não obrigado, não me demorarei — foi ríspido. — Quero que desfaças o compromisso com a senhorita D’alboquerque.

O homem fuzilou-o com o olhar. Mal vira a sua noiva e já teria que desfazer o acordo? Ele já estava na meia-idade, necessitava de uma esposa para consolá-lo, ainda mais uma pérola como Emília.

— Creio não poder atendê-lo. Já está acordado e logo a senhorita D’alboquerque será minha esposa — falou friamente.

— Ignorarei sua fala apenas para lembrá-lo de algumas coisas. O senhor se lembra das terras de Setúbal e do acordo com as famílias do vilarejo? Quem sabe as mortes de trabalhadores das fábricas? São crimes que foram acobertados pelo senhor, não é mesmo?

Fernam tentou transparecer tranquilidade, mas sua mandíbula estava rija e começava a suar frio.

— Não tem como provares isso! — afirmou, mas com temor na voz.

— Na verdade, temos. Os documentos das terras de Setúbal já estão em nossa posse, assim como os documentos que comprovam que o acordo salarial feito aos trabalhadores das fábricas não foram devidamente pagos durante todos esses anos. O nome do senhor está mencionado nesses documentos conforme notas do advogado do próprio Barão.

Em parte, Frederico estava blefando. Ainda não tinha em mãos boa parte das provas, mas Cecília havia achado documentos importantes no gabinete de seu pai, os que diziam respeito ao acordo salarial do povo do vilarejo e que nunca foram cumpridos; além de um caderno com nomes riscados da jornada de trabalho. Provavelmente trabalhadores mortos e descartados como lixo humano, inclusive crianças.

Era perigoso lidar com gente da laia do magistrado, mas resolveu arriscar e, à guisa, o maldito estava caindo na armadilha. O tempo era uma ameaça e precisava fazer alguma coisa antes que o patife saísse do hospital e submetesse Emília e às suas irmãs a mais dias de sofrimento.

Quanto às famílias do vilarejo, Frederico tinha certeza de sua veracidade, já que seu irmão Afonso tinha relações estreitas com Matias e sempre relatava os acontecimentos.

O Barão fizera uma proposta aos trabalhadores, quando do aumento de produção das fábricas. Todavia esse acordo salarial e de moradia não aconteceu de fato. As famílias começaram a passar fome e a jornada de trabalho aumentara, pois o recebimento por horas trabalhadas e produtividade não supriam as necessidades básicas. Os filhos tiveram que compor o quadro trabalhista da família para sobreviverem, em sua maioria, crianças.

Um protesto aconteceu, por causa das condições subservientes, maus tratos dos administradores das fábricas e mortes de muitos velhos e infantes. Os trabalhadores pediram audiência ao magistrado, mas este, por sua vez, recusou as reivindicações, alegando que o Barão estava correto em seus deveres de patrão. O povo do vilarejo se revoltou, criando-se um motim, mas que logo foi contido com ameaças de as famílias serem expulsas do vilarejo.

A partir de então, os operários eram vigiados o tempo pelos capangas e controlados a ferro e fogo por Diogo Avelar, o mais cruel deles.

Matias era o único que o enfrentava e, além de ser totalmente resistente aos fardos que este impunha sobre ele, e por isso, seu ódio mortal pelo empregado.

— Quanto às reincidentes mortes nas fábricas e no vilarejo, senhor Moraes — continuou Fred —, há testemunhas confiáveis e dispostas o suficiente para convencerem o Conselho. O senhor sabe, que quando as pessoas se sentem pressionadas, elas falam — blefou novamente. — Além do mais, surgiram outros relatos sobre uma possível traição ao Império...

O medo e a fúria nos olhos do magistrado não podiam mais ser disfarçados. Amaldiçoou alguém, mas não soltou o nome explicitamente.

— Verme ingrato!

Xeque mate. Não precisava de mais nada. A intriga estava lançada.

— Escute bem, ainda hoje o senhor irá liberar a senhorita Emília desse acordo e o fará oficialmente à sua irmã. Aguardo informações.

Fernam apenas concordou com a cabeça e Frederico saiu porta a fora, mas não antes de escutar um vaso se quebrando dentro do escritório, acompanhado de um praguejar.

~~*~~

Amélia estava sentada de costas para ele num imenso campo verde. Seu vestido era branco, tal qual o que fora enterrada. Ele a chamava, porém, ela parecia não ouvi-lo. Estava absorta com algo em suas mãos.

Ao aproximar-se dela viu que brincava com pérolas. Ele a chamou novamente, mas não o atendeu. Separou uma das pérolas e colocou-a em uma corrente de ouro fazendo uma gargantilha, como a que mandara fazer para cada filha, envolvendo-a em seu pescoço.

Ela então o fitou, ainda sentada no chão, e seu rosto era frio, sério. Lágrimas corriam sem parar em sua face. Pegou a sua mão e a abriu, despejando o restante das pérolas. Eram seis. A sétima estava com ela, em sua gargantilha. Sua expressão passou de fria para triste, e as lágrimas não cessavam.

Ele queria perguntar o porquê de tudo aquilo, mas ela levantou-se e foi caminhando pelo. De repente, o fogo começou a brotar pelos campos indo em sua direção. Ele tentava sair do lugar para salvá-la, mas não conseguia. Gritava, mas Amélia não respondia. Ela o olhou novamente; nunca tinha visto o rosto dela tão gélido assim. Segurou a pérola pendurada em seu pescoço e deixou que o fogo a consumisse.

— Não! Não! Amélia! Amélia! — O Barão gritava desesperadamente enquanto os auxiliares do hospital tentavam acalmá-lo. Ele delirava, suava e seu corpo tremia.

Doutor Fontana precisava sedá-lo. Então pediu a seus ajudantes que o segurassem a fim de ministrar-lhe um elixir de ópio.

— Ela está queimando! Eu preciso salvá-la! — se debatia, berrando.

Poucos minutos depois, já estava sedado e doutor Fontana chegou à conclusão de sua iminente loucura.

~~*~~

Quando Liana e Joana chegaram ao quarto de Adelaide, observaram que ainda estava muito pálida com manchas já escurecidas, pela face e pescoço. Tiveram que escutar do médico que o estado da irmã era crítico. A culpa consumia Liana de maneira crescente e a angustiava sobremaneira.

— Doutor Fontana disse que em breve os médicos ingleses estarão aqui. Tenhamos fé — Joana disse à irmã, passando a mão pelas costas dela em sinal de consolo. Sabia exatamente os conflitos dela.

— Rezemos para que cheguem a tempo...

— Senhoritas, gostaria de comunicar algo sobre o vosso pai... — falou o médico um pouco apreensivo — Bem, ele tem apresentado ataques histéricos depois de alguns pesadelos relacionados com a vossa falecida mãe, que Deus a tenha...

Joana apenas escutava impassível, enquanto Liana mantinha os olhos atentos nele.

— Tive que sedá-lo, mas acordou há pouco e pediu-me que chamasse Diogo, pois precisa falar-lhe urgentemente.

— Diogo deve ser preso imediatamente se aparecer por aqui! — começou a moça — Quanto ao Barão, pode julgar-me insensível, doutor, mas nada que aconteça a esse senhor me importa. Podemos ir até Pedro?

— É c-claro, senhoritas... por aqui, por favor.

Ao passarem pela sala de entrada do hospital, viram que Henrique entrara na mesma hora que o Marquês de Canto e Melo.

— Senhorita D’alboquerque?! — abordou Joana e fez-lhe reverência.

— Sim?

— Desculpe aparecer sem aviso, mas, vossa governanta me informou os últimos acontecimentos, de modo que estou aqui para ver minha noiva — falou sem rodeios.

Joana se recobrou de que era o noivo de Adelaide e que ainda não tivera a oportunidade de visitá-la.

— Obrigado pela gentileza, senhor Marquês.

Henrique o olhava desconfiado. Joana não sabia como conduziria a situação então pediu que Liana fosse com o doutor Fontana até Pedro para que ela pudesse conversar com o Marquês.

— Senhor Marquês... acredito que Didila, nossa governanta, tenha lhe deixado à par de tudo. Adelaide não está nada bem, estamos esperando a chegada de novos médicos da Inglaterra...

— Posso vê-la? — ele perguntou, ansioso.

Mas antes de a moça responder, Henrique interferiu:

— Não acho que seja adequado. Ela precisa repousar e o senhor não espera cortejá-la nesse estado?! — falou rudemente.

O Marquês arregalou os olhos, perplexo.

— Não vim cortejá-la, senhor, vim dar o meu apoio à família e ver como minha noiva se passa. É pedir muito? — retrucou. — Não tivemos a oportunidade de ao menos conversarmos!

O Lamartine travou o maxilar quando o homem reivindicou sua presença no quarto da moça.

— Senhorita D’alboquerque, não pode permitir que Adelaide tenha constantes visitas. Isso não é bom para o estado dela — Henrique tentou convencê-la, mas estava bastante autoritário.

Apesar de tudo, Joana estava achando aquilo muito engraçado. Ver o homem que fora extremamente estúpido com a irmã quando se encontraram, prestes a ter uma síncope de ciúmes. Chegava a ser uma cena deliciosa. Fez de tudo para conter o riso.

— Adelaide?! A chama pelo primeiro nome? — Nem Henrique tinha se dado conta disso. — O senhor não é filho do Visconde? — questionou o noivo — O que se passa aqui, senhorita D’alboquerque? — Olhou-a aguardando uma resposta.

“Valha-me Deus!” pensou Joana. Teria que contornar a situação de maneira que a reputação da sua irmã não fosse duvidada. Como explicaria ao Marquês que sua irmã salvara a vida do rapaz, por duas vezes, e que agora ele era uma espécie “ex-rival” que insistia em velar Adelaide dia e noite?

Gostaria de ser a pessoa mais sensata do mundo, neste momento, mas tinha certeza de que não conseguiria. Não era mulher de meias palavras.

~~*~~

Liana chorava baixinho, beijando a face de Pedro. Não tinha muitas palavras para dizer e, a culpa por vê-lo assim a consumia.

— Por favor, meu amor, não me deixe! Volte para mim! — pedia — A culpa é toda minha, eu sei, e eu não queria que tivesse sofrido tanto! Se você morrer, eu morrerei junto.

Como se ouvisse suas palavras, Pedro apertou de leve a mão dela. Apenas um segundo, mas o suficiente para ela sentir. Era o sinal. Sabia que era ele dizendo que estava lutando para voltar, dando-lhe esperanças.

— Obrigada! — sussurrou baixinho beijando levemente suas mãos.

Levantou-se e saiu dali decidida a entrar no quarto onde o pai estava acamado e dizer-lhe algumas palavras engasgadas.

Encontrou-o deitado em seu leito, de olhos abertos, olhando para o teto. Desviou os olhos para ela, mas nada falou; ao menos se surpreendeu com sua presença.

— Serei breve — disse ela.

— O que quer aqui?

— Apenas dar-lhe um recado. Sabe Barão, todas as suas maldades terão um preço e pagarás cada vintém. Não terás o prazer da morte de Pedro e muito menos de minha irmã. Eles estarão a salvo, graças ao Visconde Lamartine! — ouviu o nome do rival e seus olhos brilharam de ira. Ela chegou um pouco mais perto e disse:

— Que ironia, não é? O Visconde sim, tem se mostrado ser um pai de verdade, enquanto o senhor, só nos despreza desde que nascemos.

— Saia daqui! — vociferou, ao ouvir as palavras da filha.

— De que adiantou semear tanta maldade, se a única coisa que resultou foi a aproximação das duas famílias e não há nada que possas fazer contra isso. Fico imaginando como minha mãe pôde amar alguém como o senhor. Certamente, não aprovaria nenhuma de suas atitudes.

— Saia! Saia! — gritou, enlouquecido.

— Ela nunca aprovaria! — Liana gritou também — E é por isso que tem constantes pesadelos com ela. É uma forma de lhe dizer que és um desgosto e tenho sérias dúvidas de que mamãe realmente o amava!

E saiu de lá deixando o velho gritando e praguejando tomado pela ira.

~~*~~

“Às vezes fico pensando se vou ter que ceder a um casamento sem amor... papai e mamãe apoiam minhas escolhas, contudo, sei que eles se preocupam com a minha demora. Meu coração parece não querer amar alguém e isto é angustiante.”

Agosto de 1783.

“Mamãe já está planejando o Baile Rosa para o próximo ano. Isso significa mais uma tentativa para desposar-me. Gostaria muito de me afeiçoar por alguém, e assim, me libertar dessa agonia que me consome e consome a meus pais. As pessoas já comentam o porquê de, ainda, eu me encontrar solteira, já que nobres cavalheiros cortejam-me insistentemente.”

Setembro de 1783

Emília folheava o diário da mãe deitada em sua cama. Há dias, Didila o havia lhe confiado, mas as circunstâncias a fizeram esquecer do livro. Agora, o havia achado em sua mesinha de noite e resolvera ao menos manuseá-lo.

Pensou em lê-lo junto com suas irmãs, mas Joana e Liana estavam no hospital e Beatrice recebia o noivo no momento. Afinal, a vida tinha que continuar. Estava feliz pela irmã em aceitar o senhor Casagrande. Parecia ser um bom homem, prestativo e disposto. Além do mais, ela não podia se envolver mais com Diogo, aquele biltre!

Cecília estava no jardim, como de costume, e Celeste em seu quarto, escrevendo cartas para Matias.

“Céus, mamãe sentia-se pressionada a se casar, coitadinha...” pensava enquanto lia alguns trechos do diário. Tinha também alguns desenhos de flores, fitas de cetim e pétalas secas entre as páginas. Provavelmente, adornos com algum significado especial. Observou a chave pendurada por um cordão preso ao diário, mas não sabia do que se tratava, pois, o próprio livro não continha nenhum tipo de fechadura.

Continuou a folheá-lo e a ler algumas anotações da mãe. Havia poesias, alguns fatos cotidianos, e bastantes comentários a respeito de seu pai quando ainda eram apenas amigos.

“O senhor D’alboquerque expôs, mais uma vez, suas intenções de desposar-me. No entanto, ele não foi invasivo, é apenas sincero e cortês. Pode ser que suas expectativas se realizem, seria melhor casar-me com um bom amigo do que um completo desconhecido.”

Novembro, 1783.

“Ela menciona papai com certo apreço, mas não era apaixonada por ele...” Emília continuava pensando.

— Vejamos mais para frente... — falou consigo, passando algumas páginas.

Continha algumas menções sobre o Natal, sobre os preparativos do Baile Rosa que seria em abril e também sobre a escolha do tom de seu vestido. Coisas típicas das moças solteiras.

“Aqui é tão pleno, transmite tanta paz... é o meu lugar favorito no mundo! Papai deu-me essa estufa de presente em meu 15º aniversário, e este foi o melhor presente do mundo! Quando eu me casar, terei também um imenso jardim de rosas brancas para levar meus filhos... eu desejo ardentemente tê-los...”

A moça sorriu diante da confissão da mãe. E ela tivera, de fato, os filhos, ou melhor, as filhas; e o roseiral que tanto amava. Ela foi uma ótima mãe enquanto pôde.

“Ele é diferente de todos os cavalheiros que tive a oportunidade de trocar palavras. Gentil, educado e bonito...ele veio da França há poucos dias e papai ofereceu um jantar de boas vindas. Viera a negócios, ao que parece, para tomar posse de uma herança de família. Achei-o muito inteligente e muito perspicaz. Conversamos um pouco. Gostaria que retornasse mais vezes.”

Janeiro, 1784.

Achou muito interessante a menção de um senhor que não era seu pai.

“Ele mandou-me flores e estou muito feliz. Estava curiosa para saber se ele se lembraria de mim. Jamais estive tão ansiosa por rever alguém. Eu o esperei e não sei dizer o motivo. Não quero precipitar-me, afinal, ele poderá partir a qualquer momento. Papai podia convidá-lo para um chá da tarde e, quem sabe, compartilharmos nossas leituras prediletas.”

A anotação ainda era datada em janeiro do mesmo ano. Adiantou mais algumas páginas.

“Eu nunca me senti assim, e estou com medo. Quando eu o vejo meu coração acelera e minhas mãos gelam. Quero-o todos os momentos comigo e penso nele todas as noites... seu sorriso perfeito... seu olhar acolhedor... Tudo nele é encantador! Caminhamos em algumas tardes pelos campos, com a autorização de papai. Ele também se afeiçoou ao senhor Lamartine...

— Como? — Assustou-se diante do nome.

...e mamãe disse-me que ficará contente se eu o aceitar como marido. Entretanto, por mais que seus doces elogios comprovem que mantém sentimentos por mim, Maurice ainda não foi claro. Creio que esteja esperando a ocasião ideal.”

Emília levou a mão à boca completamente pasmada.

Oh Meu Deus! Eles eram apaixonados! Por que, então ela casou-se com papai? — questionava.

Era muita coisa para a sua mente processar. Não sabia o que pensar.

Passou mais uma página com cautela. Tinha medo do que estava por vir. Isso era algo... inimaginável.

“Eu o amo, agora tenho certeza. E ele ama-me. Confessou hoje, ao beijar minhas mãos na estufa. Sinto que não há mais nada a esperar. Ele completa-me. És o cavalheiro que sempre desejei. Mamãe escutou-o conversando com papai sobre suas intenções em desposar-me e acreditamos que ele pedirá minha mão, oficialmente, no Baile Rosa. Não me contenho de tamanha felicidade!”

Março, 1784

Na mesma página, ela achou dois cartões, já bem amarelados que, certamente vieram com flores que sua mãe recebera. Abriu e os leu. Eram poemas.

“Não há segredos que o tempo não revele.

Entrego-me cegamente ao impulso que me arrasta.

Quão facilmente o amor acredita em tudo o que deseja!

O vício, tal como a virtude, cresce em passos pequenos.

Bela, sem enfeites. De uma beleza que acaba de se arrancar ao sono” (Jean Racine)

Emília, estarrecida diante de tal revelação, pensou que Didila poderia esclarecer tais fatos, mas, lembrou-se de que ela pedira para ler todo o diário. Agora, tinha receio de continuar a ler e descobrir que as suas raízes eram uma farsa.

~~*~~

— Estou sem palavras, senhorita! Recuso-me a acreditar que vosso pai seja um homem tão hediondo!

— Pois, acredite, senhor Marquês, ele é capaz de muito mais — falou Joana. — Mas o senhor estava me dizendo que tem ideias que muitos desaprovariam. Por que diz isso?

— A senhorita é muito observadora... porém, creio que não seja um assunto para tratar com uma dama. Apenas pensei alto enquanto conversávamos.

— Assim o senhor subestima a minha inteligência. Se as pessoas pudessem saber meus pensamentos, certamente seríamos dois exilados.

E os dois riram juntos.

— Mas diga-me senhor Marquês... suas ideias têm a ver com as questões sociais? — inquiriu Joana, encarando-o. Tinha grande interesse em suas opiniões.

— Hum... Também! E pelo que percebo, a senhorita aprecia tais assuntos? Talvez compartilhemos dos mesmos pensamentos.

— Talvez. O que pensa sobre a condição da classe operária e seus salários mesquinhos que mal dão para sobreviver, além da exploração de crianças em exaustivas horas de trabalho? — questionou com raiva na voz, olhando diretamente nos olhos do marquês. Queria testá-lo.

Rubén Tomás a olhou curioso. Era uma moça com certa dose de ardileza, quase petulante. Essa postura altiva lembrava-lhe de uma antiga dama da sociedade eborense, a Condessa Lorínia. Desafiadora e determinada, admirada por muitos, assim como a senhorita à sua frente que não negava o seu sangue e arrancava dele um encantamento incomum.

— A senhorita lembra-me muito a sua avó, Condessa Lorínia — disse sorrindo e ela se espantou.

— O senhor a conheceu?

— Oh sim! Eu era um jovem novato na sociedade lisboeta, e, seus avós sempre eram convidados para os importantes eventos de lá. A Condessa era uma mulher à frente de seu tempo, minha inspiração. É fato que muitos a tinham como insolente. Uma mulher não podia tomar tantas decisões ou ter pensamentos insurgentes; e seu avô era muito questionado por isso. A senhorita sabe, essas coisas não são bem vistas na nossa sociedade.

— Gostaria de saber a sua opinião a respeito disso — replicou. — O senhor acredita que uma mulher pode ser participante nas decisões de seu marido?

O Marquês riu com satisfação e disse:

— Muitos não admitem, senhorita D’alboquerque, mas uma mulher decidida e prática é peça imprescindível na posição de um grande homem. Quanto à sua pergunta anterior, sejamos francos: é uma situação difícil. O capitalismo é a mola propulsora da sociedade, porém, acredito no progresso com um modelo mais justo e isso só poderá acontecer se as pessoas forem despertadas a conquistarem seus direitos. Tenho alguns amigos que concordam com essa perspectiva. Não podemos difundir as ideias tão abertamente, contudo, é algo que se semeia aos poucos — completou com feições orgulhosas.

Joana pensou que o Marquês era o tipo de homem ideal para desposá-la. A união perfeita para se plantar novos pensamentos; um pouco de justiça em um mundo tão faminto de poder.

— O senhor é um homem de visão. Ao que parece, temos muito em comum e gostaria de conhecer mais sobre suas concepções em outra oportunidade — disse a moça, sorrindo.

— Já estou ansioso para conversar novamente com a senhorita — e tirou o chapéu da cabeça para saudá-la.

~~*~~

Diogo observava ao longe, a entrada do hospital. Vira quando as irmãs saíram na carruagem, e, Henrique e Frederico foram conversar em uma casa de chás, próxima. Essa era a oportunidade.

Rapidamente, arrumou o chapéu na cabeça a fim de não ser reconhecido e entrou no hospital. Não havia ninguém por ali que indicasse ser médico ou auxiliar. Resolveu então seguir os corredores. Entrou pelos quartos para procurá-lo, até que encontrou um auxiliar.

— Boas tardes! Preciso ver o Barão D’alboquerque, sou Diogo — informou.

— Claro, por favor, me acompanhe — disse o auxiliar.

— Diogo! Que bom te ver, meu filho! — Se alegrou o Barão ao ver o rapaz.

— Senhor, eu quis vir antes, mas os Lamartine estão de campana aqui no hospital.

— Bem sei — falou Rui, furioso. — Dr. Fontana disse-me que eles e as ingratas das minhas filhas estão de conluio. Maldição! O que eu fiz pra merecer tantas filhas imprestáveis? Nenhuma delas veio me ver, apenas Liana para insultar-me. Garota insolente! Desejava muito ver-te, Diogo, tenho planos para acabar de vez com isso. Aqueles canalhas irão se arrepender de terem se envolvido com minha família!

— O que tens em mente, senhor?

— Vamos colocar fogo na Casa Lamartine!

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“Ele não é mais o mesmo... tenho medo de que possa fazer mal às nossas meninas. Não sei o que se passa em sua cabeça e, mesmo com todas as minhas tentativas de conversas, ele escuta-me, mas não me atende. Estás atormentado e eu temo que o motivo seja, ainda, o fantasma do passado.”

Baronesa Amélia C. D’alboquerque – maio de 1797.


Notas finais
É...Emília começou a ler o diário da mãe e já descobriu umas coisinhas do passado... mas aguardem, ainda tem muitos segredos a serem revelados. ;) Ah, só mais um coisa! Os sonhos do barão têm um significado, viu? Vai acontecer algo inesperado em breve... Beijos e volto em breve! ♥