As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I
21 Capítulo 20 - O Plano do Barão
Notas iniciais
Frederico A. Lamartine
"Meu coração está dilacerado... certa de que papai concederia minha mão ao Visconde Lamartine, no entanto, não o fez. Minhas lágrimas não cessam enquanto tento descrever meu desespero.
Breve serei a senhora D’alboquerque e meu amor se foi... não há mais nada a fazer.”
Diário de Amélia C. Ferraz, 1784. (Dias depois do Baile Rosa)
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— O que o senhor ordenar eu farei — afirmou Diogo ao Barão.
— Arranje homens de confiança e que se vendam por uma boa quantia em dinheiro. Peça ao lacaio descontente dos Lamartine que invente uma desculpa para atrair todos eles para o casarão na noite de amanhã.
— O tal Henrique será difícil. O homem montou guarda aqui por causa do irmão e da senhorita Adelaide.
O velho ficou colérico.
— Dá-se um jeito! Consiga querosene o suficiente, como você sabe fazer e, cuidado Diogo, não levantes suspeitas! Se precisar eliminar alguns empregados no local, faça-o.
— Sim, senhor.
— Sairei daqui em breve e tudo voltará ao seu estado normal. Se aquelas ingratas acham que já sofreram, ainda não sentiram todo o meu ódio.
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— Senhor Casagrande, obrigada pela gentileza e compreensão. Tem sido dias bem difíceis para nós — disse Beatrice ao noivo enquanto caminhavam pelos campos da fazenda. O recebeu de maneira diferente, desta vez, e Raul percebera. Estava mais amável e atenciosa às conversas que tinham.
— Sinto-me lisonjeado por aceitar caminhar um pouco, mesmo com tantas consternações, senhorita. Mas peço-te, me chame de Raul, sou seu noivo e em breve seu marido — disse sorridente e ela retribuiu o sorriso.
Beatrice estava tentando, lutando com seus conflitos. Havia ali, um cavalheiro à sua espera e era um bom homem. Por mais que fosse um noivado arranjado, ela não podia deixar de concordar que Raul estava mais agradável do que na ocasião do baile. Talvez fosse a única coisa boa em tudo o que seu pai já fizera, ainda que, essa decisão não tinha nada a ver com quaisquer vontades dela.
Ainda pensava muito em Diogo, ele lhe causava uma agitação, era verdade, mas depois de tudo o que ouviu sobre a noite da fuga, não podia mais.
— Diga-me, senhorita, por que não quisera romper o noivado quando houve a oportunidade, assim como suas irmãs? — indagou o rapaz.
Beatrice pensou um pouco sobre a pergunta e respondeu:
— Bem, senhor Casa... Raul — corrigiu —, reconheço que fui ríspida com o senhor no início; eu não o conhecia bem e queria desapontar meu pai — omitiu a parte sobre Diogo. — Mas, depois de algumas visitas, posso dizer que sua companhia muito me agrada. És um bom homem, e mesmo que... que eu não o ame, espero aprender com o tempo.
Ele se pôs à sua frente e segurou suas mãos, fitando seus olhos verdes, com ternura.
— Esperarei o tempo que for preciso. Esforçar-me-ei, incessantemente, para que me ames. Todavia, se não acontecer, estarei disposto a fazê-la feliz da mesma forma — declarou sincero.
Então, ela tirou uma de suas mãos do meio das dele e a pousou suavemente em seu rosto. Ele fechou os olhos ao sentir o carinho expresso naquele gesto.
— Obrigada — disse ela.
Ao longe, os olhos raivosos de Diogo catalogavam cada movimento do casal.
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Com o passar dos dias, e sem notícias fidedignas quanto à tragédia das famílias rivais, Demétria deu um ataque histérico fazendo com que seus pais agendassem uma visita aos Lamartine. Não era o momento ideal. Certamente, a família não tinha qualquer ânimo para receber hóspedes nesta hora, no entanto, Eleonor não recusara, por educação.
Chegaram fazendo um estardalhaço, quase ficcional, comentando sobre tal acontecimento funesto.
— Mas que horror, minha querida! Como pode existir gente tão maldosa? Esse Barão não merece viver, assim como toda a sua raça — Pilar comentou com Eleonor no salão, enquanto Maurice e Edgar tratavam de assuntos no escritório. Demétria, por sua vez, permanecia calada, pois estava comprometida até as orelhas com todo o ocorrido. Apenas Álvaro sabia de tudo, mas certamente ele nada diria.
— Sim, foi tudo muito terrível, Pilar, mas apesar disso, aconteceu algo de bom.
E a Viscondessa discorreu sobre a aproximação com as moças D’alboquerque em meio a todo o processo de sofrimento atual.
— O que estás me dizendo, Eleonor? Mas elas são tão culpadas quanto o pai!? Principalmente a tal moça que tinha planos para fugir com Pedro. Eu definitivamente, não entendo como podem ajudá-las na situação em que seu filho se encontra — indignou-se a senhora Castel.
— Não apenas isso, Pilar, mas também decidimos apoiar o romance entre nossos filhos e as moças — declarou tranquilamente enquanto as duas visitantes arregalavam os olhos surpresas. — Sei que agiram motivados pelo amor, quem pode condená-los? Sim, eles foram inconsequentes, mas já está feito. Como eu disse, depois de conhecê-las melhor, sei que não são como o pai.
Demétria estava à beira de um colapso nervoso, mas tinha que manter a aparente calma. Não podia ser! A Viscondessa só podia estar louca dizendo tantos disparates! Precisava sair dali imediatamente:
— Elisa, o que você acha de falarmos a sós?
— Está bem, vamos ao meu quarto.
Ao se retirarem, Pilar continuou tentando convencer sua amiga a não se aliar com as D’alboquerque. Não podia deixar que a salvação financeira da família Diaz Castel fosse por água abaixo.
— Eleonor, pense bem querida... como fica nosso acordo? Não se lembra de nosso sonho em ver nossos filhos casados? Você prefere vê-los com moças estranhas do que com minha filha que já os conhece desde a infância?
— Querida, entenda, antes eu era uma mãe desesperada por casar seus filhos que pareciam jamais querer um compromisso assim. Por algum tempo pensei que Pedro, ou até mesmo Frederico, tivessem uma afeição maior por Demétria, mas eles a veem apenas como irmã. Não vejo o porquê de os submeter a um casamento sem amor quando amam tanto aquelas moças.
— Tolices! — explodiu Pilar — Amor nunca foi requisito em nosso meio. O melhor para Pedro é se casar com Demétria. Com o tempo poderão se amar ou, ao menos, ter uma boa convivência. Você é prova disso, não é mesmo Eleonor? — indagou sarcástica — seu marido amava outra e no entanto...
— Basta Pilar! Suas insinuações não irão me convencer do contrário! Além do mais, as decisões minhas e de meu marido não estão abertas a discussões. Sabemos o que é melhor para nossos filhos — completou, decidida.
Pilar estava boquiaberta. Nunca falara naquele tom com ela. Isso era sério, muito sério.
Os maridos se juntaram a elas na sala e o senhor Castel não estava com boas feições, reparou Pilar. A família estava à beira da falência e, ainda, conseguiam esconder de todos. Somente um bom casamento da filha os salvaria de tamanha vergonha social. Já estava, praticamente, certo de que Demétria se casaria com Pedro, mas agora... precisariam, ao menos, tentar casá-la com Henrique ou Afonso.
O clima estava tenso quando as moças voltaram para a sala, e ficara, ainda mais, quando o mordomo anunciou a chegada de Álvaro Carvalhal. Demétria temeu o motivo da visita. Álvaro sabia demais e poderia comprometê-la totalmente. Precisava se aproximar dele e ganhar sua confiança outra vez. Quem sabe aproveitaria este momento para isso.
— Boas tardes — cumprimentou o rapaz assim que entrou na sala, mas ao ver Demétria, não conseguiu conter uma expressão de desagrado. — Vim para falar com Afonso, mas fui informado de que ele não se encontra.
Ao mencionar que retornaria em outro momento, a Viscondessa insistiu para que ficasse e tomasse um refresco com eles. Não gostou muito da ideia. Engolir a pose de Demétria sabendo de tudo o que ela fez, seria difícil. Por fim, aceitou o convite dos anfitriões sentando-se próximo à Elisa. Ela se apressou em lhe servir um chá enquanto trocavam algumas palavras e sorrisos, e esse trato não passara despercebido pela amiga. Desde quando eram tão íntimos?
Os Diaz Castel, também percebendo a interação dos jovens, logo tentaram dissuadi-los. Se o casamento com um Lamartine não acontecesse, pelo menos tinha o filho do Duque que sempre fora apaixonado por Demétria.
— Diga-me, senhor Carvalhal — começou Pilar —, já que o noivado com a senhorita D’alboquerque não deu certo, acredito que seu pai já esteja escolhendo outra noiva para o senhor, não é mesmo?
Álvaro sentiu-se desconfortável com a curiosidade da senhora, mas resolveu responder.
— Com todo respeito, senhora Castel, meu pai não precisa se preocupar em arrumar-me uma esposa, eu mesmo posso fazer isso. Quanto à senhorita D’alboquerque, desejo sinceramente que sejas feliz com Pedro — e olhou discretamente para Demétria que lhe lançou olhares faiscantes.
— E já tem outra pretendente em vista, senhor Carvalhal? — insistiu Edgar no assunto, deixando a conversa mais constrangedora para todos.
Álvaro bebericou o chá, inibindo um xingamento, e respondeu:
— Há uma dama que me chama a atenção, sim, muito apreciável. Pretendo pedir permissão para visitá-la em breve.
Os rostos de Pilar e Edgar se iluminaram. Tinham certeza de que falava de Demétria.
— Muito bem rapaz — interveio o Visconde. — Uma boa escolha é o significado de um casamento bem estruturado, afinal...
— E a dama, em questão, é de onde? De qual família? — interrompeu Pilar, afoita.
A Viscondessa pigarreou discretamente. O Visconde fez uma leve careta e Demétria se remexeu na poltrona sentindo o clima tenso na sala. Elisa percebeu que Álvaro estava tentando controlar sua impaciência.
— Ela é daqui mesmo, de Évora. — respondeu secamente — Mas, me perdoem por não revelar sua identidade, pois não quero me precipitar. Ainda não pedi permissão aos seus pais para cortejá-la.
Os Diaz Castel ficaram chocados. Como assim era de Évora? Então...
O Visconde emendou outro assunto para que eles parassem com o interrogatório. Demétria não gostou da confissão de Álvaro. Ela queria Pedro, mas mantê-lo à sua disposição era bom.
Elisa estava pensativa e assustou-se quando o rapaz se inclinou e disse num sussurro:
— A propósito, senhorita Lamartine, gostaria de seu consentimento prévio, caso seu pai permita que eu venha visitá-la — e sorriu para a moça.
Elisa, admirada, só conseguia fitá-lo. Seria ela, a dama a quem ele se referia? Sorriu de volta e murmurou um “tem meu consentimento, senhor Carvalhal”. E continuaram conversando enquanto Demétria se encolerizava com a cena.
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— Oscar, fique de sobreaviso. Esse plano não pode falhar, entendeu? — disse Diogo ao comparsa — Traga os homens que arranjaste à minha casa, ainda hoje. E seja discreto.
— Sim, senhor. Não haverá falhas, posso garantir.
— É bom. Agora preciso ir. Não se atrase.
Precisava ver Beatrice, a única pessoa que se importava. Estava à par do rodízio das meninas no hospital, de modo que, neste momento, ela estaria apenas com a irmã mais nova na fazenda.
Seu plano era entrar pelos fundos do casarão, onde o acesso aos quartos femininos era facilitado. Entretanto, ao chegar ao local, viu-a seguir para a casa de artes. Esperou até que entrasse e desceu, passando pelos jardins.
Beatrice estava distraída com seus materiais, preparando uma tela para começar a pintar, quando ele a abordou:
— Beatrice...
— Senhor Avelar? — virou-se de repente — O que faz aqui? Não quero falar com você!
— Não fales assim. Escute-me, por favor.
— Vá embora! Nunca mais quero vê-lo!
Diogo enraiveceu-se diante da rejeição da moça. Ela não podia fazer isso com ele. Estavam bem há poucos dias. Precisava fazer com que o ouvisse, nem que fosse forçadamente. Foi até ela e a segurou pelo braço, com ímpeto.
— Eu a vi com aquele idiota! Eu quero que rompas com ele, entendeu? — ordenou, furioso.
— Solte-me! Você é mau e tenho nojo de você! — gritava enquanto tentava se soltar do aperto dele.
— Não era o que pensavas de mim há alguns dias quando me deixou tocá-la — ironizou, tentando beijá-la enquanto Beatrice se esquivava.
— Não! Solte-me! — gritava e ele a apertava cada vez mais, tentando subir a saia do seu vestido.
— Você pertence-me, Beatrice, estás me ouvindo? E te farei minha — E a jogou em cima de um divã, segurando-a enquanto abria sua calça com a outra mão. — Ele não a quererá se souber que se entregou a outro homem.
— Por favor, Diogo, não faça isso! Socorro! — começou a chorar, desesperada.
— Você vai gostar, eu prometo... — E partiu pra cima dela, decidido a cumprir o ato, ao passo que sentiu uma forte pancada na cabeça.
Caiu desmaiado.
Beatrice demorou alguns segundos para entender o que aconteceu. Ainda estava chorando e amedrontada.
— Venha, senhorita D’alboquerque, vou levá-la para casa.
Era Amadeo, com um pedaço de madeira na mão.
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— Então você a conheceu? — perguntou Matias empolgado com a carta de Celeste nas mãos.
— Sim, a conheci. Uma boa moça e tem grande admiração por ti, para não dizer outra coisa — brincou Afonso.
— Ah irmão, sabes que isso é impossível — afirmou, tristemente. — Mesmo que ela tenha algum tipo de afeto por mim, nunca poderíamos ficar juntos.
— Ela sabe que nutre sentimentos por ela?
— Acredito que não. Mas sempre que ela vem aqui conversamos bastante, acreditamos nas mesmas coisas. O sorriso dela ilumina meu dia... — sorriu e olhou para a carta em suas mãos — Não posso alimentar esperanças, apenas gostaria de retribuir sua bondade e poder ajudá-la com alguma coisa neste momento difícil.
— Meu pai está inclinado a ajudá-las. É, eu sei, isso é inacreditável para mim também — disse diante da expressão de espanto do amigo. — A propósito, minha irmã é amiga da sua D’alboquerque e trocam cartas desde o baile. Agora estão planejando vir ao vilarejo para ajudar. Valha-me Deus! Ninguém poderá com essas duas — meneou a cabeça.
— Toda ajuda é bem-vinda. O vilarejo agradece, mas seria prudente essa exposição por parte delas?
— Me preocupo com isso também, mas quem vai conseguir convencê-las do contrário? Principalmente porque Álvaro Carvalhal também se dispôs.
— Carvalhal? O filho do Duque? — espantou-se.
Afonso confirmou com a cabeça.
— Parece ser um bom homem, mas sem personalidade. Talvez esteja querendo se redimir de alguma forma. Elisa o ama — declarou fazendo uma careta.
Os dois se entreolharam e começaram a rir.
— E tu, Afonso? Tens interesse em alguma dama? Sabes que precisa esquecê-la, irmão... seguir sua vida.
— Não é tão simples. A dor ainda é grande. Eu amava Irina e não sei se amarei novamente.
— Amará sim. Isso passará e será apenas uma lembrança boa. Precisa abrir seu coração e encontrar uma boa moça para ocupá-lo — e bateu a mão na testa do amigo que retribuiu da mesma forma.
E rindo, começaram a andar pelo vilarejo planejando mudanças.
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“Eu o vi, e a dor foi dilacerante. O vi dançar com aquela que acabara de se tornar a senhora Lamartine. A realidade viera como mil espinhos no coração, quando nossos olhos se cruzaram. Estamos condenados para sempre!
Ele estava belíssimo... Sei que não deveria pensar nele, pois agora sou uma senhora casada. Mas não consigo evitar...”
Amélia C. D’alboquerque, outubro de 1785.
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O hospital parecia mais uma recepção de sarau. Doutor Fontana já havia se acostumado com a rotina de receber os membros das famílias e amigos dos moribundos.
Além das D’alboquerque e dos Lamartine, a família Diaz Castel também estava presente naquela tarde.
— Tenho boas notícias, senhores, senhoras e senhoritas — anunciou o médico, animado — Pedro e Adelaide estão apresentando sinais vitais mais fortes e acredito que em breve já estarão conscientes novamente.
Todos se alegraram com a notícia e a tarde teria sido mais agradável se não fosse por Demétria provocando Liana, lançando indiretas maldosas e insistindo para ficar com Pedro.
A Viscondessa percebendo as investidas da moça consolou a jovem:
— Não se preocupe, é você a quem Pedro ama e nada pode mudar isso — falou em tom confidencial e sorriu para a menina apertando-lhe a mão.
— Há outra informação, porém, não muito interessante... — retomou doutor Fontana. — O Barão provavelmente sairá em breve daqui do hospital. Não é tempo, mas se ele quiser retornar à casa, não podemos detê-lo.
As moças estremeceram com a informação, enquanto Henrique e seu pai bufaram de raiva. Demétria comemorava internamente.
— Temos que acelerar o processo das provas então — manifestou o Visconde —, e garantir que ele saia daqui direto para a prisão.
— Conversei com Fred ontem e ele me disse que o magistrado não se oporá nas provas contra o Barão. As testemunhas que conseguiu também estão dispostas a falar — Henrique reiterou.
— Ótimo!
— E quantos as meninas, meu pai? Elas ficarão à mercê desse monstro? — se preocupou, Elisa.
— Se caso, não tivermos tempo hábil, elas estão convidadas a se hospedarem na Casa Lamartine o tempo que precisarem.
— Obrigada, senhor Visconde — Joana agradeceu.
— Vou ver Pedro, com licença — Liana avisou aproveitando que Demétria havia saído do quarto dele. No entanto, a rival a seguiu.
— Você é mesmo uma sonsa! — E Liana virou-se para olhá-la. — Aliás, desconsidere o que eu disse, você e suas irmãs são muito espertas. Fico com pena do Visconde e de sua família por se deixar levar pelas tramas de vocês.
— O que quer, senhorita Castel? Não tenho tempo para suas manipulações — retrucou a outra com ar cansado.
— Eu? Manipuladora? — riu, sarcasticamente — As únicas que conheço são as irmãs D’alboquerque. Mantém uma reputação de boas moças para dar o golpe. Estupendo!
Liana não disse nada. A outra continuou:
— Você acha que vai ficar com Pedro? Não parou para pensar que ele está nesse estado por sua causa? A culpa é sua! Ele não vai querer ficar com a mulher que foi responsável pela sua quase morte, não é mesmo? Ele vai odiá-la quando acordar.
Liana apenas a fitava. Mas no fundo, as palavras dela surtiam um efeito desconfortante.
— Pense, querida — chegou mais perto de Liana —, tenho mais direito do que você. Conhecemo-nos desde pequenos. Eu o conheço como a palma da minha mão, e acredite, ele tem muito apreço por mim.
— Apreço não é amor, Demétria — respondeu firme e o outro irou-se.
— Você é uma caipira! Não tente medir forças comigo. Saia do meu caminho enquanto pode, pois não sabes do que sou capaz, jamais perderei Pedro para uma insignificante como você! Lembre-se — se aproximou —, és a única culpada de toda essa tragédia.
As outras mulheres entraram no quarto e Demétria a abraçou.
— Vai dar tudo certo, querida! Tenhamos fé — atuou.
Aparentemente, esse gesto passou despercebido para algumas, mas não para Joana e Celeste.
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— Como vim parar aqui? — Diogo se perguntou passando a mão na cabeça. Sentia uma dor terrível — Maldição! — praguejou.
Estava em sua casa, jogado na poltrona da sala. Algum tempo depois, Oscar apareceu com os capangas, conforme o combinado.
— Senhor Avelar, vejo que acordou. Bebeu um pouco além da conta, não foi? — tentou brincar, mas tratou de parar de rir diante da cara de Diogo.
— Viu alguém em minha casa, Oscar? Sabe quem me trouxe para cá?
— Não senhor... Deveria? Digo, quando viemos mais cedo, encontramos apenas o senhor desacordado na poltrona.
— Está bem. Vamos ao que interessa.
Ele nunca saberia, mas, após o ocorrido com Beatrice, Amadeo a levara em segurança até D. Hilda e voltou à casa de artes para pegá-lo com ajuda do cocheiro. Os dois o colocaram na carruagem e o levaram para sua casa. Assim que o jogaram no sofá, ouviram vozes se aproximando da casa. Esconderam-se na saleta do quarto de dormir.
— Senhor Avelar? — chamou o homem que Amadeo reconheceu ser Oscar — Será que está bêbado? — Os homens riram e fizeram algumas piadas.
Logo em seguida, estavam reunidos ao redor de uma mesa com um papel estendido nela. Uma espécie de mapa ou algo assim. Amadeo tinha dificuldades para visualizar. E ali, Oscar explicou todo o plano para os homens que estavam presentes e descobriu que se tratava de um atentado à família Lamartine. Eles pretendiam queimar tudo. Como era um dos empregados da casa, sabia todo o seu funcionamento. Após a partida dos capangas de Diogo, Amadeo dirigiu-se imediatamente à Casa Lamartine.
Frederico que estava chegando, avistou o lacaio dos D’alboquerque encostado em um cabriolé, visivelmente nervoso.
— Amadeo, o que fazes aqui? Ocorreu algo?
— Senhor Lamartine, que bom que chegou! Preciso contar-lhe algo. Estou esperando já há algum tempo, mas não há ninguém na casa...
— Estão todos no hospital. Mas o que há, homem?
E o lacaio discorreu sobre todo o plano na casa de Diogo. Frederico, pasmo com o que acabara de saber, agradeceu o lacaio e partiu para tomar as providências necessárias.
A noite chegara e os Lamartine estavam reunidos com as convidadas para o jantar, as irmãs D’alboquerque’s. Seus hóspedes, os Diaz Castel, resolveram partir, frustrados, já que seus planos estavam longe de se concretizarem.
Na ocasião, foi feita a entrega dos documentos das terras de Setúbal, pelas mãos de Joana como haviam acordado. Conversavam animadamente, após o jantar, principalmente pela notícia sobre Pedro e Adelaide estarem fora do risco de morte. Até Henrique conseguiu descontrair, ao ouvir os relatos da mãe sobre a infância deles.
Estavam se divertindo.
Contudo, uma movimentação do lado de fora do casarão chamou-lhes a atenção. Todos em silêncio, esperavam até que o barulho de luta, pancadas e gemidos, cessasse. Não se moveram.
De repente, um homem fardado adentra na sala, ofegante e fala:
— Senhor Visconde, foram todos apanhados!
~~*~~
“Já se passaram três anos desde que me tornei a Baronesa D’alboquerque, porém, não há sinal de um herdeiro para a família. Sei que meu marido se esforça para não demonstrar sua decepção... ele quer muito um filho, sobretudo, um menino. É o sonho dele.
O Visconde e sua esposa já tiveram seu herdeiro; um menino. Ele ficou furioso quando soube. Parece uma competição e eu não me sinto bem com isso.Quero ser mãe, mas minha angústia parece secar-me por dentro. Será que terei que conviver com a cobrança de meu marido todos os meses quando meu ventre nega a dar-nos um filho?Sei que a culpa é minha...”
Diário da Baronesa Amélia D’alboquerque. 1787.
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