Amy
14 Branco de Neve
Notas iniciais
Capítulo 14 – Branco de Neve
Lembro que a chuva lá fora caia e eu pedi então que ela ficasse. Estávamos nós duas paradas no batente da porta, Emma observando a chuva cair e eu observando que sua touca vermelha combinava com sua jaqueta de couro de mesmo tom. Ela direcionou seu olhar para mim e em seguida para o céu negro e para a chuva forte que insistia em cair. Ela não me respondeu, de modo que, eu insisti no pedido e obtive dessa vez um sorriso e um esfregar de mãos, em uma tentativa frustrada de se aquecer.
Eu a observava em silêncio, querendo muito me aproximar e a envolver em um abraço apertado a fim de aquecê-la. Todavia, eu jamais me aproximei e permaneci em silêncio, esperando a chuva finalmente dar trégua. Entretanto, a chuva só piorou e Emma ficou impaciente demais e decidiu que caminharia assim mesmo, pois a distância até o seu carro era curta. Eu a impedi, a segurei pelo braço e disse que não a deixaria ir a nenhum lugar aquela noite.
Ela sorriu, segurando-se para não me beijar e me seguiu de volta a mansão, onde encontramos Henry, sentado no topo da escada. O garoto desceu rapidamente e abraçou sua mãe. Emma tinha vindo apenas para um jantar, que tradicionalmente costumávamos fazer nas sextas-feiras, desde que ela deixou de morar conosco. Henry odiava a parte da despedida e sempre insistia que ela ficasse, mas também respeitava sua escolha de ir embora.
Eu também odiava essa situação, mas não podia insistir que ela ficasse, para que ninguém suspeitasse que estava acontecendo algo entre nós duas. Pois, naquela época, ainda não tínhamos assumido nosso namoro e ninguém sabia que estávamos juntas. Na verdade, nem nós duas sabíamos se havia ou não um relacionamento.
Nós nos víamos algumas vezes no decorrer do dia, nos encontrávamos na prefeitura ou na delegacia, mas raramente estávamos a sós. Eu sempre tinha algo para fazer e a delegacia estava sempre lotada, ainda assim nós sempre achávamos um jeito de nos encontrarmos e sempre matávamos a saudade uma da outra com inúmeros beijos, até que uma de nós duas ficasse sem ar ou os beijos evoluíssem para algo mais.
Eu sempre a cortava. Eu nunca conseguia me sentir completamente à vontade, embora já a desejasse há algum tempo. Ela respeitava minhas escolhas, embora deixasse evidente em seu olhar o quanto ficava frustrada por ter que interromper o que mal havíamos começado.
Não sei por que eu a cortava, acho que uma parte de mim queria que nossa primeira transa fosse em um lugar especial, não em um fusca amarelo, em uma mesa de escritório ou até mesmo em um quarto de pensão. E eu agradeço por não ter acontecido tão depressa, caso contrário, nunca teríamos tido aquela noite chuvosa de Setembro.
Foi naquela noite que nosso relacionamento passou de beijos escondidos e frases não ditas para algo a mais. Pois, quando acordei ao seu lado, eu percebi que não existia outra pessoa no mundo além dela. Lembro que já não mais chovia na manhã seguinte, porém, o barulho da chuva contra a janela nos fez companhia durante toda a noite, juntando-se ao som de nossos beijos, de nossos gemidos e de nossas frases soltas.
Lembro que quando acabamos, a chuva já era fraca e eu deitei sobre seu peito e pedi mais uma vez que ela ficasse, assim como havia pedido antes. Recebi um beijo na testa e, em seguida, ela me virou para o outro lado da cama, explicando que precisava ir embora antes que Henry acordasse.
Emma se levantou, completamente nua, procurando suas roupas que haviam ficado pelo caminho. Parou um momento diante da cama, enquanto segurava sua jaqueta nas mãos. Ela queria ficar, mas sabia que não estávamos prontas para assumir esse relacionamento, mas até quando esconderíamos que gostávamos uma da outra? Nesse ponto da história, já não era mais um simples gostar, eu a amava e estava pronta para assumir isso, mas ao invés de dizer isso com todas as letras eu disse:
“Fica aqui até eu pegar no sono.” Ajoelhei-me na cama, abraçando-a pela cintura e recebi um beijo nos lábios.
“É claro que eu fico.” Foi sua resposta, se juntando a mim em seguida e fizemos amor pela segunda vez aquela noite. Quando eu acordei, lá estava ela ao meu lado e eu vi em seus olhos que já não havia medo algum de sermos descobertas.
“Fica aqui até eu voltar a dormir.” Pedi, quando ela finalmente abriu os olhos e me viu ao seu lado. Emma sorriu, se aninhou junto a mim e me beijou demoradamente antes de responder.
“É claro que eu fico.” Eu percebi então que essa frase era uma forma de dizer que eu a amava e era uma forma de ela dizer que me amava também.
Já faz tanto tempo agora isso, quase um ano que estamos juntas e a cada dia mais eu a amo. Cada dia mais eu acordo com a certeza de que é dela que eu preciso, de que é ela a única pessoa capaz de me ajudar a me curar por completo. Pois, às vezes, eu me sinto ainda tão quebrada, principalmente nesses últimos dias, principalmente por causa dos pesadelos constantes que eu tenho. É sempre o mesmo pesadelo, sempre me acompanha todas as noites e me faz acordar no meio da madrugada e me tira o resto do sono.
No pesadelo, eu me encontro em um campo aberto, estou completamente descalça, sinto a grama entre meus dedos e a terra gelada sob meus pés. Eu estou sozinha, sinto o vento batendo em minha pele e balançando o baby-doll negro que uso. Então, o cenário muda, já não era mais a grama verde que eu vejo e sim um campo aberto completamente tomado por corpos. Inúmeros corpos. Eu me assusto com o que vejo, tento recuperar o fôlego e tento acordar, mas mesmo sabendo que é um pesadelo, ainda assim eu não consigo despertar.
Grito em desespero e caminho por entre os corpos. São crianças, mulheres e homens. Todos mortos. Todos apodrecendo em minha frente. O cheiro toma conta do ar, eu já não mais vejo a grama verde e já não sinto mais o frio da terra, mas sim o calor do sangue que impregna em meus pés.
Eu grito cada vez mais alto, em uma tentativa frustrada de acordar, mas me encontro cada vez mais aprofundada em meu próprio pesadelo. Sinto cada vez mais aquele sangue e a terra invadindo meu corpo através de meus pés descalços. Eu sei que cada uma daquelas pessoas representa todas as mortes que eu causei. Eu sei disso porque, entre os corpos, eu vejo Graham e meu pai.
Não consigo encarar nenhum dos dois. Não consigo encarar a pele pálida que os dois têm, os lábios roxos, os olhos e bocas abertas, enquanto moscas rondam ao redor de seus corpos em decomposição. Embora eu sempre tente desviar o olhar, ainda assim a imagem dos dois me persegue. Eu quero sair. Eu quero fugir, mas para onde quer que eu olhe, lá estão os corpos, lá estão os mortos, lá está a morte.
Eu sou a morte.
Eu me ajoelho diante dos corpos, levo minhas mãos ao rosto e choro, pedindo perdão por todos os meus crimes. Eu já havia sido julgada e já havia me arrependido de todos os meus crimes, mas ainda assim eu sou assombrada por eles, ainda assim eu não consigo me desligar por completo, ainda assim eles me perseguem. Eu grito alto e pergunto o motivo pelo qual eu estou ali e escuto uma voz, que responde apenas: para se lembrar.
Eu me viro para a voz e encontro uma garotinha. Não é uma garotinha qualquer, sou eu mesma, uma versão de mim quando criança. Porém, uma versão diferente, pois, ao contrário de mim, ela não tem a cicatriz em seu lábio superior. A garota me encara em silêncio e eu me levanto, olhando para o campo aberto, que segundos antes estava tomado pelos mortos.
Eu lhe pergunto sobre o que eu devo lembrar e não obtenho resposta alguma. A menina se vira, me dando as costas e começa a caminhar pelo campo. Eu hesito antes de segui-la e a vejo partir. A cada pegada que ela deixa para trás, uma papoula vermelha vai surgindo. Aos poucos, todo o campo é tomado por essas flores.
Papoulas de um vermelho vivo balançando junto com o vento e exalando um perfume que vai tomando todo o ar, que antes era preenchido pelo cheiro dos corpos em decomposição. Eu resolvo segui-la, caminhando entre as flores e observando que todas elas estão apodrecendo. Todo o campo, aos poucos, vai sendo tomado por papoulas negras, completamente mortas.
Eu tento em vão trazer as papoulas de volta à vida tocando em suas pétalas que se tornam cinzas ao toque de meus dedos. Em desespero, eu corro em direção a garotinha, que segue até um mausoléu. O mausoléu de minha família. Ela para na entrada e se vira em minha direção, esperando que eu me aproxime. Eu hesito, pois temo o que encontrarei ali dentro.
Sua mão se estende em minha direção e, mesmo com medo, eu avanço, segurando sua mão contra a minha e a acompanhando. O mausoléu se difere do real, lá dentro tudo o que existe são paredes de concreto e nada mais além disso. Nossas mãos se soltam, ela caminha pelo lugar e eu tento entender o que está acontecendo. Eu enfim volto a encará-la, parada em um dos cantos do mausoléu, olhando para cima, me fazendo acompanhar seu olhar. Ali, havia uma placa de bronze, presa a parede, com a seguinte frase escrita: Memento Mori.
Eu finalmente entendo o que devo lembrar e procuro pela garota, que agora se ajoelha e toca o chão com apenas um de seus dedos. O seu toque cria no chão uma grande placa de gelo. Meus pés descalços sentem o frio que o gelo causa e eu grito em resposta. O mausoléu se torna todo de gelo e a menina enfim se levanta.
Seus olhos estão fixos no meu e eu a vejo pisar com força no chão, fazendo com que toda a estrutura do lugar rache e se quebre. Um vento surge levando tudo e eu me abaixo a fim de me proteger. Eu não sou atingida e me levanto quando tudo acaba. Tudo ao meu redor é neve.
Eu sinto o frio tomando conta do meu corpo, sinto minha boca tremer, os pelos do meu braço se arrepiarem e me encontro sozinha. A menina não estava em nenhum lugar. Eu caminho sozinha pela neve e meu caminhar é difícil, pois agora há uma tempestade de gelo tomando conta de todo o lugar.
Além de gélido, o vento é forte e a medida em que eu caminho a tempestade piora. Eu tento em vão caminhar, pois não vejo nada além do branco da neve a minha frente. Aos poucos, o desespero toma conta de mim. Eu grito pela menina ou por alguém que possa me salvar, mas em resposta eu recebo apenas o barulho do vento, cada vez mais forte.
Eu percebo que ninguém vai me salvar. Eu estou sozinha, presa no inverno, presa na neve. Aos poucos, eu sei que a tempestade vai me tomar por completo, assim como tomou todo aquele campo que antes havia ali. Então, surge um barulho, um barulho distante, que eu sigo, mesmo sem saber do que se trata. A medida que eu me aproximo mais do som, eu descubro sua origem.
É um choro. Um choro de uma criança. Um choro carregado do mesmo desespero que eu sinto. O choro aumenta, me fazendo olhar ao redor e avistar, ao longe, uma pequena figura se mexendo na neve. Eu me aproximo e noto um bebê, ainda na distância, enrolado em uma manta vermelha.
O bebê se mexe, chora cada vez mais alto e eu avanço em direção a ele, mas o vento é tão forte que chega a me empurrar para trás. Eu dou um passo à frente enquanto o vento me faz dar dois passos para trás. Eu consigo ver a criança e seu choro é a única coisa que me motiva a continuar essa luta contra a neve. Acima da criança se encontra a mesma placa de bronze do mausoléu, suspensa no ar, presa ao nada, mas ainda assim firme e forte. Assim como a mensagem que há nela.
Só há uma forma de vencer a neve e a tempestade. Com fogo. Eu me ajoelho, assim como a versão infantil de mim fez minutos antes e coloco uma de minhas mãos sobre o gelo abaixo de meus pés. Vejo o fogo tomar conta de todo o cenário a minha frente, vejo-o derreter toda a neve abaixo de meus pés, transformando a neve em chuva.
Nada agora me impede de avançar em direção ao bebê. Eu piso apenas em água e agora o frio é apenas da chuva. Porém, eu jamais alcanço o bebê, pois um barulho de metal rangendo me tira a ação e eu observo enquanto a placa, que ainda estava suspensa no ar, cai em cima da criança. Eu corro o mais rápido que posso, a fim de impedir o acidente, mas não sou rápida o bastante. Minha magia falha, meus pés não obedecem meu comando e o choro da criança, finalmente, cessa.
Eu sempre acordo nessa hora, completamente suada, completamente em prantos. Emma nunca me vê levantar e eu corro em direção ao banheiro, lavando meu rosto inúmeras vezes, em uma tentativa de tirar da memória o pesadelo que me persegue. Contudo, ele sempre volta no dia seguinte, sempre o mesmo, sempre com o mesmo final. Não sei o que fazer para acabar com ele, não sei também como seguir meu dia depois de acordar.
Eu só queria poder voltar a minha rotina, ao meu sono, pois isso está me afetando aos poucos e Emma está começando a notar. Ela sempre me pergunta o que está acontecendo e tenta me ajudar a dormir. Acontece que o sexo apenas me deixa mais relaxada durante a noite, mas é só eu consegui dormir que o sonho traz de volta toda a tensão.
Emma não era capaz de me ajudar, não dessa maneira. Por esse motivo, eu fui até Archie, pois acreditava que talvez ele pudesse me ajudar. Parei diante de sua porta, bati na madeira e aguardei o homem, que apareceu poucos segundos depois. Ele me encarou com uma expressão de surpresa em seu rosto.
“Regina.” Disse ele, depois que a surpresa passou e sorriu para mim. Eu sorri de volta, perguntando em seguida se eu poderia entrar. “É claro que pode.” Respondeu, dando passagem e permitindo que eu entrasse em seu consultório. “Eu já estava de saída, mas acho que posso reservar um tempo para uma conversa.” Continuou e caminhou comigo até o sofá.
“Acontece que eu não estou aqui como uma amiga. Quer dizer, eu acho que eu preciso da sua ajuda profissional.” Eu disse e Archie pareceu surpreso, se ajeitou no sofá e olhou para o lado, procurando por seu pequeno caderno e abrindo-o em seguida.
“Bem, sendo assim, eu devo dizer que fico muito surpreso com essa afirmação.” Disse ele, procurando uma caneta.
Pongo, que até então estava deitado, se aproximou de mim e colocou sua cabeça em meu colo, fazendo-me rir.
“Por que a surpresa?” Eu perguntei, enquanto acariciava o cachorro. “Eu já te procurei algumas outras vezes antes.”
“Sei que sim, mas você era diferente naquela época. Você era...”
“Eu era infeliz.” Eu completei a frase, ele apenas assentiu.
“É. Você era infeliz. Como você está agora, Regina?”
“Eu sou tudo, menos infeliz, se é essa sua pergunta. Eu estou muito feliz. Não é pelo meu estado de espírito que eu estou aqui. É por outro motivo.”
“Sobre o que é então?” Ele perguntou e começou a anotar algo em seu pequeno caderno.
“Eu ando tendo um sonho.”
“Um sonho?” Ele me questionou, franzindo o cenho.
“Na verdade, é um pesadelo. Um pesadelo constante. O mesmo pesadelo, repetidas vezes. Jamais acaba. Jamais muda e todas as vezes eu acordo com aquela mesma sensação de desespero, que se repete no dia seguinte.” Eu disse e ele me pediu para descrever o sonho.”
“Eu vejo todas as minhas vítimas em um campo aberto e me vejo criança. Uma versão antiga de mim, uma versão pura, sem cicatrizes, sem as mãos sujas de sangue. Os corpos se transformam em papoulas. Na verdade, a versão criança de mim transforma todo aquele cenário de morte em um campo completamente coberto de flores.
“Entretanto, a medida que eu sigo seus passos, eu transformo novamente em morte, em cinzas. Em seguida, nos encontramos em um mausoléu. No mausoléu de minha família. Ele se encontra vazio e a única coisa que chama atenção nele é uma placa de bronze em uma das paredes que me lembra a morte. A criança então transforma novamente aquele cenário, dessa vez em gelo e tudo a minha volta se torna neve.”
“Não é só a neve e o barulho da tempestade de gelo que eu escuto. Eu escuto um choro, tão desesperador quanto o que eu sinto. O choro pertence a um bebê, que eu tento salvar, mas eu uso o fogo para isso, que destrói completamente a neve ao meu redor e destrói também qualquer chance de eu resgatar a criança.”
Enquanto eu narrava a história, Archie fazia algumas anotações, balançando a cabeça em algumas partes e me encarando em outras. Eu tentei entender o que se passava em sua mente e esperei que ele me revelasse algo. Ele então fechou o caderno, arrumou os óculos no rosto e me encarou em silêncio.
“O que você acha que esse sonho significa?” Ele enfim perguntou e eu não precisei pensar duas vezes antes de responder.
“Que eu carrego a morte.” Eu respondi, ele novamente abriu o caderno e anotou mais alguma coisa.
“E por que você acha que existem duas versões de você no sonho? A Regina criança e a Regina adulta?”
Eu pensei então no meu pesadelo, refletindo sobre tudo o que ele representava. Eu não consegui pensar em outra coisa que não fosse porque uma delas carregava a morte e a outra não. Eu lhe disse isso e Archie novamente anotou algo em seu caderno e voltou a falar.
“Você gostaria de ser novamente aquela Regina?”
“Gostaria sim, mas eu acredito que eu a perdi naquele inverno.”
“O inverno do sonho?”
“Não. O inverno que me assombrou durantes anos. Antes era apenas uma lembrança esquecida e agora vem novamente à tona, como se eu vivesse novamente aquele dia.” Respondi e não era mais o sonho que eu tinha em mente, mas sim a lembrança de um dos piores invernos da minha vida.
“Vamos falar desse inverno, Regina.” Ele começou a dizer. “Mas, primeiramente, vamos falar das flores. O que você acha que elas significam?”
“Eu não sei.” Respondi, pensando a respeito. “Acho que são apenas flores.”
“Já ouviu falar sobre Flanders Fields?” Perguntou, eu lhe respondi que não. “É um poema de guerra. No poema, o poeta fala sobre papoulas vermelhas, como as papoulas de seu sonho. Papoulas vermelhas que nasceram por entre as cruzes dos soldados mortos.” Continuou a dizer e eu apenas fiquei em silêncio, esperando que ele concluísse. “Eu só estou lhe dizendo isso para que você entenda que, às vezes, a natureza encontra uma forma de trazer vida onde nós humanos enxergamos a morte. Nós temos a tendência de sermos destrutivos, a natureza, embora não pareça, quer apenas criar e trazer vida. Nós que de certa forma a humanizamos. Não sei se você conseguiu me entender.”
Eu conseguia entender. Eu entendi cada palavra, mas, sinceramente, eu não conseguia entender como isso me ajudaria.
“Você precisa aceitar que ainda existe uma versão de você que não é destrutiva, Regina. Sua real natureza é outra, sua real natureza é aquela que cria as flores e não aquela que as destroem.” Ele concluiu.
Eu me encostei ao sofá, refletindo cada palavra que eu ouvi, enquanto me perguntava como era possível aceitar essa minha natureza. Eu não via dessa forma, eu não me via assim há muito tempo.
“Como eu faço isso?” Eu perguntei. “Como eu me aceito dessa forma?”
“Acredito que a resposta está no inverno, não é mesmo?” Perguntou ele. “O que o inverno significa para você?”
“Foi em um inverno que eu ganhei essa cicatriz.” Eu respondi, levando um dos meus dedos em direção aos lábios.
“E como isso aconteceu?”
“Da pior forma possível.” Eu respondi em um tom que deixava bem claro, que eu não queria falar a respeito.
“Você não precisa me contar, mas eu acredito que isso me ajudaria a te ajudar a entender o sonho.” Respondeu ele, convencendo-me a falar sobre o inverno.
Eu me desencostei do sofá, o encarei, enquanto ele fechava seu pequeno caderno e o colocava sobre o colo. Pongo já não mais se encontrava ao meu lado e, por algum motivo, mesmo com Archie ali ao meu lado, eu me sentia só. Talvez aquele inverno tivesse mais significado do que eu pensava.
“Era inverno, o pior de todos eles.” Eu comecei a dizer, Archie tinha seus olhos fixos em mim.
“Eu tinha seis anos na época. O inverno rígido nos forçou a ficar trancados. Os cavalos ficaram em suas baias, as comidas estocadas e eu passava o resto dos meus dias presa no castelo. Completamente entediada, vendo as horas passar e a neve cair pela janela. Eu era apenas uma criança, mas ver todo o cenário do lado de fora completamente branco, fazia-me sentir da mesma forma. Fazia-me sentir vazia. O inverno foi acabando, a neve ainda caia, mas já era seguro sair lá fora.”
“As crianças dos criados passavam algumas horas do dia brincando na neve e da janela do meu quarto eu podia vê-las no jardim. Eu não podia me juntar a elas, minha mãe não me permitia, então eu apenas ficava a observar pela janela. Ela dizia que eu seria uma Rainha em breve e que eu não deveria me misturar a esse tipo de gente. Certo dia, eu a desobedeci. Aproveitei que ela estava dormindo em seu quarto e fui até o jardim.”
“Foram meses trancafiada no castelo, eu já estava esquecendo como era ser criança e aquelas poucas horas na neve trouxe esse sentimento de volta. Eu não me senti vazia naquelas horas, eu me senti feliz e o fato de todas as crianças me tratarem como apenas uma criança me encheu de alegria. Essa sensação sumiu, quando eu olhei ao redor e vi que as crianças já não mais brincavam. Elas estavam completamente paradas, como se fossem estátuas de gelo e eu pensei que era algum tipo de brincadeira, mas quando olhei ao redor vi que minha mãe estava parada na porta que dava acesso a cozinha.”
“Ela tinha uma das mãos abertas em direção as crianças e entendi então o porquê as crianças não se moviam. Eu não tive tempo de explicar o porquê eu estava ali, pois ela veio em minha direção e me arrastou para dentro do castelo. Eu gritava e esperneava, meu pai seguiu nós duas, mas não fez nada a respeito. Ela me levou ao meu quarto e me jogou em direção a minha cama. Ela gritava que uma rainha não se comportava daquela forma e eu a ouvia calada, segurando meu choro.”
“Quando por fim ela terminou de falar, eu me levantei, vi meu pai diante da porta do meu quarto e olhei para minha mãe. Ela tinha o olhar cheio de fúria e eu compartilhava do mesmo sentimento, por isso eu a respondi. Respondi aos berros que eu não queria ser uma rainha. No mesmo instante, ela levou sua mão em direção ao meu rosto, em me deu tapa, me fazendo cair no chão.”
“O anel que ela usava fez um grande corte em meu lábio. Ela me olhou do alto, me vendo no chão, com minhas mãos em minha boca, tentando estancar o sague que escorria do meu lábio. Em nenhum momento ela pensou sequer em me ajudar. Eu sabia o que passava na mente dela, eu sabia o quanto ela estava decepcionada comigo. Mas naquele momento eu só sentia dor, então chorei e não liguei mais para o que ela podia fazer comigo.”
“Ela saiu, sem dizer nenhuma palavra e eu passei aquela noite trancada em meu quarto. Não me permitiram descer para o jantar e eu passei o resto da noite olhando o jardim pela janela do meu quarto, vendo as crianças congeladas e mortas. Não consegui dormir aquela noite. As crianças assombraram meu sono e quando eu acordei, elas ainda me assombraram. Pois era só eu olhar para o meu reflexo no espelho e para a cicatriz que ficou em meus lábios, que eu as via em minha mente.”
“Não foi a cicatriz que marcou aquele inverno ou o fato da minha mãe ser tão intolerante. Foram as crianças e seus corpos congelados no jardim. Foi a minha desobediência e as consequências dos meus atos. Aquele inverno acabou, mas voltou no ano seguinte e novamente voltaram também as lembranças daquele dia.”
“Eu passei a evitar a neve, já não mais visitava o jardim, mas a inverno sempre voltava e demorava meses para ir embora. O que eu tinha que fazer era esquecer, esquecer aquele inverno, esquecer as crianças. Foi o que eu tentei fazer e com o tempo eu me esqueci completamente daquele inverno e da dor que ele me causou. Eu permiti que aquele incidente tornasse meu coração um bloco de gelo, mas eu esqueci que o gelo também queimava, então nem percebi quando meu coração de gelo se tornou cinzas.”
Eu concluí a história e vi Archie em minha frente, tentando encontrar palavras que fizessem sentido. Eu tinha lágrimas nos olhos, pois contar tudo isso em voz alta me machucou mais do que eu imaginei que machucaria.
Pongo tinha se aproximado de mim novamente. Era engraçado que apesar de ser o trabalho de Archie entender as pessoas, foi Pongo o único naquele lugar que soube realmente o que “dizer”, colocando sua cabeça em meu colo e chorando baixinho, como se compreendesse a minha dor.
Eu sorri em resposta e acariciei novamente sua cabeça, não sei se ele entendeu isso como um gesto de gratidão. De qualquer forma, ele permaneceu ali ao meu lado. Archie se aproximou também, colocando uma de suas mãos em meu joelho.
“Seu coração ainda é feito de cinzas, Regina?” Ele perguntou enfim, tirando sua mão de meu joelho. Ela sabia a resposta dessa pergunta, mas ainda assim eu respondi, mais para reafirmar para mim, do que para ele.
“Não.” Respondi. “Emma e Henry mudaram isso. Eu gosto de acreditar que não é mais meu coração que bate dentro de mim, mas sim o deles. O que quer que tenha restado do meu coração, agora está completamente enterrado junto aos corpos daquelas crianças.”
“Enterrado, mas não esquecido, não é mesmo?” Ele me questionou. Eu não o respondi e ele percebeu minha confusão. “Acho que é por isso que você tem esse sonho constante, Regina. Você enterrou muitas coisas naquela neve, não apenas seu coração. O que ficou enterrado lá?” Ele concluiu e eu entendi que o sonho não era para me lembrar da morte, mas sim do que foi perdido um dia.
“Minha inocência.”
“E o que a perda da sua inocência significou para você?”
“A perda de tudo, a perda de mim mesma.”
“E você acredita que foi culpa do inverno? Ou da neve? Você acredita que se fosse primavera ou verão, aquelas crianças estariam vivas hoje?” Ele me perguntou e eu percebi o que ele estava fazendo e o que significavam essas perguntas.
Não foi culpa da estação ou culpa da minha desobediência, foi culpa da minha mãe e da maldade que ela carregava dentro de seu coração. Foi culpa dela também que eu me tornei uma Rainha, para em seguida me tornar a Rainha Má. Foi minha mãe a responsável pelas minhas cicatrizes e aquele teria sido apenas um inverno normal, como outro qualquer, mas ela o manchou de sangue.
Ela tornou aquele branco de neve em um completo tom de vermelho sangue. O tempo, os pedidos de perdão, meu arrependimento, não seriam capazes de trazer o branco de volta aquele inverno. Ele estava esquecido e perdido. Durante anos, eu me culpei e culpei principalmente a neve, mas agora eu entendo que fora minha mãe e que eu não tinha motivo algum para me culpar.
“Não.” Eu o respondi enfim. “Eu não acredito que isso teria evitado as mortes.”
“Então por que você é tão relutante em se lembrar do inverno?”
“Porque eu tenho medo das novas cicatrizes que ele pode trazer.”
“Aquele inverno não trouxe só dores, Regina.” Disse em um sorriso e eu não entendi o porquê ele me disse isso. “Sabe disso, não é?” Continuou e eu balancei a cabeça em negativa. “Foi nesse mesmo inverno que Snow nasceu. Provavelmente você também se esqueceu disso.”
De fato, eu havia esquecido. Embora o pai dela tenha me contado essa história, inúmeras vezes, eu jamais prestava atenção e apenas sorria em resposta, porque eu odiava a forma que ele me contava. Odiava o sorriso que ele tinha no rosto, porque era uma memória feliz, era uma memória só dele e não me incluía em nada, só incluía Snow a mãe dela.
Eu era apenas uma ouvinte de suas histórias, pois eu jamais poderia dar a ele esse tipo de memória, ele teria que se contentar em reviver as histórias de sua esposa morta.
“Novamente a natureza fazendo seu trabalho e trazendo vida enquanto nós humanos insistimos na destruição.” Concluiu e ele não poderia estar tão certo, Snow era a prova de que aquele inverno não havia sido de todo o mal.
Foi graças a ela que Henry e Emma entraram em minha vida e, de certa forma, isso muda tudo, isso torna tudo mais fácil. Torna minhas lembranças do passado em algo novo, mas é claro que isso não justifica meus atos ou os de minha mãe.
“Você acha que é ela o bebê em meus sonhos?”
“Bem, só há uma maneira de descobrir.” Respondeu e eu perguntei qual era a maneira, ele apenas sorriu. “Deixe nevar.”
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Depois da sessão, eu voltei para a casa. Estava tão exausta e, para minha surpresa, não havia ninguém em casa. Fui até a sala, me joguei no sofá e liguei para Emma, que me disse que estava com Henry no cinema. Eu havia esquecido completamente disso, pedi desculpas e disse que podíamos remarcar outra vez.
Pelo seu tom de voz, ela estava bem chateada com esse meu deslize e, para piorar, eu havia perdido várias de suas ligações. Antes de desligar, ela me avisou que quando chegasse em casa nós conversaríamos, pois, sua sessão de cinema estava para começar.
Fiquei sozinha na sala, completamente exausta e sabendo que, no momento que eu pregasse os olhos, o pesadelo voltaria. Dessa vez eu sabia exatamente o que deveria fazer, não pensei duas vezes antes de me deitar no sofá e fechar os olhos.
O sono veio rápido, assim como o pesadelo. Novamente o campo aberto, os mortos, as papoulas e a versão mirim de mim mesma. Veio então o mausoléu, o gelo e eu escutei novamente o choro e novamente eu lutava contra a tempestade de gelo, contra meus pés afundando na neve fofa em direção ao bebê.
A placa de bronze ainda suspensa no ar e o vento gélido cada vez mais forte, cortando meu rosto. Eu dava um passo para frente e o vento me empurrava. Eu nunca alcançaria o bebê, então, eu parei e fechei meus olhos. Eu sabia bem que se eu usasse o fogo para parar o gelo, novamente eu perderia o bebê.
Quando abri os olhos, eu não tentei mais lutar contra o gelo, mas sim me juntar a ele. Então, eu levantei minhas mãos ao alto e ao invés de tentar parar a tempestade de neve, eu tentei controlá-la. O cenário ao meu redor mudou, já não existia mais a tempestade, apenas a neve, caindo lentamente e de forma ordenada, como uma fina garoa.
Na distância, eu ainda podia ver o bebê, agora bem nítido, já que não existia mais a tempestade. Acima dele, ainda havia a placa de bronze, suspensa no ar. Memento Mori, dizia a placa, que, aos poucos, foi tomada pela neve que caia, cobrindo completamente de branco a placa.
Eu caminhei até o bebê, que ainda chorava e me ajoelhei em sua direção. Eu peguei a criança nos braços, elevando meu olhar para a placa de bronze, que agora já não mais existia. A neve tomou conta da placa, tomou conta da frase e do seu significado. Em seguida, explodiu em milhares de flocos de gelo, caindo em minha direção. Flocos de gelo, completamente inofensivos.
O bebê em meus braços já não mais chorava. Eu toquei em seu rosto e ele sorriu em resposta ao toque. Era uma garotinha, seus cabelos claros, seus olhos azuis e seu sorriso para mim era como se me conhecesse ou como se me agradecesse por ter salvo sua vida. Eu sorri de volta, trazendo-a para perto de mim, a fim de protegê-la da neve que ainda caia.
“Você está a salvo agora.” Eu disse, sentando-me na neve, enquanto tentava aquecê-la com a própria manta que ela usava. O bebê respondeu em um resmungo, e eu percebi que eu não estava mais sozinha. Lá estava eu novamente, a versão pequena de mim mesma. “Eu não vou mais voltar a ter esse sonho, não é mesmo?” Eu perguntei, a criança caminhou em minha direção e se ajoelhou a minha frente.
“Você entendeu o porquê estava aqui.” Respondeu, ignorando minha pergunta enquanto acariciava o bebê em meus braços.
“É, eu entendi sim.”
O bebê dormia em meus braços e essa imagem durou apenas poucos segundos. Quando a menina se levantou, afastando-se de mim, o bebê em meus braços desapareceu da minha vista. Tudo o que restou foi a manta vermelha em minhas mãos, que agora estava repleta de penas brancas.
“Para aonde ela foi?” Eu perguntei a criança a minha frente, que deu de ombros, enquanto me respondia.
“Eu não sei.”
“Não vou mais voltar a ver nenhuma das duas, não é mesmo?” Perguntei e a menina se aproximou de mim, tocando em lábio, exatamente no local onde havia a cicatriz.
Ela se levantou, sorrindo para mim e respondeu que eu de fato não a veria, mas que talvez eu pudesse ver o bebê novamente.
“Como?” Eu perguntei.
“Apenas deixe nevar.” Ela respondeu e sumiu em minha frente.
Nesse momento, eu acordei. Dessa vez não houve desespero, não houve medo. Eu me sentei no sofá, sorri e descobri que alguém havia colocado sobre mim uma coberta. Olhei para Emma adormecida em uma das poltronas e me levantei, indo em sua direção.
“Hey.” Eu disse em um sussurro, enquanto tocava em seu rosto. Ela abriu os olhos e sorriu para mim.
“Não quis te acordar.” Respondeu. “E também não queria te deixar sozinha.” Continuou, me dando espaço para se juntar a ela na poltrona.
Ficamos então juntinhas, em uma poltrona apertada. Emma se virou para mim, me encarando e levando sua mão em direção meu rosto, acariciando minha bochecha e descendo até meus lábios.
“O que estava acontecendo com você esses dias, Regina? Você estava tão distante.”
“Eu não sei. Acho que eu precisava resolver algumas coisas do passado.”
“E eu não podia te ajudar?” Ela perguntou. Eu segurei sua mão, que ainda se encontrava em meu rosto e a beijei algumas vezes.
“Você me ajudou, Emma.” Eu respondi.
Ela mordeu o lábio inferior e eu a beijei, tirando-lhe a chance de falar qualquer coisa. Eu me levantei, estendendo minha mão e a convidando a me acompanhar. Eu a levei em direção as escadas, que nos levou até nosso quarto. Pelo caminho, ela foi me roubando inúmeros beijos.
Nós paramos na base da escada, o corpo dela pressionando o meu contra a parede, fazendo os quadros da parede balançarem, enquanto ela me beijava. Recebi pequenas mordidas em meus lábios, em seguida, sua boca desceu até o meu queixo, subindo novamente pelas bochechas e orelha e novamente descendo até meu pescoço.
A medida que seus lábios caminham pela base do meu pescoço, ela foi tirando o blazer que eu usava, deixando meu ombro exposto. Ela se afastou de mim, eu a encarei e vi que sua atenção estava voltada para a janela próxima a escada.
“O que foi?” Eu perguntei.
Ela não me respondeu, se afastou de mim e caminhou até a janela. Eu a segui, parando ao seu lado e notando então o que lhe chamou a atenção.
“Está nevando!” Disse, afastando a cortina. “Desde quando neva em Storybrooke?” Ela se virou para mim e caminhou em direção à porta, me fazendo segui-la.
“Desde quando neva em Setembro?” Eu a questionei e a segui até a entrada da nossa casa.
Ela ficou em silêncio, notando a neve cair lentamente do céu. Suas mãos em frente ao corpo, enquanto flocos de neve caiam em seus dedos. Em seu rosto, havia um sorriso bobo e eu a observei, tentando entender o que se passava em sua mente.
“Você lembra-se da primeira vez que viu a neve?” Perguntou ela. Eu balancei a cabeça. “Eu lembro.” Continuou e eu olhei ao redor, para os pequenos flocos de neve tomando, aos poucos, toda a grama de nosso quintal.
“E como foi?”
“Era Natal, eu estava na casa dessa família provisória. Eles sempre quiseram uma menina e então eles resolveram me adotar. Eu tinha sete anos, em todos os lugares que eu morei nenhum nevava. Aquele seria o primeiro. Eles tinham três filhos e todos eles estavam muito excitados com os presentes de Natal que ganhariam quando acordassem. Eu, porém, só queria saber da neve. Na manhã seguinte, todos eles correram para a árvore de natal e eu corri para fora, nem me preocupei em colocar um casaco ou botas para aquecer meus pés.”
“Foi um choque ver toda aquela neve branca na minha frente. Tocar na neve e senti-la com meus dedos foi a coisa mais incrível que já havia acontecido comigo. Eu me deitei na neve e passei o resto da manhã fazendo anjos na neve. Meus tutores esqueceram completamente de mim, me encontraram horas depois deitada na neve, quase roxa. Eu fui levada ao hospital, eu podia ter morrido de hipotermia, mas eu não ligava. Eu teria feito tudo de novo.”
“Depois desse episódio, meus pais provisórios não me quiseram mais e eu passei o resto da semana no hospital. Não foi tão ruim assim, eu passei o ano novo com pessoas incríveis e tinha gelatina e eu pude ver a neve caindo da janela enorme do meu quarto no hospital. Eu nunca me esqueci desse dia.”
Quando ela acabou, eu me perguntei como ela poderia achar essa história feliz. Como ela conseguia simplesmente ver algo bom em um episódio que poderia ter tirado sua vida e que a deixou – novamente – sem a chance de ter uma família? Acho que o inverno e a neve têm significados diferentes para nós duas. Eu prefiro suas memórias, prefiro as alegrias, os sorrisos e uma memória de um inverno feliz. Eu fui até ela e a envolvi em um abraço.
“Quer esperar a neve tomar conta de tudo? Eu posso fazer um chocolate quente e a gente pode sentar nas escadas da entrada, dessa vez com botas e um casaco grosso. Podemos acordar o Henry e então fazer anjos na neve.” Eu perguntei, ela se virou em minha direção, passando os braços ao redor do meu pescoço e me beijando. Nossos lábios se juntando aos flocos de neve que ainda caiam.
“É uma oferta irresistível.” Respondeu. “Mas, sinceramente? Eu prefiro o lençol branco da nossa cama ao branco da neve.” Completou “Podemos fazer anjos nela, o que acha?”
“Eu realmente prefiro a sua proposta.” Respondi, ela riu e me tomou novamente para um beijo, puxando minha mão em direção as escadas e nos levando até o nosso quarto, para a nossa cama e aos nossos lençóis completamente brancos.
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Eu não sonhei com a neve, com as flores ou com o choro do bebê. Não houve nada e eu acordei com Emma enroscada em meu corpo, enrolada completamente nos nossos lençóis brancos. Levantei e caminhei em direção à janela do nosso quarto e olhei para o quintal, percebendo que não havia mais vestígio algum da neve, apenas a grama, apenas o sol da manhã no céu.
Abri a janela, deixei a luz fraca entrar e o vento da manhã tomar conta do quarto e se misturar com o perfume natural que Emma exalava. Fui em direção ao banheiro, lavei meu rosto e voltei novamente para a cama, sentando sobre o colchão e me encostando a parede, enquanto observava Emma dormir.
Era sempre a visão que eu mais gostava e que sempre me acalmava de alguma forma. Ela viajaria com Henry daqui a alguns dias e confesso que não sabia como conseguiria dormir sem ela. Tentando cortar esses pensamentos, eu levei minha mão até seus cabelos, tirando seus fios loiros da testa. De repente, eu parei e notei que havia uma pena entre os lençóis.
Eu a segurei entre os dedos. Era uma pena grande, completamente branca, que fez com que eu me lembrasse do sonho e do bebê que eu segurei em meus braços. Embora a versão criança de mim tenha dito que eu talvez pudesse voltar a vê-la, uma parte de mim acreditava que isso não era possível, mas de qualquer forma, eu deixei nevar e talvez isso fosse o suficiente.
Usando a pena como um pincel, percorri o rosto de Emma, acordando-a. Ela sorriu com o gesto e se virou na cama, deixando seu corpo nu completamente exposto para mim. Eu continuei a correr a pena por todo o seu corpo, parando em sua barriga e soltando-a em seguida. Inclinei-me sobre ela e lhe roubei um beijo.
“Nós perdemos a chance de fazer anjos na neve.” Eu disse e ela sorriu, balançando a cabeça.
“Não tem problema.” Respondeu. “Acho que nós fizemos muito mais que anjos nessa cama.”
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