Amor de Cais

3 Uma tarde nostálgica


João José encarnava agora a nostalgia de seu antigo nome. Não estava de braços dados como fazia com Bala em seus tempos de meninice, mas andava lado a lado com seu antigo companheiro, cada qual tomando turnos numa cachaça. Riam e gritavam como nunca, aos olhos de estranhos, eram, sem dúvidas, verdadeiros loucos vadiando pelas ruas de Salvador.

Errantes, percorreram diversas ruas. Relembravam seus antigos planos conforme seguiam sem rumo algum. Bala explicava para Professor sobre o que tinha acontecido com os antigos Capitães da Areia — bem como alguns outros grupos de meninos de rua de outras cidades —, sobre como Alberto o influenciara ao logo dos anos e em sua jornada de lutas e greves.

Professor mais ouvia que falava, mas comentou uma coisa ou outra de sua vida de artista no Rio de Janeiro. Divertiram-se os amigos quando o artista fez imitações bêbadas de alguns compradores que mais gastavam para se fingir de caridosos e conscientes que qualquer outra coisa, dando ênfase especial em seus trejeitos falsos e impressões que tinham de frente para um quadro. Bala decidiu seguir com a teatralidade contagiante de Professor e narrou histórias e mais histórias de lutas que travou, das vezes que quase foi pego pela polícia e de quando Querido-de-Deus o salvou com golpes de capoeira como nos velhos tempos.

**

Pedro e João tanto andaram e tanto falaram naquela tarde, que a seu fim, decidiram ir para o areal, observar o sol se por. Estavam agora em silêncio, dividindo não uma garrafa, mas metade de um maço de cigarros.

— É batuta demais isso tudo, não é, Professor?

— Se é, Bala… se é. — respondeu, entre suspiros enfumaçados.

— Sabe que gosto daqui, num sabe?

— Sei sim, Bala. Que cá tem de história, tem de boniteza.

— Quantas tu já tombou aqui, hein? — Pedro perguntou numa espécie de nostalgia maldosa.

— Ah, tu sabe que nunca fui disso.

— Lembro que a gente se reunia e tombava umas pra tu…

Professor soltou um riso frouxo:

— Deixe disso, Bala. Tu sabe que sempre preferi uns livro…

Bala dessa vez abriu mão da maldade para gargalhar:

— E tu fez aquele meu retrato?

— Mas que retrato?

— Tu num te faz de leso, Professor! O retrato com meu nome, Capitão Pedro Bala, macho valente. — Bala disse tomando a mesma atitude de lutador com o braço estirado de muitos anos. Os dois riram como da primeira vez.

— Que memória da peste! — Professor concluiu depois de jogar mais uma de suas bitucas na areia.

— Pois hei de querer meu retrato, abestado!

Os dois seguiram se provocando por um bom tempo, mais precisamente, até as primeiras estrelas aparecerem no céu daquele areal. Deitaram-se cansados na areia morna e só levantaram-se para ir embora quando sentiram a cheia do mar. Professor explicou que não sabia por quanto tempo ficaria na cidade, que tinha voltado para “se inspirar”, e que precisava buscar algum teto pra dormir. Pediu, inclusive, que Bala lhe apontasse alguma pousada ou coisa do tipo, mas seu companheiro foi um tanto enfático quando disse que nenhum companheiro seu iria dormir em outro teto que não fosse o dele. Professor nem retrucou, porque conhecia Pedro, e conhecia-o bem. Sabia que o que ele tinha de porreta, tinha de cabeça dura, então aceitou o convite sem relutar.

**

— Porreta, Bala! — exclamou Professor assim que adentrou a casa de Bala.

— Batuta, né? Alberto me deixa morar aqui.

— Homem bom, esse Alberto.

Bala deu um pequeno suspiro:

— Companheiro bom. Tu também, Professor, tudo companheiro bom. Agora vou pregar o olho que tô num sono do cão.

Deram tapinhas nas costas um do outro naquela noite. Dormiram na mesma sala, cada qual jogado num sofá. Queriam acordar cedo no dia seguinte para que Bala visitasse com Professor o antigo trapiche — que sucumbiu, com o passar dos anos —, bem como a praça em que ergueram o velho carrossel do Nhô França. Podia não ter carrossel no presente, mas as memórias dos dois preencheriam o vazio. Passariam o dia todo andando, na verdade, só que desta vez com rumo.

Professor, por mais que tivesse gostado de vadiar com Bala, como muito já fizera, não podia se dar ao luxo de desviar-se de seu foco. Seria difícil, sim, mas deveria seguir revisitando sua terrinha para fazer novos desenhos e retratos. Difícil porque em suas pretensões de artista, tinha pré concebido a ideia de “um novo olhar sobre a Bahia”, mas com seu encontro ao acaso com o amigo tão antigo e querido de outros tempos, as lembranças daquela época voltavam com muito mais força e nitidez.