Amor de Cais
4 Estrela Dora e o olhar sob a lua.
Bala e Professor estavam mais próximos que em seus tempos de juventude. Duas semanas haviam se passado, a greve dos estivadores estava mais forte do que nunca e as autoridades finalmente se dispuseram a tratar de algum acordo. Professor, andava feito bobo pelas ruas e calçadas, tentando encontrar com seus olhos novos homens de capuz para que pudesse reinventar seus retratos. Deu de passar em rodinhas de samba, na rua das mulheres que Gato tanto havia perambulado, no areal, na biblioteca, mas de todos os lugares, o que Professor mais gostava de revisitar era o trapiche.
Não mais trapiche, e sim, um amontoado de pedras que denunciavam o que fora aquele local um dia. A ponte permanecia ilesa, mas as tábuas que a compunham perderam a cor. O trapiche virou, afinal, ruínas de um passado não muito distante. Bala havia explicado, um tanto revoltoso, que de certa feita a polícia descobriu a localização do trapiche e tratou de destruí-lo. Usaram marretas, porretes, picaretas e explosivos. Foi um verdadeiro caos e que ainda o abalava bastante. Por essa razão sempre que Professor ia visitar o trapiche, ia sozinho. Bala preferia evitar a raiva que sentia da polícia, que só aumentava no decorrer de sua vida.
**
Numa das tantas noites que tiravam Bala e Professor a conversar na varandinha da casa do líder grevista, sem saberem muito ao certo como se deu o assunto, os dois relembravam Dora enquanto compartilhavam uma aguardente.
— Tu gostava era muito dela, Bala.
Pedro sorriu, com um quê de tristeza em sua saudade e respondeu depois de um pequeno gole em seu copo.
— Ô… Mas tu também gostava, num era?
— Deixe disso, vá. Ela virou tua namorada.
— Nós ia casar, sabe, Professor? Mas tu gostava dela como namorada também.
— Ela me via de irmão, Bala…
Riram juntos e tilintaram os copos de vidro barato que mais soaram como uma batida numa madeira que o tilintar típico dos vidros.
— Ela virou estrela, sabe? Companheira batuta, tá lá no céu… — Bala falava com alguma dificuldade, encarando o próprio copo vazio.
— Companheira, é? — Professor sorriu, matreiro, enquanto enchia os dois copos até a metade.
— Companheira, sim. Companheira batuta.
— Um brinde a estrela Dora, Bala.
E brindaram.
**
Havia um quê de estranheza no olhar de Professor naquela noite. Falar de Dora com Bala certamente trouxe de volta alguns anseios que já havia sentido em outro tempo. Lá estavam os dois sentados, iluminados tão só pela lua e João José não tirava os olhos de seu companheiro Pedro. A garrafa de cana já estava vazia, bem como seus copos. Tinham entre os dedos cada qual seu próprio cigarro e Pedro tão distraído com o céu, não percebia olhos sobre ele.
Professor então, decidiu levantar-se, para buscar seu caderno de desenhos, explicou a Bala, que com o movimentar súbito, saiu de seu transe e perguntou ao colega pra onde ia. Não demorou muito para voltar com seu caderno e um pedacinho de carvão.
— Tu fica aí parado, vou fazer aquele retrato.
Não sabiam quanto tempo havia se passado, os dois se encaravam de tal modo que não podiam perceber o tempo passar. Professor, recostado na mureta da sacara, Bala, sentado a sua frente. Não admitiria, mas o artista estava tomando tempo extra sem seu retrato só para encarar seu objeto artístico por mais tempo. Perdia-se no detalhar da barba rala, ou nas chagas do tempo presentes nas rugas. Tomou tempo especial para desenhar o talho da cara de Pedro, que permanecia resoluto em sua pose austera.
— Melhor que estátua, Bala, melhor que estátua. — Professor comentou distraidamente.
Pedro tão somente assentiu com a cabeça.
Professor havia deixado os olhos por último, talvez por medo de encará-los por muito tempo, ou justamente por querer isso e deixar o melhor por fazer. Demorava mais tempo olhando que traçando as negras linhas no papel, e aparentemente, isso não incomodava seu modelo.
Quando finalmente terminou o retrato, Bala se levantou e ficou lado a lado com Professor.
— Ficou batuta, hein Professor? Tu é um artista, viu?
Agradecido com o olhar, Professor arrancou com muito cuidado a folha do caderno e estendeu-o para que Pedro pudesse pegá-la. No movimento, as mãos acabaram se tocando e nesse instante, cada par de olhos foi de encontro ao outro. O silêncio era solene, nem mesmo os malandros da rua estavam cantando naquela noite. Eram apenas Bala e Professor, sob luz do luar.
A bebida ainda percorria quente no sangue dos dois. Ainda não haviam passado o retrato. Ação de segundos transformou-se em algo que prendia-os no tempo. Professor naquele instante não podia mais conter toda aquela vontade que por muito tempo permaneceu adormecida. Ele se sentia levado pelo desejo, pela vontade de tomar as mãos de Pedro, os braços, todo seu corpo.
A mente de Bala vagueava entre aquela tensão proporcionada pelo pequeno momento e seus próprios princípios. Estava, contudo, ébrio o suficiente para deixar-se levar pelos ensejos da carne, batava apenas, um incentivo. E o incentivo lhe foi dado.
Professor jogou-se sobre o corpo tão desejado de Bala, caderno, folhas, retrato e carvão foram lançados ao chão e os dois homens se agarraram com todo o fervor. O beijo era tão selvagem quanto o apalpar de carnes que ambos exerciam. O silêncio de antes foi substituído por suspiros entrecortados e respirações pesadas. Bala se transformou em puro desejo e Professor se deixava guiar pelo companheiro que arrancava suas vestes num ritmo áspero e duro, ritmo esse que manteve-se noite a dentro.
**
Ao final da manhã seguinte, Professor foi o primeiro a acordar. Deparou-se com móveis bagunçados, roupas espalhadas, uma dor de cabeça e surpreendentemente, com braços envolvendo-o. Tudo o que acontecera pela madrugada reverberava em sua mente e acabou por ficar completamente acanhado. Sabia muito bem o que Bala pensava, tanto que muitos dos membros dos capitães da areia foram expulsos por serem passivos. Decidiu, então, levantar-se. Mais rápido que muito vendaval, juntou todos os seus pertences e foi embora. Bala sequer sentiu seu companheiro indo embora.
Quando Pedro acordou se deparou com o quarto vazio, suspirou com certo alívio. Não sabia o que pensar, muito menos o que diria caso Professor ainda estivesse ali. Decidiu, portanto, seguir com seu dia, como se fosse outro qualquer.
**
E Professor retornou ao Rio. Não reformou os homens de capuz que tradicionalmente fazia, mas muitos puderam notar sempre em suas obras um homem com um talho no rosto. Bala, por sua vez, seguiu tocando sua vida de líder dos estivadores. A greve finalmente chegou ao fim, depois de várias semanas e todos os companheiros seguiram com suas vidas, mesmo Pedro, que não mais conseguia encarar o céu pela noite: enquanto Dora era sua estrela, Professor, tornou-se lua.
Fale com o autor