ANA
1 Ana
Notas iniciais
ANA
Parte I
06:00 AM
Era de manhã cedo, mas o sol estava quente como se fosse meio dia. Ele castigava. A manhã era quente, o ar parado denso, assim como suas baforadas que também tinham um calor escaldante. A estrada era de chão esburacada de terra marrom e fofa, pois na noite anterior a chuva havia castigado. Dos dois lados da estrada, imensas florestas de eucaliptos pareciam não ter fim. O lugar era afastado de tudo, da cidade, das pessoas, do socorro.
A estrada marrom logo foi agraciada com rastros, pegadas, estas deixadas por uma garota, ou o resquício do que ela tinha sido um dia. Ela seguia lentamente, pois estava cansada e já andava há quase duas horas, percorrendo bons quilômetros. A garota segurava com firmeza uma faca de cozinha grande, faca com sangue já seco em seu fio. O rosto quase não se via, estava coberto pelo cabelo, desgrenhado e sujo de diversas coisas, como sangue, água, terra, suor. Os passos eram lentos, o cansaço não ajudava, assim como os tremores que percorriam seu corpo.
Ela se deu por vencida e se deixou cair no chão, ficaria ali mesmo, esperando a morte. Estava cansada, exausta, morrer seria um alívio mesmo. Já não tinha ninguém e morta não teria que conviver com as coisas horríveis que tinham acontecido com ela na noite anterior, as coisas pelas quais tinha passado. Caída no chão, a menina foi encolhendo-se em posição fetal. Sentiu os lábios secos, sentiu sede. Gostaria pelo menos de um pouco de água, morrer com sede seria mais horrível ainda. Estava dando-se por vencida, talvez se fechasse os olhos cairia logo nos braços da morte e não experimentaria mais dor e nem mais sede. Afrouxou os dedos que envolviam a faca, foi um alivio, tinha segurado o cabo da faca com tanta força e por tanto tempo que sentia os dedos já sem circulação e com calos. A visão da menina foi embaçando-se, escurecendo-se e veio a escuridão total.
Ana era um ponto na imensidão da estrada deserta.
Um dia antes
12:30 PM
O ônibus andava em uma velocidade média, às vezes chacoalhando com força, em decorrência da estrada de chão esburacada pela qual percorria, deixando uma extensa cortina de poeira de terra por onde passava. Bem no meio do ônibus, encontrava-se Ana, como de costume, com o rosto sempre enterrado em algum livro. Ignorando as demais crianças no ônibus, seus gritos, bagunças e, não raro, até piadas de mau gosto direcionadas a si.
Ana tinha recém-completos quinze anos de idade, era solitária, preferindo a companhia dos livros do que das pessoas de sua idade. Era vista pelos demais da escola como esquisita, CDF, e pelas línguas mais cruéis era apontada como masculinizada, por não se vestir ou se portar com tanta feminilidade quanto as outras meninas.
Ana suspirou, suspiro que demonstrava uma profunda tristeza, virou a página do livro e olhou pela janela do velho ônibus para ver onde estavam e se demoraria muito para chegar em casa. Olhou a paisagem rural e reconheceu. Concluiu que faltava cerca de quinze minutos de viagem para chegar ao seu destino. A viagem da escola até a casa de Ana levava cerca de uma hora.
Fazia cinco anos que ela morava no interior de sua cidade. Com dez anos de idade, após sua vó falecer, a mãe de Ana, Gabriela, decidiu que ela e a filha iriam mudar-se para o interior, para morar junto com o avô de Ana, que já tinha idade avançada e não poderia mais morar sozinho, sua esposa tinha vindo a falecer. Após dois anos morando na fazenda do avô, a mãe de Ana acabou se casando com um fazendeiro local (o qual Ana não tinha um bom relacionamento). O fazendeiro era um homem carrancudo do campo, de medidas grossas, um tanto mal-educado na maioria das vezes, seu nome era Paulo.
Ana odiava o lugar, não suportava o interior, o silêncio, os animais, as pessoas que viviam lá, a maioria muito velhas e antiquadas, sem educação e rudes. Também não gostava da escola, que ficava no meio do nada, assim como tudo naquele lugar. Odiava os colegas, odiava basicamente tudo em sua vida. A única coisa que salvava Ana eram os livros. Sentia uma imensa tristeza dentro de si, uma revolta se formava em seu interior, por ela viver naquela situação que tanto a incomodava. Morria de saudades da metrópole na qual vivia antes de mudar-se para a fazenda, sentia falta das luzes, da cidade que nunca parava, dos carros, das buzinas, do formigueiro de pessoas que andavam para lá e para cá, todas tão diferentes uma das outras, diferente daquele monte de povo do interior padronizado que a menina tinha que conviver.
Fechou o livro com força, já irritada. Olhou por cima do banco, sua parada logo ia chegar. Guardou o livro com carinho dentro da mochila e atou a grande cabeleira cacheada e armada em um rabo de cavalo, deixando cair apenas algumas mechas de seu cabelo negro. Colocou a mochila nas costas, apertou a campainha para descer do ônibus.
O motorista o parou e Ana nem sequer olhou para o velho, todo mundo sabia que ele era um pervertido e vivia “se engraçando” para as meninas.
Ela desceu do ônibus. Quando veiculo estava arrancando-se, um menino da turma dela meteu a cabeça pela janela e gritou:
— Até amanhã, sua machorra! – gritou o menino, Romário.
Ana pode ouvir as gargalhadas histéricas vindas de dentro do ônibus. Irritada, mostrou o dedo do meio enquanto o ônibus se afastava. Como ela odiava aquele caipira gordo do Romário! Que a vivia importunando, chamando-a de CDF, lésbica, masculinizada e coisas do tipo. A única coisa que lhe dava paz era saber que daqui uns anos estaria na universidade, construindo um futuro e ele continuaria naquele fim de mundo, plantando mandioca e alimentando aqueles bichos fedorentos. Ela não pertencia àquele local e não via a hora de ir embora, para mais longe possível.
Chateada e perdida em pensamentos, entrou na propriedade da família, empurrando o pesado portão de madeira, percorreu um caminho de vinte minutos a pé por uma estradinha apertada, de ambos os lados, da pequena estrada. Imensas florestas de eucaliptos existiam. A região toda era conhecida pelo cultivo de eucaliptos e para qualquer lado que se olhasse existia imensas floresta com grandes eucaliptos, que impediam a penetração do sol, fazendo com que os matagais fossem úmidos e sombrios. Tudo dentro deles era sem vida. A fazenda toda da família de Ana era rodeada por matas espessas.
Após percorrer os vinte minutos, adentrou na propriedade da família, uma fazenda de porte médio, com duas casas grandes, a da mãe e a do padrasto, ao fundo, a antiga casa do avô e da falecida avó. E mais ao fundo da fazenda existia um estábulo com alguns cavalos, galinheiro, chiqueiro, horta e uma grande plantação de milho.
Ao chegar à fazenda, como de costume, os cachorros da família começaram e latir e foram ao encontro de Ana. Eram em um total de seis. Eles pulavam à sua volta, latiam fervorosamente, abanado os rabos. A menina deu um leve sorriso, pois gostava daqueles seres de quatro patas.
Também como de costume, a mãe de Ana a esperava com o almoço pronto. O cenário era sempre igual. A mulher com seus quarenta anos estava sempre limpando algo, a cozinha, os quartos. Sempre reclamando estar cansada, porém jamais parava de limpar. Ana sabia que a mãe era obsessiva com os trabalhos de limpeza da casa. A menina tinha até uma teoria para o comportamento da mãe: achava que se ocupava limpando para não ter tempo de pensar no quão sua vida naquele lugar era infeliz e sem objetivo, era uma forma de fuga.
O avô era um homem muito velho, de quase oitenta anos, totalmente surdo que falava gritando. Em todo almoço, Ana tinha que escutar o rádio do avô, ele ficava em um canto da cozinha, com o rádio próximo ao ouvido, ouvindo músicas antigas, ou noticias enquanto comia.
O padrasto Paulo ficava sempre na ponta de mesa, empanturrando-se de comida, com o rosto quase dentro do prato, ele comia feito um animal selvagem, às vezes, usando as próprias mãos. Mastigava de boca aberta e fazia sons grotescos, lambia os ossos da carne. Aquilo incomodava profundamente Ana, que optava por não olhar muito para ele. Contudo, sentada em sua frente, não se conteve quando ele soltou um forte arroto.
— Você poderia ser menos porco, por favor? Eu também estou comendo! – falou ríspida.
Paulo soltou outro arroto forte, em resposta e olhou com raiva para enteada. Olhar este que a menina conhecia bem. O padrasto sempre a olhava com ódio, como se só sua existência o incomodasse.
— Eu pago essa comida, eu pago as contas dessas casas, eu sustento todo mundo aqui. Eu como e arroto do jeito que eu quiser, sua abusada, se você não gostou pega o rumo da cidade! – respondeu com a voz alterada, grossa. Ele falava alto e impetuosamente, cuspindo saliva.
A menina se sentiu humilhada, olhou para a mãe pedindo algum tipo de ajuda. Porém, a mulher, ao ver o olhar da filha, abaixou a cabeça de forma submissa e voltou a varrer o chão. Irritada e humilhada, Ana foi até pia jogando com força o seu prato. Olhou de novo para a mãe.
— Obrigada pelo apoio, espero que o teu marido sempre esteja do teu lado, do jeito que eu sempre estive e estarei. – falou, ressentida, sem esperar por resposta dela.
Subiu para a outra casa. A família comia na casa de baixo que pertencia ao avô. Deprimida, a menina marchou até o casarão, perguntando-se por quanto tempo teria que viver daquele jeito, em uma situação que a afligia por completo. Ela não pertencia àquele lugar, não se relacionava bem com ninguém, era completamente infeliz. De vez em quando, pegava-se desejando a própria morte.
***
23:45 PM
A noite havia invadido a grande fazenda. A escuridão era total, a não ser pelas poucas luzes que brotavam das janelas da casa de Ana. A casa do avô estava com as luzes apagadas, já que o velho senhor dormia cedo. O silêncio se instaurava naquela hora da noite, os poucos sons eram emitidos pelos insetos.
Todos dormiam, em seus respectivos quartos, menos Ana, que estava sentada em sua cama de solteiro, acompanhada pelos seus fiéis amigos de sempre: os livros.
Horas mais tarde naquela noite, antes de recolher-se para ir dormir. A mãe de Ana, foi atrás da filha, para uma conversa. Bateu na porta.
— Pode entrar. – respondeu Ana, sabendo que era a mãe.
A mulher de quase meia idade entrou timidamente dentro do quarto. Era muito magra, de aspecto envelhecido, que pouco sorria, parecia carregar uma grande tristeza dentro de si. Tinha os cabelos cacheados, traço físico que Ana herdou.
— Ana, aproveitei que o Paulo foi dormir para vir falar contigo sobre o que aconteceu hoje ao meio dia. – a mulher disse sentando-se na beirada da cama da filha.
— Aconteceu o que sempre acontece mãe, esse homem nojento pisa em cima de mim e você apenas escuta.
— Ana, você não entende, nós precisamos dele! Ele nos sustenta, sem ele viveríamos apenas com o dinheiro do seu avô, viveríamos na miséria!
A menina sentiu o estômago revirar. Um sentimento de nojo pela mãe começou a invadir. Perguntava-se como aquela mulher poderia ser sua mãe.
— Então eu tenho que aturar esse tipo de humilhação por causa de dinheiro? – respondeu, indignada, quase gritando – Eu tenho que viver em um lugar que odeio, com gente que odeio por causa de dinheiro? Você já pensou em trabalhar, mãe? Em não estar sempre dependendo de algum homem?
A menina sentiu a mão pesada de sua mãe em seu rosto e ficou extremamente quieta, não reagiu nem ao menos chorou. Já esperava aquele tapa. Os tapas da mãe sempre vinham quando as verdades eram jogadas em sua cara. Os casos de sua mãe eram frequentes e a menina passou sua infância e adolescência toda tendo que aturar homens iguais a Paulo, pelo simples fato de eles sustentarem a mãe.
— Seu pai não dá um tostão de pensão! Como se atreve a falar assim comigo, sua ingrata! – a voz da mulher era ríspida e cheia de raiva. – Como eu vou te dar comida e essas merdas de livros que você lê?
— Você devia ter pensando nisso antes de abrir as pernas e me fazer. – respondeu.
A mãe tentou estapear a filha mais uma vez. Porém, desta vez a menina a segurou com força pelo pulso e a encarou com ódio nos olhos.
— Vá dormir com aquele ogro e me deixe em paz, me deixe ler a porra do meu livro! – a voz de Ana era recheada de amargura, acidez e ódio reprimido.
A mulher se desvencilhou da menina, levantou-se abruptamente, mas antes de sair respondeu:
— Eu irei te entregar para o teu pai! – ameaça que sempre prometida e jamais cumprida.
— Isso seria um presente!
Enraivecida, a mulher fechou a porta com força, deixando Ana sozinha.
A garota se recuperou da discussão e focou na leitura, acomodando-se na cama, tentando deixar todos os sentimentos negativos de lado.
Após alguns minutos de leitura, fez uma pausa, pois sentiu sede. Levantou-se e caminhou descalça até a cozinha. Tomou um copo de água. A noite era quente, o que obrigava Ana a vestir regata e shorts largos. Um barulho começou a sucatear o teto da casa. Era a chuva despencando de repente, com força. Um breve sorriso apareceu nos lábios da jovem de cabelos cacheados. Sorrisos eram acontecimentos raros na vida de Ana. Ela amava chuva.
Antes de a menina devolver o copo à pia, a luz da cozinha e de seu quarto apagaram-se, deixando o local em completa escuridão.
— Ah não! – queixou-se para si mesa.
Falta de energia era frequente na zona rural, principalmente quando chovia. A menina se chateou profundamente porque o sono ainda não tinha chegado e queria continuar a leitura. Ela possuía lanterna, mas ler com pouca luz a incomodava. Decidiu ir até seu quarto pegar a lanterna para se aventurar na chuva. Descendo até a casa do avô, onde ficava os disjuntores, às vezes, eles se desligavam sozinhos sem motivos aparentes.
Ana arrodeou a casa, enquanto a chuva forte e gelada não perdoava, continuava a cair, deixando a menina ensopada em pouco tempo. Quando finalmente chegou ao local do disjuntor, surpreendeu-se levando a mão até a boca que se escancarou chocada. Os fios estavam cortados. Alguém os tinha cortado!
Tremendo, olhou em volta, iluminando com a lanterna. Tentou fazer silêncio, não escutou nada, nem viu nada. Ela tremia. Pensou mil possibilidades. Mas a que a mais pareceu provável, seriam ladrões. Assaltos no interior eram muito frequentes, principalmente de ladrões de gado, que invadiam as propriedades e roubavam os animais.
O silêncio foi quebrado. Um grito estridente veio da casa do avô, ecoando pela fazenda toda. Ana reconheceu o grito, era do seu velho avô.
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