A luz no fim do túnel é um trem bala.
8 Capítulo 8
Cosete mortificada escutava Luana andando de um lado para o outro falando de maneira exasperada balançando os braços erguendo o tom de voz. Em situações normais já tinha reagido ao estado de nervos da amiga ficando igualmente ansiosa, mas não agora. Cosete conseguia ouvir sem sentir nada, uma clareza estranha brotava em sua mente, com a ausência de emoções tudo o que sobra para o cérebro é uma lógica fria. O pequeno conselho foi reunido na casa de Minerva, as três estavam no quintal dos fundos da grande casa da prima de Luana, que bebia um copo de uísque enquanto ouvia atentamente a prima fazendo um buraco no chão de tanto andar em círculos pelo gramado.
Ela tinha transado com Enzo.
Luana se corria por culpa, tentava desesperadamente buscar um apoio, alguém que dissesse palavras gentis, que pudesse ficar do seu lado, achar uma justificativa por que a própria não conseguia. Cosete ouvia os detalhes de como aquilo havia acontecido. Após um treino Enzo a convidou para conhecer seu apartamento, não houve bebidas, nem qualquer tipo de entorpecente, somente uma simples conversa turbinada pelos hormônios. O resultado foi fatal.
“Não é racional”. Pensou Cosete, ela conhecia bem a amiga para saber que não tinha planos de que aquilo aconteceria, não realmente era má o bastante para fazer o que fez com Enzo magoando eternamente Luís. Aconteceu. Só. Cosete entendia que aquela conversa era besteira, que a amiga esportista estava se sentindo culpada por algo inevitável, Luana teve várias chances de parar, se afastar. Foi aconselhada a isso, foi avisada que se permanecesse muito perto do fogo se queimaria. Um engodo cruel da realidade mostrava o quão nojenta Luana foi descendo a tal nível, claro, ela nunca diria isso. Sua mente estava anestesiada, em estado de transe pelos seus próprios dramas, por isso por mais que achasse as palavras da amiga uma besteira sem proporções Cosete não tinha intenções de julgá-las, não dava a mínima para Luís e também não era um ser humano perfeito para jogar pedras.
Realmente o que houve com Luana não pertencia ao mundo da razão, quase todas as pessoas são assim. Em nome do prazer imediato a grande maioria delas abdica de algo que sabe que lhes faz bem, mas não tem como resistir. E por que resistir? A vida é curta para não aproveitar ao seu máximo pegando todas as oportunidades que conseguir? No fim Luana estava agindo exatamente como Minerva previa. Certo e errado é definido pelo nível de prazer que um lado ou o outro é capaz de proporcionar. Por que Luana tinha que resistir? Por que se sacrificar em nome de um namorado tedioso e ruim de cama? Ele era legal e a entendia, então podiam ser amigos, mas com o namoro iniciado essa linha já não retrocede.
O que resta para Luana?
— Continue com os dois – disse Minerva — você pode largar o Luís e ficar com Enzo, mas tem certeza que ele te quer pra namoro sério? Você quer ele para namoro sério? Por que sejamos sinceros, ambos já têm o sexo. Para que o lance de namoro? Carência? Necessidade de alguém para conversar? Exigências? Pressão? Estresse?
— Alguém para te apoiar quando o mundo parece querer te foder? – Cosete disse sem perceber com a mente estagnada – alguém para catar seus pedaços quando tudo está uma merda? Alguém que te dá um abraço dizendo que está tudo bem mesmo que nada vá ficar bem e mesmo assim você implora por aquele abraço e aquelas palavras?
Luana e Minerva olharam para Cosete, os olhos arregalados e um silêncio sepulcral instalou-se por alguns segundos. A própria Cosete não percebeu o clima e continuou a falar:
— É tudo pela carência e pelo egoísmo. É justamente por que queremos e precisamos de alguém. Por que enfrentar a porra do mundo sozinho é cruel. Alguém com quem você possa conversar, que vê em você algo além da superfície que temos que sustentar para a porcaria da sociedade. Ninguém quer encarar essa merda toda sozinha, ninguém quer chegar na velhice amargurado em uma casa vazia e silenciosa.
Luana começou a chorar sendo ainda mais atormentada pelo que fez. Minerva suspirou e tentou acalmar a prima dizendo que ela não sabe se cometeu o pior erro de sua vida. Talvez Enzo seja o homem que vá fazê-la feliz, preencher o que Luís não dá conta. E mesmo que não seja nenhuma dos dois ela ainda é jovem e haverá muitas chances de encontrar o homem certo.
Ao cair da noite Luana e Cosete estavam indo embora juntas quando a moça loira inventou uma desculpa dizendo que precisava ir a outro lugar e quando Luana se afastou ela deu meia volta retornando para a casa de Minerva que a esperava na frente do portão, braços cruzados cigarro na boca e uma expressão muito séria. Em determinado ponto da noite, Cosete havia recebido uma mensagem no celular, Minerva estava dizendo para ela ficar quando a prima fosse embora.
De volta ao quintal dos fundos, Cosete puxou uma cartela com uns comprimidos, retirou um pegando um copo de água e o tomou. Minerva a observava em silêncio enquanto tragava seu cigarro.
— Com dor?
— Alergia. Estou me coçando há dias, acho que deve ser o amaciante de roupas.
Minerva franziu o cenho balançando a cabeça na negativa, terminou o cigarro e jogou a bituca no chão.
— Ok, desembucha pirralha. O que houve de tão grave para você agir igual uma máquina sem emoção usando palavras como um arpão para acertar o coração da sua melhor amiga?
Cosete queria muito contar para alguém, contar o que tinha acontecido. Desejava desembuchar, só que não podia ser para Luana, não podia arriscar falar com alguém que conhecesse Íkaros. Ontem ela estava até cogitando procurar um psicólogo, pagar por uma sessão unicamente para falar sobre a experiência assustadora pela qual passou e ele por obrigação profissional não poder revelar para ninguém. Porém, talvez essa senhora divorciada e desiludida com a vida sirva ou talvez não. Luana confia em Minerva e Cosete, apesar do orgulho resistir o máximo possível, também estava confiando.
Ela disse tudo, com detalhes. Em determinado ponto sua ansiedade foi ficando pior e a coceira no corpo aumentando, Minerva buscou um pouco de rum e um copo pôs um filete da bebida dizendo para ela beber que ajudaria a acalmar. A adolescente aceitou sentindo a garganta arder.
— Meu corpo coça, eu não durmo direito há três dias. Estou usando toneladas de maquiagem no rosto para esconder as olheiras, tento disfarçar meu comportamento para meu pai porque se ele souber é capaz de prender Íkaros ou dar uma surra nele sei lá!
— Achou as câmeras? – perguntou Minerva, séria.
— Não! – Cosete quase gritou – revirei meu quarto e banheiro de cima abaixo, quebrei o espelho, cortei meu colchão, joguei fora as lâmpadas, bati com uma vassoura em cada ponto das paredes esperando achar alguma camuflada. Levei meu celular num técnico especializado e ele disse que não era possível hackear a câmera, era possível ter acesso aos aplicativos e a galeria, mas daí usar a câmera para filmar ou gravar conversas à distância ele nunca tinha ouvido falar. Porra, eu esfaqueei todas minhas pelúcias procurando algum aparelho neles. Nada!
Minerva cruzou os braços, seu olhar estava vidrado em Cosete.
— Eu ia dizer para usar a conversa no aplicativo para ir à delegacia, mas com o conteúdo que você me mostrou ninguém vai levar a sério. Também não tem nada que realmente mostre algum crime do garoto, é quase como se vocês estivessem fazendo algum tipo de jogo.
Cosete a encarou com os olhos arregalados.
— Ele acertou o que eu estava pensando! PENSANDO!!!! Isso deveria ser impossível! Digo, mesmo que existe a chance de acertar, seria muito mais fácil ganhar na loteria!
Minverva refletia. Pegou o uísque que bebia e colocou até na metade do copo, bebeu um gole e balançou a cabeça na negativa.
— É tarde demais para eu dizer que você não se envolver por certos tipos de pessoas se quiser preservar sua segurança: tipo um traficante ou um homem psicologicamente perturbado que tem dupla personalidade sendo uma delas uma mulher.
— Foco Minerva, foco! O que eu faço?
— Você bloqueou o contato dele, mas esse rapaz já tentou entrar em contato com você de outra forma?
— Não. Mas eu evito ir na casa de Luana ou da avó de Luís para não correr o risco de topar com ele. Estou assustada.
Minerva tomou outro gole do líquido âmbar.
— Deixe isso para lá.
— Como é?
— Você cortou contato e ele não foi atrás de você. Está tudo bem, certo?
— Porra mulher você escutou o que eu disse? A Violeta disse que eu ia me arrepender de quebrar um acordo com ela! Ela é ele, digo, Violeta é Íkaros e eu fui ameaçada!
Minerva coçou a cabeça.
— Conte a seu pai. Ele é policial, diga que você foi ameaçada. Não mostre as mensagens, só diga. Ele e os colegas podem... sei lá, dar um susto nesse rapaz e resolver isso.
Cosete observou o copo entre suas mãos na mesa.
— Não quero fazer isso, digo, se o transtorno dele é real então eu estaria machucando alguém doente...
— Então você tem duas opções, fazer o que eu disse agora pouco ou conversar com Íkaros. Se o transtorno dele é real, diga que Violeta a ameaçou. Se o garoto foi metade do que você me disse que ele é, talvez dentro de sua cabeça ele possa apaziguar os ânimos com seu alterego. Caralho, que situação bizarra.
E bebeu o restante no copo. Cosete levou as mãos à cabeça depois voltou a se coçar.
***
Uma semana havia se passado, Cosete não teve nenhuma notícia de Íkaros, e aos poucos o medo e o receio iam diminuindo com sua vida seguindo na normalidade usual... ou quase isso.
— O que é isso no seu rosto? – perguntou Tereza.
Estavam no colégio, na hora do intervalo os alunos se dividiam nas famosas panelinhas, espalhando entre seus nichos formando as ligações com aqueles que partilhavam os mesmos gostos ou quase isso. Ali, Cosete se reunia com Luana, Tereza, Janete e Brenda para lancharem dentro da sala enquanto fofocavam sobre os mais diversos assuntos, contudo:
— É um terçol.
Uma inflamação havia aparecido em seu olho direito, tinha começado só com um vermelho fraco e um inchaço imperceptível, mas em uma única noite, quando a loira despertou estava com um inchaço quase do tamanho de uma bola de ping-pong e doía. Tereza se aproximou tentando tocar quando foi segurada por Janete.
— Parada aí. – ela olha para Cosete – nunca vi um terçol aparecer dessa forma, ontem não estava tudo bem?
Cosete respirou fundo. Disse para não se preocuparem e que ia no médico.
Ela foi, ele prescreveu remédios e a moça tomou. Mais dias foram se passando. O terçol do olho direito melhorou, mas uma conjuntivite no esquerdo apareceu. Cosete tratou dela. Um dia enquanto corria pelo parque na sua habitual malhação tropeçou na própria perna e levou uma queda de cara no chão machucando o nariz, seu pai deu uma olhada e disse que não estava quebrado só que ia ficar inchado além dos pequenos cortes na pele que tinham inflado dando a pele perfeita de seu rosto um vermelhidão.
Cosete sempre teve o hábito de lavar louça vendo ou ouvindo alguma série de televisão, adorava as tramas policiais, mas também se derretia por romances e nos últimos tempos tem se dedicado a obras coreanas. Ela enchia a pia com água e detergente, mergulhava a louça para ir amolecendo os restos de comida e botava o celular sobre a fresta da janela que ficava de frente a bancada. Nesse dia em questão, um trator fazia obras na rua de sua casa e o chão, as paredes e as janelas tremiam com o impacto dele contra o asfalto e sem aviso prévio seu celular deu pulinhos pela fresta e mergulhou na pia cheia de água e sabão.
Suicídio. O aparelho nunca mais ligou.
Cosete juntou suas economias para comprar um novo e conseguiu, mas as fotos e todos os arquivos nele se foram, não conseguiu fazer o backup dos aplicativos e deu adeus a mais de 200 fotos que originalmente eram 10 mil, mas após um longo processo seletivo de horas ela escolheu as duzentas melhores para deixar em seu aparelho. Nem mesmo compartilhou no instagram, aquelas poses de seu corpo com aquelas determinadas roupas eram perfeitas demais, Cosete às vezes olhava para elas como uma sessão de terapia para aliviar o estresse.
A conjuntivite tinha sarado, mas percebeu que espinhas cada vez maiores e mais insistente estavam brotando em sua face límpida. Tudo bem, nada que um removedor de espinhas e cremes possa resolver. As mulheres desenvolveram a tecnologia para tratar a pele, Cosete tinha um exército pronto para qualquer emergência de beleza.
Sua alergia ia e vinha. Às vezes ela empolava ficando um rastro de vermelhidão, outras vezes sumia deixando apenas a coceira. Também notou que estava perdendo muito mais cabelo do que era natural. O ralo de seu banheiro e a fronha de seu travesseiro ficavam cheio de fios deprimidos que pediram demissão de seu couro cabeludo aos montes. Contudo o choque veio no 17° dia. A gota que transbordou o copo, a faísca tímida que alastrou o incêndio para destruir a floresta: a balança.
Cosete tinha engordado. Isso nunca aconteceu desde que passou a regrar cada coisa que comia e cada km que corria. Não era possível estar engordando. Seu estresse piorou, fez dieta intermitente, aumentou o tempo na academia. Uma semana depois voltou a balança e os números mostrados a ela a deixaram louca: tinha engordado novamente.
— Impossível! Essa porcaria tá quebrada!
Correu até a farmácia mais próxima, tirou os chinelos e foi com um conjuntinho de roupa bem leve. Assustou-se, pois, a balança da farmácia mostrava um peso superior à casa. Desesperada, a coceira voltou. Manteve o regime, não conseguia dormir por causa da fome e da coceira, graças a isso suas espinhas estavam aumentando, o cansaço gerou falta de paciência e a fez brigar com uma das amigas por um assunto trivial. Uma semana depois voltou a balança.
Havia engordado de novo.
De joelhos ela levou a mão ao rosto quase chorando quando sua memória atiçou uma lembrança: a mensagem de Íkaros falando que Violeta havia dito que Cosete se arrependeria de quebrar uma promessa com ela.
— Ela me amaldiçoou? Sim! Sim, só pode ser isso! – já com os parafusos de sua mente se soltando por mais de um mês naquele estado de azar a loira arregalava os olhos com tal intensidade como se tivesse descoberto a origem do universo após um grande cálculo quântico — sim! É isso! Ela soube que eu menti e me amaldiçoou!
Rindo de maneira histérica, uma parte de sua sanidade voltou e ela se recompôs. Era tudo besteira, maldições não existem. Fazia mais de um mês que tinha conversado com Violeta e Íkaros, nesse meio tempo não teve nenhuma notícia dele, Luana falava ocasionalmente de Luís, e nos poucos momentos que mencionou o garoto de nome grego era superficial. Íkaros nunca foi atrás dela, nem mesmo pediu para Luís intervir buscando um contato indireto. Uma parte da mente de Cosete pensava que um dia Luana iria chama-la para falar algo porque Íkaros tinha pedido, mas esse dia nunca chegou.
— Está tudo bem. Eu cortei contato e ele se afastou.
Recuperando-se, respirou fundo e deixou tudo aquilo pra lá exatamente da maneira que Minerva tinha sugerido.
Então, num belo dia em que andava pela rua seu celular novo tocou, ela o puxou do bolso ele escorregou da mão e caiu certinho em um bueiro desaparecendo para sempre. Cosete ficou petrificada na calçada olhando para o buraco escuro por onde o aparelho tinha sumido. Seu mundo havia congelado, a realidade finalmente havia cedido e sua mente entrou em curto. Ela quis chorar, quis gritar. Nada mais adiantava.
Seu pai havia deixado claro que uma vez que começasse a receber mesada não poderia mais pedir presentes, salvo aniversário. Queria comprar algo caro? Que trabalhasse ou economizasse do dinheiro que ele lhe dava. Cosete tinha torrado até o último centavo de suas economias naquele aparelho e faltava meses até seu aniversário.
Ela morreria sem um celular.
Há momentos em que a razão é deixada de lado. Há momentos em que você coloca tudo que é certo e concreto para escanteio, dá o famoso foda-se e decidi por uma atitude drástica, irracional e desesperada. Cosete saiu correndo, correu em direção a casa da avó de Luís, achou o jovem lá jogando videogame com Fernando. Cosete o pegou pelo braço e exigiu saber a localização da casa de Íkaros. Luís não estava entendendo nada, mas tinha ficado assustado com a expressão da loira. Desconcertado disse onde o alvo morava. Cosete pagou um uber e foi até lá, apertou o botão do interfone, a voz de uma mulher mais velha atendeu.
— Sim?
— Boa tarde, meu nome é Cosete sou amiga de Íkaros. Ele tá em casa?
A mulher abriu a porta e atendeu a garota que foi o máximo educada que pôde em meio a pressa que sentia. A senhora era mãe do rapaz e disse que ele estava em seu quarto, Cosete então agradeceu e correu em direção ao corredor abrindo todas as portas até achar a certa. Num rompante violento achou o garoto sentado em uma cadeira de fibra ao lado da cama lendo um livro. Íkaros reagiu surpreso fechando o livro e ficando de pé.
— Cosete? O que houve?
Ela apontou o dedo para ele.
— Cale a boca!
Fechou a porta atrás dela numa batida e girou a chave. Encarou o desconcertado adolescente por vários segundos, respirando fundo tirou a camiseta de alças que usava jogando-a no chão e com a mesma velocidade e determinação fez com o sutiã.
Lá estava. Controlando todo o ímpeto de vergonha e humilhação Cosete se expôs parcialmente para o jovem. Cerrando as mãos em punho ela não conseguia olhar diretamente para seu rosto, preferiu virar a cara e olhar para o lado na direção de uma estante de livros.
— Cosete... eu não entendo... o que é iss-
— Só cale a boca e olhe bem para eles. Olha, maldição só dê uma boa olhada!
Ela continuou focada nos livros da estante, sentindo as bochechas ferveram de tanta vergonha. Não tinha planejado nada daquilo, não sabia quanto tempo exatamente deveria deixa-lo apreciar com a visão de seus voluptuosos seios, por isso só decidiu ficar quieta, parada ali.
Então Íkaros surgiu em seu campo de visão, ele foi para o lado e segurava o lençol de sua cama, o esticou de modo carinhoso pelos ombros da garota para cobrir seu torço.
— Está tudo bem – disse ele de forma gentil — vamos conversar, o que aconteceu?
Segurando o lençol para cobrir seu busto, Cosete encarou o rosto de Íkaros, não havia nenhum traço de vergonha, sequer tinha ficado corado, ela arriscou olhar na direção de seu short para identificar um aumento no volume daquela região, nada. Íkaros não havia reagido ao corpo de Cosete exatamente como Violeta tinha dito.
Finalmente sua força cedeu e ela caiu sentada no chão se cobrindo mais com o lençol. Primeiro Cosete sorriu de maneira psicótica, depois balançou a cabeça na negativa enquanto buscava uma ordem para a torrente de pensamentos que turbinavam sua cabeça.
Por fim chorou.
***
Íkaros havia se virado para que a moça pudesse pôr o sutiã e a blusa novamente, depois deu a ela uma cadeira e se sentou em sua cama. Cosete estava entorpecida, fragilizada e decidiu contar tudo para o rapaz. O lance com Violeta, a aposta. Acabou revelando também morrer de medo dele por acha-lo um louco com dupla personalidade, disse que não acreditava que a Violeta fosse real porque tudo mundo dizia que ela não era. Cosete também foi bem detalhista no último mês em que viveu, parecia que tinha sido amaldiçoada. A sucessão de infortúnios foi tamanha que ela havia chegado na conclusão que o único jeito de sair daquele inferno era cumprindo a aposta feita com Violeta. Violeta tinha acertado as três adivinhações e agora Cosete havia pago a dívida.
Íkaros escutou tudo calado, era de uma atenção e paciência dignos de buda. Quando por fim terminou, a rapaz juntou as mãos e respirou fundo.
— Cosete, Primeiro: Violeta não é nenhuma bruxa capaz de amaldiçoar os outros. Ela nem mesmo é uma paranormal psíquica capaz de ler mentes, bem, eu não posso falar muito disso porque ainda não a conheço o suficiente, mas desde que estamos namorando ela nunca falou nada sobre poderes de seriados ou desenhos animados. Segundo: não há problema nenhum para mim se as pessoas não acreditam nela. Eu não posso culpa-las, Violeta é rude com estranhos, por muitas vezes tímida também de modo que dificilmente interage com alguém. Se não creem que ela é real, tudo bem. Não tenho necessidade da aprovação deles. Está tudo bem, nesse meio tempo que não nos falamos Violeta sequer mencionou você, ela não deve guardar rancor. Ok, ela guarda, mas não fará nada porque eu não gosto de brigas. Além do mais Cosete, acreditar que foi amaldiçoada por um alterego de uma pessoa é loucura.
Cosete abriu a boca para falar e hesitou, mas já tinha jogado sua dignidade pelo ralo então o que tinha a perder?
— Ela é real, Íkaros? Há alguma foto ou vídeo para me mostrar?
— Não tenho. Violeta despreza narcisismo por isso nunca tiramos uma foto juntos.
Cosete cerrou as mãos em punho.
— Ok. Então por que não a chama? Gostaria de vê-la cara a cara.
— Por mim tudo bem, mas há dois problemas nisso.
Cosete respirou fundo.
— Quais?
— Um: ela te odeia e não acho que vá querer vir aqui só para satisfazer sua curiosidade. Dois: ela está trabalhando, viajou ontem e disse que vai ficar dias fora.
Cosete levou as mãos à cabeça. Era loucura. Por coincidência não ia conseguir ver a tal Violeta.
— Deixe-me adivinhar, ela não tem celular?
— Ela tem.
— Então me passe o número, eu mesma vou ter uma videochamada com ela.
— Por mim tudo bem, mas primeiro vou pedir permissão. Se Violeta concordar eu passo o contato.
Cosete estava totalmente incrédula. Tinha perdido a batalha naquela tarde de várias maneiras, ou de todas as maneiras. Ficou de pé esfregando o rosto.
— Vou embora. – girou a chave do quarto, mas quando pegou na maçaneta parou e se virou — você... você poderia não dizer a ninguém o que aconteceu aqui, por favor. Eu mesma me sinto uma idiota louca por tudo o que fiz.
— Tem minha palavra.
Cosete respirou fundo, precisava dançar conforme a música.
— Para ninguém exceto sua namorada. Diga a ela que paguei a aposta.
Íkaros acenou com a cabeça concordando.
Antes de forçar a mão para abrir a maçaneta Cosete brecou novamente e tornou a encarar o garoto sentado na cama.
— Você... digo... você não... – ela fez uma mimica na região dos seios – você não sentiu nada ao vê-los? Não pensou em nenhuma perversão ou mesmo quis tocá-los?
Íkaros fez uma expressão de pena balançando a cabeça na negativa.
— Não, sinto muito. Não tenho interesse no corpo de uma mulher que não seja Violeta.
Esse último golpe foi o decisivo para erradicar qualquer orgulho que Cosete ainda tivesse. Completamente derrotada a moça se desculpou por tudo e se retirou.
***
É impressionante como a paisagem é bela durante o dia. Há dois meses eu tinha tentado me matar nesse mesmo local e agora estou aqui, nesta manhã olhando para baixo na direção do penhasco que, com a luz se mostra ser só um monte de rocha dura envergada sobre uma depressão, eu podia até ver o rio que corria lá embaixo, de fato o reflexo da luz da manhã batia bem na ponta onde ele faz uma curva dando um brilho belo trazendo um espelho das escadas de pedra pelas quais eu desci e a conheci.
— É meio bizarro pedir para nos encontrarmos aqui.
Ouvi sua voz vinda atrás de mim. Não me virei.
— Não penso em um lugar melhor. Eu deveria comprar esse pedaço de terra inteiro e erguer uma estátua minha e sua aqui.
— Sim, o problema é que você é pobre e eu já disse que para irmos devagar.
Ela parou do meu lado. A encarei, não lembro da última vez que senti tamanha beleza, o alvorecer a iluminava ou era o contrário? Sua aura era de tamanha beleza que ela estava irradiando a própria manhã? Não importa. Um dia eu acreditei ter amado uma mulher vil que me destruiu, hoje eu vejo, eu nunca cheguei a amar de verdade.
Não como a amo.
Encaro minhas próprias mãos cerrando-as punhos.
— Esse sentimento não vai embora. Ele bom para caralho, é bom demais. Não dá para me livrar e mesmo que quisesse não acho que conseguiria. Como você fez isso comigo?
Ela sorriu.
— Você parece psicótico falando essas coisas, já disse para relaxar. Não é nada divino ou miraculoso, o psicotrópico que você tomou é muito forte e seu corpo ainda está se adaptando a ele, por isso evite se viciar nessa emoção.
Ela pegou em minhas mãos em punho, seu toque era quente.
— Eu sempre tive uma queda pelos malucos depressivos, acho que foi o destino nos encontrarmos. Embora essa coisa de destino não exista.
Engoli seco, peguei em suas mãos e lhe dei um beijo. Ah sim, o toque de seus lábios era macio e o gosto de cereja com chocolate penetravam-me de tal forma que eu sentia que minha mente se desconectava e transcendia.
Êxtase, perfeição, paraíso.
Sei lá como se chama e nem sabia que era possível existir um sentimento tão sublime assim. Após nossos lábios se separarem ela me abraçou forte e sussurrou em meu ouvido.
— Encontrei um homem ruim.
Passei meus braços ao redor de seu tronco puxando-a para mais perto de mim e repousei minha cabeça em seu ombro fechando os olhos inspirando o máximo possível de seu aroma.
— Não se preocupe, vou te proteger e cuidar de você. Qualquer um que te ameaçar ou te machucar não vou perdoar... matarei todos.
Seu sussurro em meu ouvido era como oxigênio para alguém que está sem respirar. Suas palavras doces ecoando dentro de minha cabeça.
— Obrigada.
***
Cosete tinha sarado e seu peso estava voltando ao normal. Coincidência? Ela não queria pensar nisso, uma semana havia se passado desde que mostrou seus seios para Íkaros e simples lembrança a fazia quase se matar de vergonha, não conseguia se acalmar com a memória, a ansiedade vinha a mil porque Cosete se sentia uma louca em ter feito o que fez. Ficou horas tentando imaginar que tipo de opinião o jovem tem dela agora. Que tipo de garota de repente, após um mês sumida e que o tinha bloqueado, aparece em seu quarto mostrando os peitos igual a uma vagabunda?
Seu pai soube sobre a situação dos celulares e por questão de segurança — para poder entrar em contato com a filha lhe deu um novo, barato e com poucos recursos, mas ainda era um celular.
Sobre o garoto, Cosete achou prudente desbloqueá-lo, e assim como das outras vezes o jovem não entrou em contato. E nos últimos dois dias estava pensando em falar novamente com ele, queria insistir no negócio da Violeta. Sim, Cosete achava loucura voltar a cutucar onça com vara curta, mas estava obstinada ver Violeta ou trazer Íkaros para a realidade de uma vez por todas. No dia em que ele estivesse junto da mulher de cabelos roxos a moça chegaria junto e tiraria uma selfie com os três, com a imagem do alterego não aparecendo Cosete mostraria para o rapaz e esperava com isso ajudá-lo a se curar. Íkaros precisava de ajuda.
— Porra, ele precisa de ajuda e eu preciso de quê? Fui até seu quarto me despir porque sua namorada imaginária me amaldiçoou!? Caralho que merda que eu fiz?!
Cosete falou sozinha para si mesma esfregando o rosto com as mãos no meio da rua enquanto fazia sua caminhada matinal. Tentando se libertar da vergonha mesclada com frustração — o fato do garoto não sentir nada ao ver o corpo de Cosete doeu em seu ego de verdade — algo parecido como um orgulho ferido.
“Não faz sentido, por que dezenas de homens se matam para ter minha atenção, para conseguir no máximo uma esperança de me levar para a cama e ele, que conseguiu ver mais do que todos os outros, me desprezou? Digo, sou grata por Íkaros ter sido um cavalheiro, um maluco qualquer poderia ter me estuprado. Só que... só que... porra custava ter ficado um pouco surpreso, com vergonha?” Pensou Cosete.
Ela também não conseguia afastar da mente a questão das adivinhações. Aquilo extrapolava qualquer realidade, em hipótese nenhuma Íkaros ou Violeta poderia ter adivinhado as três coisas, ainda mais a terceira que era só um pensamento. Cosete buscava uma explicação lógica, poderia até ter encontrado uma para o creme e para o orégano, mas o pensamento? Como poderia saber que ela estava pensando em Minerva? Cosete nunca mencionou a mulher fumante em suas conversas.
Assim quase que inconsciente sua caminha a levou até a casa da mulher rabugenta novamente, só que nesse momento Cosete parou, travou como se algo a tivesse segurado com uma mão de concreto. O portão da frente da casa de Minerva era branco cheio de detalhes em sulcos que formavam um mosaico, ou seja, se você chegasse bem perto pela calçada poderia ver a frente de toda a residência. O gramado, a porta da frente junto com a área coberta, as cadeiras de fibra azuis e o apanhador de sonhos perto da entrada principal. Cosete entendeu, o que a fez parar não foi uma mão de concreto invisível e sim o choque. Através de um sulco do portão ela viu:
Minerva estava de pé no gramado com os braços cruzados, um cigarro aceso suspenso entre os dedos e conversava com uma mulher... uma mulher alta de pele branca com cabelos roxos.
Cosete arregalou os olhos encarando a figura quando esta virou a cabeça olhando na direção do portão e, como se estivesse vendo-a pela fresta, sorriu de tal maneira que um frio desceu a espinha da adolescente.
Um sorriso macabro.
Perigoso.
Como se dissesse: “te achei”.
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