“A teoria do homem ruim”.

— É um estudo teórico apresentado por Edward Von High em 1962, quando em sua tese de doutorado acompanhou de perto um paciente que sofria de graves transtornos de pânico e violência até culminar na divisão de uma outra persona com características distintas e únicas.

O palestrante pigarreou ao som do microfone enquanto apontava o passador de slides na direção do telão para uma plateia de cerca de cento e quinze formandos, pós-graduandos, mestrando e doutorando de psicologia na conferência nacional.

— Palek Vikriel é este jovem – o telão mostrou uma foto preta e branca de um jovem rapaz de rosto inocente, acanhado num canto perto do jardim com roupas características da época — após sofrer abusos de um pai alcoólatra por anos fez nascer uma nova persona que até então desconhecia o próprio Palek.

A nova imagem projetada no telão exibia o mesmo jovem, uma feição mais séria, olhos vidrados, linhas labiais sem qualquer ondulação como se encarasse algo muito além da lente da câmera.

— Em junho de 1950, após ser espancado novamente por seu pai, Palek pegou uma faca de cozinha o cortou a garganta do homem enquanto ele dormia. Um crime hediondo não motivado por ódio ou vingança, uma vez que fora um ato friamente pensado e executado com a firmeza de uma determinação habilidosa. Seu pai dormia após um porre enquanto Palek entrara em seu quarto e enfiava o instrumento cortante com precisão na jugular do homem o fazendo se afogar no próprio sangue.

O palestrante se virou encarando o público chocado com as imagens do assassinato em preto e branco, ele queria aquele clima para introdução com sucesso a seriedade de sua tese.

— Eis a grande questão, Palek durante décadas preso e em tratamento psiquiátrico sempre se alegou inocente, disse que não havia sido ele e sim Kalinsky, seu alterego. Para sermos precisos – disse o homem andando pelo palco ficando mais à vontade — o rapaz botava a culpa em Kalinsky jurando com veemência que tal pessoa era real, uma alma caridosa, um amigo que surgiu nas sombras de uma macieira para lhe servir um ombro amigo e que após ouvir os relatos dos abusos decidiu salvar o companheiro de um homem ruim. Meus caros colegas! A construção da personalidade, a formação do id, ego e superego, a teoria comportamental de Jung tudo o que nós já sabemos e aprofundamos são válidos e um caso como o de Palek fornece-nos material para um aprofundamento real em nossas carreiras, mas hoje estou aqui para explorar um campo pouco difundido, algo que Edward Von High começou a mais de cinquenta anos atrás. Aqui gostaria de explicar a vocês a abordagem do “Homem ruim”.

O homem passou para o para o slide seguinte, dessa vez apenas textos alocados de maneira organizada no powerpoint.

— Edward observou uma linha tênue que separa a massa intelectual que usamos para nos adequarmos a sociedade e os instintos animais que foram aprimorados ao longo de milhares de anos de evolução a fim de perpetuar a sobrevivência de nossa espécie. E que linha é esta? Edward a chamou de linha do abismo. Uma divisa imaginária tão profunda e escura que sua própria definição é amórfica, mas está lá. E ela serve a um propósito intrínseco na natureza tanto animal quanto intelectual de nós sapiens: a necessidade de algo mais.

Ele andava pelo palco dando pequenas voltas olhando ocasionalmente para olhos ávidos de interesse, outros nem tanto, alguns disfarçadamente vendo qualquer coisa no celular e os últimos dispensavam a parte do disfarce e ignoravam suas palavras completamente.

— Precisamos de algo que valide nossa existência, a consciência que nasceu para além do instinto da sobrevivência veio com um dispositivo de validação. O que quer dizer isso? Precisamos de alguém ou algo, um objeto físico ou abstrato que nos dê significado ou, nas palavras de Edward: “uma gota de certeza em meio ao oceano de incertezas da vida”. Como todos aqui sabe, projetamos nossa imagem e sentido em coisas que admiramos ou odiamos a ponto de ver ou ouvir ataques verbais sobre tais objetos nos fazem sentir atacados. No dialeto popular: “se mordeu”. Tais casos, colegas, todos nós conhecemos bem, então vou pular essa parte e partir direto para o centro. Em casos graves de disfunção dessa identidade, quando o indivíduo não mais reconhece nem a si mesmo sua mente colapsa, a linha do abismo é desfeita e a consciência se parte em duas. Dessa escuridão nasce um alterego ou uma nova identidade com sua própria história, personalidade e sentimentos, algo criado sem qualquer experiência real válida, contudo que coexiste neste mundo como sempre aqui houvesse vivido.

Ele voltou a mostrar a imagem de Palek.

— Kalinsky foi a resposta do colapso da mente de Palek. Uma identidade fria, que não hesitou em eliminar sua fonte de sofrimento ou a fonte de sofrimento do seu “amigo”. No geral essas criações não assumem o controle e só aparecem para cumprir um propósito. É aqui que o caso de bipolaridade e dupla identidade toma uma vertente totalmente nova abordada por Edward: tais consciências distintas estão assumindo padrões e assimilando conexões entre alteregos diferentes.

O palestrante observou bem a reação de seu público, os que estava interessado ficaram ainda mais, os entediados se ajeitaram na poltrona cruzando os braços para o telão e os que navegavam pelos celulares ergueram os olhos na direção do palestrante. Um clima mais tenso pairou sobre o auditório.

— Sim, senhores. — um novo slide, agora com dados estatísticos — desde a publicação do estudo de Edward foram relatados cerca de mais de quinhentos casos de dupla identidade ao redor do mundo, hoje mesmo deve haver cerca de trinta a quarenta casos ativos registrados. Quarenta casos pelo globo é um número ínfimo, contudo quando os relatos mostram um ponto em comum damos atenção: o homem ruim.

O homem bebeu um pouco de água limpando a garganta.

— Sim, as mesmas palavras de Kalinsky soaram da boca de mais de trezentos episódios similares ao longo da história e hoje todos os esses ativos que mostrei, partilham de um comportamento violento que justificam como justiça pois seus algozes eram... homens ruins.

Ele fez uma pausa dramática.

— Como isso é possível? Bom, esse é o objeto de meu estudo. Vou aprofundar mais agora, mas ao primeiro momento adianto: há uma real conexão entre todas essas personalidades criadas.

***

Cosete se sentia aturdida como nunca antes na vida. Ela já tinha achado a experiência da adivinhação e o mês de inferno astral o pico da insanidade, mas estar de pé frente a frente a uma mulher que preenchia todas as características de Violeta a tinha chocado de tal forma que ela ficou batendo no portão da casa de Minerva várias vezes até a fumante abrir perguntando por que o escândalo. Cosete invadiu a casa passando pelo quintal parando de frente a suspeita de cabelos roxos.

— Suas unhas são roxas! – Cosete falou mais alto do que gostaria.

A mulher arregalou os olhos recuando um passo perante a estranha até Minerva intervir.

— Oh pirralha, que porra te deu?

Cosete a ignorou.

— Seu nome, qual seu nome!?

A mulher olhou para Minerva com medo, depois algo passou por sua mente e ela arregalou os olhos levando a mão a boca, visivelmente surpresa ao fitar a adolescente.

— Você... você é a Cosete, não é?

Agora a expressão de ranço de Minerva foi substituída por igual dúvida. Era um duelo à mexicana, uma disputa de expressões de choque igualmente intensas.

— Paola, você conhece a Cosete? – perguntou Minerva.

— Seu nome é Paola? – indagou Cosete.

— Sim, mas eu vim até aqui por sua causa.

Nesse momento tanto a adolescente quanto a fumante perguntaram em uníssono: “ Como é?”

O nome dela era Paola de Castro Silva, estudante universitária. Tinha 1,82 de altura e duas semanas atrás recebera uma proposta inusitada: deveria começar a frequentar uma terapeuta e pintar os cabelos e a unhas de roxo e manter tal visual até segunda ordem. Em troca uma quantia atraente seria depositada toda semana.

— Suspeito. – disse Paola bebericando um pouco de chá.

Minerva queria ouvir tudo desde o começo então convidou as duas para o quintal do fundo, sentaram-se em uma mesa redonda de granito em meio ao gramado e a terapeuta de nome grego serviu chá e café para as duas. Cosete estranhou as bebidas e imaginou que não queria que uma de suas clientes soubesse que ela era uma alcoólatra em potencial.

— Mas eu não poderia negar, afinal estava pagando um favor que me fizeram no passado.

— Que favor? – perguntou Cosete ávida.

— Desculpe, isso é muito pessoal. Não vou falar. Então eu pensei que essa coisa de terapeuta e dinheiro era suspeito demais, ainda mais a questão de tingir o cabelo e as unhas. Só que a pessoa me garantiu que era uma brincadeira inofensiva e como ela meio que tem minha confiança eu vim.

Paola encara Minerva.

— Mas devo dizer que adoro nossas sessões. Eu continuaria vindo aqui se tivesse dinheiro.

— Tá, mas continue essa história. Alguém te pagou para vir fazer essas sessões nas duas últimas semanas esperando que uma garota chamada Cosete aparecesse?

— Foi.

— Por quê? – perguntou Cosete em um tom mais alto — para quê?

Paola deu de ombros.

— Provavelmente para te deixar no estado em que está agora, você está me assustando desde que chegou.

Cosete tentou se recompor, Paola pegou o celular e começou a digitar alguma coisa enquanto Minerva se dirigia para a adolescente.

— Que porra é essa, pirralha? Você contou para alguém que vem me ver, quem eu sou? Que merda você está me envolvendo?

Cosete tentou pensar, as únicas duas pessoas que vinham em sua mente era sua melhor amiga e...

— Paola! – Cosete pegou no braço dela – a pessoa que pediu para você fazer isso é homem ou mulher? Um rapaz talvez? Da minha idade, um pouco mais alto, braços finos rosto singular, pele branca cabelos castanhos curtos estilo militar?

A mulher de cabelos roxos franzi o cenho e arregala os olhos ao olhar para Cosete. Como uma sintonia de fração de segundos as duas parecem entender se tratar da mesma pessoa.

— Olha, não me deram autorização de falar nada. Só disseram que um dia você ia me achar aqui e querer falar comigo, nesse dia era para entrar em contato e passar para ti. Aqui – disse a mulher entregando o celular. — Pegue. Quer falar com você.

Cosete olhou para Minerva que estava com uma expressão indecifrável, só acenou e se deslocou para ficar ao lado dela e ver o visor. Era uma conversa num aplicativo. A adolescente digitou rápido.

“ Aqui é a Cosete.”

“ Violeta falando. Se divertiu no último mês?”

A moça olhou para Minerva que só a instigou a continuar.

“ Do que você está falando? Meu último mês foi normal.”

“ Acha mesmo que mentir para mim vai funcionar? Tudo bem, que tal um ano inteiro normal igual?”

Um frio desceu pela espinha da garota que digitou rapidamente.

“ Não por favor, desculpe. Desculpe. Droga, o que você fez comigo?”

“ Eu? Eu não fiz nada, você me viu fazendo alguma coisa?”

Cosete sentia que parte de sua sanidade estava indo embora a medida em que seus pensamentos ao redor do cenário fluíam cada vez mais rápidos levando a conclusões cada vez menos realistas.

“ Que tal outra análise, menina? Está agora mesmo desconfiando que Íkaros é o culpado, que ele está fazendo alguma brincadeira sádica contigo, que a está seguindo, te vigiando e manipulando para alguma coisa, correto? Afinal como eu saberia sobre seu mês infernal se você só contou para duas pessoas? Uma delas, Íkaros, a qual você, admiravelmente cumpriu, com atraso, nosso combinado. ”

Minerva pensou em perguntar que acordo era aquele, mas estava interessada demais na conversa, até mesmo Paola tinha puxado a cadeira para mais perto da menina para tentar ler a conversa.

“Isso não tem graça. Vou denunciá-lo.”

“Ah sim, e baseada em que provas? Já disse que Íkaros não sabe de nada, de fato ele me pediu para deixa-la em paz. Ah...ah... meu Íkaros é tão gentil quanto é fiel. Como eu queria ter visto sua expressão, garota, quando sua beleza, da qual se orgulha tanto, foi rejeitada.”

Cosete engoliu seco.

“ Olha, já chega. Ok? Eu vou me afastar dele e de você, se queria me assustar conseguiu. Está satisfeita? Só me deixe em paz, tudo bem?”

“ Ah não... atormentar você está se mostrando um jogo mais divertido que achei que seria. E esse jogo vai continuar até que você acredite nele. As pessoas insultam meu Íkaros, acusam, agridem, machucam. Eu realmente estou de saco cheio de todos vocês. Se não fosse meu trabalho, já tinha dado um jeito de cuidar de todos pessoalmente. ”

Novamente a onda de temor assustou Cosete, seu coração disparou e um pesar a tomou.

“ Eu... eu acredito nele, ok! Desculpe ter dito que você não era real.”

“ Menina, minta mais só uma vez para mim e você se tornará uma mulher tão azarada que se ficará famosa, que tal pesar 120kg com um rosto cheio de espinhas usando óculos fundo de garrafa?”

Cosete suou frio e digitou rapidamente.

“ Tudo bem, tudo bem desculpe. Basta você aparecer para mim, basta eu te ver ao lado dele e eu acredito, ok?”

“ Você acredita na mesa de granito que está apoiando seus cotovelos nesse momento? ”

As três moças arregalaram os olhos e Minerva começou a olhar por todos os lados, percorrendo uma linha fina pela parte de cima do muro de sua residência buscando alguém que estivesse observando-as. Cosete retirou os cotovelos da mesa e voltou a digitar.

“Não entendi.”

“ Acreditar no que é fato não é crer, é ter bom senso. Acreditar quer dizer aceitar sem provas. Esse jogo vai continuar até você realmente acreditar no meu Íkaros. O que significa que não vamos nos ver, eu não tenho que te dar provas da minha existência. Você vai ter que crer no meu Íkaros, confiar nele. Vai ter que conhecê-lo, vai se aproximar dele e entender quem realmente é. Eu a convido a partir desse momento a uma luta que vai leva-la ao mais próximo possível da linha que separa a loucura da sanidade. Vamos nos divertir menina... caçando homens ruins. ”

***

O palestrante detalhou sua teoria ao aprofundar o caso, e nesse momento todos os cento e quinze presentes no auditório prestavam total atenção devido aos absurdos datados que colidiam com coincidências assustadoras.

Quase sobrenatural.

— E para finalizar meus caros colegas psicólogos! – ele apertou o botão e um último slide exibiu uma pintura em tons cinza e negro — foi pintada por um dos pacientes que apresentavam essa síndrome aparentemente coletiva usando somente um pedaço de carvão. Vemos facilmente uma batalha, pessoas de cinza e negro digladiando-se em um ambiente de escuridão e agonia. Foi dada o título de A guerra do Inferno. O artista comentou em um relatório de seu médico psiquiatra a história sobre sua obra em um estranho poema:

“Da luz mais terna nasceu anjos em sua existência sublime

Provocando a aparição da sombra mais densa

Demônios nasceram e uma disputa começou

Tendo a humanidade como recompensa

A guerra era inevitável

Sombras e luz permeando

E entre eles a humanidade

Gritando

A vitória da luz estava longe

Pois os demônios acharam a arma perfeita

Prazer e medo

Sempre do humano à espreita

Os demônios venceram

Mas só da escuridão conheciam

E logo a humanidade

Destruíam.

Para continuar existindo

Os demônios a humanidade salvar

Não mais a luz enfrenta as trevas

Agora os demônios devem caçar

Mal contra mal

Existência contra destruição

Violência para o bem

Para evitar a completa escuridão"

— Esse poema de gosto peculiar conta mais ou menos a história por trás do que ocorre. Esses delírios, meus colegas, indicam uma fantasia em que o mundo é assolado por demônios, que para evitar serem extintos junto com a humanidade, caçam humanos muito ruins, daí a teoria do homem ruim, que podem gerar uma quantidade muito grande de danos e culminar na erradicação de ambas as raças. Analisando um pouco mais, eles tentam deixar a malícia perpetuar até certo limite e quando tal limite é ultrapassado, essas criaturas surgem para eliminar o problema. – o palestrante deu uma risada curta desdenhando o poema e a pintura – praticamente temos demônios caçando outros demônios ou, homens tão ruins quanto eles.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.