Notas iniciais
E agora um dos capítulos que eu mais gostei de escrever. Divirtam-se!

A toda velocidade eles corriam através da mata densa, por uma rota conhecida. As árvores passavam em rápida sucessão enquanto o caminho de grama quase seca se alongava e dava curvas. Por alguns minutos os garotos correram, até pararem.

– Acho que os despistamos. Não sinto a presença deles. – disse Jane, parando de chofre.

– Também não – disse Claire, sentando no chão.

– Não sei, ainda sinto como se tivesse uma intenção de matar sobre nós... – disse Suzan.

– Caramba! Cansei... – disse Vergil, deitando ao chão.

– Nem acredito, Vergil. Depois desse tempo todo treinando você ainda cansa?

– Não posso evitar... É como se tivesse um bloqueio ou alguma coisa que me impede de melhorar minha resistência.

– Isso é muito esquisito – disse Cole – Mais esquisito do que tu.

– Como é que é? – disse Vergil, meio irritado. Cole abafou uma risada, quando Jane gritou:

– Cuidado! – e um impacto seco contra o chão reboou, revelando uma figura não muito comum: era um homem muito alto e forte, trajando peles de animais, de cabelo ruivo e pele cor amêndoa. Olhava para o local que atingiu, milésimos de segundo antes de onde Vergil estava.

– Você é boa, por avisar minha presença, e você por conseguir desviar... – soava a voz do homem, grossa como um urso. – Estou certo que vocês querem invadir o castelo do lorde Dorman, não é?

– Que nada! Você escutou isso de onde? – blefou Cole. – Porque, que eu saiba, ninguém é maluco o suficiente pra tentar invadir o castelo, porque sabe que vai morrer.

– Ah, você fez a lição de casa. Então não preciso me preocupar em dar os motivos...

– Uh-oh.

O homem-urso avançou com os braços em riste. Kenneth tomou a frente do grupo e segurou o avanço do mesmo com força bruta. Ambos disputavam ferozmente, até que Kenneth soltou uma das mãos e derrubou o homem. O mesmo se levantou rapidamente, puxou uma clava grande e avançou:

– Navitas Clausus! – gritou Kenneth antes de o homem atacar: um escudo esférico amarelo translúcido circundou o clérigo imediatamente, e o barulho da clava batendo foi ressoado por toda a floresta, como se fosse de metal.

– Então ele sabe uns truques... – começou a dizer, mas Suzan disparou uma flecha que passou por pouco da cabeça dele. – Ah... Agora eu nem preciso interrogá-los: vou matá-los aqui mesmo! – e urrou. Os garotos recuaram um pouco, mas depois avançaram.

Cole sacudiu a varinha no ar em um arco, ao mesmo que Jane cortou o ar em um X com as adagas. Os gritos soaram como uma tempestade:

– Ventus Virga!

– Aqua Lamnia!

Uma lâmina de vento horizontal voou pelo lado inverso de um X feito de água. O homem-urso preparou a clava contra o X e abriu a palma da mão para o vento: com a clava, ele rebateu o X para longe e com a mão ele dispersou o vento.

– C-como?! – exclamou Cole, sendo surpreendido por uma pancada na cabeça da clava.

– Cole!!! – gritou Jane, mas não se preparou para um golpe de clava no abdômen. O homem-urso sorria enquanto via Jane caindo ao chão, sem ar.

– Arggg!!! – rosnou Kenneth, e segurou a Bíblia no ar. Ela foi se iluminando e ele gritou: Lumen Crinis! – imediatamente, um raio de luz emergiu do livro e voou até o homem, que foi lançado com o impacto, batendo em uma árvore e parando na segunda. Ele se levantou um pouco aturdido, mas não parecia ferido. Quando percebeu, havia um pé a milímetros de seu rosto.

– Fulgur Contumelia!

Com um barulho de trovão, a perna esquerda de Vergil emergiu em eletricidade e o acertou em cheio. O impacto lançou o indivíduo para Suzan, que o esperava com um sorrisinho no rosto.

– Flamma Ensis! – e cortou brutalmente o homem com um movimento horizontal, emergindo fogo pela trajetória. Porém foi interrompida pela clava, que fluía com uma energia estranha: era algo imaterial, diferente... Ele não falou nada, apenas interrompeu a trajetória da espada e, com o olhar baixo, apontou para Suzan.

– Navitas Eruptio...

Um feixe amarelo rápido brotou da mão dele e acertou Suzan com incrível força. Ela tentou bloquear com a espada, porém foi arremessada para trás. Logo após, o homem riu. Mas não foi uma risada qualquer: parecia que um demônio havia aparecido ali.

– Vocês vieram até aqui achando que eram fortes, não é? – através das exclamações de surpresa dos meninos, continuou – Vocês não têm experiência alguma em lutas de verdade...

– É mesmo? – disse Vergil, tentando parecer convincente – Por que então eu lhe acertei antes?

– Por que não vem aqui descobrir? – chamou. Andou em direção ao homem, que também andava em direção ao lutador. Depois, Vergil começou a correr. O outro também. Momentos depois, o lutador estava a toda velocidade, do mesmo jeito que seu oponente.

– Navitas Offensus! – gritou o homem, e seu grande punho esquerdo se cobriu com uma energia amarela.

– Navitas Offensus Duo! – gritou Vergil, e ambos os punhos se iluminaram com a mesma energia amarela.

Ambos se chocaram a poucos centímetros: após a onda de poeira elevada, Vergil disputava forças com o homem, até ser forçado a se abaixar, aproveitando para arremessá-lo com o pé. Claire apareceu no ar e apontou a mão:

– Mentis Surculus! – e um impacto invisível cravou o homem no solo. Mas antes que Cole atacasse, o homem deu outro urro que destruiu sua prisão.

– Chega de brincadeira! Navitas Spiritus Uno! – e aconteceu algo que os garotos apenas haviam visto em livros ou relatos de soldados: a Energia brotava visível da pele do homem-urso na forma de um fluido, parecendo uma lanterna hippie, porém era totalmente negra. Apesar da tranquilidade com que fluía, a força que emanava rivalizava até as habilidades de vento mais fortes de Cole. Eles não tiveram tempo de reagir: enquanto o homem batia com a clava na cabeça de Vergil, ele também acertava um soco no plexo de Cole, ainda estocando com a clava no abdômen de Kenneth, dando uma cotovelada em Jane e batendo na cabeça de Suzan.

Em meros segundos, ele acertou todos, incapacitando-os. Depois, murmurou algo, e sua mão e clava ficaram enegrecidos e pulsando como um coração. Os garotos tentavam se levantar a todo custo, mas os impactos foram fortes demais. O homem chegou perto de Suzan e a segurou pelo pescoço, levantando-a:

– E aqui termina seu sofrimento – disse o homem com um certo pesar na voz, mas foi substituído por uma voz de satisfação: — Morra!!!

E uma surpresa: centímetros antes de acertar a menina, a clava do homem-urso voltou para longe, como se um tiro tivesse arremessado. Quando olhou de onde veio o autor, Claire estava se levantando apoiada no machado, com a mão apontada para ele, fumegando levemente. Olhava seu oponente com cólera, e pequenas bolhas de Energia azul brotavam de suas costas.

– Consurgo Uno... – e as bolhas aumentavam de freqüência, provocando uma emersão da Energia de Claire, que fluía como uma calma chama de vela. Ambos se encararam por um tempo, e chocaram uma clava contra um machado. Sons de vidro trincando e curto-circuito ecoaram por toda a floresta, até a clava ser arremessada para cima, dando o momento para Claire acertar um golpe com o machado, cortando o homem na vertical. Depois encostou a mão no abdômen dele rapidamente e gritou:

– Phasma Annullare!!! – e um forte impacto trespassou na forma de um disparo roxo. O fluido parou de emergir do homem, e ele caiu ao chão violentamente. Logo após, o fluido de Claire também parou e ela ajoelhou. Os garotos já recuperavam a postura, e foram até Claire:

– Claire, você é realmente forte... – disse Vergil, surpreso.

– Isso foi um elogio? – respondeu Claire entre arquejos.

– Ficava na dúvida porque você nunca dizia ou mostrava qualquer coisa que seria superior a nós.

– Eu deixo isso pra o final... Eu preciso me aquecer antes de usar essas técnicas.

Não totalmente convencido, mas cansado demais para discutir, Vergil e os outros foram adiantando o caminho, porém não chegaram a andar 7 metros quando o lutador sentiu uma mão gigante e pesada o segurando pelo pescoço. O homem-urso o suspendeu no ar enquanto lutava para se livrar e permanecer respirando. Ele aumentou o aperto.

– Acha que isso é o suficiente para me derrotar? – disse ele, em meio a arquejos não muito frequentes. – Vocês não conhecem o verdadeiro terror de uma batalha...

– CHEGA!!! – gritou Vergil, e um choque elétrico perpassou seu corpo e atingiu o homem, que o soltou. Respirando fundo, vislumbrou Suzan numa briga ferrenha contra os ataques violentos e abertos do homem. Ele foi cortado em vários pontos, mas parecia que não tinha sido nada, visto que ele apenas acelerava a clava e aumentava a força. Pouco a pouco, Suzan cedia aos ataques dele, sendo atingida em alguns locais e recuando. Cole murmurou algo e saltou muitos metros acima de todo o local. Apontando a mão, disse:

– Ventus Lacuna... – de repente, a sensação de falta de ar acometeu a todos, com a repentina diferença de pressão. Momentos depois, um grande volume de ar impactou no homem, cortando-o em muitos pontos. Os garotos se afastaram, sabendo que o que viria não seria nada agradável. Imobilizado pela pressão esmagadora, o homem não se defendeu do seguinte ataque:

– Palma Pulsatus! – um forte barulho veio do golpe de palma que Cole desferiu no ar, impactando com enorme força no homem, fixando-o ao chão novamente. Claire viu o sinal de “Pronto!” que ele fez no ar e prosseguiu.

– Ira Cogitatus! – ela segurou o machado que ganhou uma aura azul translúcida, aumentando o alcance da lâmina em cerca de 3 metros e cortou o homem ainda no chão. A aura deixou um rastro fantasmagórico e sumiu ao acertar. O homem não se mexeu mais.

À noite, naquele mesmo dia, alguns quilômetros mais adiante, eles montaram acampamento:

– Ufa, se depois daquele ataque ele ainda fosse atrás de nós, eu não sei o que faria – comentou Vergil.

– Eu ainda não me sinto bem com isso – disse Jane.

– Como assim? – disse Kenneth.

– Matamos uma pessoa...

– Jane, eu também não gosto da ideia, mas ele tentou nos matar. Se morrermos, não vamos ver nossos pais novamente. Por esse motivo, eu farei qualquer coisa para voltar para casa, mesmo que isso signifique matar pessoas que queiram me matar.

– Kenneth...

– Sei mais do que ninguém que é errado matar... Mas não vamos dar essa chance a eles.

– Isso aí! – disse Cole.

– Assim que se fala, Kenneth – disse Vergil, fechando o punho em cumprimento.

– Bem, se mantermos o ritmo, chegaremos em Chasfar pela tarde. A sorte é que é uma cidade pequena.

Notas finais
E apareceram as palavras em latim que mencionei nas notas. Se vocês quiserem, eu posto um glossário na lista de capítulos e vou preenchendo à medida que vou adicionando mais coisas. Espero que não dê spoilers assim.