A Origem da Energia - O Reino de Alucard
4 Tumulto nos campos
Notas iniciais
– Chasfar: foi aqui que aprendi a lutar e usar minhas habilidades. – comentou Vergil, ao visualizarem a pequena cidade do Círculo da Batalha. Possuía uma grande área separada para a escola de combate, algumas poucas casas e lojas de equipamentos, e uma praça arborizada, com bancos de pedra granítica e piso de blocos de mármore.
– Mas por curiosidade Vergil – disse Kenneth – Quais são suas habilidades? Vi apenas você atacando com socos e pontapés, e no máximo dar um choque no próprio corpo.
Cole e Claire abafaram uma risada, que o garoto olhou feio. Ignorando a quase gargalhada, ele continuou.
– Minhas habilidades são de Alteração, ou seja – e apontou para um tronco de treinamento próximo à área da escola de combate, falando – Fulgur Sera!
Uma pequena esfera vermelha voou velozmente e fez um barulho de choque ao bater no tronco, deixando uma pequena área preta e se dissipando logo depois.
– Entendi agora. Mas não acha meio estranho: você, que é de Alteração como Cole, lutar na frente da batalha?
– Segundo Jim, ele me mandou para cá porque viu que eu podia me desviar.
Enquanto conversavam, adentraram a taverna para sentar. Pediram apenas um almoço para cada um, e alugaram quartos pela noite. Esperaram a noite chegar para assim deitar. No quarto das meninas:
– E então Suzan, como estão você e Vergil? – disse Claire repentinamente. Suzan se atrapalhou e derrubou a espada.
– C-como?
– Eu perguntei como estão vocês dois? Já se beijaram e tal? – atiçou Claire.
– C-Claro que não! Que pergunta é essa?! – lentamente, um rubor começava a aparecer em seu rosto.
– Mas você tava tão bem com ele hoje. Pareciam um casal.
– D-Deixe disso e v-vamos dormir – disse Suzan irritada, porém totalmente corada. Deitou-se e virou o rosto. Claire riu e se cochichou para Jane.
– Ela realmente não sabe admitir os sentimentos, não é?
– Ela sempre admitiu, mas agora eu não sei. Conheço-a há vários anos e essa é a primeira vez que a vejo assim.
– Hm... O clima vai esquentar.
Já no lado dos meninos, a bagunça estava ligeiramente maior.
– Qualé Vergil: sabemos que você andou dando uns pegas em Suzan! – disse Cole, atirando um travesseiro no lutador, que reagiu rapidamente e bloqueou com a mão.
– Deixe de conversa! Você sabe muito bem que Suzan não gosta de mim. – disse Vergil calmo, mas com um leve rubor pela face.
– Até parece. Nunca se perguntou por que ela corre pra seu lado quando estamos andando pela floresta?
– Hm... Nunca percebi.
– É claro, ô mané: você tá sempre tão preocupado com o caminho e o grupo que acaba esquecendo o que tá acontecendo dentro dele.
– Bem, de qualquer forma eu vou dormir. Não acredito que ela faça isso quando a gente anda.
– Vergil, o que Cole disse não é mentira – disse Kenneth – Ela realmente vai para o seu lado; já percebi também.
– Vocês tão estranhos... Eu vou é dormir – disse Vergil, e deitou na cama, não falando nada depois.
– Ha ha! Esse Vergil não perde por esperar – comentou Cole para Kenneth, que deu uma risada baixa e foram dormir.
No dia seguinte, levantaram cedo para seguir caminho. O ar frio da manhã deixava uma leve névoa ao respirar. O orvalho nas gramas refletia com os primeiros raios de sol e as árvores molhadas pela chuva rápida da noite pareciam mais verdes do que nunca. O clima estava agradável. Os garotos seguiram viagem através do vale gramado de Chasfar quando Cole questionou Claire:
– Ainda não estou convencido, Claire: como você fez aquilo?
– Aquilo o que?
– Aquele negócio que a sua Energia ficou ao redor de seu corpo...
– Ah, aquilo... Sabe que eu nem sei?
Vergil abafou uma risada enquanto Kenneth e Suzan deram um sorriso.
– Mas é sério! Eu não lembro onde eu ouvi aquelas palavras, só que elas saíram da minha boca como se eu soubesse o que estava fazendo.
– Pelo menos você se lembra como chegar àquele estado?
– Provavelmente... Precisaria entrar numa situação de perigo, acho. Mas ainda assim nem iria querer: aquilo cansa pra caramba.
Atravessaram a cidade sem muitos problemas, avançando pelo pequeno vale logo à frente. Mais ao lado se via a faixa de terra praieira do continente, turbulenta com os temíveis ciclones marítimos, frequentes em qualquer época do ano. Por algum motivo, esses ciclones só apareciam na parte norte de Ryokun, sendo bem mais fracos e raros na parte sul, próximo à cidade de Sulra.
A floresta foi rareando aos poucos, dando lugar a um campo largo, repleto de gramas altas e algumas árvores de galhos um pouco retorcidos, mas repletos de verde. Viam-se poucos caminhos vindos da trilha da floresta e dos locais de grama alta, dando em pequenos povoados. O sol aumentou sua intensidade à medida que a manhã foi prosseguindo, refletindo fortemente a rota feita de blocos negros, cheios de quartzo. Os garotos recuaram a uma árvore de copa maior e esperaram o sol diminuir a força, aproveitando para dar passagem a uma caravana de mercadores que viajava pelo lado oposto. A brisa, apesar de um pouco quente, relaxava o cansaço obtido.
– Que vento bom! – suspirou Jane.
– Concordo – disse Vergil, olhando para o horizonte quase infinito de grama alta.
– Que estranho, o tempo estava bem forte agorinha, olhem como está – disse Suzan, apontando para o céu. De fato, nuvens negras começaram a encobrir o forte sol e diminuir a temperatura do ar. Porém não estava ventando.
Novamente, a sensação de tudo estar mais lento acometeu Vergil. Olhou aos arredores o mais rápido que pôde. Enxergou uma esfera de Energia enorme voando velozmente em direção a eles. Com um pensamento rápido, gritou:
– Contego! – via-se Vergil desenhando um círculo com as duas mãos mais rápido que os olhos podiam acompanhar, defletindo a esfera para longe, mas o derrubando com o impacto. Levantando com um salto, pôde ver o vulto golpeando com a palma no abdômen de Cole e Suzan antes de partir para cima dele. Imediatamente, Vergil contra-atacou com um golpe de ombro, desviando de um soco reto violento, repleto de vinhas. O impacto dispersou uma onda sonora, e com isso o tempo voltou ao normal. Enquanto Suzan era ajudada por Kenneth e Cole por Jane, Claire e Vergil olhavam para seu ofensor.
– Não acredito que você veio até aqui...
– Quem é ele, Vergil? – disse Claire, mas tinha falado com voz dupla.
– Roy... E quando faz isso, nunca vem sozinho, sua--
Um impacto invisível o jogou para cima de Suzan, que o segurou.
– Irmã Laura, se apresentando!
– Laura, eu lhe digo sempre pra não me ajudar.
– Mas eu não gosto de ver meu irmão apanhando!
As duas pessoas que apareceram era peculiares: o menino era baixo, pálido e franzino, com cabelos castanhos quase raspados. A menina era alta, morena e forte, com os cabelos da mesma cor do irmão, porém eram cacheados e muito longos. Ambos vestiam roupas parecidas com a de Vergil, com a diferença que na parte das mangas tinham listras negras, duas na dela e quatro na dele.
– Será que vocês não podem me deixar em paz?
– Deixar você em paz? – disse o menino e sua mão direita... Vibrou? – Por sua causa eu não entrei no exército. Por sua causa, nossa divisão demorou a se formar. Por sua causa, perdi o prestígio que tinha com minha família e com o exército.
Aparentemente, aquilo era uma disputa entre os “companheiros” de formação de Vergil. Claire mantinha o olhar atento, expandindo sua percepção por todo o planalto verdejante. Suzan não esboçava expressão alguma, mas Jane e Kenneth que estavam próximos a ela sentiam um calor forte emanando de sua mão apoiada na espada. Cole olhava impaciente, até que respondeu.
– E o que vocês vão fazer, por acaso? Vão nos encarar até voltar no tempo?
– Não, mago insolente. Eu vou matá-lo e recuperar minha honra como recompensa por sua cabeça!
E atirou a palma em direção a Vergil. Imediatamente, o ar vibrou intensamente, e um barulho agudo forçou todos os amigos a cobrirem as orelhas. Ele então avançou girando o corpo e acertou com as costas da mão aberta na têmpora do lutador. Ele caiu aturdido.
– O que diabos foi isso? – gritou Cole, caindo ao tentar se manter em pé.
– A Palma da Frequência – disse Vergil, cobrindo um dos ouvidos e levantando-se precariamente – Usa Energia para vibrar o ar através da palma. A técnica preferida dele.
– Humpf – desdenhou Roy, com um sorriso superior. Vergil retirou a mão do ouvido. Não escutava nada. Mas mesmo com o equilíbrio prejudicado, iria enfrentá-lo.
Roy era o mais proeminente da divisão, enquanto ele era um dos da retaguarda. Mas o instrutor via potencial nele, e insistiu com que tivesse aulas extras e prolongando cada vez mais o tempo de treino. Com essa demora na formação, algumas vagas para lutadores haviam sido preenchidas com outras divisões, e quem fosse nesse pelotão iria trabalhar diretamente na guarda pessoal de Alucard.
– Eles podem entrar na mesma fase de velocidade que eu. Deixem comigo.
Inseguro quanto à afirmação, mas determinado a fazê-la verdade, respirou fundo, preparou a pose de luta e mesmo com o ouvido ressoando, ele avançou. Roy lançava um sorriso sarcástico, como quem estava prestes a dar uma lição a uma criança travessa.
– Fulgur Contumelia! – imediatamente sua perna se eletrificou com raios vermelhos, avançando num chute frontal quase imperceptível. Roy percebeu e bloqueou o ataque, sendo levantando no ar. Nesse momento, Laura lançou por baixo da manga uma grossa vinha verde, rasgando o ar, na direção de Roy. Essa se agarrou no pé dele e o virou de cabeça para baixo.
– Coruscus Marcus! – Roy apontou o punho na direção de Vergil. Todo seu braço vibrou e caiu com um impacto, levantando poeira e galhos. Com a dispersão da fumaça, os garotos viram Vergil segurando o soco de Roy com uma das pernas enquanto desviava um chute de Laura com a palma da mão.
– C-como?! – exclamou Laura perplexa. Roy mantinha o olhar calmo, mas demonstrava surpresa também.
– Transferi o ataque de Roy para desviar seu chute – e então perceberam que a mão esquerda dele estava sangrando bastante, com um dos dedos dobrado de modo estranho. – Não pensei que daria certo.
Roy iniciou uma sequência de socos muito rápidos, tentando acertar em qualquer parte do lutador. Vergil se mantinha ocupado desviando das poderosas rajadas enquanto se preocupava em redirecionar os ataques destruidores de Laura. Num dado momento, deu um salto longo para trás. Os dois acompanharam.
– Contego... – Vergil defletiu quando Laura lançou uma vinha roxa cheia de espinhos. No momento que Roy vinha com os dois braços vibrando, Vergil fixou uma das pernas no chão e gritou – Ultionis! – o punho de Vergil emitiu um impacto de reação muito forte quando se encostou ao peito de Roy, o mandando para longe. A vinha de Laura caiu ao chão, mas ainda acertou a mão do lutador. Com ambas as mãos inutilizadas, Vergil se viu com medo. Roy já se levantava e Laura liberava outra vinha da manga. A última as brandiu como dois chicotes, rasgando o ar em sua direção com movimentos curtos, porém precisos.
– Sato Flagello: Percutio! – os chicotes pareciam que tinham ganhado vida e avançaram perfurando, acertando o lutador no braço direito e na mão esquerda. Logo à frente, o irmão aproveitou a brecha e acertou um soco de peso incrível sob o peito de Vergil. Nesse momento, cortes surgiram nas vinhas e nos dois atacantes, com a aparição de Jane sob um funil de poeira, indo ajudar Vergil.
– Arg! – gemia o lutador, pela dor lacerante. Seu peito estava bem escoriado, e a falta de ar consumiu as palavras entaladas no pescoço.
– O que você está fazendo?! – exclamou Roy, sua voz soando histérica. Avançou em Jane, mas chamas irromperam logo ao redor deles, e dispersando logo depois com o surgimento de Suzan, apontando a espada de metal reluzente e fumegante para os dois.
– Deixem-no em paz! Já tiveram sua vingança... – disse Suzan calmamente, mas ao seu redor se notava a distorção no ar causada pelo calor.
– M-Meninas... – disse por fim Vergil, com o fôlego recuperado. – V-Vou terminar isso.
Roy riu maniacamente, enquanto Laura estava de joelhos com os cabelos cobrindo o rosto. Suzan então avançou para cima deles quando tropeçou em algo. Suas pernas estavam enlaçadas com vários cipós e subindo por toda sua armadura.
– Que droga! Flamma Involvo! – imediatamente, todo o corpo de Suzan esquentou o ar ao seu redor, explodindo em chamas vivas.
– Não adianta, cavaleira. Quando Laura se concentra, as vinhas ficam indestrutíveis! Trazê-la acabou sendo útil afinal; agora... – olhou para Vergil, que também tentava se soltar junto com Jane. Os outros correram para ajudar, mas cipós da espessura de uma galeria de esgoto serpenteavam e batiam na tentativa deles de furar o bloqueio.
– Vou decepar sua cabeça; veja bem este rosto: será o da pessoa que lhe derrotou.
Dizem que o tempo fica mais lento quando se está prestes a morrer. De fato, a mão vibratória de Roy estava traçando bem devagar um arco em direção a seu pescoço. Todo o medo parecia tomar conta dele agora. Não queria morrer, mas não conseguiria evitar o ataque mesmo que se soltasse das vinhas para fugir de lá.
– Consurgo Uno... – de sua boca saíram palavras que nem ao menos sabia, mas que ao terminar de pronunciar, todo seu corpo foi invadido de Energia. Sentiu-se mais forte, mais rápido... Mais determinado a derrotar o inimigo, libertando-se das vinhas ao mesmo tempo em que contra-atacava com um chute no queixo de Roy e se lançava no ar junto com ele.
– Fulgur Palus! – sua perna direita se eletrificou com raios vermelhos e disparou um relâmpago através de Roy quando o acertou nas costas, o mandando diretamente ao chão, destruindo cerca de duas árvores no impacto.
– Mas o que é isso?! – foi o que conseguiu dizer antes de levar um potente soco no abdômen. No mesmo segundo, Vergil iniciou uma sequência muito rápida de chutes, até gritar com toda sua força “Vociferor!”: uma tremenda onda de impacto sonoro lançou Roy para longe. Não muito ferido, mas meio tonto, ele tentou andar, caindo no processo. O lutador aproveitou e apontou a mão para ele, vendo que sua irmã quebrara a concentração para tentar ajudá-lo, sendo bloqueada por seus amigos. Com o fluido de Energia fustigando, ele falou:
– Roy, eu não tenho nada contra você; portanto não vou fazer o que você quer fazer comigo... Fulgur Iaculat...
Ele só teve tempo de expressar surpresa até ver de relance um raio vermelho trespassar seu corpo, perfurando seu abdômen e o paralisando na hora, antes de desmaiar. O fluido de Vergil desapareceu quando ele se ajoelhou e caiu também, com a respiração descontrolada e enormes quantidades de adrenalina sendo dissipadas, fazendo doer todos seus músculos, sua cabeça começar a doer e esquentar e quase o fazendo desmaiar também. Laura também caiu ao chão, mas não dava para dizer ao certo se estava morta ou não: seu corpo doía tanto que não pensava em nada.
– O que você e Claire estão escondendo de nós?! – indagou Cole. Vergil precisou de vários minutos para poder responder.
– N-Nada... Aquelas palavras... C-Consurgo Uno... Simplesmente saíram de minha boca.
– Consurgo Uno?
– Foi o mesmo que falei naquela outra vez! – disse Claire, com um súbito entendimento.
– Mas o que significa? Não aconteceu nada...
– Acho que eu e Vergil conseguimos ativar o Nível de Energia.
– Nível de Energia?
– Você tem cinco anos, por acaso?
– Não, tapada, só estou achando estranho isso tudo. Nunca escutei nenhum relato claro, apenas boatos soltos em bares. E agora aparecem três casos seguidos que eu testemunhei. Acha realmente que eu não acho tudo isso esquisito?
– Entendi seu ponto. – disse Claire – Enfim, de Nível de Energia eu conheço pouco. Sei que são divididos em três, e que o último ninguém atingiu. O primeiro aumenta cerca de duas vezes os poderes; poucas pessoas conseguem. O segundo aumenta cerca de cinco vezes, mas não há relatos de quem é capaz, ou pelo menos não que eu conheça. O terceiro é o mais alto conhecido, mas não há nenhuma informação mesmo que se procure.
– Já é um começo – disse Kenneth. Olhou pelo caminho: a trilha que estavam andando estava totalmente destruída, com várias crateras e árvores derrubadas. Os blocos negros estavam espalhados por toda a grama. Por sorte, não havia ninguém durante o combate.
O grupo dos seis avançou rapidamente pelo caminho, atravessando uma pequena colina e pegando um caminho por dentro da floresta, para tentar despistar quem quer que os persigam. O lutador era amparado por Suzan, enquanto Kenneth e Jane iam na frente e Cole e Claire cuidavam da parte de trás. Com o anoitecer, procuraram um local afastado e armaram acampamento.
– Já temos o nosso próximo destino? – perguntou Claire.
– Como nos desviamos muito do caminho – disse Jane, com ênfase no “muito” – Teremos que ir através da Caverna Mesater para poder chegar em Uranos o mais rápido possível.
– Tem certeza, Jane? – disse Vergil, já bem recuperado, mas com as mãos enfaixadas – Mesater não aquela caverna que—
– Tenho. É o único meio dos soldados e rivais – disse, dando um olhar penetrante a Vergil – não nos seguirem. Mesater é um meio de viagem bem rápido, já que é uma conexão de túneis.
– Pelo jeito conhece muito dela. Chegou a treinar por lá? – perguntou Kenneth, após trocar a ronda com Suzan.
– Em Cião, nos fazem treinar com perigos muito maiores que podemos enfrentar para aprender a percebê-los antes que nos percebam.
– Parece muito arriscado.
– É bem arriscado. Por isso que existem tão poucos de Percepção.
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