Notas iniciais
No mais, o capítulo está aí. Caso aja algum problema de formação, texto, postem nos comentários, por favor. E obrigado mais uma vez pelo interesse.

Ano 2006, mês de agosto:

Um certo shopping chamava a atenção. Não pela grandeza ou popularidade, mas por ser “comum”. E é justamente o que abordaremos nessa história: o comum, o popular; coisas que são tão normais que não notamos. Deve-se lembrar que mesmo a coisa mais comum pode ficar bem interessante e exótica se vista com outros olhos. O mundo está repleto de coisas assim, e aqueles que acham que podem fazer algo grandioso e benéfico são esses “comuns” que falo.

Neste shopping comum, vemos uma variedade enorme de pessoas: idosos, funcionários públicos, trabalhadores e alguns de classe média. Percorrendo toda sua extensão, se nota vários grupos de jovens adolescentes, que se divertem sem preocupações. Vários risos pelos amigos com senso de humor ou beijos e declarações de amor para aqueles românticos. Mas nossa história se foca no ambiente do cinema: a sala quadrada com aparência de auditório, onde uma tela de extensão considerável proporciona diversão televisiva para aqueles que gostam de vários tipos de história. E quando acaba, alguns grupos se reúnem novamente, para discutir o filme ou de outra coisa. E vemos um grupo que chama a nossa atenção; não por sua popularidade, não por seus membros nem seus ideais, mas por ser “comum”. Após a porta de veludo negro ser aberta, eles começam a sair. Um garoto alto e magro, de cabelos lisos e pretos, e olhos castanhos é o primeiro a sair. A primeira coisa a se notar era seu ar sério, porém despreocupado. Calça jeans, tênis branco e uma camisa um pouco folgada eram seu visual, e ele parecia estar esperando mais alguém, com um olhar especial. E essa pessoa acabara de sair: uma menina um pouco mais baixa que ele, de cabelos cacheados e olhos verdes, vindos de seu pai. Tinha um rosto inocente, e desprendia uma aura de calma. Os dois iriam começar a dialogar, porém mais dois surgiram através da escuridão. Ambos usavam óculos, e estavam conversando. Um deles era o mais baixo que tinha aparecido, apesar de não tanto. Tinha cabelos castanhos e olhos pretos, além de um ar de “engraçado”. O outro, mais alto do que todos que estavam lá tinha cabelos quase louros, conservando um pouco do seu avô junto com ele. E a última pessoa do grupo presente chegara logo atrás deles. Tinha cabelos pretos bastante lisos e olhos também pretos.

Após o término do filme, todos saíram da seção de cinema e passaram para perto da escada rolante. O shopping era pequeno, mas atraíam muitos visitantes todos os dias, especialmente por muitas das coisas serem baratas. Tinha uma ampla praça de alimentação e muitas lojas. Então quando chegaram perto da escada rolante, iriam se despedir:

– Que filme engraçado! – disse o mais alto, cujo nome era Kenneth.

– Achei mais engraçada aquela parte que o cara estava quase morrendo, aí estirou dedo pra ele. – disse o mais baixo, intitulado Cole.

– Mesmo assim, o filme foi legal – disse o primeiro a sair, tendo o nome de Vergil.

– Temos que ir: preciso chegar cedo em casa – disse a primeira garota a sair, chamada Suzan. A outra, chamada Jane, foi em seu encalço.

– Está certo então... Tchau meninas – disse Vergil, se despedindo. Chegou perto de Suzan e deu-lhe um abraço rápido.

– Tchau – disseram Suzan e Jane, bem como Vergil, Kenneth e Cole em resposta.

As duas meninas foram descendo a escada rolante quando, sem motivo aparente, vários feixes de luz multicolorida apareceram sobre as cabeças de todos.

– Mas o que... – começou Vergil sem entender até o túnel de luz onde estava brilhar mais intensamente e o fazer desaparecer em pleno ar.

– Como... – disse Suzan, antes de ser também engolfada pelo feixe de luz.

– O que está acontecendo?! – disse Kenneth, percebendo que ninguém do shopping os notavam. Nem sequer os olhavam. E momentos depois, também fora envolvido pelos túneis de luz e desapareceu, bem como Jane, que não tivera como reagir e sumiu. Cole estava sozinho e desesperado. Mas também não tardou e também sumiu com a misteriosa luz.

Subitamente, Vergil abriu os olhos. Não se localizava mais ao shopping. O ar que preenchia seus pulmões era úmido e quente, repleto de clorofila e odores folhosos. Estava estatelado por cima de plantas rasteiras. Permanecia olhando para cima, observando as árvores altas e de copas frondosas.

– O que estou fazendo aqui? Como vim parar aqui? – pensou – O que foi aquele túnel de luz sobre nós?

“Isso é loucura. Não havia nada que pudesse ter feito algo assim. Nem tinha como sermos sequestrados.”

– O que estou fazendo parado?! Não vou resolver nada parado! – disse a si mesmo enquanto levantava. Seus músculos das costas doíam, mas ele não se importava: o foco em sua mente era de encontrar os outros.

Caminhou durante minutos, horas. Não sabia. As árvores não se modificavam nem um pouco. Ao longe, logo após uma parada para descansar, ouviu um barulho de água corrente. Com sede e cansado, não hesitou em tentar encontrar a fonte do barulho. Poucos minutos foram necessários até chegar a um pequeno córrego de água bastante cristalina. Lavou o rosto e bebeu alguns goles, até cuspir com violência ao ver seu amigo Cole olhando com a mesma cara para ele. Seu amigo baixo de óculos estava caminhando com um pedaço de madeira longo e afiado a corte de facas.

– Cole!!! – gritou. Por um momento, o outro hesitou, mas então respondeu.

– Vergil!!! – e correu até junto de seu amigo. Após alguns minutos de conversa, Vergil descobriu que não havia sido apenas ele que havia sido “transportado”. Também descobriu que não era o único a perceber alguma coisa no ar, coisa que nunca havia sentido antes. Cole explicou que também havia andado faziam horas e afiou a ponta do pedaço de madeira com uma pedra que encontrou no caminho.

– Devemos ir atrás dos outros: sinto que estão perto.

– Concordo, Cole. Vamos.

Mas infelizmente, Cole não estava certo. Os dois garotos andaram por horas a fio e a misteriosa floresta escurecia cada vez mais. Um momento depois, desistiram e foram atrás de um local para dormir. Não demoraram muito e encontraram uma formação de rochas relativamente protegida. Fecharam com alguns galhos com folhas e se deitaram desconfortavelmente.

A manhã chegou rápido, com os pássaros cantando. Cole foi se levantando, quando Vergil subitamente o segurou com a mão.

– Tem alguma coisa aqui... Silêncio – disse, e sua mão estava tremendo. Espreitou-se por cima da rocha, e pegou um pedaço de madeira. Observou atentamente o movimento. Cole foi lhe seguindo pelo flanco direito. Com um movimento de cabeça, os dois saltaram gritando assim que fez algum movimento.

– RRRAAAHHH!!!

Um grito mais agudo foi ouvido, e o que estava dentro do arbusto fugiu para fora: era Jane. Por realmente muito pouco os garotos não a acertaram. Cole parou de repente, jogando areia com os pés e quase caindo, e Vergil caiu de costas por cima dela.

– Jane! – exclamou Cole. Ajudou a tirar Vergil de cima dela e a amparou. Vergil se desculpou e olhou para o interminável horizonte de árvores, pressentindo algo.

– Não havia mais ninguém com você? – perguntou Vergil, ainda intrigado com o mar de árvores.

– Bem... – respondeu Jane, receosa.

– Havia? – insistiu.

– Não exatamente... Estava fugindo de alguma coisa quando olhei de relance para o lado e... – de repente, parou e alertou – Está aqui! – e pulou empurrando os dois meninos para o chão, a tempo de fazer um machado errar por pouco o corpo de Vergil. Ao se virarem, encontraram uma figura que só haviam visto em mundos de fantasia e filmes: uma criatura horrenda, de forma humanoide, porém com pele verde, repleta de cicatrizes. Um rosto deformado, com presas elevadas, nariz porcino e olhos estreitos e amarelos. A “coisa” tentava a todo custo retirar o machado que havia fincado na árvore.

– Orc! – gritaram Vergil e Cole ao mesmo tempo. Subitamente, os três levantaram.

Cole não hesitou em pegar o bastão com a ponta afiada e avançar contra o inimigo. Porém, algo estranho aconteceu: a “lança” que Cole segurava foi se envolvendo em uma energia amarela. Ele não notava ou se importava, só se preocupava em avançar. Após o devaneio, Vergil apertou a mão que segurava o bastão e correu para atacar o inimigo. Imediatamente, ele notou algo diferente: as coisas estavam ficando cada vez mais lentas, menos ele. Via Jane gritar em câmera lenta, assim como Cole atacando e o orc desviando. Via a areia que tinha dispersado quando começou a correr ainda pairar no ar. Apesar disso, ele não se sentia diferente, a não ser pela resistência do ar que parecia muito maior. Correu até o orc e o atacou em vários pontos, e notava que eles lentamente iam se deformando. Momentos depois, o orc caiu e a velocidade voltou ao normal, assim como a “lança” de Cole. Ambos estavam muito cansados.

– O-O que vocês fizeram? – gaguejou Jane, perplexa.

– Não... Sei... – disse Vergil, antes de desmaiar.

– Espera... – disse Cole, se deitando e respirando fundo, com os olhos contraídos.

Como aparentemente o orc não fez menção alguma de se mover, Jane resolveu esperar. Algumas horas depois, Vergil acordou em um susto. O orc estava morto, Cole e Jane ao seu lado.

– O que diabos aconteceu? – perguntou Vergil.

– Derrotamos um orc – disse Cole calmamente.

– Isso eu sei! – exclamou irritado – Eu queria saber o que era aquilo que estava ao redor do seu pedaço de madeira.

– Sei lá! Simplesmente apareceu, e devo dizer que fiquei mais forte depois daquilo. E você: nunca vi ninguém se mover tão rápido!

– Como assim? Vocês que ficaram mais lentos.

– Não, tapado! Você que ficou mais rápido. Só vi um borrão na minha frente.

– Não estou entendendo mais nada! Só quero ir para minha casa!

– Você não é o único. Só temos que achar os outros: se encontramos Jane e você, quer dizer que Kenneth e Suzan também vieram pra cá.

– E como você tirou essa conclusão? – disse Jane, desconfiando um pouco.

– Veja bem: se estávamos todos nós no shopping e de repente fomos para cá, e encontramos vocês, a única explicação que vejo é essa.

– É... Tem razão – confirmou Jane.

– Então como iremos localizar os outros? – perguntou Vergil.

– Já sei! – exclamou Jane – Vergil, você tem a melhor visão que eu conheço. Escale uma das árvores e observe. Cole, você se encarrega de observar por dentro da floresta, e eu v...

– Ô minha senhora – disse Cole bem calmo, e depois explodiu – EU USO ÓCULOS!

O grito fez alguns pássaros revoarem, e houve uma comoção em uma parte mais distante.

– Viram isso? – disse Vergil, de cima da árvore.

– Vi – sussurrou Cole.

– Agora que você fala baixo... – comentou Jane, irritada.

– Se preparem. Vem vindo algo – disse Vergil, descendo da árvore e pegando seu bastão de madeira.

Os arbustos foram se mexendo levemente à medida que a “coisa” se aproximava. Enquanto isso, os garotos tinham se escondido. A tensão se tornava cada vez mais forte, e por fim, a “coisa” emergiu do arbusto ao mesmo tempo em que Cole e Vergil gritavam freneticamente brandindo suas armas improvisadas.

Um som seco de madeira colidindo foi ouvido: Kenneth bloqueava os dois ataques com os antebraços. Suzan estava logo atrás, com pedras nas mãos prestes a serem lançadas.

– V-vocês... – exclamou Vergil.

– Jane! – disse Suzan, correndo para abraçá-la.

Houve um momento para explicações, e então todo o grupo decidiu procurar pela civilização. Jane já tinha certa experiência em seguir rastros, pois havia sido escoteira quando menor. O grupo encontrou pegadas que não havia sido deles e resolveram seguir. Caminharam por algumas horas, com paradas esporádicas para repor água e procurar frutas comestíveis pelas redondezas, até que chegaram ao final da trilha. Não havia mais nada além da imensidão florestal que os cercava.

– Legal... Seguimos por todo esse tempo para nada – resmungou Cole, e sentou cansado.

– Não entendo: a trilha não deveria simplesmente sumir desse jeito. O criador dela deve ter percebido e feito alguma coisa para apagá-la – disse Jane, meio nervosa.

Nesse momento, uma pessoa saiu das imediações arborizadas: um homem alto, um pouco forte, trajado de um chapéu feito de folhas de bananeiras, uma bermuda feita de pedaços de couro não-trabalhado costurados. Portava uma lança feita totalmente de madeira, de ponta com predominância em espinhos e uma espessa e grande barba, que cobria a totalidade do queixo e boca. Os garotos imediatamente se prepararam.

– Iroq baruin punim? – murmurou o homem. O grupo não se moveu, apesar de estranharem a fala. O homem pensou por um momento e disse depois: — Quem são vocês?

– Para que você quer saber? – disse Cole, apertando os olhos.

– Estão a mando de Alucard?

– Quem? – indagou Kenneth.

– Então não são daqui... Hum... – disse o homem mais para si mesmo do que para o grupo. – A cidade fica para aquela direção. Vamos nos encontrar novamente – e dizendo isso, o homem correu tão rápido quanto Vergil havia antes.

Poucos momentos depois, Cole disse:

– Mas que diabos esse homem é? Aparece, nos diz uma direção e some? Eu hein...

– Concordo... Muito suspeito. – confirmou Vergil. – Mas é melhor do que não ter nenhuma ideia de onde estejamos. Acham que devemos seguir?

– É muito arriscado – disse Kenneth.

– Vou pegar essa chance – disse Suzan.

– Eu também. Não quero ficar aqui na mata por muito mais tempo – reclamou Jane.

– Eu não quero ir. Prefiro ficar aqui na floresta a seguir um doido – disse Cole.

– Então vamos: podemos ter uma ideia de como fomos parar aqui – concluiu Vergil.

Apesar de o grupo ter ficado dividido, todos seguiram a direção que o homem falou. Em poucos minutos, os garotos vislumbraram construções de tijolos argilosos, ligados por um cimento a base de areia, dada a cor amarelada. As janelas eram formadas de armações metálicas um pouco rústicas, com as folhas em madeira. Portas eram do jeito que conheciam, mas tirando esse detalhe, todo o local parecia ser feito do século passado ou mais antigo ainda. A sensação que nunca tinham percebido antes, na floresta, agora estava mais fraca, mas ainda assim, presente. O grupo sitiou na praça da cidade. As pessoas vestiam roupas de algodão rústico e não-trabalhado, com outras vestidas em couro e até trajando armaduras de metal como as que viam em museus. A cidade tinha um ar antigo, de idade média europeia. Iriam começar a argumentar, até que Vergil, quieto nos pensamentos, estava encarando uma das pessoas que andava em direção a uma das casas: era uma menina, mais ou menos da idade deles, de pele morena, cabelo cacheado preto amarrado em um rabo-de-cavalo, usando um camisão de vários anéis de aço entrelaçados, com um cinto grosso de couro, tendo um machado que dava para ser utilizado em uma mão pendurado no mesmo. As botas eram de cano alto, folgadas e de couro, dando um certo contraste com a calça anelada relativamente colada.

– Claire!!! – gritou Vergil, surpreendendo todos que estavam por lá. A menina parou de chofre e virou o rosto para a origem da voz. Imediatamente um sorriso se formou em seu rosto e prosseguiu correndo até o grupo.

– Caramba: não esperava encontrar nenhum de vocês por aqui.

– Nossa: você cresceu – disse Cole, vendo que ela estava mais alta e com o corpo mais próximo do adulto.

– Também não é pra menos: estou aqui a mais de 2 anos.

Nesse momento, todos engoliram em seco.

– Como assim dois anos?! – exclamou Suzan – Ligamos para você, fazia o que, algumas horas antes de chegarmos aqui!

– Então o tempo é diferente de como transcorre em nosso mundo... – disse Claire, mais para si mesma do que para todos.

– Peraí – indagou Vergil – Você disse “nosso mundo”? – Claire deu uma risada:

– Achou mesmo que estávamos no Brasil depois de todas essas coisas estranhas por aqui? Estamos em um continente chamado Ryokun.

– Esquisito... Não existe esse continente na Terra – comentou Kenneth.

– Eu sei, tapado. Só estou tentando dizer que não estamos na Terra, mas em alguma dimensão alternativa, sei lá: eu ainda não descobri tudo!

– Ok, ok, entendemos – disse Jane.

– Tudo bem, chega de papo: vamos para minha casa. Acredito que tenham muitas perguntas a fazer.

Notas finais
Primeiro capítulo, primeiras impressões. Gostaria que comentassem sobre. Estou postando aqui para saber de alguma opinião externa.