A Guerra dos Criativos

3 Acampamento da Comunhão


Nunca em minha vida havia ouvido falar num empate num combate. Ou se ganhava ou se perdia; não havia, portanto, meio-termo ou empate, como falara o monstrinho de feições felinas. Apenas num jogo poderia se admitir algo parecido. Tive de olhar para fora e ver o acontecimento inédito numa guerra. Os curupiras agora cuidavam dos avestruzes, todos sorridentes, brincando; logo mais a frente os seres magrelos ajudavam-nos na tarefa, parecendo bons amigos. Aquilo era muito surreal! Continuei a observar, totalmente surpreso, apenas para enxergar dois jovens se cumprimentando.

— Quem são eles? — perguntei, olhando ora para Zarak, ora para Hipólito.

— Dois Capitães — respondeu minha criatura.

— O garoto é um dos mais talentosos pintores e a moça é uma excelente contista.

— E por que estão se cumprimentando como amigos?

— Porque é isso que são.

— Quando o combate acaba, não há mais pelo que brigar — acrescentou o jovem centauro.

Algo que não acontece neste mundo — infelizmente.

— Vamos lá saudá-los — disse o monstrinho, saindo da toca.

Segui-o, ainda tentando processar as confusas informações sobre a Guerra dos Criativos. Com certeza era a coisa mais sem sentido que já vivenciei desde a primeira visita de Zarak, quando eu tinha quinze anos e ainda era um escrevinhador. Melhor, mais esquisito do que a visita natalina — que pouca relação teve com o Natal, se pensar bem.

Notei que ele não andava mais como um pinguim, como antes, mas agora possuía toda a suavidade de um gato, toda a graça de uma pantera. Ainda tinha os cabelos multicoloridos, a túnica como uma água-viva, sempre em movimento, a mesma altura e a mesma aparência. Mas algo, alguma coisa que desconhecia, estava diferente.

Também observei Hipólito. Era um centauro que devia ter entre doze ou treze anos, sardas no rosto, olhos esverdeados, cabelos loiros e encaracolados; não usava camisa, deixando o tronco magro e igualmente sardento desnudo. Na parte equina, ostentava pelos brancos com manchas castanhas.

— Belo combate, Capitães! — exclamou meu amigo imaginário, todo alegre.

— Estávamos comentando sobre isso há pouco, Zarak — concordou uma jovem de cabelos castanhos, com mechas em tons mais claros, exibindo um sorriso largo.

— Gostei do golem de pedra e dos rinocerontes, principalmente.

— Vencer um golem de pedra não é algo fácil de fazer — falou o rapaz, um sujeito de olhos castanhos e com um pouco de sotaque.

— Entretanto, conseguiu usar muito bem os rinocerontes — elogiou a contista, sempre carismática.

— E você? Quem é?

A pergunta do pintor fora direcionada a mim.

— Sou...

— Diga apenas seu nome de guerra, o seu pseudônimo! — interrompeu Zarak, com um pouco de precaução e formalidade.

— É a Terceira Regra — acrescentou o centauro, quase num sussurro indiscreto.

— Ele não leu o Pergaminho — informou o monstrinho aos dois Capitães, como se cochichasse um segredo, porém pude ouvir claramente.

Percebia-se o tanto que ambos estavam dispostos a me ajudarem.

— Bem... — hesitei um pouco, pensativo. — É Alec Silva.

— Hum... — deixou escapar a garota.

— Um nome simples, não acha? — comentou o jovem, com certo desdém.

Aquilo me fez ficar zangado. Por um bom tempo eu tentei usar meu nome e meu sobrenome verdadeiros, porém ao pesquisar no Google sempre me deparava com jogadores de futebol e afins, e não comigo, o escritor — ou o menino que queria ser escritor. Por isso tirei o "x" e pus o "c", o que me ajudou muito no resultado que queria — pelo menos nas buscas pela Internet.

— Sou Marcélia, Capitã a serviço do General Alfredo — apresentou-se a contista, com cordialidade. — E este é Jean, Capitão a serviço de Elric.

Cumprimentei-os com apertos de mãos, usando mais força com o garoto e mais delicadeza com a moça.

— E você, Alec? — questionou o pintor. — É Capitão ou General?

— Comandante — respondi, embora sentisse inexplicavelmente uma timidez.

— Interessante — disse Marcélia.

— Serve a qual Capitão?

— Ainda não sei.

— E como usa a sua criatividade?

— Sou escritor, Marcélia.

— Escritor?! — espantou-se Jean, arregalando os olhos.

— Amador ainda — "ajudou-me" Zarak.

O estrago, contudo, já estava feito àquela altura.

— Não vi muitos escritores como Comandantes — falou o rapaz, parecendo zombar de meu posto.

— Devemos nos orgulhar do que somos e do que conquistamos, independente se é uma coisa grande ou pequena — disse a contista, fazendo-me sentir um friozinho na barriga.

Percebi que o outro Capitão não gostara muito de ouvir aquilo.

— Agora, Alec, você precisa de roupas adequadas para as batalhas, não? — observou a Capitã, toda simpática, após me examinar rapidamente.

Foi então que notei que eu estava com uma calça folgada e leve e uma camisa de algodão branca, pois detestava — assim como ainda detesto hoje — dormir de pijama. Meus pés estavam descalços.

— Vamos para o Acampamento de Comunhão — determinou Jean, virando-se.

— Sim, vamos sim.

Quatro dragões-libélulas pousaram ao nosso lado, assustando-me um pouco. Admirei outra vez a beleza daqueles seres alados criados por mim. Eram ao mesmo tempo graciosos e potentes no voo.

— Ei, Zarak! — cutuquei o monstrinho, sussurrando quase em seu ouvido. — Eles são criações minhas, não são?

— São sim — confirmou ele, também falando baixo. — Mas aqui as criatividades se unem para sustentarem este mundo.

— Legal! — exclamei, apesar de ainda não entender aquilo.

— Humrum.

Montamos cada um em um dragão de escamas multicoloridas, asas parecidas com as de uma libélula e beleza exótica. É verdade que os criei a partir de uma imagem que vi na Internet, mas tinha lá algum traço de originalidade.

— E Hipólito? — perguntei, com pena do centaurinho, pois este não conseguiria montar os animais.

— Vou galopando, não se preocupe, Alec! — exclamou a criatura híbrida, sorrindo com firmeza.

Tudo resolvido, os animais fabulosos levantaram voo.

Inicialmente fiquei tonto, como ocorrera na primeira vez que voei, quando meu amigo imaginário me levou para dentro de minha imaginação. Mas logo passou e pude aproveitar a bela paisagem. Ter acrofobia tinha suas desvantagens, mesmo num mundo de possibilidades infinitas.

Vi os dois exércitos se movimentando, talvez se dispersando, pois o combate havia empatado entre Marcélia e Jean. Para onde estariam indo? Não pude ver para onde foram, embora notasse que adentravam numa espessa camada de pó e fumaça de cores variadas. A cem ou duzentos metros de altura, montado num dragão-libélula, eu via tudo pequenino e quase panoramicamente, vislumbrando ora ou outra alguma criatura fantástica andando pelos campos, florestas ou colinas.

Olhei para Zarak, que parecia se divertir muito com o passeio — o que não me espantava, afinal praticamente tudo para ele era diversão. Novamente me veio à mente a dúvida de que havia algo mudado nele ou não. Ele era o mesmo das visitas anteriores, porém havia algo diferente. A questão era o que exatamente havia mudado.

Creio que tenhamos sobrevoado muitos quilômetros por quase meia hora até que o pintor com sotaque francês apontasse para um vale que era cortado por um rio. Havíamos chegado ao nosso destino.

O que vi era maravilhoso! Muito fantástico, na verdade. Tão belo quanto um quadro romântico ou a visão cheia de efeitos especiais de um filme épico. Lá embaixo havia centenas de tendas de inúmeras cores e formas, variados tamanhos e estilos. Grupos de pessoas e criaturas imaginárias se moviam de um lado a outro, fazendo alguma tarefa, ou simplesmente paradas em volta de mesas enormes, todas cheias de guloseimas bem visíveis, deliciando-se com tudo o que lhes era permitido comerem. Ao redor do Acampamento, que formava um círculo perfeito, árvores se mexiam, parecendo dançar alguma música, embora eu não visse ninguém tocando instrumentos em parte alguma. Acompanhando-as na dança, animais que eu conhecia por serem reais ou mitológicos e outros que nem sabia que era possível a existência. Tudo numa harmonia assombrosa e utópica.

— Vamos pousar ali! — gritou Jean, apontando agora para um ponto no qual dezenas de outros dragões-libélulas pousavam, no pé de uma colina.

Manobrei minha montaria, que voou na direção apontada pelo Capitão. Pareceria difícil para quem visse, mas controlar aquele tipo de dragão era algo tão fácil quanto sonhar ou sorrir, sobretudo quando se é jovem. Bastava confiar.

Quando pousamos, fomos recepcionados por um garoto de longos cabelos brancos que trajava uma armadura de cristal azulado, de pouco brilho, contudo de beleza fascinante pela composição.

— Que bom revê-los, Capitães! — exclamou ele, cordialmente, com um largo sorriso.

— Digo o mesmo, General — replicou Marcélia, descendo de sua montaria.

Os dois se abraçaram por alguns segundos.

— E você, Capitão Jean? — indagou o garoto de olhos dourados e sorriso sincero. — Venceu ou empatou?

— Empatamos — respondeu o francês, um pouco envergonhado, terminando de descer do dragão.

— Hum... Marcélia está se mostrando uma grande fantasista, hein?

O elogio fez a moça corar um pouco.

— Zarak, e você — prosseguiu o General, fitando o monstrinho —, o que nos conta?

— General Elric — falou meu amigo imaginário, pondo a mão de dedos magros e compridos sobre meu ombro —, este é o Comandante Alec.

Ele havia montado em meu dragão sem que eu percebesse.

— É uma honra conhecê-lo, Comandante — disse Elric, estendendo a mão esquerda.

Também estendi a mão esquerda. Por não ser canhoto, tive um pouco de dificuldade para cumprimentá-lo.

— Também é um escritor, não? — perguntou, calmo.

— Sim, sou — respondi, incapaz de controlar meu nervosismo.

— Não vi muitos Comandantes escritores por aqui. Você deve ser um bom escritor ou não o colocariam neste posto.

Agora eu estava confuso. Até pouco tempo atrás, quatro indivíduos haviam mencionado direta ou indiretamente que ser um Comandante não era algo muito bom para um escritor. E agora um quinto falava exatamente o oposto.

— Tem notícias do General Alfredo? — indagou a Capitã, dirigindo-se a Elric.

— Foi para as estepes combater um General russo, cujo nome não me lembro agora. Deve retornar em um ou dois dias, mas deixou Pergaminhos para seus Capitães.

Eu me sentia meio avulso na conversa, afinal não sabia quase nada — ou completamente nada — sobre a guerra que era travada.

— Zarak, leve Alec para trocar de roupas! — pediu o General, agora fitando o monstrinho. — Diga que eu ordenei que arranjassem os melhores trajes possíveis para um Comandante, certo?

— Pode deixar! — exclamou ele, todo empolgado.

Meu amigo imaginário pulou para o gramado, fazendo sinal para que eu o seguisse, o que fiz sem pestanejar.

— Aguardaremos vocês no banquete — disse o garoto de cabelos brancos, andando quase ao nosso lado.

Zarak e eu retribuímos, com gestos parecidos, a gentileza.

— Elric é escritor? — questionei, quando estávamos suficientemente afastados do pequeno grupo.

— Sim. Um dos melhores. Escreve história alternativa, baixa fantasia e espada e feitiçaria.

Enquanto andávamos, pus-me a examinar tudo o que pude do local, notando muitas belezas fantásticas, coisas que somente a imaginação onírica é capaz de criar.

— Zarak, por que você nunca me falou sobre a Guerra dos Criativos?

— Porque não se deve falar daquilo que somente a imaginação conhece — respondeu o monstrinho, enigmático. — E além do mais, não pensei que você fosse ser convocado.

— Por quê?

— São poucos os que participam.

— Mas, pelo que entendi, há muita gente aqui, não?

— Sim, há sim.

— Então por que você disse que poucos participam dela?

— Há bilhões de humanos, todos com a capacidade de imaginar e criar, ou seja, são todos Criativos.

Uma macieira imensa passou em nossa frente e nos cumprimentou, sacudindo seus galhos verdes, cheios de frutos vermelhos e tentadores. Retribuímos.

— A imaginação cresce por quase dezoito anos, cessando por aí. Isso é o normal — continuou meu amigo, sem me fitar. — Há, como toda regra, aquela imaginação que continua a crescer depois disso, o que torna a pessoa muito especial.

Eu não sabia ainda até que ponto ele queria chegar.

— Todos os Mensageiros são Criativos com dezoito anos ou menos, por isso o posto baixo. O que eles viverem, fazerem e testemunharem aqui determinará o futuro deles. São os que menos correm riscos caso percam a Guerra, pois para eles tudo é uma diversão.

Zarak acenou para um menino que estava montado num gato branco gigantesco. O garoto parecia ser músico, pois logo que minha criatura o cumprimentou, dedicou-se a mexer num cano de bambu, produzindo alguns sons.

— Comandantes e Capitães são postos de pessoas que passaram dos dezoito anos, como é o seu caso, que já tem dezenove. É um período perigoso, pois é nele que será determinado o futuro. Por isso o espanto de você pertencer ao Comando.

— E aí, Zarak? — gritou um rato bípede, que carregava um pequeno cacho de uvas. — O esquema tá marcado, não?

— Tá sim!

Ao contrário de mim, minha criatura era bem popular.

Corri os olhos rapidamente para o pequeno roedor, incapaz de não compará-lo ao camundongo da série de livros de fantasia cristã que tanto apreciava. Entretanto, não me pareceu muito inocente.

— E os Generais? — inquiri, desviando o olhar daquele animalzinho.

— Ou têm mais de vinte anos ou são adultos muito imaginativos.

— Não há uma faixa etária para participar da Guerra, é isso?

— Mais ou menos. Como falei, não são todos que conseguem participar.

Aproximávamos de uma enorme tenda arco-íris, decorada com tiras de panos na entrada.

— Participar da Guerra dos Criativos — completou o monstrinho, após respirar com um pouco de ruído —, independente de qual seja o posto, é uma grande façanha, pois é chance única de exercitar a criatividade e aprimorá-la, interagindo com outros Criativos.

— E se a gente perde a Guerra?

Aquela pergunta surgiu do nada, talvez resultante de algum receio de minha parte. Ou do pouco que ouvi sobre a hipótese de se perder.

— Alguns ficam bem, outros não — respondeu Zarak. — Tudo vai da cachola de cada um, sabe?

Eu ia perguntar mais alguma coisa, porém uma garça rosa surgiu de dentro da tenda, gritando o nome de meu amigo imaginário. Olhei assustado para a figura cartunesca com jeitos humanos e bem femininos.

— Você devia trocar essa camisa, Zarak, meu filho! — aconselhou a ave de pernas compridas, com a voz de taquara rachada. — Ela é um horror! Horrorosa!

— Não enche, Grace! — zangou-se o monstrinho, segurando sua túnica multicolorida e tão cheia de vida com firmeza. — Gosto dela.

— Quem é você?

A pergunta fora dirigida a mim.

— Alec — respondi, ainda assustado com aquela figura andrógina e tão agitada.

— Meu Criativo — acrescentou meu amigo.

— Foi ele quem o criou?! — indagou a criatura rosada, apontando para mim e depois para o monstrinho.

Percebi um pouco de desdém em sua voz.

— Sim, por quê? — retruquei.

— Porque tem de ser muito desocupado para criar algo tão chato — respondeu Grace, encarando-me com aqueles olhos verdes tão sérios.

— Eu não era um desocupado! — protestei, irritado. — Apenas não tive amigos quando criança.

Realmente a minha infância foi quase toda muito solitária. Vivia cercado de brinquedos, os quais eu criava enredos dos mais variados tipos. Havia minhas irmãs para brincar, mas não era a mesma coisa; por isso criei Zarak: para ter companhia.

— Não quis ofendê-lo, mas é que ele me tira a paciência toda vez que aparece por aqui — desculpou-se a garça, amenizando um pouco o tom de voz.

Fingi um sorriso — por pura gentileza.

— O General Elric exigiu as melhores vestimentas para meu amigo — disse o monstrinho branco, já entrando na tenda.

— Sim, claro — falou a ave rosa, acompanhando-o. — Só tenho as melhores aqui.

Segui-os, ainda ressentido.

— E qual é o seu posto, Alec? — indagou-me Grace.

Respirei fundo e respondi:

— Comandante.

A tenda era muito maior do que eu imaginei e toda enfeitada por tecidos, roupas, cintos, armaduras e acessórios. Era tudo muito lindo e incrível. Com toda a certeza era o estabelecimento de um alfaiate ou estilista.

— Pode escolher! — pediu Grace, indicando com penas largas, que se passava por dedos, todas as variedades de cores, formas, vestimentas e afins. — Há trajes perfeitos para um Comandante.

— Calça folgada azul, camisa um pouco grande para meu porte, outra camisa de manga longa roxa e com capuz e tênis pretos leves? — sugeri sem ao menos pestanejar.

— É de gosto duvidoso, mas temos sim.

A garça rosa bateu palmas e uma toupeira de tamanho avantajado surgiu com uma pilha de roupas dobradas e um par de calçados pretos em cima delas. Não sei se era mais estranho aquele animal como auxiliar ou o fato de uma garça bater palmas. Peguei tudo e fui para o provador indicado pela ave. Troquei-me rapidamente, pensando na loucura em que havia me envolvido desta vez. Olhei-me no espelho grande, apreciando o que usava. Quando saí, contudo, notei o olhar desaprovador de Grace, que chegou a virar o bico para o lado, e a expressão animada de Zarak — que era mais importante para mim.

— Você tem anéis? — perguntei, muito inspirado, ignorando a reação de contragosto da garça.

— Só escolher os modelos e os dedos — replicou a ave estilista, sem me fitar.

— Bem... Um para o indicador e o médio da mão esquerda. E a mesma quantidade para o indicador e o minguinho da mão direita.

A garça arfou um pouco antes de bater palmas outra vez. Com certeza eu era o frequentador mais fora de moda que pisara em sua tenda. Novamente a toupeira surgiu, trazendo desta vez uma caixinha com quatro anéis prateados. Pus um a um nos dedos que pretendia; cabiam perfeitamente, o que me espantou um pouco. O que eu usava no indicador direito era na verdade dois, sendo um sobreposto a outro.

— Só falta cortar mais o cabelo, não? — sugeriu o monstrinho, sorrindo.

Levei a mão à cabeça, sentindo os cabelos ondulados e levemente encaracolados bem grandes. Eu pretendia ir ao salão cortá-los ainda naquela semana.

— Também acho — concordou Grace, um segundo antes de bater palmas.

Desta vez não foi a toupeira quem apareceu, e sim quatro pigmeus que portavam cada um uma foice pequena. Aquilo não me pareceu nada bom.

— O que eles vão fazer? — perguntei, receoso, olhando ambas as criaturas que me preparavam para o banquete.

— Sentaí! — pediu Zarak, empurrando-me para trás.

Tomei um susto, mas, para meu alívio, caí sentado numa cadeira reclinável e bem confortável. Imediatamente a ave rosa pôs um pano sobre meu peito; em seguida os quatro pigmeus, que eram bem magrelos e ágeis, cercaram-me, escalando a cadeira e principiaram a cortar meu cabelo. Nunca antes havia ouvido falar em cortar cabelo com foice, mas aqueles cabeleireiros estavam se saindo bem, embora eu temesse perder uma orelha a qualquer momento. Quando terminaram o serviço, afastaram-se com grande satisfação pelo trabalho bem sucedido.

— Agora sim, querido — falou a garça, soltando o colar de pérolas que usava em volta do pescoço, em sinal de aprovação.

O monstrinho também aprovara, exibindo um largo sorriso.

— Vamos para o banquete, não? — questionei, olhando para ele, enquanto me levantava.

— Sim, vamos sim.

Agradeci a ajuda de Grace, que me abraçou e me pediu para procurá-la — ou procurá-lo, nem sei bem — sempre que precisasse mudar o look. Se pudesse, faria isso com certeza.

Já fora da tenda, retomei minhas perguntas ao meu amigo.

— Se é uma guerra, por que todos ficam em harmonia?

— Porque é uma guerra criativa, entendeu? Ninguém está aqui querendo ser o melhor ou conseguir algo fútil. Não há nada a se conquistar, pois todos já têm o que precisam — explicou Zarak, com simplicidade.

— Mas alguém vence, não?

— Sim. Como tudo na vida, há vencedores, mas até quem perde ganha alguma coisa.

— E aí?

— "E aí" o quê?

— Por que guerrear se não tem motivo e nada para se ganhar?

— Pô, Alex! — reclamou ele, voltando a ser aquela criatura cheia de gírias que eu conhecia.

Não houve tempo de uma resposta, pois Elric veio nos receber, exibindo um largo sorriso.

— Vejo que Grace fez um bom trabalho com você, Alec! — exclamou.

Concordei, embora a garça tivesse feito pouca coisa em relação às minhas roupas.

— Vamos nos sentar com a sua Capitã e nos conhecer um pouco melhor!

— Minha Capitã?! — estranhei, provavelmente arregalando os olhos.

— Sim, a Marcélia — confirmou o General de olhos dourados, sorrindo.

Foi inevitável não sentir um arrepio gostoso na espinha diante daquela resposta.