Agora que eu sabia que Marcélia era a minha Capitã, a Criativa que obedeceria, uma sensação estranha me invadia. Ora ou outra, durante o banquete, meus olhos corriam em sua direção, para logo se desviar, sem jeito, a outro ponto, quando ela me lançava algum olhar casual.

As conversas giravam em torno dos combates que aconteceram, dos que aconteciam naquele momento e dos que ainda aconteceriam. Tentei prestar atenção em tudo, afinal nada sabia sobre eles. Seria minha chance de formar algum consenso quanto à loucura na qual estava envolvido.

— O General Alfredo deixou em minhas mãos a escolha de um Comandante para enfrentá-lo, Marlus — falou a fantasista, dirigindo-se a um garoto de cabelos loiros arrepiados, num certo momento, fazendo-me dessa vez fitá-la sem temor.

Meu coração quase saiu pela boca quando ela falou que eu era o seu escolhido. Eu não poderia participar de um combate, pois não havia lido o Pergaminho, o bendito papel que continha as regras! Seria muita loucura fazer algo que nem sabia como se fazia.

— Você é o criador dos dragões-libélulas, certo? — perguntou meu futuro adversário, encarando-me.

— Sim, sou — respondi, entre o orgulho e o receio.

— Amanhã você vai conhecer meus dracogrifos. Tenho certeza de que nunca viu nada igual.

Aquela provocação me intimidou imensamente, afinal o garoto tinha um ar sombrio e de poucos amigos. E minhas criações eram mais infantis do que próprias para o combate. Desviei o olhar, procurando Zarak, que àquela altura estava na quinta coxa de peru, comendo como um esfomeado — o que, de fato, sempre fazia, desde a noite que me visitou pela primeira vez. Lembrei-me de que uma vez minha mãe me contou que quando eu era criança, acho que com dois ou três anos, costumava derramar água ou suco no prato durante as refeições e comer tudo como uma sopa. Creio que isso explicava os hábitos alimentares malucos de meu amigo — hábitos os quais considero muito estranhos e, às vezes, de gosto duvidoso.

Bebi um gole moderado do suco de limão, que estava bem gelado, agora olhando discretamente para minha Capitã. Como era linda! Não parecia ser tão severa quanto Jean, e sim meiga e gentil. Uma fada, eu me arriscaria dizer, de tão maravilhosa que me pareceu naquele instante. Sob a luz das tochas — ou piras, não me recordo ao certo agora — e dos últimos raios da tarde, já mesclados ao manto negro da noite, seu semblante era radiante e atraente, de um encanto tão magnífico quanto o brilho das estrelas.

De repente senti uma cotovelada — creio eu, afinal não me passou de um toque para me chamar a atenção — na barriga, o que me fez voltar ao raciocínio normal. Era o monstrinho, que cochichou:

— Concentre-se!

Ele havia percebido a minha distração! E os outros? Teriam também percebido alguma coisa?

— Capitã Marcélia — exclamou o General Elric, que parecia ser o mais expressivo de todos ao redor da mesa —, poderia nos dar a honra de ouvi-la contar alguma de suas histórias esta noite?

Todos, inclusive Zarak — e exceto eu, por espanto ou por estar tão envolvido com aquela aura mágica —, apreciaram a ideia. Apenas a observei, notando um leve enrubescimento de suas bochechas. Ela levantou-se, ajeitando o fiapo em tom creme de seu cabelo, uma das tantas mechas que contrastavam com o castanho escurecido, tirando-o de cima do olho quase negro esquerdo. Fitou-nos com um ar solene, talvez pensativa.

— Bem... nem sei qual contar hoje...

A armadura leve que usava reluzia como prata. Era um traje militar, mas não escondia ou anulava a sua beleza e nem a sua feminidade. Com certeza Grace havia feito uma boa escolha.

— Conte-nos a que quiser! — gritou alguém, a metros de distância, provocando uma ligeira algazarra.

Pelo visto, a jovem fantasista era bem querida por todos ali. Quisera eu ter tanta fama e ser tão respeitado quanto ela era!

— Ela é uma boa contadora de histórias, Alec — disse meu amigo, quase num sussurro.

"Imagino", pensei, não me contendo de excitação diante da chance de ouvi-la narrar um conto.

Quando ela começou a nos contar uma fábula de anões, gnomos e silfos, houve um profundo e estranho silêncio por parte dos demais. Tudo fora mergulhado no encanto de sua voz, na magia de suas palavras. Não sei quanto aos outros, mas eu fui levado para dentro do conto, testemunhando cada trecho dele até a sua belíssima conclusão.

Testemunhei desde o início do relato, quando alguns gigantes raptaram alguns seres de estatura menor, no momento que estes festejavam a chegada da primavera. Acompanhei um pequeno grupo de resgate, formado por anões, gnomos e silfos, todos decididos a salvarem seus parentes. Vi o indômito grupo enfrentar as adversidades da natureza, os monstros no caminho, desde dragões, golens, ogros a duendes trapaceiros; senti frio, calor, medo, emocionei-me quando um deles morreu para salvar um irmão. Vibrei quando eles finalmente enfrentaram os raptores, vencendo-os com dificuldades, resgatando os demais. E chorei em silêncio o retorno deles para casa, entre a alegria da liberdade e a tristeza da perda sofrida.

Concluída a narrativa, houve um grande clamor e uma merecida orquestra de palmas, todos de pé, alguns — inclusive eu — emocionados, com os olhos lacrimejados. Sem a menor dúvida, aquela moça tão encantadora era sensível a ponto de nos conquistar não apenas com sua beleza, mas também com suas histórias. Elric abraçou-a, dando-lhe um beijo no rosto, parabenizando-a. A seguir, todos voltaram ao banquete, porém agora — acho que mais do que antes — a minha atenção se voltara para a contista, a minha líder na Guerra. Suas palavras para dar vida àquele conto me tocaram.

Após a refeição, resolvi andar um pouco pelo acampamento, chamando Zarak para me acompanhar, contudo o monstrinho recusou o convite, alegando que precisava conversar com Hipólito, que chegara meia hora antes.

— Eu o acompanho, Comandante — ofereceu-se Marcélia, gentil e meiga, aproximando-se de mim.

Meu coração bateu aceleradamente. Nem acreditava naquilo, que teria a companhia agradável de minha Capitã num passeio noturno.

— Será uma honra, Capitã — consegui falar, embora tremesse um pouco na voz e no corpo.

A noite naquele mundo era muito linda: estrelas que formavam figuras animadas, uma lua redonda e quase azulada, que emanava uma espécie de fumaça prateada e ondulante. Algo digno de ser retratado em poesia.

— Nunca imaginei que pudesse haver algo tão fantástico assim — comentei, enquanto andávamos.

— Claro que imaginou — replicou a Capitã, a voz serena. — Não com tantos detalhes, mas algo aqui, alguma parcela, vem de sua imaginação também.

— Zarak me falou algo parecido.

— Este mundo é sustentado unicamente pelos Criativos, sobretudo os Lordes, e suas imaginações.

— Lordes?!

— Você não sabe quem são os Lordes?

Meneei a cabeça de forma negativa, um pouco envergonhado.

— Os Lordes são os Criativos mais poderosos, os responsáveis por nos trazerem para cá, por determinarem nossos postos, por manterem este mundo e tudo o que há nele em harmonia, sem falhas, por mesclarem as criatividades de todos nós de tal maneira que nos faz viver aqui tal qual viveríamos na Terra — explicou Marcélia.

— Eles participam da Guerra?

— Não.

Cada vez mais eu descobria coisas sobre a Guerra dos Criativos — e mais confuso ficava.

— São como divindades por aqui — continuou a contista, sentando-se num relevo pouco íngreme.

Sentei-me ao seu lado, pensando na complexidade de imaginações que deveria existir para criar tudo aquilo. Com certeza eram seres supremos, nem que fossem em força mental e criativa.

— Não se deixe intimidar pelo Comandante Marlus, viu? — avisou ela, agora séria.

— Como? — indaguei, por instinto, fitando-a.

— Ele é filho de psicólogos. Vai tentar afetar a sua criatividade com termos e babaquices amanhã. Tome cuidado!

— Certo. Tomarei sim.

Desviei o olhar, erguendo-o até enxergar a lua azulada e poeirenta, tão sobrenatural quanto as lendas e crenças que a envolvem há milênios.

— Como é ter um amigo imaginário? — perguntou a Capitã, após quase um minuto de silêncio.

Fitei-a novamente, sem compreender direito a pergunta.

— É meio estranho, mas até bem divertido — tentei responder, meio atrapalhado. — Mas, por que a pergunta?

— Ninguém mais tem amigos imaginários desde os sete, oito, nove ou dez anos, no máximo — explicou-me ela.

Provavelmente corei a face.

— Não precisa se envergonhar! — pediu a fantasista, sorrindo. — Isso é um motivo de orgulho, pois tem de ser muito criativo para manter um amigo imaginário depois dos dezoito anos.

Tenho certeza absoluta de que corei mais ainda, pois senti meu rosto queimar.

— Você também é um fantasista, não? — inquiriu-me.

— Sim, sou — respondi, com certeza demonstrando um pouco de orgulho.

Antes, quando alguém me perguntava sobre o que escrevia, eu tinha um pouco de vergonha de responder que era escritor de fantasia; nem sei por qual motivo tinha isso; mas aprendi a me orgulhar do que gosto de ler e escrever. Afinal, sou um escritor, um fantasista, alguém que sonha em escrever histórias que agradem aos leitores, que façam alguma diferença.

— Sobre o que gosta de escrever? — continuou Marcélia.

— Seres mitológicos e sobrenaturais, magos, mundos paralelos, deuses antigos, artefatos aparentemente mágicos... Coisas do tipo, sabe?

— Sei.

— E você?

— Quase a mesma coisa, porém somente contos.

— Sou mais os romances e, às vezes, as novelas. Sou amador em contos ainda. Acho-os tão condensados e breves.

Ela riu do meu comentário.

— São mais fáceis de escrever, para mim — falou, serena.

— Não acho. Fico limitado.

— Você é do tipo detalhista, é?

— Não. Pelo contrário: às vezes costumo ser até muito simplista.

A Capitã deitou-se na grama macia, curta e verde, arfando suavemente.

— Acho que você vai gostar de nosso General — disse ela, fechando os olhos quase negros.

— Por quê?

— Ele é um cara muito sincero e determinado, um fantasista também.

— Tem muitos fantasistas por aqui, não?

— Ultimamente sim, mas há também músicos, pintores, escultores, ilustradores, médicos, poetas, advogados... Pessoas que dependem da imaginação e da criatividade. Marlus, por exemplo, é viciado em games e gibis, um blogueiro que destila veneno em seu blog.

Notei que a sua voz era séria e tinha um tom de alerta.

— Não curto nem um pouco esses pseudocríticos — falei, sem perceber.

— Ninguém gosta, na verdade.

— Uma vez recebi críticas sobre um texto meu num site. Quase fui ofendido.

— Como Alfredo uma vez me disse, ser escritor é dar a cara a tapa e se preparar para aguentar alguns "espíritos de porco".

Rimos. E o riso dela era encantador!

— Acho que vou gostar mesmo do General — admiti, após conseguir conter a risada, deitando-me no gramado.

Nós dois ficamos em silêncio por um tempo imensurável. Uma paz indescritível nos abraçava.

— Ei! — chamou ela.

— Sim?

— Eu gosto de seus dragões-libélulas.

"O quê?!", estranhei, olhando-a com surpresa, meio de canto de olho.

— Obrigado — foi tudo o que consegui falar naquele momento.

— Disponha, Comandante — replicou a contista, com um leve sorriso.

Creio que acabamos — ou eu somente — dormindo ali mesmo.

Assustei-me, dando um pulo muito esquisito na cama, como se caísse de uma pequena altura. Creio que causara certo estrondo, mas ninguém ouviu. Olhei em volta, percebendo que estava outra vez em meu quarto, em plena madrugada. E babando como uma criança. Murmurei alguma coisa e procurei o relógio ou o celular, nem sei ao certo. Encontrei o segundo; apertei uma tecla qualquer e vi que eram quase quatro da manhã. Minha mente estava confusa.

Havia sido tudo aquilo que vivi apenas um sonho mesmo? Zarak, Hipólito, General Elric, Capitão Jean, Grace, Capitã Marcélia e a Guerra dos Criativos eram frutos de meu subconsciente? Apenas um sonho muito surreal de uma mente criativa e pressionada com tantos acontecimentos? Uma ideia para algum livro?

Fiquei bons minutos meditando, tentando chegar a algum consenso, a uma conclusão plausível. Lembranças das várias visitas do monstrinho branco e felino povoavam as minhas ideias. Ele era real, muito real. Por que o sonho também não seria, oras? Por que não era possível haver um mundo sustentado pelas imaginações de todos? Seria algo tão impossível e absurdo a ponto de ser uma utopia? Claro que não! Como eu poderia negar uma coisa que sabia que era verdadeira? Estaria tentando usar o método cartesiano e encontrar outra verdade, outra possibilidade?

Levantei-me, confuso e envolvido em indagações. Fui ao banheiro, pois os copos de suco que eu havia tomado — talvez em meu sonho — queriam sair. Em seguida abri a torneira para lavar as mãos e...

— Como?! — espantei-me.

Olhei para meus dedos magros, incrédulo. Neles estavam os mesmos anéis que aquela toupeira trouxera para mim na tenda da garça estilista! Atrevi-me a erguer os olhos e fitar-me no reflexo do espelho. Outro susto! Meus cabelos, antes grandes e passando da hora de visitarem um barbeiro, agora estavam curtos e bem cortados.

Se eu fosse Descartes, não teria mais nenhuma dúvida...

Respirei fundo. Talvez eu tivesse dado algum sorriso de satisfação. Tudo o que aconteceu naquele mundo foi real! Isso me animava muito. Era minha chance de viver uma grande aventura, algo que antes só era possível aos meus personagens, aos protagonistas de minhas histórias.

Pensei em Marcélia, em sua beleza, em sua simpatia, em sua voz narrando aquele conto. Uma ânsia imensa de revê-la me invadiu — uma sensação que agora, enquanto recordo, faz-me lembrar do que eu sentia quando tinha saudade de minha ex-namorada. Eu precisava dormir novamente. Era o único jeito de retornar para aquele mundo, para perto de minha Capitã...

Voltei para o quarto, deitando-me ansiosamente na cama, almejando o quanto antes dormir e sonhar — ou não, como me falou Zarak. Virei e revirei de um lado a outro no colchão, incapaz de fechar os olhos e dormir. Arfei furioso. Eu precisava muito dormir o quanto antes! Eu queria voltar para aquele mundo cujo nome não sabia!

Pelos meus cálculos, fiquei mexendo e remexendo de um lado a outro por um longo tempo, um tempo imensurável — curioso como este adjetivo aparece quando queremos dar a impressão de algo incalculável. Surgiam em minha mente imagens das coisas que já haviam me acontecido lá. Era tanta coisa! Tudo muito fantástico e empolgante! E eu queria mais, muito mais!

O sono, como já era de se esperar, custou a me encontrar novamente. E cada segundo acordado era uma tortura para mim, algo que me agonizava e me fazia ficar ainda mais sem sono.

Olhei para o relógio do celular. Passavam das cinco da manhã! Era quase hora de o sol nascer e aí sim o sono me abandonaria de vez. E Deus sabe lá quando voltaria a sonhar! Tentei livrar meus pensamentos de qualquer tipo de preocupação, seguindo uma dica de algum livro de autoajuda que eu havia lido. Tentei não pensar em nada que me atrapalhasse a dormir. Pensei numa ideia para alguma história futura, numa ideia de algum livro de algum amigo escritor, em abelhas...

Creio que fechei os olhos.