Ainda naquela tarde alaranjada de dezembro, a porta do quarto se abriu após uma batida tão suave que quase não consegui distinguir do barulho dos carros ao longe de mim. O mingau de milho que a enfermeira me forçou a comer mais cedo parecia ter surtido algum efeito:eu estava mais desperta, com as pernas firmes o suficiente para até andar devagar pelo quarto, pensando no quão chato era aquilo. Logo depois, me deitei de novo, tentando dormir

Então, quando ouvi a maçaneta sem óleo girar, abri bem os dois olhos, curiosa.


Entrou uma mulher desconhecida, segurando uma bolsinha marrom. Ela era bem alta, tinha fios loiros da cor de um abacaxi bem maduro e olhos finos como os de uma raposinha astuta vislumbrando algo atrás de um arbusto. Usava um macacão bem bonito, daqueles que parecem ter sido feitos por alguém com luvas brancas e paciência de relojoeiro: Na medida certa. Mesmo que eu não soubesse estimar as coisas, pensei logo que aquela moça devia estar montada na grana.


Lentamente me sentei na maca, apoiando as costas na parede branca e fria. Não desviei o olhar dela, e nesse meio tempo ela sorriu com um brilho curioso no canto dos lábios pálidos. Parecia estar escondendo alguma coisa que eu iria adorar saber.


Infelizmente perdi a visão ampla da minha visitante, pois a enfermeira cobriu meu campo de visão, se pondo na frente dela. As duas se curvaram e ficaram cochichando, enquanto eu ia ficando ansiosa e sem saber o que esperar.


Seria uma médica vindo falar que eu iria morrer? Ou veio avisar que eu seria adotada depois da minha mãe morrer? Eram tantas possibilidades que eu não queria, a ponto de meus olhos discretamente se voltarem pra janela oposta a onde eu estava.


Me perguntei se eu conseguiria suportar uma queda dali, e a resposta foi imediatamente não. Claro que não. A menos que eu quisesse virar uma órfã aleijada — o que me pareceu uma combinação horrível.


No fim, achei que o melhor mesmo era só esperar. Cruzei as pernas e respirei fundo.


E não esperei muito, pois a dama com cabelo de abacaxi logo chegou perto e quase tropeçou no salto agulha, me fazendo rir pelo nariz — rir pela boca faria minha garganta imediatamente reclamar -, e sentou na cadeira de ferro do meu lado, depois de arrastá-la e provocar um barulho horrível e agudo. Apoiou os cotovelos nas coxas e me olhou:


- Oi, Nita! Eu sou sua tia.


Sua voz parecia mel quente deslizando por uma garrafa de vidro lustroso — doce e lenta. tão bonita que minha boca formou um "O" perfeito. Ela riu e apertou meu nariz com o indicador, como se me conhecesse há tempos. Parecia não ter más intenções e seu olhar tentava fofocar algo pra mim.


Eu não tinha tios ou tias. Meu pai era filho único e minha mãe também. E mesmo que estivesse mentindo — e estava -, senti como se minha avó tivesse sussurrado algo positivo no meu ouvido. Um sussurro manso que dizia "vai dar certo, minha pestinha"


Então, com o braço onde estava preso meu doído acesso venoso, levantei o polegar..


Ela me olhou com surpresa e, por um segundo, engoliu em seco. Seus olhos passaram rapidamente pelos meus ferimentos e bandagens visíveis; sua expressão mudou.


- Vim te buscar, querida — ela parecia um pouco mais nervosa, mesmo dentro da sua bolha de calma — Você vai precisar morar comigo a partir de hoje. Lamento muito, mas prometo cuidar bem de você.


O olhar dela foi bem sugestivo. Só assenti e olhei pro teto, esperando ver minha vó dando um sorriso orgulhoso. Não vi, mas mesmo assim, me senti feliz comigo mesma.



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Quando chegamos à casa dela, um dia depois, fiquei confusa. Aquela mulher elegante, com o andar firme e a fala doce, vivia... ali? Sério?


A casa era modesta. Tinha paredes descascando nos cantos e uma varanda de cimento rachado que gemia sob os saltos altos dela. O cheiro era bom — comida recém-feita e lavanda -, mas tudo parecia apertado demais pra alguém que usava um macacão tão caro e falava quase com rimas.


Ela era a mãe de um bebê roliço e risonho, com bochechas enormes e cabelos ruivos até as sobrancelhas. Ele engatinhava em círculos pelo tapete gasto, soltando gritinhos de felicidade, como se o mundo inteiro coubesse naquele cômodo de chão frio. Eu nunca tinha convivido com bebês, fiquei um pouco assustada na primeira visão. Minha mãe não suportava.


A moça que eu descobri se chamar Ray, me apresentou os cômodos pequenos — o quartinho que seria meu, o banheiro de azulejos desbotados, a cozinha onde um arroz cheiroso parecia já estar cozinhando. Em seguida, pediu que eu me preparasse pra jantar


Deve ter notado a interrogação presa nos meus ombros, porque se agachou na minha frente com joelhos fortes e reflexos rápido:


- Acho que preciso te explicar uma coisa — disse, afagando a barra do macacão com os dedos finos e apontando pra gola com um risinho contido. — Eu não sou rica, Elen'. Isso aqui nem é meu, pra te dizer a verdade.


Ela sacudiu levemente o tecido elegante, como se ele mostrasse a mentira dela.


- Os conselheiros tutelares... bom, eles não sabem. Nem precisam saber. A verdade é que eu não suportava a ideia de ver uma criança sofrendo tanto naquele hospital, pra depois ser jogada em qualquer lugar, como se fosse resto.


As palavras foram um sussurro honesto, e doeram bonito. Meu peito apertou e os olhos arderam. Tentei conter o soluço que ameaçava escapar. Não queria chorar de novo. Ali não


Ela percebeu mesmo assim. Aproximou a mão devagar, e passou a palma quente e macia na minha bochecha machucada e molhada, num gesto tão leve


Nesse instante, o bebê engatinhou até ela, com um barulhinho alegre. Ela o pegou no colo, beijou a cabeça dele com cuidado e voltou os olhos pra mim.


- Posso não ter muito — disse com firmeza — mas você é minha filha agora. E eu vou cuidar de você até o último dia da minha vida. Eu juro