Notas iniciais
Oi, lindos lírios. 🤍 Pra início de conversa, obrigada por estarem acompanhando essa história:), pela chance de dividir um pouco da minha alma gripada e conturbada pra cada desconhecido, mas amado leitor. Essa história é original minha. Não aceito plágio. Os personagens são originais meus. Estarei atualizando os capítulos constantemente!! Início: 09/07/25

"Tudo que vai, volta, sua pestinha."


Era isso que minha vó dizia quando eu ia passar o fim de semana em sua casa e escondia sua dentadura... Geralmente, alguns ditos de baixo calão eram incluídos nessa profunda promessa de karma, mas isso não vem ao caso neste momento. Ela falava isso com os olhos semicerrados, uma sobrancelha arqueada e uma colher de pau girando dentro do feijão preto — que me provocava uma cara de quem chupou limão e não gostou. Apesar da ameaça, tinha um riso escondido no canto da boca, como se dissesse que tudo era só parte do nosso teatrinho favorito..


Eu era uma criança arisca e cheia do desejo maligno de perturbar qualquer um a qualquer momento, quando minha mãe se ausentava e seu cinto de couro marrom não podia alcançar minhas belas e magras pernas. . Sempre me sentia livre sem minha genitora do lado. Minha avó ria quando eu fugia correndo após alguma arte, mas nunca deixava de dizer que eu seria castigada um dia. Outra vez, isso não tem base pra ser explorado agora


O importante é que eu descobri que minha vó não falava a verdade quando me ameaçava daquela forma. À medida que minhas pernas travessas quase se atrofiaram por não saírem da cama o dia todo, percebi que nem tudo que vai, volta. Algumas coisas só se vão.


Meus olhos embaçados notaram que a vida não é um bumerangue que você atira e retorna. Geralmente ele cai do lado oposto da sua rua e um carro passa por cima. E ninguém se dá ao trabalho de te devolver. É que a vida não tem a menor pressa de curar o que ela mesma arruinou. Nenhuma.


Os finais de semana ao lado da vovó ficaram parados no tempo, registrados em fotos grudadas na parede da minha sala. Quando ela se foi, fiquei dias esperando que aparecesse na porta da casa da minha mãe, reclamando por eu não ter ido ao seu sítio lhe ajudar a pegar umas galinhas pro ensopado de legumes. Cheguei até a preparar minha mochilinha um dia, por impulso. Eu desconhecia a morte até então, e meu coração pequeno achava que era só uma viagem inconveniente, só isso.


Lembro que mamãe, uma mulher tão rude e tão bonita, pela primeira vez se preocupou comigo ao me ver afundada em negação. Eu não dormia, sonhando com o caixão que fui ver às escondidas, mesmo quando mandaram eu não sair do quarto; com o rosto pálido e enrugado dela, sob aquela tampa de vidro grosso e impenetrável à minha mão.


Eu geralmente ficava no sofá da sala, chorando e fungando a todo momento, sem mal comer, e nenhum parente enntendia o que ela significava pra mim, por eu só ter míseros 7 anos e saber pouco da vida. Mas eu sentia muito, mesmo desconhecendo a razão informe de tanta dor. Vovó era a única que me tratava com dignidade, me pegava no colo e me dava sermão, mas me olhava com os olhos amorosos... Eu achava que ela era mágica. Porque ninguém mais acreditava tanto em mim.


Meu pai era filho dela, e tinha falecido poucos anos após eu nascer. Quando me entendi como gente, percebi que ela me via nele. Por isso tanto carinho e proteção. Era a tentativa frustrada de proteger uma parte do que tinha deixado esse mundo. Às vezes me olhava por um tempo longo demais e depois enxugava os olhos sem explicação. Ela falava dele com uma voz molhada de saudade e nostalgia, e dizia que ele tinha um jeito manso, parecido com o meu quando estava distraída e ninguém testava minha paciência.


Após duas semanas, a mulher que nem mesmo me chamava de filha, decidiu que era hora de aquilo ter um fim. Minha memória tem o péssimo hábito de guardar momentos dolorosos — e esquecer dos importantes -, então eu lembro do que aconteceu:


Lembro da cortina balançando na janela, do barulho do relógio de parede, do cheiro de feijão requentado que não me apetecia de jeito nenhum. Ela cozinhava tão mal.


Era metade da tarde, e eu ainda não tinha movido sequer um músculo. Continuava paralisada naquele sofá, naquela roupa molhada de catarro e suor. Minha mãe era a única naquela casa que não se importava com o ocorrido, nenhum pouco sequer. Ela sempre mandava eu levantar a bunda do estofado dela, e como era inútil, ela desistia. Mas algo nela ferveu por dentro naquele dia.


Encolhida em mim mesma, deitada em posição fetal, sugando o dedão da mão por estar cansada e quase dormindo, ouvi seus passos rápidos chegando perto e não consegui expressar uma reação. Abri os olhos devagarinho, enquanto cada palavra que saía daquela boca ia me esmurrando mais e mais. Ela não gritava ainda, mas sua voz era lâmina cheia de veneno, escorrendo desprezo em cada sílaba. Eu sentia o medo crescer dentro de mim como uma febre inflamável.


Eu estava fraca, muito fraca, quase inconsciente, mas consegui ver o cinto de couro na mão dela. Me perguntei se ela ia acertar minhas pernas, como sempre fazia quando eu desobedecia. Só isso me parecia plausível naquele torpor de fome e cansaço. Eu queria um abraço, muito mesmo, como nunca antes, por isso, me encolhi mais ainda. Ela viu como uma afronta, nao um pedido de socorro


- Eu gostaria que você não tivesse nascido, que tivesse morrido com seu pai ou que estivesse apodrecendo com sua vó. Aquela maldita velha intrometida. — A voz dela se elevava mais e mais, trêmula e rouca. Era sempre assim, sempre. Eu estava começando a me comportar daquela maneira, inconscientemente, com meus coleguinhas e até com vovó, antes de sua ida dessa pra melhor. Fechei os olhos de novo — Levanta do meu sofá, agora!


Os dedos da minha mãe cravaram no meu braço como garras. Senti meu corpo ser puxado com violência, o mundo girando ao meu redor, fraco demais para resistir. Ela gritava, mas as palavras se embaralhavam na minha mente lenta, abafadas pelo zumbido nos meus ouvidos. Eu sentia o peso de existir, e parecia que a cada puxão dela, o mundo me dizia que eu não devia estar ali.


Seu rosto era pura loucura, quase vi algo sobrenatural passando por ele — olhos estreitos, boca tensa — e eu não entendia por quê. Só sentia o chão sumindo sob mim, e o sofá, meu último refúgio, sendo arrancado como um cobertor em pleno inverno.


Pulei quando senti o conhecido ardor cortar a carne da minha perna. O cinto se chocou em mim, e o estalo era uma melodia diabólica somada aos gritos dela e aos meus. A dor vinha com um atraso cruel: primeiro o som, depois o impacto e só então o desespero.


A adrenalina me fez criar mais força e tentei segurar sua mão, pedindo que não me machucasse. Mas foi inútil, pois quando ela mordeu meus dedos, minhas pernas falharam, e caí de bruços no chão frio, os soluços engasgando na minha garganta.


O cinto voltou, estalando nas minhas costas, nos braços, por toda parte. Chamei minha vó, expulsando todo o ar dos meus pulmões no desespero mais cru que poderia viver. Senti um gosto amargo na minha boca quando minhas cordas vocais se romperam: sangue. Chamei por alguém que não podia mais me ouvir, pois quem podia, estava surda.


Eu queria fugir, mas meu corpo já não respondia. Então, algo pesado se chocou na minha cabeça. O mundo perdeu a cor por um tempo. Foi como cair num poço sem fundo. Um vazio silencioso onde nem a dor alcançava. Um lugar escuro e úmido, onde só existia o medo flutuando. Foi Deus agindo, foi uma trégua ali.


Acordei com tudo doendo. A luz me cegava e meus olhos mal abriam, pois ardiam também. Tudo ao meu redor parecia distante e falso, como se eu estivesse num cenário inventado. Embaixo d'água.Meu corpo inteiro latejava como se cada pedacinho gritasse por socorro, só que eu já tinha gastado todos esses meus gritos.


Sei que vi uma enfermeira escrevendo perto da cama, tudo meio borrado na minha vista. As ambulâncias gritavam como eu tinha gritado... até minha garganta rasgar. Engoli em seco e tentei chamar pela minha vó, mas só saiu um som rouco, quebrado. Um som que não parecia vir de mim.


Minhas mãos estavam com vários fios enfiados nas veias e não pude secar meu nariz. Eu tinha medo de hospitais — ela é quem segurava minha mão fraca nos momentos de internação ou de vacina. Era uma das raras situações em que me coroava dona da razão, pois não acreditava na eficiência de nada intravenoso. Contava que tinha liderado a Revolta Da Vacina, e eu sentia orgulho dela — só descobri depois que ela nem morava no Rio De Janeiro ou sequer tinha nascido na época da revolta.


Por que ela simplesmente não voltava e me tirava daquele lugar, me levando depois pra tomar sorvete? Ela não me amava mais? Chorei. Chorei até soluçar, até não saber mais se doíam mais os vergões das cintadas no meu corpo ou o meu peito rasgado na frente daquela enfermeira, que me olhou com uma pena cruel demais. Pena não cura ninguém, vovó dizia sempre. Se assim fosse, as galinhas não ficariam adoecidas.


A enfermeira ppediu pra eu me acalmar e tentou medir minha temperatura, sentando do lado e limpando toda a unidade do meu rosto sujo e nojento. Alisou meus fios rebeldes e escuros, sussurrou que minha tia estava chegando, bastava esperar mais um pouco. Eu não conhecia tia nenhuma e quis dizer isso, mas não pude, então, simplesmente fechei os olhos, deixando o escuro me derrubar.. Queria morrer também, pra ver minha vó no céu e pedir desculpas, dizendo que jamais esconderia sua dentadura de novo, e que eu lhe achava adorável com a boca meio mole, sem sustentação nenhuma.

- No céu, as pessoas usam dentadura?


Essa pergunta surgiu de repente, trêmula e falha. Uma daquelas tolas que seu cérebro quase rói a si mesmo pra saber a resposta imediatamente. O tipo de dúvida que faz um nó no peito e, se ninguém responde, cresce até virar uma ausência inteira.

Ela me olhou com um brilho de fascínio e compreensão; era a primeira vez que uma enfermeira não me assustava. Não tinha sorrisos forçados, nem obediência. Aquela moça devia ter vinte anos, mas podia ser mais velha, por ter tanta paciência. Seu toque era leve como o da minha vó, mesmo que fosse diferente. E por um segundo, me senti segura. Ou algo bem pertinho disso.


- Lá, os velhinhos comem sem dentadura... sem dentes até. E ninguém ri deles, eu juro.


Minha mente saiu daquele recinto e viajou bem longe. Imaginei minha vó rindo, lá no céu, sem sua chapa – companheira de guerra. A imagem era tão bonita, e eu mudei de expressão num espasmo, meio que sorrindo também, mas trazendo ao rosto um esgar estranho.


Talvez tudo ficasse bem, no fim das contas, porque ela daria um jeitinho pra que desse. Ela sempre insistia até que desse. Nas noites que dormia na sua casa, ela me fazia ajoelhar no chão vermelho de cera batida, fechar os olhos e orar o Pai Nosso, onde pedia pela minha proteção e saúde Deus dela. Quando eu adoecia, ela fazia isso a noite toda, em alto e bom som.

Agora, eu pensava, ela podia sentar ao lado Dele e fazer suas preces infalíveis sobre mim, enquanto usava seus dedos gordinhos pra me apontar ali, naquele cenário hospitalar, dixendo:


– Aquela alí é minha. Cuida direitinho, por favor.


🍄


A enfermeira se ergueu com graça, caminhou até o outro lado do quarto e voltou trazendo um objeto que eu ainda não conhecia: um estetoscópio. Era metálico, pendia como uma cobra adormecida sobre seu pescoço, e eu franzi o nariz automaticamente.


– Vamos sentar um pouquinho, tá bom? – disse com aquela voz de cantora da rádio FM, já pondo as hastes das pontas dentro de seus ouvidos.

Resmunguei e meu corpo protestou quando me sentei, sob suas ordens, para que ela posicionasse aquele aparelho no meu peito coberto pela camisola azul de hospital.


Enquanto ela fazia seu trabalho, olhei para os meus braços feridos e enfaixados, e só então me perguntei o que teria acontecido à minha mãe. Até então, eu estava tão sedada pelo meu luto, que esqueci dela.


Foi nesse momento, como se tivesse lido meus pensamentos, que a enfermeira levantou os olhos. Havia uma suavidade nova ali, uma sombra de entendimento cansado. Talvez ela já tivesse visto outros corpos infantis feridos. Ou simplesmente tivesse algum superpoder, tal qual a Super Girl. Em milissegundos, concluí que a segunda opção era bem mais plausível de se acontecer, claro.


Ela desligou o estetoscópio com um pequeno estalo e, me ajudando a deitar no colchão gelado, sussurrou:


– Está tudo bem. Ninguém vai te machucar mais.






Notas finais
Obrigada por lerem :)