Notas iniciais
Desculpa a demora, estive ocupado com varias coisas como escola e preguiça. Aproveitem este capítulo longo como forma de perdão. Enjoy! ^--^

Shin fechou seus olhos lentamente ao ouvir cada palavra dita por seu melhor amigo. Cada sílaba, cada letra e a voz de Shoyo se repetiu amargamente na sua cabeça.

Preocupado, ele sabia que poderia ajudar seu amigo nesta jornada, mas a decepção de uma traição recente ainda machucava seu pobre coração.

Mas no fundo Shin compreendia Shoyo, que abalado psicologicamente, obviamente iria esconder algo tão polêmico assim até com seu melhor amigo. Contudo se Shin fosse ajudar Yukihira, ele não sabia nem por onde começar, afinal ele estaria indo contra sua moral que cultivou desde seu nascimento. Alguém que sempre seguiu as regras e procurou ser o melhor naquilo que fizesse. E ele estava confuso se poderia colocar sua amizade acima disso tudo.

Subindo o barranco lentamente e cabisbaixo, Sawamura Shin seguiu de volta pra sua casa. O clima que estava aproveitável para qualquer pessoa que desejasse fazer uma caminhada estava manchado pela figura do adolescente loiro que caminhava confuso com os acontecimentos.

Entre tudo isso, ele não compreendia como uma criança robô poderia existir. Ele nunca tinha ouvido falar disso desde que os robôs domésticos foram criados. Mas tudo se encaixava, e não tinha como uma menina mentir, não havia nem motivo. Olhos roxos bem aparentes. Aqueles olhos roxos não saíam da mente de Shin.

Apesar de tudo ela era uma garota linda.

Não, ela não era uma garota, pensou Shin colocando a mão na cabeça. Apesar de toda sua beleza e elegância ela não era uma garota.

Shin caminhou tão pensativo que nem percebeu que estava na frente de sua casa. Na hora já lembrou de seu pai. Será que deveria contar á ele? E se aquela garota despertasse um instinto assassino? Sawamura já havia visto na televisão diversos casos. Seu pai já tinha te contado diversos casos. Isso foi um dos motivos do famoso massacre.

Ele suspirou e abriu a porta. O garoto loiro estava mais tranquilo, ele percebeu que aquilo estava enchendo sua mente demais. E não parecia tão grave. Concluiu que deveria conversar com Shoyo quando pudesse, mas não por hora, depois da discussão que eles tiveram Shin imaginou que Yukihira poderia querer um pouco de espaço pra por as coisas no lugar. E quem sabe até contar pra Shin voluntariamente sobre a garota.

Ao entrar na sua sala ele deu de cara com seu pai que já ia saindo.

Oru o olhou de acima a baixo surpreso com a chegada rápida do filho.

—Pai? Não foi trabalhar?

—Não, hoje eles me deram uma folga depois de tanto tempo. Porque chegou tão cedo?

—Shoyo se lembrou de um compromisso inadiável e teve que ir embora.

—Entendi. Bom, eu vou fazer algumas compras, sua mãe ainda não chegou, portanto cuide bem da sua irmã.

Shin assentiu com a cabeça e fechou a porta pra seu pai, e se dirigiu ao seu quarto. Avisou pra sua irmã que assistia televisão para chamá-lo caso algo acontecesse.

Neste exato momento, Shoyo se levantava de onde estava sentado. Ele e Murasaki ficaram conversando por mais alguns minutos até que Shoyo e ela roncaram de fome.

—Err, vou pegar algo pra gente comer. — Disse Yukihira.

—Ok... Que horas são?

—São umas 10 horas. É que não tomei café da manhã ainda.

—Nem eu, geralmente o que eu como é o que você traz pra mim. Bom eu vou esperar lá no esconderijo por precaução.

Ao se despedirem com um abraço os dois seguiram seus rumos. Subindo o barranco e indo para a ponte, Shoyo percebeu uma figura saindo do bosque e vindo na direção da rua que ele estava.

Era a mãe de Shin, Sawamura Junko, que também tinha notado a presença de Shoyo.

—Oh olá Yukihira! O que te trás aqui? Estava vindo ao parque também?

—Bom dia dona Sawamura. Eu estava apenas dando uma caminhada de manhã para espairecer a cabeça.

—Entendo entendo. Nesta época difícil de escola é ótimo dar uma caminhada nos fins de semana para relaxar. Só tome cuidado com o sol.

—Com certeza.

Os dois caminharam pelo mesmo sentido. Os passos de Junko eram lentos, ela aparentava bem cansada e suada, provavelmente ela tinha andado bastante. Era uma mulher bem em forma pela idade, e as roupas de ginástica realçavam isso facilmente. Shoyo teve que reduzir seu passo e aproveitou para conversar com a mãe de seu melhor amigo. Se ele ter uma boa relação com ela será mais fácil reatar as coisas com Shin.

—Como andam as coisas Shoyo? — Perguntou Junko, puxando o assunto primeiro.

—Andam bem até. — Ele decidiu não contar nada sobre o que houve com seu amigo. — E com você?

—Ah até que está tudo ótimo. Só meu marido que anda focado muito no trabalho. Apesar do Japão ser um país evoluído ainda restam várias burocracias para se resolver nesta pós guerra civil.

—Imagino. Ele trabalha no que mesmo?

—Auxiliar investigativo no governo. O governo tem sua própria rede de investigações além da polícia para resolver assuntos mais sociais e relacionados a causas governamentais, como a guerra civil.

—Que complicado... Ainda mais com esses robôs — Shoyo perguntou, com a intenção de saber mais sobre aquilo que Murasakime era.

—Sim. O grupo de investigação dele descobriu que uma garota robô anda escondida pelas redondezas. O que é bem curioso, afinal meu marido que é o chefe do setor investigativo desta cidade, e ele garante que todo robô já foi dizimado.

—N-nossa, que estranho. — Shoyo disse tentando esconder a surpresa misturada com medo, mas acabou falhando.

—Ora filho, não precisa ficar com medo. Só você não perambular sozinho pelas ruas de noite que nenhum robô assassino irá te atacar.

—Ha ha ha, verdade. — Riu Shoyo da maneira mais forçada possível.

—Mas meu marido está mais preocupado pelo fato dela parecer uma criança. Ela foi vista perto de locais de coleta de lixo, e alguns locais do bosque. Por isso ele imagina que seja uma moradora de rua e que as testemunhas tenham se confundido.

—O que aconteceria com ela se ela fosse pega e fosse mesmo uma robô?

—Bom, provavelmente ela seria exterminada. Shoyo? Você está bem?

Quando Junko terminou de dizer essas palavras, Yukihira parou no meio da calçada, abalado. Mordeu os lábios e olhou para Junko tentando disfarçar.

—Nada... Acho que é o sol. Não tomei café por isso estou assim.

—Você precisa comer algo! Vamos, te levarei em alguma lanchonete.

—Não precisa senhora Junko. Eu posso me mover bem, vou direto para minha casa. Tchau!

Os dois se despediram e Yukihira virou a primeira esquina que viu, e ela nem dava em direção para a sua casa. Se sentou em uma calçada debaixo de uma árvore e respirou fechando os olhos.

Isso ia dar muito errado, eles irão achá-la, pensava o pobre garoto, que respirava e suava constantemente. Colocou as mãos no cabelo, e sentiu novamente aquela dor que sentiu de manhã.

—Eu preciso fazer algo. Só preciso fazer algo.

Ao se acalmar, Shoyo se levantou e observou á sua volta. Por ser um bairro tranquilo poucas pessoas estavam passando por aquela rua naquele momento, exceto por um velhinho numa bicicleta que observava confuso e lentamente Shoyo. Os dois se encararam por uns segundos, e Yukihira se lembrou do velho da loja de conveniência, que sempre o atendia.

Se lembrou que iria comprar comida pra ele e Murasaki, e se dirigiu para a loja. Caminhou uns 3 quarteirões para chegar até lá, e entrou na loja ofegante. Não pelo fato de estar cansado, e sim por estar sol demais e ele não ter comido nada.

—Bom dia! — Disse alegremente o velhinho.

Shoyo coletou alguns mantimentos baratos e que rendiam. Garrafas de água, alimentos não perecíveis e alguns doces de morango. Ao pagar tudo, ele percebeu que seu dinheiro da mesada estava acabando, e que ele deveria arranjar um emprego de meio período.

Saiu da loja com as sacolas em mão e retornou para o local de encontro dele e da Murasaki. Esperou um momento em que ninguém passava perto daquela ponte e desceu sem pensar duas vezes.

Ele se lembrou que ela estaria esperando no esconderijo, e foi caminhando pela margem do rio até lá. Ao se lembrar do que Junko disse, ele ficou reparando nas árvores em sua volta para ver se alguém poderia facilmente se infiltrar por ali e acabar descobrindo sobre Murasaki. Portanto ficou olhando em sua volta constantemente com medo.

Ao chegar na frente do esconderijo, ele chamou ela discretamente. A menina loira apareceu na janela e desceu para ajudá-lo a pegar as sacolas.

—Uau, você trouxe bastante coisas hoje.

—Você não imagina a fome que estou, mas não é esse o motivo.

Adentraram o esconderijo, e se sentaram ao chão. Murasaki pegou um lençol roxo, velho e com algumas remendas de trás de uma das caixas. Geralmente ela usava como cobertor, mas desta vez utilizou para colocar a comida que Shoyo tinha trazido.

Ela foi tirando a comida barata e simples das sacolas, colocando encima do lençol, e ficou surpresa pela mudança de escolha das comidas. Era como se eles fossem sobreviver ali por alguma tempo.

—Porquê trouxe este tipo de comida?

—Murasaki, é bom que você se esconda aqui por um tempo.

—Porque?

Shoyo contou o que tinha ouvido de Junko, e contou também sobre o pai de Shin.

—Portanto — Continou Yukihira — Quero que você fique aqui por segurança. Eu também poderei reduzir as minhas visitas, e não trarei tanta comida assim. Meu dinheiro anda escasso, preciso arranjar um emprego. Assim sendo eu trouxe bastante comida barata e que possibilite sua sobrevivência.

Murasaki ficou sem palavras enquanto observava aqueles mantimentos. Ela estava com uma expressão diferente da de costume. Os seus olhos roxos estavam serenos e suas sobrancelhas davam á garota uma expressão triste e pensativa.

—Murasaki?

—Eu... Eu estou trazendo tantas dificuldades á você. Eu só queria ter uma vida normal ao seu lado como uma menina normal. Mas ao mesmo tempo fico tão feliz pelo fato de você me ajudar tanto e tanto...

Ela abraçou subitamente Shoyo que soltou um olhar surpreso e feliz, que acabou cobrindo sua preocupação repentina sobre a expressão de Murasakime.

—Obrigado Shoyo. Eu ficarei bem. Isso me faz eu ficar tão feliz mesmo.

Os dois então abriram um enlatado que possuía uma sopa. Era uma comida de sabor bem diferente, mas que iria render uma almoço para os dois.

Yukihira comia pensativo, ele tinha medo do que reservava o futuro dos dois. O pobre garoto cabeludo sabia no fundo que aquilo não duraria para sempre. Ele teria que fazer algo em breve.

Sem falar que haviam muitos mistérios para se resolver. Se a cidade de Saitama que eles viviam possuía uma investigação tão boa a ponto de terem dizimados todos os robôs, porquê Murasaki nunca tinha sido encontrada? Ela nem se escondia tanto assim, e disse que já teve contato com pessoas antigamente.

E também porquê ela era uma robô sendo que apenas existiram robôs adultos?

Após os dois terem terminado de comer, Shoyo se levantou.

—Já vai Yukihira?

—Sim, minha mãe já deve estar preocupada. Sem contar que tenho que resolver aquilo com Shin o mais cedo possível para não ocorrer problemas. Se ele descobrir sua existência com certeza o pai dele irá descobrir também portanto tenho que evitar isso.

—Ok então. Tome cuidado na volta!

—Só por curiosidade... O que você fica fazendo quando estou fora Murasaki?

—Eu fico lendo... O que mais encontro nos lixos são livros e mangás jogados fora. Tenho uma caixa cheio deles e fico lendo sobre todo o tipo de coisa.

Shoyo sorriu ao ver a expressão dela contando sobre o que ela lê. Ele viu a pureza e a inocência de uma garota largada numa cidade, que apesar das dificuldades toma um tempo para a leitura.

—Bom, vou indo. Tchau.

Yukihira desceu a janela, e decidiu ir por um caminho diferente. Ao invés de ir pela margem do rio, iria pelo bosque que ficava á sua margem. Caminhou lentamente subindo o caminho íngreme até que chegou na borda, se segurando em uma árvore.

Seguiu entre elas até chegar ao parque, aonde corria um caminho feito de pedregulhos e areia, aonde do lado deste caminho havia postes de luz, plantas e bancos. Era um parque com uma harmonia simples, que escondia o segredo de uma garota robô.

Ao adentrar a estradinha, ele decidiu ver como era o esconderijo visto por outro ângulo. Virou a direita e seguiu em direção á ele.

Observou que era uma casa realmente abandonada. Era protegida por uma cerca, em que sua entrada possuía um cadeado. A cerca parava em um local íngreme, em que qualquer pessoa que tentasse passar por ali cairia no famoso rio que tinha ali perto. E daquele ângulo, era impossível ver qualquer vestígio do local que Murasakime e ele adentravam aquela casa. Somado a isso, não tinha como ver o caminho que os dois faziam pela margem do rio. A pessoa que quisesse descobrir tal local teria que descer pelas árvores e se arriscar completamente, podendo se machucar de maneirar variadas.

Suspirou tranquilo, e percebeu que a única maneira de descobrirem o esconderijo era derrubando a cerca e arrombando as portas daquele local. Placas na cerca diziam o impedimento de entrada de qualquer pessoa.

Curioso ao se perguntar porquê aquela casa ainda existia, Shoyo concluiu que apesar de tudo aquela casa dava um ar tranquilo e urbanesco ao bosque. E talvez os funcionários não utilizassem aquele lugar apenas por opção.

Virou em direção ao caminho de volta, e desejou que pelo menos por mais um dia Murasaki ficasse bem.