Aquele parque que se situava no centro da cidade era um dos melhores lugares para poder passear tranquilamente com sua família. O som dos pássaros nas árvores, o balançar das folhas por causa do vento, e o ar limpo e arejado hipnotizavam qualquer um que passasse por ali.

E não era diferente pra Yukihira Shoyo. Caminhando lentamente no parque, ele apenas aproveitava o clima, sem se preocupar com os problemas que o atiçavam. Ele queria poder passear daquela maneira junto com Murasaki, com as mãos dadas, como um casal normal. Saber que aquilo era impossível cortava o coração dele em vários pedaços. E cada pedaço do seu coração partido tentava se juntar novamente procurando uma saída para este problema.

Shoyo balançou a cabeça deprimido. Sua tentativa de espairecer apenas o fez pensar em mais problemas. Continuou caminhando até chegar na saída do parque, aonde antes de partir para sua casa, olhou para trás, e cerrou os punhos em direção ao parque.

Quando estava andando pela calçada, observou uma lanchonete, e decidiu entrar para tomar um refrigerante e quem sabe relaxar um pouco. Ele não estava muito interessado em retornar para sua casa, lá ele iria ficar entediado de qualquer jeito.

Entrou na lanchonete simpática, ela era amarela por fora, e dentro um azulejo meio alaranjado com a parede clara davam um ar bem relaxante ao estabelecimento. Não era tão grande, mas tinham algumas poltronas com quatro lugares e uma mesa central ocupadas por pessoas. Como a lanchonete ficava no centro, Shoyo imaginou que várias pessoas no intervalo de trabalho frequentavam aquela lanchonete.

—Bem vindo ao Bunny Food! O que deseja senhor? — Perguntou uma garçonete surpreendendo o Shoyo que estava distraído.

—Oh.. Vou querer uma mesa pra uma pessoa só.

—Me acompanhe por favor.

Shoyo acompanhou a moça, na qual ele reparou por ser bem bonita. Ela era baixinha, tinha cabelos presos em um coque e tinha um ar bem simpático. Porém esta expressão que parecia alegre era apenas mascarada para poder agradas os clientes que chegavam, pois Yukihira conseguia perceber nos olhos dela uma pessoa cansada, que odiava trabalhar ali.

"A vida é cruel mesmo, pessoas trabalham de uma maneira forçada apenas para sobreviver", pensou Shoyo.

A moça apresentou uma poltrona que seria para duas pessoas. Atrás deste assento, em uma mesa na parede, um grupo de quatro velhos que pareciam empresários discutiam alguma coisa.

—Vou querer apenas um refrigerante por favor. — Pediu Shoyo para a moça, que se retirou para ir buscar o pedido.

Shoyo ficou mais largado na poltrona preta, que estava bem confortável. Suspirou olhando pra cima, e percebeu que a conversa atrás dele seguia bem tensa, os homens discutiam firmemente, como se fosse algo bem sério e urgente, sem nem ligar que alguém estivesse ouvindo.

Curioso por si só, Yukihira decidiu tentar ouvir alguma coisa da conversa, que no meio de argumentos sendo ditos rispidamente e rapidamente algumas palavras não eram bem entendidas.

—...precisamos fazer algo sobre isso!

—Eu sei Maori! Mas ficar apenas falando essas decisões idiotas não vai mudar em nada os fatos!

—Acalmem-se vocês dois!

Yukihira percebeu que a última voz parecia familiar. Ela vinha do homem que estava de costas para Shoyo, portanto ele não iria conseguir ver seu rosto.

—Oru, vamos recapitular o que você disse então. Repita para a gente.

Era realmente quem Shoyo pensava, o pai de Shin estava ali.

—Sobre a caça aos olhos roxos da cidade... — Começou a falar Oru, que ao dizer essas palavras fez Shoyo prestar mais atenção ainda na conversa. — Aparentemente o projeto 0 foi parar aqui.

—Mas como? O projeto 0 estava protegido com o casal! — Perguntou um velho careca, que tinha o rosto meio gordo.

—Não me interrompa Maori! Enfim, coincidência do destino ou não, os relatos do projeto sendo vista no parque se encaixam com tudo que venho pesquisando. E o que é mais interessante foi que minha esposa tem certeza que viu ela perto do coletor de lixo do parque outro dia.

Shoyo suava frio, e tão nervoso que estava não reparou que a garçonete já tinha trazido seu refrigerante.

—...portanto meus senhores, a decisão é simples. Mas se o governo saber da existência dela o nosso plano pode ir por água abaixo. Nós temos que ir atrás dela.

—E como faremos isso? Sequestrar uma garota não é tão simples assim.

—Relaxe, eu sei como fazer uma isca. Garotas da idade dela são facilmente persuadidas por garotos adolescentes. Eu posso usar meu filho para isso.

Neste momento Shoyo estava quase se levantando e dando um tapa na cara de Oru. Era muita informação na mente de Yukihira que ele não podia suportar. Tudo estava desabando em um dia.

Ele se levantou lentamente, levando o refrigerante intocado. Os 4 homens repararam o movimento súbito de Shoyo e começaram a falar mais baixo, com medo de que ele ou outra pessoa escutasse algo.

Oru se virou para ver o que seus homens tinham reparado, e viu Shoyo pagando a comanda barata do refrigerante para o caixa, que confuso percebeu o refrigerante ainda fechado, sendo levado por um garoto que suava frio.

—Você está bem garoto? — Perguntou o caixa preocupado.

—E-eu estou bem, mas poderia estar melhor...

Pegou o troco, e quando ia abrindo a porta da lanchonete, sentiu uma mão robusta tocando seu ombro. Se virou assustado para ver Oru olhando para ele com uma expressão séria.

—Você ouviu alguma coisa?

—Hã? Senhor Oru! Que s-surpresa... D-do quê o senhor está falando?

—Você ouviu. Se não você não estaria gaguejando.

Shoyo ficou em silêncio, estarrecido.

—Permaneça em silêncio. Se não coisas irão acontecer. — Disse o pai de Shin.

—Você está me ameaçando? — Shoyo ficou supreso de ele ter tido coragem pra falar isso.

—Apenas permaneça em silêncio! — Disse Oru rispidamente.

Oru se virou para voltar ao seu lugar para discutir os assuntos, e Shoyo ficou meio paralizado, meio com raiva. Depois de alguns segundos ele saiu do estabelecimento.

Caminhando pela calçada em direção á sua casa, ele segurava a lata de refrigerante tão forte que ela quase estava amassando. Yukihira Shoyo tinha decidido agir com coragem contra tudo aquilo que pudesse prejudicar Murasaki. A raiva o cegava, uma raiva de preocupação, de sentimentos profundos de querer proteger a menina de olhos roxos.

O que mais o deixava pensativo era o fato dela ter sido chamada de "Projeto 0". Provavelmente ela tinha sido um protótipo dos robôs, mas ele não entendia o motivo de quererem caçá-la logo.

Ao chegar em sua casa, ele jogou a lata no lixo, já havia bebido o refrigerante no caminho. Sua mãe não reparou sua chegada, ela dormia no sofá tranquilamente. Shoyo observou sua mãe descansando, a expressão serena dela emocionava o pobre garoto.

Emocionava porque Shoyo tinha tomado a decisão de fugir com Murasaki.

O garoto subiu ás escadas rapidamente, e pegou uma mochila grande que estava encima do guarda-roupa. Retirou a camada de poeira que acabou se juntando encima dela, e a abriu, colocando várias roupas que estavam espalhadas pelo quarto.

Colocou ela nas costas, pegou o resto do pouco dinheiro que ele possuía e se aproximou da porta de sua casa. Quando ia colocando a mão na maçaneta, a voz da sua mãe o interrompeu.

—Aonde vai filho?

—Oi mãe. Eu vou passar um tempo na casa do Shin.

—Porque?

—Ele disse que iria me ajudar nos estudos, e se eu passar uma semana lá seria melhor.

—Por isso foi lá hoje de manhã filho?

—Sim! Exatamente! Eu te ligo depois.

Ele fechou a porta, e caminhando tranquilamente em direção á ponte, enxugou as lágrimas que escorriam sobre seu rosto.

Murasaki estava sentada no esconderijo. Seu pressentimento dizia que algo estava prestes a acontecer. Preocupada, ela estava no canto, folheando um livro apenas para passar o tempo.

A sensação que ela tinha no peito fazia ela não ter vontade de fazer nada. Mesmo sendo uma leitora assídua, ela apenas olhava o livro sem sensação alguma.

Desde que Shoyo tinha contado sobre a briga com Shin, ela estava desconfiada de que ela tinha relação com aquilo. Murasaki estava mais cautelosa desde que um dia ela teve a impressão de uma senhora ter visto ela perto do lixo.

Sua distração sobre os fatos fez ela se surpreender quando ouviu Shoyo chamá-la fora do esconderijo.

Ela colocou a escada para que ele subisse, e quando ele entrou ela percebeu a mochila grande nas costas dele.

—Oi Shoyo... O que tem dentro desta mochila?

—Murasaki, eu tenho que conversar sério com você. Nós temos que sair daqui o mais rápido possível.

—Porque?

—O pai do Shin sabe sobre sua existência. Parece que a mulher dele te viu nas redondezas e eles irão te procurar.

—E agora? Pra onde iremos?

—Eu não sei, apenas temos que sair daqui. Vamos recolher suas coisas e tentar achar outro esconderijo por aqui ou em outra cidade.

Murasaki foi em direção ás caixas, retirando tudo que tinha mais valor e colocando na mochila de Shoyo. A expressão dela era de uma garota preocupada, ela sabia que um dia iriam encontrá-la.

Os dois saíram do esconderijo velho, e foram apressados em direção á ponte. Murasaki estava com um pano cobrindo sua cabeça para que ninguém pudesse ver seus olhos.

Mas pararam subitamente quando viram Shin esperando os dois debaixo da ponte.

—Olá Shoyo. Preciso falar com você.

Yukihira apertou a mão de Murasaki. Engoliu a saliva e ficou preparado para o que ele iria ouvir.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.