紫目 Murasakime - As pétalas que não caem mais
4 Scar Tissue
Sawamura tinha acabado de chegar em sua casa. Era uma casa de tamanho mediano, como o padrão daquela cidade. Guardou sua bicicleta ao lado do carro de seu pai, e entrou pela porta que dava na sala.
—Estou em casa!
Era uma sala cozinha bem grande e arejada, o chão branco combinava com o ar verde das paredes. Uma mulher de idade mediana estava sentada no único sofá que estava encostado na parede. Ela era loira, usava um óculos de meia lua, e ao notar a chegada de Shin se virou para falar com ele. Seu nome era Sawamura Junko.
—Oh, filho! Porque demorou hoje?
—Oi mãe. Fui entregar umas anotações pra um amigo que faltou hoje.
Do outro lado da sala, duas portas levavam ao banheiro e ao quarto dos pais de Shin. O outro corredor levava á uma escada onde ficava o quarto de Shin, de sua irmã e outro banheiro. Shin seguiu para o lado da sala onde ficava a cozinha, e abriu a geladeira para dar um gole de água.
O pai de Shin era um empresário que trabalhava pro governo. Ele chegava do trabalho ao entardecer, mas Shin notou que uma anotação na geladeira explicava que seu pai chegaria de noite desta vez.
—Porquê o papai vai chegar mais tarde hoje? — Perguntou Shin para sua mãe.
—Seu pai está atarefado hoje querido. Ele disse que alguns robôs sobreviventes estão causando problemas em vários distritos do país. Ele está ajudando na investigação, e vai ganhar mais por isso. — Respondeu Junko.
—Sério que isso não acabou?
—Sim, venha ver. Está passando no jornal agora mesmo.
"...hoje, na cidade de Tokyo, alguns Olhos Roxos foram encontrados vivendo em subúrbios da cidade. Eles estavam assassinando policiais, e já foram abatidos. Se você ver algum na sua cidade, certifique se ele sangra verde, e ligue pra polícia!." — Dizia o repórter na TV.
Neste momento exato Shin lembrou da garota misteriosa escondida debaixo da ponte. Mas ele se lembrou que o governo criou apenas robôs de aparência adulta então decidiu não se preocupar com isso.
"...a caça contra os robôs ainda não parou. Se você ver algum policial patrulhando em sua cidade não se preocupe, eles fazem parte da caça aos Olhos Roxos."
De repente, a porta do banheiro se abriu, e a irmãzinha de Shin surge. Ela tinha 5 anos, usava dois rabinhos de cavalo, e tinha de olhos verdes puxados do pai, assim como as mechas loiras.
—Irmão! Você chegou! — Disse ela indo abraçar Shin.
—Ei ei você lavou as mãos pelo menos? — Perguntou o irmão mais velho.
—Claro irmão! Não sou nojenta! Mamãe, a gente já teve um desses robôs?
—Sim Uraraka. Você não lembra porquê ela ficou pouco tempo aqui. — Respondeu Junko. — Ela foi enviada pra cadeia quando a guerra civil começou, lógico.
—Quanto tempo durou a guerra civil Mamãe?
—Durou um ano. Foi ano passado isso, a gente não ficou nem uma semana com a robô.
—Pra uma guerra que durou um ano, o Japão se recuperou rapidamente. — Complementou Shin. — Você ainda vai estudar isso na escola com certeza Uraraka.
—Não vejo a hora de começar a estudar!
—Em breve irmãzinha, em breve.
Shin voltou a prestar atenção na reportagem. Tinha algo de estranho nesta história dos robôs. O governo surge do nada com um monte de robôs biológicos que nunca mais foram fabricados, e vende pra população como se fosse banana. Esses robôs eram super parecidos com seres humanos. A única diferença era que esses robôs não envelheciam, sangravam verde e tinham os olhos roxos. De onde o governo tirou tanto dinheiro pra fabricar isso em segredo pra população inteira? E será que isso tinha correlação com os ataques nas favelas em Kirishima e Fukushima?
Talvez ele fosse perguntar isso pra seu pai algum dia. No momento, Shin suspirou preocupado com seu amigo. Qual seria sua relação com a menina debaixo da ponte?

Neste exato momento Shoyo soltava um espirro. Ele estava com Murasaki no esconderijo dela. Ela estava guardando o novo presente (um sabonete com cheiro de morango) em uma de suas caixas, quando se virou para falar com Shoyo:
—Saúde.
—Obrigado.
—Shoyo, obrigado por mais esse presente, sério mesmo. Mas você sabe que é bem difícil eu me banhar.
—Mesmo depois de eu ter dado uma toalha? Hahaha, molhe ela e passe pelo corpo.
—Bobo. Mudando de assunto, eu tenho que te falar algo importante.
—Hm?
—Eu tenho que te falar o motivo de eu ficar escondida o tempo todo aqui.
—Tem certeza?
O clima dentro do esconderijo tinha ficado tenso. Tanto pela curiosidade de Shoyo, tanto pela ansiedade de Murasaki, que contraída, não tinha certeza se contaria para seu amigo a verdade.
Ela respirou fundo, e de dentro de uma caixa, retirou uma pequena faca de cortar pão que ela usava pra se alimentar. Ela começou a explicar:
—Um ano atrás, eu estava com minha família em casa. Eu não morava aqui, eu morava em uma cidade próxima daqui chamada Fuyu. Eu não lembro muito bem, infelizmente tenho esse problema de amnésia. Mas...
—Mas?
—Eu lembro muito bem do que aconteceu. Provavelmente a gente morava em uma favela, nossa casa era bem velha e depredada. Tinha muito muito fogo. Homens armados entrando em casa... E então não lembro de mais nada.
Ela em seguida cortou seu dedo na frente de Shoyo.
Shoyo arregalou os olhos quando viu a expressão chorosa de Murasaki. Seus olhos roxos se encheram de lágrimas, e ela mordia o lábio. Shoyo não disse nada e observou o sangue respingar no chão.
Um sangue de cor verde clara.
—Porque Shoyo? Porquê eu só me lembro de estar abandonada neste esconderijo? Porquê quando as pessoas me olham elas me evitam ou tentam me machucar? Só porquê eu sou um robô? — Disse chorando Murasaki.
Shoyo se levantou lentamente e abraçou Murasaki. Os dois ficaram em silêncio enquanto se abraçavam.
—Todo dia eu tenho um pesadelo com aquele dia. Eu não me lembro do rosto de ninguém. Apenas lembro de fogo, muito fogo.
Shoyo abraçava mais forte Murasaki a cada soluço choroso dela. A mente de Sho turbilhava em muitas emoções, ele não sabia o que dizer, nem o que fazer. Ele apenas sentia solidariedade por ela.
—Eu vou te ajudar Murasaki.
—Você...
—Sim. Eu prometi nunca te abandonar.
Eles se desaproximaram do abraço apertado, e Sho pegou um curativo para o dedo dela.
—Murasaki. Faz quanto tempo que você se esconde nessa ponte?
—Uns meses mais ou menos. O início foi muito difícil. Eu tentei falar com as pessoas da cidade, mas todos me evitavam.
—Realmente. Acontece que só existem robôs adultos. Deve ser essa a razão. Eles estão atrás de todos os sobreviventes por algum motivo. Mas eu vou te ajudar.
—O-obrigado Shoyo.
Os dois se abraçaram novamente. Eles estavam estão próximos que podiam ouvir a respiração quente, e o batimento do coração.
Bapum. Bapum.
Cada batida fazia Shoyo imaginar o quão magnífico era a tecnologia. Ele não ligava se ela era um robô ou não. Ele apenas queria ela próxima dele. Ele queria protegê-la. Para sempre.
Bapum. Bapum.
As batidas de Shoyo fazia Murasaki imaginar que existia sim esperança na humanidade que sempre á desprezou. Se não fosse por Shoyo a Murasaki não teria futuro nenhum.
O abraço deles simbolizava uma união forte e afetiva, como uma pequena luz no meio da escuridão. Os dois permaneceram ali por tanto tempo que nem repararam que a noite já tinha chegado. A luz da lua que batia na janela quebrada cobria os dois como se fossem um só.
E o coração dos dois batiam juntos em uma sincronia.
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