Yukihira despertou os olhos. Ele sentiu um frio de gelar a espinha. Observou ao seu redor, e tudo estava escuro, exceto por um feixe de luz que entrava por uma janela quebrada. "Estou no esconderijo...", pensou ele.

Sentiu seu braço direito dormente, e com o esquerdo pegou seu celular para iluminar a sala. Murasaki estava deitada em cima de seu braço, e Shoyo se lembrou deles terem dormido juntos na cama dela.

Tomando cuidado pra não acordar sua amiga, Sho conseguiu se desvencilhar debaixo dela. Se levantou e foi em direção á uma caixa, acendendo uma lamparina.

—Murasaki, acorde... — Disse Shoyo cutucando ela levemente.

—Sho-Shoyo? — Respondeu Murasaki lentamente, abrindo os olhos sonolentos.

—Eu estou indo Murasaki, já está muito tarde.

—O-ok.

Os dois se despediram com um abraço, e Murasaki agradeceu Shoyo por ter permanecido com ela até tarde. Shoyo subiu na janela, e se despediu, saindo do esconderijo com cuidado pra não se machucar.

Ao colocar os pés no chão, Shoyo não viu nada por causa da escuridão. Rezou para que seu celular tivesse bateria o suficiente, e acendeu a lanterna. 35% eram o suficiente para guiar ele até sua casa.

O som de cigarras e outros insetos faziam da noite ser mais sinistra do que ela já seria. O vento frio batia no corpo do Shoyo, que tremia a cada passo cuidadoso na beira do rio.

Ao chegar no barranco, ele subiu com cuidado, e desligou o celular para se guiar com a luz dos postes.

Uma cidade de madrugada realmente era algo totalmente diferente dos hábitos normais de Yukihira Shoyo.

Ele foi andando rua por rua sem pressa alguma, apenas se deixando engolir pela cidade de Saitama. Ruas escuras engolidas pela escuridão, postes acesos cercado por cigarras e outros insetos, o andar lento de um adolescente. Sho estava em um estado de espírito calmíssimo, desejando aquilo para sempre.

Sho chegou em frente á sua casa, e abriu a porta calmamente com o objetivo de não acordar sua mãe. Desde o dia que discutiram, a situação entre os dois vem sendo tensa. Portanto Shoyo queria evitar discussões desnecessárias. O que seria algo raro já que parecia que sua mãe havia largado mão de seu filho, pelo menos neste aspecto de ficar no pé dele para que chegasse cedo em casa.

Checou seu celular que apitava por falta de bateria. Eram 1:37 da manhã, e Sho não reparou as duas chamadas perdidas de seu amigo Sawamura. Shoyo pensou que havia perdido a noção do tempo enquanto estava com ela.

Shoyo subiu as escadas, apenas se guiando pela luz fraca do celular com 3% de bateria. O aspecto verniz e marrom da escada dava uma sensação sinistra.

Andando na ponta dos pés, abriu a porta do seu quarto lentamente. Ao acender a luz de seu quarto, reparou que ele estava bagunçado como de costume. Retirou algumas roupas e mangás que estavam na sua cama, e colocou no criado mudo.

Ao se deitar na cama e olhar o teto iluminado pela lâmpada rodeada por pequenos mosquitos que chegaram junto com o jovem, Sho começou a refletir sobre a sua situação com Murasaki.

—Eu fui ingênuo demais... — Exclamou preocupado Sho, levantando sua mão em direção á lâmpada, como se ele estivesse agarrando-a. — Quais as chances de uma garota nascer com olhos roxos?

Sho tinha realmente ficado surpreso com a revelação de Murasaki. Apenas surpreso, não bravo, e nem feliz.

Na verdade isso apenas motivou ele a ajudá-la mais. Shoyo estava disposto a largar tudo apenas para tirar ela daquela situação.

Porém, porquê?

Porquê de repente Shoyo quis ajudar uma garota aleatória que conheceu debaixo de uma ponte?

Ele estava confuso demais. Com tendências depressivas Sho encontrou em Murasaki uma válvula de escape, alguém que ele precisava.

—E o Shin? — Pensou alto Sho.

Se ele abandonasse tudo apenas para ajudar Murasaki, o que seu amigo Shin pensaria? Sho sabia que tinha um grande laço com seu amigo, e que se ele fosse quebrado Yukihira realmente ficaria sem chão.

Sho cogitou falar com seu amigo quando fosse possível. Afinal Shin poderia estar bravo por Shoyo ter faltado tanto nestas últimas semanas. Shoyo também queria explicar toda sua situação e quem sabe até apresentar Murasaki pra ele.

Após um tempo deitado sem fazer nada além de olhar pro teto, Shoyo adormeceu. Um quarto bagunçado, com roupas largadas e mangás espalhados pelo criado mudo, e um adolescente dormindo desleixado e de óculos, deu um ar totalmente depressivo pra alguém que olhasse. Yukihira era um garoto que precisava de ajuda.

Yukihira Shoyo estava sonhando em um lugar totalmente estranho. Ele estava em um deserto ensolarado, com o céu totalmente azul sem sinal de nuvens. Seus braços estavam atados, e ele estava totalmente nu. Em cada mão, uma corda estava presa, e cada corda era puxada por alguém. Em sua mão direita estava Murasaki, e em sua mão esquerda estava Shin. As cordas estavam sendo puxadas com força, até que seus braços estavam sendo separados.

Shoyo acordou assustado, meio suado. Fazia tempos que ele não tinha pesadelo algum.

—2:50 da manhã... — Observou Sho em seu relógio, e finalmente viu as chamadas perdidas de seu pobre amigo. — Shin...?

Shoyo precisava realmente falar com seu amigo. Ele estava tão preocupado em ajudar Murasaki que esqueceu do seu melhor suporte em momentos difíceis como esse.

Sho se lembrou de um momento em particular, em que no primeiro dia de aula Shin estava lá. Shoyo era um garoto um tanto quanto reservado, e por isso ele sofria bullying desde sua antiga escola. Uns garotos tentaram se aproveitar da fragilidade de Sho para pregar peças com ele, mas Shin o defendeu, levando o risco de apanhar por conta disso.

Teve outro momento em que Sho não tinha estudado para as provas. Mas Shin fez questão de ajudá-lo, sacrificando o encontro em família que Sawamura tinha.

Sem contar o último momento que Sho não ficou sabendo, em que Sawamura mentiu ao professor que Shoyo estava doente.

Em todas essas vezes que Yukihira estava com problemas, Shin estava lá com ele.

Mas desta última vez, Shoyo não retribuiu.