Era mais um dia de aula na escola Haru. Shin acabou de entrar na sala, e foi rodeado de pessoas lhe cumprimentando. Dando bom dia para uma de cada vez, o garoto popular sentou na sua cadeira exatamente ao lado de onde sentava seu melhor amigo.

Mas Sho não estava lá.

Suspirou, e prestou atenção na aula. Talvez seu amigo tivesse se atrasado, mas não é a primeira vez esta semana que Yukihira faltava por motivos bestas.

O professor foi fazendo a chamada, e quando chegou nome de Shoyo, Sawamura levantou a mão:

—Professor, Shoyo me ligou dizendo que está doente por isso não pode comparecer.

O velho professor suspirou e respondeu:

—Se não ter problema Shin, entregue as anotações pendentes para ele.

Shin confirmou com a mão. Ele iria com certeza depois da aula entregá-las, seria uma maneira de ver se seu pobre amigo estava bem. Porém Shin não gostava de mentir, ele era um garoto rígido em questão de regras seja qual for o tipo. Ele pensou em dar uma bronca em seu melhor amigo por ter feito ele mentir pro professor.

—Ei, ei, Shin. — Sussurou o garoto baixinho e parrudo que sentava á frente, seu nome era Yang — O Shoyo ta doente mesmo ou tá de frescura?

—Pra falar a verdade eu não sei cara. Ele nem responde meus e-mails, nem o celular. — Respondeu Sawamura.

—Você tem que parar de acobertar ele Shin. Ele é seu melhor amigo mas o que ele ta fazendo com você é sacanagem.

Shin acenou com a cabeça, e olhou para o lugar vazio do seu pobre colega. Por quanto tempo será que Sho agiria assim? Shin conhece Sho há um ano, e desde que se conhecem sempre foi desse jeito. Talvez tivesse acontecido algo que fez Sho ser uma pessoa tão desanimada assim.

Porém, mesmo sendo como Sho é, ele nunca faltaria nas aulas dessa maneira. Na última vez que Sho ficou doente de verdade ele contactou Shin. Yukihira pode ser um garoto desleixado, mas ele tem maturidade pra seus compromissos.

Tinha algo acontecendo, e Shin decidiu investigar.

Depois da aula, Shin foi embora por um caminho diferente, indo em direção á casa do seu amigo. Sawamura subiu em sua velha bicicleta bege que herdou de seu pai, e foi em direção á casa do seu amigo.

Era um dia ensolarado, e Shin suava á cada pedalada. O luz do sol se refletia no asfalto cinza e fúnebre da cidade, dando um ar de cidade tropical. Era um fim de primavera e entrada do verão, e o calor estava escaldante.

Chegando na casa de seu amigo, Shin encostou a bicicleta na cerca do pequeno jardim da família Yukihira. Se aproximou da porta grande e marrom, e tocou a campainha, sem resposta.

Se desaproximou, e reparou que a garagem estava vazia. Olhou para as janelas no alto, e viu que estavam todas fechadas. Não havia ninguém em casa, e Sho não estava doente. Onde ele estaria?

Shin tentou ligar para seu amigo, mas sem sucesso também.

Porém ele conhecia seu amigo há tempo suficiente pra saber onde ele iria em momentos como esse. Subiu na bicicleta novamente, e foi em direção á loja de conveniência mais próxima, onde Sho sempre comprava seus mangás. Prendeu a bicicleta, e entrou na loja que tinha um ar humilde.

—Seja bem vindo — Disse o velhinho que cuidava do caixa.

—Senhor, você viu um garoto cabeludo entrar aqui recentemente? Ele usa óculos, acho que o senhor conhece já que ele vem aqui direto. — Perguntou Sawamura ofegante.

—Hmmm, eu vi sim. — Respondeu lentamente o velhinho que aparentava cansado — Ele saiu daqui há uns 30 minutos, nem comprou os mangás como de costume, ha ha ha.

—O-quê ele comprou? Desculpe perguntar.

—Achei estranho, mas ele comprou um sabonete e um doce de morango.

—Obrigado senhor. Acho que isso já é o suficiente.

Saindo da loja após a despedida do velho, Shin começou a desconfiar que seu amigo estava cabulando aula pra ver uma garota. Primeiro que Shin sabia que seu melhor amigo odiava morango. De qualquer tipo, seja em doce ou sorvete, ou a própria fruta. E sabonetes são bons presentes para garotas, imaginou o inocente Shin.

Desistindo de achar Sho a este horário, Shin cogitou dar uma grande bronca na próxima vez que ele o ver, primeiro por não ter contado que estava vendo uma menina, e também por ter feito ele mentir ao professor.

Para não perder a viagem, Shin decidiu dar uma passada ao parque perto dali. Além de espairecer a cabeça ele poderia fazer uma das lições de casa que o professor tinha passado.

Porém, para azar de Sawamura Shin, ao passar por uma ponte pequena, o pobre garoto quase foi atropelado, desviando de um carro e tendo que dar uma freada brusca, quase caindo ao chão.

Colocando a mão no coração que palpitava bastante, Shin decidiu dar uma pausa encostando na beirada da ponte, sem nem reparar nos xingos do motorista que quase o atropelou. Ofegando bastante, após os carros terem passado, Sawamura ouviu um som estranho.

Não eram pássaros, nem buzinas, muito menos o som do lago. Era a voz de seu amigo, Yukihira Shoyo.

Confiando que não a roubariam, Sawamura deixou a bicicleta na beirada da ponte, descendo o pequeno barranco que dava no lago que passava por baixo, que logo em frente virava uma correnteza que iria pro esgoto.

E lá estavam eles. Yukihira Shoyo e uma garota desconhecida. Ela tinha uma aparência pobre, pensou Shin. Vestido meio sujo, mas o cabelo estava brilhoso e loiro.

Murasaki e Shoyo não repararam a presença de Shin, que decidiu não incomodar os dois que estavam entretidos conversando sobre algo que Shin entendeu por ser sabonetes.

Chateado e feliz ao mesmo tempo, Sawamura Shin subiu o barranco lentamente. Ele estava satisfeito em ver que seu amigo estava bem, mas estava profundamente triste por ele não ter te contado nada sobre isso.

Shin se lembrou da primeira vez que falou com seu amigo Shoyo. Primeiro dia de aula, Sawamura percebeu que um garoto estava sentado no canto da sala, debruçado sobre a mesa. Preocupado com este pobre garoto cabeludo, Shin decidiu falar com ele, para ver se ele estava bem.

Desde esse dia Yukihira Shoyo vem confiando em seu extrovertido e inteligente melhor amigo Sawamura Shin. Shoyo contou pra ele todos seus segredos, contou sobre a morte de seu pai, contou sobre seus mangás favoritos, sobre tudo que um amigo contaria ao outro.

Era um laço firme e forte, que formado pouco a pouco neste ano de amizade, não seria quebrado por nada. Exceto por uma garota desconhecida de olhos roxos.