Única virtude
1 Prólogo
Notas iniciais
Prólogo
Grego não acreditava que tudo aquilo que estava acontecendo era real. Ele teria que enfrentar as consequências de suas escolhas. E no momento, ele estava enfrentando a pior delas.
Ele estava de braços cruzados no batente da porta do apartamento, seus olhos observavam Margot que terminava de juntar mais algumas coisas e colocar em uma das malas que estavam abertas.
Ao contrário do que Gregório pensava, depois de tanto tempo, Margot conseguia reconhecer a presença dele em qualquer ambiente. Ele estava quieto, mas ela aguardava qualquer reação dele. Ela não ia voltar atrás, não mais. Estava cansada de suas promessas e falso amor. Ela já teve muito disso durante sua vida inteira, não aguentava mais aquele amor. Amor oferecido por caridade, por compaixão.
O que custava encontrar a felicidade em um amor verdadeiro? Será que ela iria encontrar esse sentimento algum dia?
Ela sentia os músculos do pescoço e dos ombros tensos, enquanto dobrava a última roupa e colocava no topo das outras na mala. Fechando-a em seguida.
Não seria ela que iria quebrar o silêncio.
Ela colocou a mala de rodinhas de pé ao lado das outras próximas ao sofá e totalmente ciente de sua cara de derrota e cansaço, se virou e observou o chefe de Paraisopólis na porta.
_ Que ‘cê tá fazendo, tio? Tá louca, Margot?
Ela respirou fundo antes de responder, não queria começar outra discussão. Estava exausta.
_ Eu te avisei que ia embora, você só não acreditou. – ela deu de ombros.
_ ‘Cê tá maluca? Eu não vou te deixar ir embora daqui.
_ Ah, você vai! – ela se exaltou em seu tom de voz, respirando fundo em seguida. – É o seguinte, Grego... Você pode mandar em Paraisópolis e em toda aquela gente... – ela gesticulou apontando para a janela do apartamento. – Mas, não manda em mim, na minha vida...
_ A Maria... – ele começou.
_ Muito menos na vida dela! Nós vamos embora, quer você queira ou não.
Grego andou até ela e ela deu um passo para trás, não por medo ou receio dele, mas por que não queria estar tão próxima. Ele sentiu um aperto no peito ao vê-la se afastar, mas manteve-se forte em sua pose.
_ ‘Cê tá ligada que tudo que eu fiz foi por vocês, né, mano? ‘Cê tá ligada que eu gosto de verdade d’ocê. Eu tô aqui, na bandeira branca, tentando resolver essa parada e tu não me deixa nem falar... – ele disse com um tom de mágoa na voz.
_ A única coisa que eu te pedi, Grego... Foi que você saísse desse seu estilo de vida, a única coisa que eu pedi foi que se você gostasse mesmo da gente do jeito que diz, você tinha que me dar uma prova.
_ E não te dei prova nenhuma?
_ Você acha que eu quero que a Maria cresça aqui? Nesse mundo maluco? No meio dessa disputa de um território que não é de ninguém? Porque se você acha que Paraisópolis é sua, você tá enganado!
_ Eu tentei, mano! Eu tentei, eu não fui lá? Tentar trabalhar com o Benjamin e toda aquela parada? Eu que não sou desse mundo, magrinha. Respeita a minha história! Eu sou o Gregório Mourão e não vou mudar.
Margot se continha enquanto ele gesticulava com suas mãos próximas ao seu rosto. Ela detestava quando alguém lhe apontava um dedo na cara.
_ É por isso que eu vou embora. – ela finalizou a conversa.
Grego estava tenso. O que ele pudesse fazer para impedir a ida delas, ele iria fazer. Ele comandava todo aquele esquema, não era possível que não ia conseguir impedi-la.
_ Você não pode me obrigar a ficar aqui. – ela disse, como se tivesse lendo os pensamentos dele.
Ele a encarava e tentava abaixar sua marra olhando nos olhos castanhos dela. Ela tinha olheiras e não usava maquiagem, não era como antes. Era como se ele a tivesse estragado, tudo que Grego tocava ficava podre e ela não poderia ser diferente.
_ Quero que você entenda que a sua ambição vai te deixar sem nada. E eu não quero estar aqui pra presenciar isso tudo, Grego.
Os olhos dela começaram a encher de lágrimas e ela desviou seu olhar do dele. Quando ela tentou se virar, ele segurou nos dedos de sua mão direita. Seus dedos encaixando perfeitamente com os dela. Margot sentiu algumas lágrimas escaparem de seus olhos.
Não importa o tempo que passasse sempre teria alguma coisa naquele toque que a fazia se sentir completa.
Os dedos ásperos da mão livre de Grego trilharam o caminho de uma lágrima em seu rosto e ele a encarava impressionado.
_ Por favor, Margot, eu tô falando sério... – ele falou em um tom mais baixo. – Não vai embora.
Eram raros os momentos que Gregório não colocava uma gíria em uma frase e ela sabia que ele falava sério por conta da intensidade do seu olhar.
_ Vai embora, Grego. Só vai. – ela pediu uma última vez, soltando seus dedos dos dele e se afastando.
Grego se afastou de Margot erguendo seus braços em redenção. Se ela soubesse o quanto doía ouvir aquelas palavras e doía muito mais ter que tomar aquela atitude de sair daquele apartamento.
Ele nunca mais iria vê-la, nunca mais iria ver Maria.
A amiga psicóloga de Margot, Patrícia, e seu noivo, Lindomar entraram no apartamento antes mesmo de Grego sair. Patrícia estava grávida de poucos meses e Lindomar carregava a pequena Maria em seu colo.
Ver a menina era como ter tomado um tiro de fuzil no meio do peito. Ele quase podia sentir o sangue escorrendo. Os olhos verdes da menina que era a cara da mãe observavam Grego e ela agitou seus braços ao vê-lo, querendo ir para o seu colo. Ele não conseguia reagir.
_ Vem com a mamãe. – Margot tirou Maria do colo de Lindomar.
A menina de quase dois anos resmungou e se agitou mais quando a mãe começou a afastá-la de Gregório.
_ Papai... – a menina resmungou alto, ainda agitando seus braços para ele.
Patrícia e Lindomar ficaram em silêncio. Margot repreendeu a filha.
_ Ele não é o seu pai, Maria. Seu pai é o Benjamin! – ela falou em um tom severo. Sem entender o porquê daquela bronca, a menina começou a chorar por não conseguir o que queria.
Margot subiu as escadas do apartamento sem olhar para trás com Maria em seu colo. A criança chorava e Grego resolveu ir embora de vez.
O choro dela tocava estridente em seus ouvidos e ele tinha a súbita vontade de bater em alguém ou em algo. Tinha vontade de destruir qualquer coisa que vinha ao seu encontro, tinha sede de violência.
A culpa não era dele, a culpa era daquele imbecil do Benjamin que tinha plantado coisas na cabeça de Margot. Era culpa daquele playboyzinho babaca que se metia em sua vida de todas as maneiras.
E ele estava de saco cheio. Benjamin iria pagar por ter cruzado o seu caminho.
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