Única virtude
2 Capítulo 01
Dois anos atrás
Grego estava sentado em uma mesa em seu escritório em Paraisopólis, seus olhos fixos na madeira da mesa, seus braços apoiados sobre ela e seus dedos cruzados como em uma prece silenciosa. Seu queixo apoiado ali no encontro de suas mãos.
Ele mal sentia o tempo passar perdido em seus pensamentos, perdido em lembranças de certos olhos castanhos.
Ele não percebeu a presença ao seu lado e levou um susto quando a mão de Ximena bateu na madeira fazendo um barulho alto. Gregório xingou.
_ ‘Cê é louco, Ximena? Quer me matar do coração, mano? Tá louca?
_ Eu tô aqui há um tempão falando contigo e você não me escuta, velho. Tá com a cabeça onde, Grego? Na moral, presta atenção! Tá pensando naquela tal de Marizete de novo, cara?
A comparsa e braço direito de Grego se sentou na cadeira a sua frente, seus olhos claros sondavam o chefe. Ele deu de ombros, não pensava em Mari, mas também não ia dizer em quem pensava.
_ Ah, já sei... Tava pensando naquela patricinha do Morumbi.
_ Ah, respeita, Ximena. Velho, eu já tô de saco cheio dessa Bruna, tio. Não aguento mais esse nhem, nhem, nhem na minha cabeça. – ele gesticulou com a mão próxima à própria orelha.
_ É? E quem disse que eu tô falando da piriguete, Grego? Eu tô falando da mãe do filho do Benjamin, velho... Aquela tal de Margô.
_ É, Margo-te. – ele a corrigiu de forma errada.
_ Tanto faz, cara. É ela! Depois que você se aproximou dela não para de pensar nela, cara.
_ Tá maluco. – ele riu com desdém. – Você sabe que eu me aproximei dela por conta do firmamento da Marizete com aquele playboy sem graça.
_ Eu te conheço e não é de hoje. Tu se amarrou nela, mano. Se amarrou, tá escrito na sua fuça!
_ Se liga, Ximena! E fica na tua, cara. Tem mais o que fazer, não? – ele se enfezou com os pré-julgamentos dela.
_ Não tá mais aqui quem falou, mano. – ela ergueu as mãos. – Eu só vim aqui pra dizer que eu to de olho no Javai e na Omara, eles ainda não desistiram de tomar a quebrada, tá ligado, né?
_ Tô, tô, mas fica sussa que o Javai ainda tá nas mãos do Greguim. – ele deu uma piscadela pra ela.
Ximena sabia que ali era a sua deixa. A garota saiu e Grego esperou o silêncio novamente. Abriu a gaveta do lado direito de sua mesa e encontrou o celular. Buscou o número de Margot em sua agenda e quando discou lá estava uma foto dos dois juntos, fazendo careta e zuando como sempre.
_ Fala, Grego. – ela atendeu com uma voz diferente.
_ Fala, nega. Tudo suave por aí? Só na tranquilidade? – ele sorriu.
_ Tá tudo... mais ou menos, viu, Grego?
_ Tu tá com uma voz estranha. O que aconteceu?
_ É a Maria.
_ Maria? Quem é Maria? Fala aí que eu dou um encontro nela, tá ligada? – ele parecia confuso e Margot riu.
_ É a bebê, aliás, eu nem sei se é Maria, só chamo assim por que... Enfim... Ela resolveu me deixar mal hoje. Tô meio mal, nada de mais. Coisas da gravidez. – ela desatou a falar.
_ Ah, tô ligado. Fica de boa aí, eu tô indo aí...
_ Não precisa, Grego. Não precisa. – ela pediu.
Grego ouviu os latidos do filhote Romano na linha de telefone.
_ Alá, o Romano tá com saudade do Greguim, eu vô aí sim. Tu não pode ficar sozinha nesses estados, tá entendendo?
_ Não precisa. – ela repetiu.
_ Independente, eu já disse que eu vô. – e desligou a ligação.
Margot não tinha conseguido dormir a noite por conta do mal estar, para não deixar a amiga Patricia preocupada ela fingiu que estava tudo bem quando se trancou no banheiro pela manhã. A psicóloga saiu para trabalhar deixando a arquiteta sozinha e ela ficou vomitando pelas próximas horas e com enjoo de tudo que tinha pra comer.
Agora ela estava de pijama no sofá, Romano, seu filhote de pastor alemão que tinha ganhado de Grego estava sentado próximo ao móvel. Ele não a largava por nada e ela até que achava fofo.
Pelo menos alguém se importava com ela de verdade.
Ela permanecia observando o cachorro e pensando se devia ou não trocar de roupa até da chegada de Grego. Ele nunca a tinha visto naquele estado deplorável, porém ela não tinha vontade nem de levantar dali. Sentia-se mole e fraca pra fazer qualquer coisa.
Qualquer chance de seduzir Gregório estava indo por água abaixo naquele dia.
Ela não estava linda, muito menos sexy e deveria estar cheirando mal também. Ela pediu, ela praticamente implorou para ele não ir até lá, mas ele invadiria o apartamento pela janela se fosse preciso. Pelo pouco que conhecia dele, já sabia que a determinação era o seu ponto mais forte.
Grego parou na frente da porta vermelha do apartamento de Patrícia, ele tinha ido correndo para lá e graças à psicóloga sabia onde a chave reserva ficava. Ele só era observador demais e tinha visto onde ela a aguardava. Ele a pegou e abriu a porta.
_ ‘Cê é... – ele começou falando, mas parou em seguida ao ver Margot dormindo no sofá.
Romano veio até seus pés e os cheirou, pulando em suas pernas em seguida. Grego fez sinal de silêncio para o filhote que balançava o rabo animadamente e feliz com a chegada dele.
Ele pegou o cachorro no colo e caminhou até o canto da cozinha onde ficava o pote de ração do animal que estava vazio. Ele o preencheu com um pouco de ração que tinha no armário e o deixou comer.
Margot dormia de barriga pra cima com as mãos repousadas na região do estômago e a boca levemente aberta. Grego mal percebeu que ele sorria com aquela imagem. O cabelo dela que sempre estava tão bem arrumado estava todo bagunçado e ela usava um pijama cheio de gatinhos estampados. Ele riu baixo.
Margot se mexeu e ele parou no lugar ao lado dela. Ela suspirou fundo e as mãos dela apertaram sua barriga e ela abriu os olhos de repente assustando o rapaz de Paraisópolis.
_ Grego? – ela falou se sentando no sofá e colocando a mão na própria cabeça.
_ ‘Cê tá bem, nega? Tá mais branca do que papel, parece que viu um fantasma... ‘Cê é louco.
Ele não teve uma resposta, Margot se levantou e correu para o banheiro. Ela se agachou próxima ao vaso sanitário para despejar o que tinha no estômago vazio, apenas o suco gástrico. Grego não sabia lidar com aquilo, apenas acompanhou os passos da arquiteta e se abaixou próxima a ela, afastando seu cabelo de seu rosto.
Ela gemeu quando sentiu que não ia vomitar mais nada.
_ Você precisa ir pro hospital... – ele falou em um tom sério. – Troca de roupa e vamo. Você não tá bem, não.
_ Ah, não, Grego. – ela se sentou no chão do banheiro e limpou a boca com a manga do pijama. Ele soltou seus cabelos.
_ Que não o quê, tio!? Isso não é uma pergunta. É um afirmamento, você vai e já era.
_ Agora você pensa que manda em mim, é... “tio”? – ela o imitou e ele se segurou para não revirar os olhos.
_ Cadê a doutora Patrícia? Ela tá louca de te deixar aqui assim?
_ Ela tá no trabalho dela e nada de ligar pra ela. Não a quero preocupada. Isso é normal na gravidez, Grego, o mal estar e o enjoo.
_ Você precisa tomar um remédio, tu tem que ver a sua cara... Tá parecendo o Gasparzinho. Bora. Levanta daí.
Gregório ajudou Margot a se levantar, a apoiando em seu próprio corpo e a levou até o sofá novamente.
_ Tem um remédio especifico para enjoo para uso de grávidas... – ela comentou.
_ Eu compro lá, magrinha. Fica de boa aí. – ele disse a cobrindo com a manta que estava jogada no sofá. – E o Romano fica de olho em você, né, mano?
O cachorro observava os dois sentados, agora satisfeito por ter comido bem. Margot riu.
Quando Grego voltou com o remédio, fez Margot engolir de imediato o comprimido.
_ O cara lá da farmácia falou que tem que tomar de seis em seis horas... – ele olhou no enorme relógio que carregava no pulso esquerdo. – Daqui seis horas tu toma outro.
_ Tá bom. – ela sorriu torto pra ele e se aconchegou no sofá.
Gregório se sentou na ponta do sofá onde estavam os pés dela, Margot o olhava com admiração e ele sempre ficava sem graça com aquele seu olhar. Sabia que não era um olhar de piedade ou compaixão, ela parecia admira-lo de algum jeito. E ela despertava o seu lado bom, o seu eu amável e doce que estava trancado a seis chaves. Porque a sétima só Marizete a possuía.
_ Que foi? – ele perguntou, incomodado com o jeito que ela o observava. – Tem alguma coisa na minha cara?
Ele sempre perguntava em um tom de brincadeira e ela riu baixo.
_ Não. É só que cada dia você me impressiona mais, Grego.
_ Ah, tá ligada que aqui é ponta firme, né não? – ele riu também. – E aí, o que ‘cê quer comer? Você e a Maria aí. Maria, né?
_ Maria. A dona Isabelita acha que é uma menina e devo dar o nome de Maria.
_ Vish. A dona Isabellita é firmeza, mas ela é meio doidinha, né não?
_ É. – ela concordou com um sorriso. – Mas, eu não vou discutir com ela.
_ Tá certo, tem que respeitar memo. E aí, vai comer o quê?
_ Alguma especialidade do chef Grego. – ela puxou a manta até o pescoço e ficou o olhando dali.
_ Ê, tá tirando? Aqui é só coisa de responsa. – ele se levantou animado por ser útil pra ela. – Hoje vai ter macarronada do Greguim. – ele gesticulou com as mãos e ela riu do jeito dele.
_ Já tô com vontade. Vai lá e faz, não quero que meu bebê nasça com cara de macarronada.
_ De jeito nenhum, independente, não vacilo. – ele foi até a área da cozinha e começou a mexer nos armários e panelas.
O enjoo de Margot foi passando aos poucos enquanto Grego preparava o almoço. Um cheiro delicioso invadia o apartamento e a fome dela só aumentava.
Grego tinha tirado o moletom preto que usava, deixando seus braços expostos com a regata branca, ele estava de costas para ela. Margot observava do seu canto no sofá as tatuagens desenhadas nos músculos dos braços dele e como elas se mexiam a cada movimento seu. Impressionada pela quantidade de desenhos e curiosa para saber todos os seus significados.
Margot achava Grego um homem impressionante e surpreendente. Não parecia ser tudo aquilo que todos a alertavam, parecia ser uma pessoa de bem que se perdeu no meio do caminho. Ele era lindo e isso ela não poderia negar, mas ela não entendia por que se sentia atraída por ele. Ele era o total oposto do seu ex.
Talvez fosse a sensação de proibido e perigo. Às vezes, ela se sentia tão atraída por ele que tinha vontade de agarra-lo a qualquer momento. Tinha desejo de sentir seus braços a apertando e sua boca na dela. Aquela mistura do rústico com o delicado.
Deve ser a alteração brusca de hormônios. Como Patrícia lhe disse mais de uma vez.
Ela não percebia que mordia o próprio lábio, até que Grego se moveu e jogou um pano de prato em seu próprio ombro e foi buscar um prato no armário. Ela se sentou no sofá e tentou ajeitar o cabelo com as mãos, dobrou os joelhos e os abraçou, como fazia quando era pequena.
_ Aqui, magrinha. – ele veio com o prato em sua direção com um sorriso satisfeito.
_ Eu nem vou perguntar o que tem aí. – ela pegou o prato e ele riu.
_ Tem um pouco de tudo que tinha na geladeira, tá ligada?
Margot olhava com desconfiança para o macarrão ao molho vermelho, pedaços de legumes e verduras, queijo, bacon, calabresa e coisas que ela não conseguia identificar estavam misturados com a massa. Ela não poderia recusar, seu estomago roncava e o cheiro estava delicioso.
_ Larga de frescura, tio. Come isso aí, se não eu como memo.
Grego a olhava com ansiedade até que ela pegou um pouco em um garfo e comeu. Ele aguardava sua reação quando ela fechou os olhos e soltou um gemido de satisfação.
_ Tá realmente uma delicia, Grego. – ela pegou mais um bocado e começou a devorar o prato.
_ Eu falei, mano! ‘Cê é louco! – ele voltou para o fogão e fez um prato pra ele.
Sentou-se no sofá e os dois começaram a comer. Romano tentava subir no sofá para alcançar a comida, ele latiu para Grego quando ele o repreendeu.
_ ‘Cê não pode comer comida de gente, não, tá ligado? Fica de boa aí.
Margot ria do esforço do cachorro e sentiu-se satisfeita quando terminou o prato. Grego era aquele tipo cara que segurava o talher errado e comia de boca aberta, o total contrário de todas as regras de etiqueta que ela tinha seguido a vida inteira.
Ele olhou pra ela e ela sorriu sem graça.
_ Que foi?
_ Peraí. – ele tirou o pano de prato do ombro e apoiou seu prato em sua perna. – Tá sujo aqui. – ele passou o pano no queixo dela.
Ela se viu presa na delicadeza de seu toque e no jeito que ele olhava para sua boca. Eram nesses momentos que ela tinha vontade de tomar a iniciativa de beija-lo imediatamente. Ele a provocava e ela gostava daquilo, mas pela primeira vez naqueles dias ela sentiu que ele a queria também.
Seus rostos pareciam se aproximar feito dois imãs, devagar, ela sentia aquela tensão no ar. Seus lábios estavam secos e foi quando ela passou a língua pelo lábio inferior. Grego queria beijá-la ainda mais, mas ele sentiu o prato escorregar do apoio de suas pernas e cair no chão. Foi quando ele notou que ele já estava quase por cima dela, feito um leão atrás da caça. Romano tinha batido a pata no prato e o levado ao chão.
Margot se assustou com o barulho e se endireitou no sofá, Grego xingou baixinho.
_ Foi mal aí, Margot. – ele se desculpou.
O prato não tinha quebrado, pois tinha caído no tapete. Romano lambia e mordiscava o resto de comida que tinha no chão.
_ Tudo bem... – ela passou a mão na própria nuca, sentindo o calor de sua pele.
A pressão dela devia ter ido para as alturas.
_ Eu vô limpar isso aqui. – ele levantou e ela também.
_ Tá... Eu só... – ela gesticulou com as mãos. – Vou ao banheiro.
Margot andou de pressa até o banheiro, ela ainda ouvia Grego xingando e resmungando coisas para o cachorro. Ela fechou a porta e se apoiou nela.
Não era possível que ele causava toda aquela reação nela. O coração em seu peito estava disparado e ela tentava se acalmar ali. Ela ia precisar de um banho. Parecia uma adolescente na fase de descobertas, não parecia a adulta que era. Grego mexia com seus instintos mais do que qualquer outro homem que já tinha lhe tocado.
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