Única virtude
6 Capítulo 05
O filme acabou e Margot se pegou limpando as lágrimas novamente. A pipoca tinha acabado pouco depois que Grego havia chegado, ela ia se levantar no sofá quando sentiu um peso em seu ombro. Gregório tinha dormido e seu corpo tinha tombado para o seu lado. Na verdade, ele tinha apagado.
Ela se ajeitou no sofá e para deixá-lo mais confortável, colocou uma almofada em suas pernas e guiou a cabeça de Grego até que encostasse ali. Ela ajeitou as pernas dele pra cima do sofá, ele resmungou, mas não acordou. Não demorou muito para que ele ressonasse baixo, ou ele estava muito cansado, ou tinha o sono pesado.
Ela pegou o controle remoto e começou a zapear os canais da televisão, como se aquela situação fosse totalmente natural. Ter Grego dormindo em seu colo, o cara que ela estava se apaixonando. Era normal, claro.
Ela só queria que ele estivesse confortável, mas sabia que aquela posição não favorecia.
Alguns instantes depois, a televisão não prendia mais sua atenção. Margot observava o rosto de Grego, ele parecia ter um sonho agitado. Às vezes resmungava algo ou seu corpo tremia por algum espasmo. Ela retirou o boné que ele usava e o colocou no outro lado do sofá.
Será que se ela o tocasse ele iria acordar?
Ela levou seus dedos para próximo do lado esquerdo do rosto de Grego e acarinhou sua pele com cuidado. Ela desenhou com a ponta dos dedos a cruz que ele tinha tatuado na têmpora. Ela sorria feito uma idiota quando tocou nos cabelos dele e se perdeu nos carinhos que lhe oferecia.
Com o tempo passando, Margot acabou sentindo suas pernas adormecerem. Ela se mexeu com delicadeza e saiu do apoio, deixando Grego deitado sozinho no sofá e o cobriu com o cobertor.
Ela sentia fome e vontade de comer brigadeiro, ela apagou as luzes da região da sala, deixando só a luz da televisão iluminando e foi até os armários da cozinha. Patrícia tinha feito as compras durante a semana, deveria ter leite condensado e chocolate em algum lugar.
Enquanto ela mexia o brigadeiro na panela, ela se sentia sem sono. Queria poder passar a noite toda assim, só velando o sono de Grego que parecia finalmente ter relaxado. Ela sentia que tinha acontecido algo com ele, porém ela iria saber na hora certa. Sabia que de alguma forma ele iria se abrir pra ela. Um dia, ele iria ser só ele mesmo com ela, não iria se esconder atrás de nenhuma máscara.
O brigadeiro começava a cheirar e ela cantarolava baixinho, alegre por ter conquistado Grego. Há semanas que ela não se sentia bem assim, talvez fosse obra do destino ter colocado um no caminho do outro.
Grego estava tendo um pesadelo forte, ele corria no meio de uma escuridão e, de alguma forma, ele encontrava Margot. Ela sorria pra ele, a barriga dela estava gigantesca e de repente uma saraivada de tiros a atingiam em cheio em todo o seu tronco. Ele gritou enquanto via o sangue escorrer pelo vestido branco que ela usava. Quando ele correu para segurá-la, seu corpo saltou no sofá.
Ele suava e ainda tentava se localizar. Sua cabeça doía levemente e ele estava coberto por sentia calor. As pernas estavam encolhidas e seu braço estava formigando por conta da posição fetal que ele estava dormindo. Um cheiro doce invadiu seus sentidos e ele se sentou no sofá. Estava no apartamento de Patrícia, na companhia de Margot.
Estava tão cansado que tinha acabado dormido durante o filme. Ele passou a mão na cabeça por conta da dor que sentia e depois focou seus olhos na moça que cantarolava próxima ao balcão da cozinha. Ela dançava uma música lenta e ele sorriu com aquilo. Ele não sabia nem falar português direito e ela entoava um inglês perfeito.
Com tudo que tinha acontecido, ele mal tinha parado para pensar que tinha realmente beijado Margot. E o quanto aquilo tinha mexido com ele, o quanto aqueles lábios tinham significado.
Ele se levantou do sofá e se aproximou sorrateiramente do balcão. Margot tirou a panela do fogo e se virou para apoia-la no balcão, soltando um grito ao ver Grego parado ali. Ele riu da reação dela.
_ ‘Cê é louco, Margot. Viu um fantasma? – ele ainda ria. E ela largou a panela no balcão, colocando a mão no peito sentindo o seu coração disparado.
_ Você quer me matar de susto? – ela respirou fundo e sorriu com a risada dele.
_ Tu ia comer essa parada sozinha e ia me deixar com fome, é isso memo? — ele observava o chocolate ainda quente.
_ Eu!? – ela se fingiu ofendida. – Eu não!
_ Ah, tá! Tu é a maior ramelona, hein?
Margot pegou duas colheres e os dois se sentaram à mesa, Grego perguntou sobre a vida dela. Ela viu ali uma oportunidade de se abrir pra ele e tentar arrancar algo da vida dele.
_ O que você quer saber? – ela lambeu a ponta da colher com o brigadeiro quente. – Ei... Segura aí, isso vai te dar dor de barriga...
Grego comia com vontade o doce, sujando o rosto quase todo.
_ Sei lá, tua vida, cara... Teus velhos... Sua vida, ué... – ele deu de ombros.
_ Meus velhos já morreram.
Gregório parou de mastigar e olhou para ela. Ela não parecia triste, porém era algo que eles tinham em comum. Ambos não tinham mais pais.
_ Os dois? – ele perguntou.
_ Sim, acidente de carro. – ela pegou mais um pouco de brigadeiro.
_ Aff, foi mal aí.
_ Foi nada, meu. Agora você vai ficar com frescura com essas coisas? Você pediu pra eu contar a minha vida... Algumas coisas eu já te contei aquele dia que você veio aqui...
_ Tô ligado, tô ligado... Eu sei como é essa parada, de não ter ninguém no mundo, certo? Só tenho a minha tia Paulucha e os primos agora.
_ É isso que você acha?
_ Quê? – ele olhava confuso para ela.
_ Que você só tem eles no mundo. – ela foi direta.
_ É, se pá. – ele fingiu que não entendeu a indireta.
_ O que aconteceu com você hoje? Desculpa perguntar, mas você parece tão cansado... Tão... sei lá...
A forma como ela o olhava o deixava sem graça, era como se ela enxergasse através de sua casca. Ela via sua alma, sua essência.
_ Roubaram uma coisa minha. – foi a explicação que ele achou.
_ Não tem como recuperar?
_ Não, mas quando eu descobrir quem foi, essa pessoa vai pagar. – ele falou em um tom mais grave e ela ainda o analisava. – Eu não quero falar disso, não, tá ligada? Tô de boa aqui contigo, não quero encher tua cabeça de groselha.
Os dois permaneceram em silêncio comendo, ela observava que a tensão tinha voltado para Grego e quase se arrependeu de ter perguntado qualquer coisa. Não queria forçar a barra, porém tinha medo de se envolver com ele e não o conhecê-lo de verdade. Apesar de que achar que conhece alguém não é um bom parâmetro para um relacionamento, conhecia Benjamin como a palma da mão e deu no que deu.
_ Eu senti sua falta hoje, Grego.
Margot sofria de sincericídio. Ela estava sendo verdadeira e se sentiu bem quando ele lhe sorriu.
_ É. – ele assentiu. — Eu também, nega.
Ela sorriu para ele e Grego sentiu o mundo se iluminar novamente. Mal sentia a dor de cabeça.
_ Já tá tarde pacas e eu tenho que ir embora. – ele largou a colher na mesa e se levantou, arrastando a cadeira.
_ Ah, é?
_ É. Já é quase duas horas da matina. Foi mal aí ter atrapalhado sua noite e tal. Ter dormido no seu sofá, foi mal aí, sério memo. – ele gesticulava enquanto tentava se explicar e ela sorriu divertida.
Gregório não queria embora de verdade, ele queria permanecer ali o resto do tempo. No fundo, queria permanecer a vida inteira naquela calmaria e paz que ela lhe causava. Com ela, ele não sentia o peso do mundo nas costas, nem estresse, nem tensão, nem medo ou paranoia. Ele só era o Gregório, e não, Grego.
_ Tô ligada que você tem que ir. – ela se levantou também, limpando os lábios sujos de chocolate com os dedos. – E eu tenho que dormir.
Ela também estava mentindo, não queria que ele fosse. Queria ele ali com ela, cuidando dela. Margot sentia que Grego era sua proteção, proteção do mundo que ela tanto se escondia. Ainda mais agora que carregava uma vida em seu ventre sentia-se mais desprotegida do que nunca.
_ Então, beleza. Boa noite aí. – ele segurou a mão dela e a apertou com firmeza. A mesma eletricidade que ambos tinham sentido na noite passada ultrapassaram seus nervos.
Foi com relutância que ele largou os dedos dela e foi até a porta.
Margot olhava para a panela na mesa e esperava ouvir o barulho da porta se fechando, mas ela tinha que tentar antes que ele fosse.
_ Grego? – ela chamou.
Grego ainda não tinha conseguido ir embora, seus dedos travados na maçaneta da porta, ele se virou ao ouvir a voz dela. Margot o encarava com aquele pijama ridículo e sem maquiagem alguma, porém parecia a mais linda das mulheres daquele jeito.
Ela observava os olhos castanhos com tom de verde de Grego.
_ Fica. – ela pediu quase em súplica. – Fica essa noite. – sua voz falhando no final.
Ela deu dois passos para frente. Sentia-se fraca por ter pedido isso a ele, porém não estava arrependida.
Grego soltou a maçaneta da porta e se aproximou dela. Era isso que seus ouvidos queriam ouvir. Ele a segurou pela cintura e seus lábios tomaram os dela. O gosto delicioso do chocolate impregnado naquele beijo. Ele queria mais do que um beijo, queria tê-la pra si. O corpo dela próximo ao seu era um oásis.
Enquanto suas línguas estavam juntas, Grego segurou nas pernas de Margot e a levantou. Ela se prendeu à cintura dele, ficando suspensa. Ela era realmente leve e ele iria conseguir subir as escadas com ela em seu colo.
Ele subiu os primeiros degraus com Margot lhe beijando o pescoço, era uma questão de foco e concentração. Ela não sabia o quanto o deixava maluco sentir seus lábios naquela área e suas unhas cravadas em sua nuca. Ele lutava para permanecer com os olhos abertos e terminar de subir a escada.
Ele ia tratá-la como uma deusa quando alcançassem o seu objetivo. Aquela paixão iria virar um ato consumado.
Fale com o autor