Grego sentiu aquela calma e paz sumir do seu peito no momento que chegou a Paraisópolis. Já era tarde e o Pata Choca deveria estar lotado e bombando, porém as portas estavam fechadas e um silêncio estranho tomava conta da quebrada.

Ele abriu o porta-luvas do carro, pegou a pistola ponto 38, a colocou na cintura e saiu do veículo. Havia luzes acesas no andar de cima do local e seu coração batia pesado no peito. Sua mão apertava o coldre da arma da cintura e ele deu três batidas na porta em um ritmo conhecido de seus parceiros.

Não demorou muito para que Bazunga abrisse a porta e deixasse Grego entrar. Ele estava aliviado por ver seus capangas bem, porém algo ainda estava errado.

_ Que porra que aconteceu, Bazunga? Por que o Pata Choca tá lacrado, mano? Hoje é sexta feira e isso aqui era pra tá bombando até o teto!

O capanga ponderou antes de responder, Gregório percebeu que ele tinha engolido em seco. Ele estava começando a ficar nervoso.

_ Que aconteceu, porra? Vai dizer não? Desembucha, joga a real! – Grego ordenou.

_ Encontram o Zeca com dois furo no peito na viela. Aquela viela sentido a boutique da Dália... – o capanga respondeu.

Grego sentiu a garganta fechar. Zeca era um de seus parceiros, ele ainda era menor de idade. Estava prestes há completar dezoito anos e servia o chefe de Paraisópolis em um de seus pontos de distribuição de drogas. O garoto era gente boa e ele o tinha visto crescer.

O que ele ia dizer à dona Selma? A mãe do menino que nem imaginava que ele tava metido com aquelas paradas. Ele sentia as mãos tremerem enquanto tentava encontrar um tom de voz firme para continuar.

_ Tiraram ele de lá?

_ Tiramo, tiramo. Ele tá aí em cima. – Bazunga apontou para o andar de cima. Grego respirou fundo.

_ Quem foi, tio?

_ Ninguém sabe, chefia. Ximena perguntou pra todo mundo lá, mas ninguém viu quem foi o mandante, só ouviram os pipoco.

_ Puta que pariu, velho... – ele suspirou. – Tava calmo demais pra ser verdade. Puta que pariu... – ele subiu as escadas.

Ximena estava com a arma em punho e levou um susto quando viu a sombra de Grego às suas costas. Ela vigiava o cadáver de Zeca que estava no chão coberto por um pano. No reflexo, ela apontou a arma para a cabeça dele.

_ Relaxa aí... – ele ergueu os braços. – Quem fez isso não vai voltar tão cedo, Ximena.

Ela relaxou ao vê-lo e abaixou a pistola, Grego encarava o corpo tampado e o pano manchado de sangue. Ela não se atreveu a dizer qualquer coisa, sabia o quanto Grego gostava do moleque. Ele era responsa, mas tinha ido para o caminho errado assim como eles.

_ Se eu pegar quem fez isso, cara... – ele gesticulou. Suas mãos tremiam.

Se tinha uma coisa que ele nunca tinha feito era ter matado alguém. Ele já tinha roubado e já tinha ido em cana, mas ele não tinha coragem de tirar a vida de uma pessoa. Para ele, a morte era algo sombrio que o rondava a todo tempo. Era questão de tempo para alguém cair morto ao seu lado.

Ter uma morte como à de Zeca pesando na sua consciência era o suficiente para deixa-lo maluco. Fazia tempos que ele não se sentia assim. Imponente. Vulnerável. Inútil.

Ele queria ter o poder de ressuscitar todos aqueles que já tinham morrido naquele esquema.

Ximena o deixou sozinho quando viu que faltava pouco para ele desabar. Ela ficou próxima à escada ainda de tocaia.

Grego sentiu os ombros tremerem com os soluços que subiam pela garganta, eles vinham fortes e travavam ainda mais a sua fala. As lágrimas que saiam de seus olhos formavam uma torrente, enquanto passava por sua cabeça todos os momentos alegres e divertidos com aquele jovem.

Ele se permitiu sentar-se no chão ao lado do corpo de Zeca e chorar. Chorar o mais baixo possível, segurando os gritos que vinham em sua garganta, porque ele não poderia demonstrar que era tão fraco.

Margot estava deitada em sua cama gigantesca e confortável, porém não conseguia dormir. Ainda estava agitada com o beijo que recebera de Grego. Seu corpo não conseguia relaxar nos lençóis. Já era madrugada alta e ela olhava para a escuridão do quarto. Ela agarrava o travesseiro de encontro ao peito e mordia o lábio inferior sem perceber.

Ela desejava Grego. Desejava de forma exagerada, era estranho sentir tanto tesão por alguém. Ainda mais ela. Ela que sempre era correta e centrada em seus relacionamentos, estava se deixando levar apenas pelo desejo. Pelo simples e obsceno desejo de ter o corpo dele junto ao seu.

O toque de Grego em sua pele a incendiou e ela não sabia como se esquecer daquela sensação.

A cama parecia ainda maior e mais vazia. Talvez fosse carência ou talvez fosse apenas a bendita (ou seria maldita?) alteração de hormônios.

Ela não percebeu, mas já era cedo quando ela conseguiu adormecer. Enquanto isso, Grego não tinha pregado o olho a madrugada inteira.

Tudo tinha sido preparado para o velório e o enterro de Zeca, ele e Ximena foram os portadores da notícia para Selma. Ela tinha perdido seu único filho homem e agora iria criar sozinha a filha mais nova. Afinal, com o dinheiro que ganhava Zeca ajudava em casa. Para ela, o filho trabalhava como entregador de encomendas da comunidade. Ela jamais saberia que tipos de encomendas eram essas e que fosse eternamente assim. Seu filho seria a lembrança do bom menino que sempre foi.

Discretamente, os capangas de Grego ainda faziam a segurança do velório do rapaz.

No final da tarde, eles acompanharam o enterro. Grego se vestia de preto enquanto sua comunidade chorava a perda de mais uma alma inocente perdida. Seus óculos escuros tentavam esconder suas olheiras de cansaço e pressão psicológica. Seu corpo ainda não descansado doía de tanta tensão. Tinha a paranoia como sua melhor amiga. Andava atento a qualquer movimento.

Margot esperava qualquer ligação de Grego durante o dia, coisa que não aconteceu. Ela estava preocupada com o que ele achava dela. Será que agora que ele tinha conseguido o que queria, iria continuar investindo nela? Ou ela tinha sido só mais uma em sua lista?

Ela passou o dia organizando os presentes que Maria já tinha ganhado de sua avó Isabelita. Margot nunca tinha tido um instinto maternal, mas estava amando cuidar de cada coisinha de sua filha. Porque era uma menina e ela tinha certeza disso.

Ao retornarem para o escritório era notável que a comunidade estava em luto. O comércio fechou cedo, os bares não abriram e não havia música alta para perturbar ninguém. Grego pagava a grana da semana para seus parceiros. Ximena foi a última a receber parte do montante e ela o observava.

_ Tô ligada que a morte do Zeca mexeu contigo, mas... – ela começou.

_ ‘Cê não tem noção. Mexeu, claro que mexeu, mas não quero falar disso não, tá ligada? Não é fácil... – ele olhava para a mesa.

_ Eu sei, cara, mas... Esse é o caminho que a gente escolheu. A vida é feita de escolhas e a gente fez a escolha errada. Não dá pra voltar atrás agora.

Ximena era cheia dessas de dar conselho. A morena pegou a grana e vazou.

Não dava mais para voltar atrás e consertar a merda que ele tinha feito com a sua vida?

Ele se lembrou de quando ouviu o coração do bebê de Margot bater e da angústia que sentiu ao ver o corpo morto de Zeca. Era um perfeito revés. A vida e a morte. A luz e a escuridão. Ele não sabia pra onde seguir.

Era sábado e Patrícia tinha saído com Lindomar, Benjamin não tinha ligado para saber dela ou do bebê e ela se sentia sozinha. Portanto, Margot vestia um pijama confortável às oito horas da noite e comia uma pipoca quentinha que tinha feito no microondas, enquanto assistia um filme mela-cueca de romance escroto. Enrolada em um cobertor quente, ela chorava com a cena que o mocinho tinha abandonado a mocinha.

A campainha tocou e depois de secar as lágrimas, ela se levantou e xingou o porteiro.

_ Vou ter que avisar o síndico desse prédio que o porteiro não trabalha. Quem é? – ela abriu a porta e deu de cara com Grego.

Ela ficou tão surpresa que era certeza que estava boquiaberta com a presença dele. Ele se vestia de preto e tirou os óculos escuros enquanto ela o observava.

_ Fala Margotê. – ele a cumprimentou com um aceno de cabeça.

Margot percebia o quanto o astral de Grego havia mudado, havia uma áurea estranha ao seu redor. Seus olhos estavam fundos e ela ia questionar se ele tinha entrado para algum elenco de um filme de zumbi, quando ele invadiu o espaço livre da porta.

_ Tem alguma coisa pra comer aí? – ele sentiu o cheiro da pipoca.

Ela fechou a porta e quando se virou, Grego já estava no sofá com o seu balde de pipocas nas mãos. Parecia faminto e cansado. Ela deu graças a Deus que Patrícia iria dormir fora aquela noite e voltou para o seu lugar no sofá.

Não parecia que eles tinham se beijado na noite anterior, Grego parecia não ter sentido aquela onda de emoção que ela tinha sentido. A amizade deles ainda estava no ponto morto, enquanto ela pensava que eles tinham seguido para a primeira marcha.

Grego sabia que ali era o seu refúgio, ele ia conseguir colocar a cabeça no lugar na presença da magrinha. Ele já sentia o corpo relaxar e agora ele sentia o quanto os músculos doíam. Ele tinha escondido a arma no caminho até o apartamento dela, ele jamais iria entrar naquele canto de paz com ela.

Ali, ele podia sentir a paranoia abandonar a sua cabeça, enquanto tentava se concentrar no filme bobinho que ela assistia. Ela não o questionou e ele estava bem por isso. Não queria se explicar. Parecia que os dois se entendiam no silêncio.

A risada dela causada por uma cena idiota do filme o fez rir.

E um ponto de luz surgia no meio daquela nuvem negra que era a sua vida.