Margot já estava pronta, ela andava pela sala procurando os seus documentos e quando os achou ao lado da televisão os colocou na bolsa. Alguém bateu a porta e ela revirou os olhos.

_ Esse porteiro nunca vai aprender a interfonar?

Ela correu até a porta e a abriu. Grego estava ali com os braços cruzados no peito e lhe deu um sorriso malicioso. Ela ainda iria descobrir como ele conseguia subir para o seu apartamento sem passar pelo porteiro.

_ Gregório. – ela o cumprimentou com um aceno de cabeça e um sorriso de canto.

_ Fala, Margot! Firmeza? – ele ainda sorria para ela.

_ Firmeza. – ela respondeu fazendo joinha com as duas mãos. – Eu já tô pronta, só falta a bolsa...

Margot voltou para próximo do sofá deixando Grego no batente da porta, ela pegou a bolsa Prada e apoiou a alça no ombro. Ela já estava atrasada. Quando retornou, ela fechou a porta e os dois foram aguardar o elevador.

Ela sentia o olhar dele e ela o olhou de volta.

_ Que foi? Tem alguma coisa errada? – ela o questionou.

_ Não, cara. Tu tá toda bonitinha hoje, hein, magrinha? – ele a mediu e ela riu.

_ Obrigada, Grego.

Ela se sentia tão ansiosa com a situação que não conseguia falar como sempre falava, nem conseguiu provoca-lo de volta. Ela apertava os dedos das mãos em nervosismo e ele reparou o quanto ela parecia estar bolada, porém respeitou aquele momento dela.

Os dois entraram no elevador e Margot não sabia se o frio na barriga era por conta da descida do equipamento ou de sua ansiedade.

_ ‘Cê tá legal? – ele perguntou e ela só assentiu. – Sei lá, tu tá estranha. É essa parada aí no médico, é? Fica sussa vai tá tudo bem com a coisinha... – ele gesticulou pra barriga dela e ela segurou o riso.

_ Espero que sim, Grego. Eu realmente espero que sim.

A porta do elevador abriu e Margot seguiu Grego, ela colocou os óculos escuros por causa da claridade do sol e ele seguiu andando até a portaria.

_ Eu vou chamar um táxi. – ela abriu a bolsa atrás do Iphone de última geração e ele riu.

_ Tá tirando? Aqui é responsa. Eu te dou um bonde até lá. – ela olhou pra ele com desconfiança. – Eu tô de carro.

Grego jamais iria levar uma mulher grávida na sua moto, ele era maluco, mas nem tanto. Margot o seguiu e assim que o porteiro abriu o portão para os dois, eles foram até o carro de Grego. Não era um carro tão caro, mas era de grande porte e ela se impressionou. Ele abriu a porta do passageiro pra ela.

_ Aqui. – ele acenou com a cabeça e Margot agradeceu ao entrar no veículo.

O médico de Margot era em Paraisópolis e mesmo depois de tantas visitas que já tinha feito à comunidade, agora ela a enxergava através dos olhos do “dono da quebrada”. O carro passou direto pelo bloqueio que sempre havia na entrada da favela, feito é claro pelos capangas dele.

Ela só observava tudo que passava por sua janela, enquanto ele cantarolava (errado) a letra de um rap que tocava baixo em seu rádio. Ela percebeu que algumas pessoas tinham medo de Gregório, não era só respeito. Era receio.

Quando ela desceu do carro em frente ao posto de saúde da comunidade, não teve uma pessoa sequer que não a olhou de cima a baixo. Tudo que acontecia com Grego era atrativo e ela já sabia, com todos os alertas de Patrícia e pior, todos os alertas de Benjamin.

Os dois aguardavam a vez dela em silêncio, enquanto Grego cumprimentava algumas pessoas que passava por eles. Algumas pessoas agradeciam um favor, outras falavam baixo para ela não ouvir o tema do assunto, e realmente, ela preferia não saber mesmo. Quando Tomás anunciou o seu nome ela suspirou aliviada e Grego fez questão de acompanhá-la.

_ Oi, Margot. – o médico Tomás a cumprimentou e em seguida, cumprimentou Grego e ela percebeu um clima hostil. – Olá, Grego. Você por aqui?

_ É, ele é meu acompanhante. – ela sorriu para tentar quebrar aquele clima pesado.

Margot se trocou em um banheiro, colocou o avental azul e se deitou na maca. Tomás ainda ajeitava o aparelho e Grego tinha sentado em um banco próximo a ela. Ela olhou pra ele, ela estava tão nervosa que tentava se acalmar olhando para seu rosto.

Ele piscou pra ela e ela sorriu. Sua expectativa era enorme. Era a primeira vez que ela iria ouvir os batimentos de seu bebê.

Tomás passou o gel na barriga exposta dela e assim que ele começou o exame, Margot encarou o monitor ao seu lado. Uma imagem preta e branca, um pontinho no meio daquilo. Um pontinho que era o sentido da sua de agora em diante. Ela sorriu e seus olhos encheram de lágrimas, ela suspirou aliviada ao ouvir do médico que estava tudo bem com a sua coisinha.

Ela ainda não ouvia nada, mas as lágrimas já escorriam por seu rosto.

Grego observava a emoção de Margot e não conseguiu expressar em palavras o que sentia ao participar daquele momento. Tudo parecia passar em câmera lenta em sua mente. O sorriso dela para o monitor e as lágrimas de emoção que caíam. Ele se questionava como seria ser pai quando o som de um coração batendo muito rápido invadiu o ambiente do quarto.

Margot suspirou e ela chorou um pouco. O som invadia os ouvidos dele e ele sentia certa compaixão por aquela coisinha. Era muito doido ver um ser humano crescendo dentro de uma mulher, o coração batia tão forte e tão rápido que ele já imaginava que aquela criança seria tão forte quanto à mãe. Ele estava tão concentrado olhando o monitor que não percebeu que seus olhos também encheram de lágrimas, ele piscou e as limpou rápido na manga da blusa.

Ele não tinha sido rápido o suficiente, Margot o tinha flagrado e ela lhe sorriu sincera. Os dois estavam compartilhando um momento muito forte e importante. Ela sentia que os dois tinham uma conexão a partir dali. Ela estendeu a mão para ele e primeiro, ele observou a mão estendida com admiração e depois a segurou. Margot a apertou com força e ele lhe sorriu emocionado.

Quem observasse do lado de fora iriam pensar que eram dois pais descobrindo o amor maior de ter um filho. Um casal apaixonado que teria um fruto de seu amor.

O exame terminou e Grego a levou para dar uma volta em Paraisópolis, e ao fim do passeio, os dois comeram um bolo delicioso de Paulucha. Gregório tinha falado pouco sobre si e sua vida, enquanto ela era um livro aberto. Ela já estava acostumada com o mistério que vivia a cerca dele, porém sempre queria saber mais. Um dia, ela conseguiria quebrar aquela barreira.

Os dois seguiram de volta para o condomínio onde Margot estava vivendo e Grego fez questão de deixa-la na porta.

Ela estava tão feliz por saber que seu filho ou filha estava bem que ela não se continha.

_ Certeza que é uma menina. Vai se chamar Maria e já estou até imaginando o quarto dela e... – Margot parou de falar para procurar a chave na bolsa e abriu a porta.

Quando ela voltou a olhar para ele, ele a encarava com a mesma intensidade que ela já tinha flagrado outras vezes.

_ Que foi? – ela sorriu sem graça.

_ Se for bonitinha que nem a mãe assim, tá valendo.

Ela sentiu o rosto queimar, porém sorriu pra ele. Ela era desinibida, não era possível que ele a deixava tão sem graça assim.

_ Obrigada pela companhia, pelo o dia de hoje... Foi incrível. – ela olhava nos olhos dele ainda com um sorriso no rosto.

Ela tinha mesmo se divertido, como há tempos não fazia, e ele foi uma ótima companhia. Mais do que ela imaginava.

_ Que é isso! ‘Cê tá ligada que não foi nada, né? – ele estendeu a mão para ela e ela a segurou com o mesmo aperto de mais cedo.

Ela conseguia sentir a conexão que os dois tinham naquele toque, o jeito que o seu coração descompassou enquanto segurava sua mão e a encarava daquela forma. Ela se pegou desviando de seu olhar para sua boca convidativa. Ela sentia o seu rosto queimar novamente e se sentiu sufocada pelo o que sentia por ele. Margot afrouxou o aperto de mão dos dois e o soltou.

_ Boa noite, Grego. – ela deu aceno com a cabeça e foi encostando a porta.

Ela percebeu pelo vão enquanto fechava que ele ainda permanecia parado ali e tomou um susto quando ele espalmou a mão na madeira da porta. Ela soltou a maçaneta e ele a abriu. Ela o olhava, confusa.

Grego estava decidido e não iria voltar atrás. Não iria passar outra noite sem imaginar como seria o gosto de seus lábios ou o seu corpo perto do dela. Tinha que descobrir se era melhor que nos seus sonhos. Ele sentia o sangue fervendo nas veias, enquanto ela sentiu a garganta secar.

Foi rápido e intenso. Grego segurou a sua mão e a puxou de encontro ao corpo dele. Uma mão dele foi parar em sua nuca e a outra em sua cintura, a prendendo ali. Seu rosto avançou de encontro ao dela e ela não teve tempo para ter qualquer reação. Ele tomou seus lábios a principio com força, mas depois do primeiro momento de surpresa, ela relaxou ao sentir os lábios dele roçando nos seus com delicadeza.

O cheiro dele grudando em seus sentidos e ela passou suas mãos por seus braços fortes e os agarrou. Seu coração parecia querer saltar do peito e ela se apoiava nos braços dele para não cair. A respiração dele contra a sua pele a deixava arrepiada e ela juntou seus lábios novamente devagar dessa vez. Quando a língua dele se encontrou com a dela foi como se o mundo tivesse parado ao redor deles, como se nada mais existisse, um silêncio absoluto reinou e uma calma que Grego nunca tinha sentido na vida lhe invadiu.

Era intenso, era um sentimento poderoso que ele não compreendia e não entendia. Os dedos dele da mão dele entrelaçaram nos cabelos longos e lisos dela, o cheiro único dela só o deixava mais maluco por ela. Suas línguas se encaixavam com perfeição e era bem melhor do qualquer sonho que ele já tivera. Sentir os dedos dela cravados na pele dos seus braços, ter seu corpo ali preso ao dele.

Margot só percebeu que precisava respirar quando ele afastou sua boca da sua, suas testas ainda estavam encostadas e a mão dele tinha largado seu cabelo. Ela ainda estava de olhos fechados desfrutando da sensação de ter um braço dele envolvendo sua cintura, seu corpo grudado no dele e o som de suas respirações descompassadas.

Ele desenhou o maxilar dela com o polegar e o toque de seus dedos em seu rosto a fizeram a abrir os olhos. Ele olhava para a boca dela, mas a olhou. Ela não precisou dizer nada, os olhos dele a encaravam de uma forma que a deixava excitada.

_ Boa noite. – ele sussurrou próximo a sua boca e com o mesmo movimento rápido que a tinha agarrado, ele a largou.

Grego voou pelo vão da porta e ela ficou parada ali, se questionando como tinha conseguido permanecer em pé sem o seu apoio e do jeito que se sentia. Ela ficou alguns segundos na mesma posição, levou os seus dedos pelos seus lábios e sorriu. Ela nunca tinha sido beijada com tanta paixão, pensava que cenas como aquela só existiam nos filmes e nas novelas. Ela caminhou até a porta e a fechou, se apoiando nela em seguida.

Grego estava dentro de seu carro tentando controlar os nervos de seu corpo. Era como se um tsunami tivesse passado por dentro dele. Ele encostou a cabeça no banco do carro, seus lábios ainda estavam inchados pelo beijo, ainda tinham gosto delicioso dela. Ele ainda sentia como se os dedos dela ainda apertassem o seu braço. Era um sentimento incontrolável. Ele tocou de leve seus lábios e sorriu.

Ele desejou que a quebrada estivesse em paz, pois seria difícil dormir aquela noite.