Última Transmissão

3 Capítulo II. Desespero


Notas iniciais
Primeiramente, devo agradecer aos comentários positivos que venho tendo, continuem assim, vocês me inspiram. Aqui vai mais um capítulo! ♥

Estávamos perdidos, feridos, fragilizados e principalmente desesperados. Típico não? As pessoas se lembram tanto das necessidades primitivas, "corra do predador" e esquecem por vezes do seu próprio corpo. Esse foi o caso com Dovie e eu. Perdidos após o incidente horrendo que fomos forçados a testemunhar, vagamos com os carros pelas avenidas que lotavam cada vez mais, um clássico clichê de apocalipse; estradas lotadas, brigas, caos, incêndios, com uma única diferença destacável, nenhuma agencia internacional do governo se manifestou. As ruas estavam caladas e ao mesmo tempo mais barulhentas do que nunca, cidadãos desarmados e despreparados sem nenhum tipo de apoio. E no nosso caso? Ainda pior. Nem se quer somos maiores de idade.

[...] Com o tempo o ferimento de Dovie cicatrizou, como era esperado, mas essa não era minha preocupação, tampouco a dela. Nós dois fomos espertos o suficiente para deduzir os efeitos da infecção, e solucionar os por quês de ela se propagar com uma velocidade tão espantosa. Utilizando uma expressão grosseira, o vírus passou de boca em boca. Por tanto, Dovie implorou para que eu portasse no mínimo um canivete, e eu? Bem, não foi preciso insistir muito, minha irmã ou não, o instinto de sobrevivência sempre prevalece.

Cruzamos uma esquina para tentar fugir do caos que se formava nos grandes subúrbios, entramos em uma especie de "bairro de luxo", daqueles que os moradores praticamente nunca vem, e ainda sim possuem casas com valores absurdamente altos, algumas com quase seis andares. Não fomos os primeiros, alguns outros já saqueavam as enormes casas, identifiquei dois deles, um ruivo alto, musculoso com uma tatuagem mal feita no braço — um ex presidiário, penso eu —, e uma garota baixinha, carregando um ursinho nos antebraços — uma criança.

—Para o carro, Pierr! Tem uma criança ali. — Exclamou ela enquanto estapeava meu braço, abusando da força, posso dizer.

—E também temos um marginal. Perder um carro, a vida, ou salvar uma criança? — Devo ter falado da boca pra fora, por que logo depois a culpa recaiu sob mim. Os olhares de Dovie não ajudaram, pelo contrario, trituraram e me fizeram engolir as palavras cruéis, desumanas, que proferi.

Ela só franziu a testa, cruzou os braços e desviou os olhos.

—Desculpe... Eu só estou um pouco chocado. — manobrei o carro lentamente até o calçamento da casa em que eles se encontravam, sem desligar o carro — Quer descer primeiro?

—Aham. Tenha cuidado. — Ela me beijou na testa, então içou a maçaneta e se colocou pra fora do carro, caminhando com a mesma postura educada e gentil de sempre, na direção da garotinha.

Já eu? Fiquei com os restos. Escondi o canivete na parte de trás da cintura, caminhando com a postura séria na direção do ruivo. Não tentei parecer ameaçador, pelas aparências, ele é o tipo de cara que não se assusta com nada. Foi então que nossos olhos se encontraram, e pela primeira vez eu me identifiquei com um estranho; era quase como ler sua expressão. Ele tinha o mesmo medo, o mesmo desespero.

Ele estendeu a mão, me cumprimentando. Eu me contentei em engolir em seco e forçar um sorriso, não foi exatamente os meus melhores começos.

—Meu nome é Carl, — se apresentou o ruivo — me chame como quiser.

—Pierr, o mesmo. — Assenti com a cabeça, observando-o de perto pela primeira vez. Ao fixar os olhos na sua cintura, percebi que ele carregava uma pistola calibre 38, por tanto, as chances de confronto estavam acabadas agora mesmo.

—Escuta... — continuei — Não precisamos ser inimigos, certo? Tem bastante espaço para nós dois.

—Inimigos? Que ideia! Somos agentes da mesma causa, sobrevivência. Como heróis de guerra. —Ele me deu um soquinho no ombro, sua força era notável, já que fui impactado levemente para trás, sem graça.

—Sabe, eu e minha irmã temos um carro. Pode ser útil. — Disse eu.

—Hu-hu. — assentiu ele negativamente — Carros estão fora de questão, as rodovias estão todas entupidas, logo as hordas chegarão, eles vão ser dilacerados.

—Mas... — Fui interrompido por Carl.

—Você já viu uma horda daqueles? São impossíveis de matar, presenciei uma com Katlyn, lentos, mais fatais. E além disso, basta uma mordida e exatamente quatro minutos para que você vire um deles. É assustador. — Rebateu ele, com um ânimo bizarro na voz.

De imediato olhei para Dovie, tentando deixá-la entender o sinal. Mas ela já havia se antecipado, as mangas da camisa longa escondiam o ferimento em seu braço, assim como os curativos improvisados. De longe pude vê-la piscando para mim, enquanto traçava uma conversa animada com a garotinha.

—Escuta, minha irmã precisa descansar. Ela tem a saúde frágil. Você tem algum lugar que eu possa... Você sabe, descansar. —Entonei um tom "pidão" a minha voz, tentando convencê-lo.

—Ah, sim. Essa casa aqui tem uma Queen Size lindíssima, e uma suíte inclusive. Já a geladeira não é tão boa, a não ser que vocês gostem de champagne e caviar. — Ele indicou uma casa de quatro andares com o dedo, sorrindo ao detalhá-la. Pela primeira vez, cogitei a possibilidade de não ser a primeira vez que ele saqueava aquelas casas, mantive o pensamento oculto.

—Então, podemos? — A porta já estava escancarada, por tanto não foi necessário o uso de chaves. Chamei Dovie comigo, estacionamos o carro na casa e entramos.

A princípio era bem mais luxuosa do que a nossa, ou de qualquer uma que eu já tenha presenciado. O chão era talhado inteiramente de mármore polido, e decorado com uma seção inteira de tapetes de pele de animais, desde ursos pardos até tigres albinos, guiando até uma sala ampla com um home theater e um projetor, quase um cinema em casa. Ao lado do hall, haviam portas enfileiradas em um U, todos quartos idênticos. Uma king-size, um guarda roupa vazio e um frigobar com vinho tinto, não sou um conhecedor, mas sei que no mínimo foram muito caros. Não nós demos o trabalho de ir mais além, mas o segundo andar continha uma jacuzzi, uma sacada de visão ampla, e, ao meu juz, os quartos da família. Todos com o tamanho de uma casa de uma família classe média, decorados espantosamente bem, cada um de sua maneira.

Decidimos ficar no quarto do pai, as paredes eram decoradas em preto e branco, com um carpete espesso abaixo de nossos pés. A cama possuía uma alavanca que permitia gira-la em 360° graus, alternando o campo de visão entre a lareira e uma televisão particular. Mais ao fundo da sala, perto do banheiro, possuíamos uma adega completa, como os mais diversos tipos de vinho, e alguns champagnes. E, ao lado, um frigobar com gelo, potes de caviar e taças em um balde, acima dele.

—Isso é tão bom! Eu quase me esqueceria de tudo. —Ela saltou pra cima da cama de casal, esfregando o braço machucado.

—Deixa eu ver isso. —Sentei-me gentilmente ao seu lado, removendo sua blusa para ter um melhor acesso da visão de seu ferimento. Foi uma surpresa. A marca profunda de mordidas agora se resumia apenas a uma marca roxa, como popularmente dito, marcas de sexo. Arqueei uma sobrancelha e então ri, debochando.

—Viu? Eu disse que era só frescura sua. —Voltei a descer sua camisa, esboçando um enorme sorriso.

—Não, seu idiota! Era bem mais profundo. Ninguém se recupera tão rápido. Continue de olho em mim, prometa. —Ela enlaçou meus pulsos com firmeza, transmitindo sua preocupação.

—Prometo. Mas não estrague o clima, vá tomar um banho, eu tive uma ideia.

Dovie assentiu com um sorriso meia boca, se dirigindo até o banheiro da suíte, me deixando livre, sozinho. De imediato, saltei pro outro lado da cama e abri o frigobar, removendo dois frascos com caviar e duas taças. Saltitei pra fora da cama, até a adega, e subtraí um champagne francês, aparentemente dos bons. Recheei o balde acima do freezer com gelo, guardando a garrafa por lá. Pelo visto, foi mais rápido do que eu esperava, por que ela começava a ligar o chuveiro agora.

Me movi na pontinha dos pés até a porta do banheiro e me curvei contra ela, encaixando os olhos no buraco da fechadura. Ai meu deus, o que eu estava fazendo? Admito, sempre nutri uma paixão por minha irmã. Mas aquilo... Aquilo era doentio! Ainda sim seu corpo era lindo, me estimulava. Eu teria continuado lá, mas fui interrompido por um barulho na televisão.

Uma tela branca, com letreiros em preto, simples, fácil de entender. Havia uma voz no fundo, aparentemente repedindo a mesma coisa, porém cada vez mais alto. Talvez um erro de transmissão.

EMERGÊNCIA, NÃO DEIXEM SUAS CASAS

A voz ao fundo finalmente se tornou audível, e ditava com clareza: "Mortos não permanecem mortos, vivos não permanecem vivos. Esta é a nossa última transmissão: lutem". A principio pensei em ignorá-la, mas aos poucos o arrependimento chegou. O quê a voz ditava antes disso? Quais eram as instruções? Teria eu perdido a última transmissão? Espero que não, pois assim que a TV se silenciou eu ouvi um grito, era Katlyn, a garotinha.

Notas finais
Peço desculpas por não conseguir abordar os temas mais interessantes, só não quis deixar o capítulo cansativo. Espero que gostem, e caso sim, deixem o seu review. Beijos e abraços, Diego ♥