Última Transmissão
2 Capítulo I. O Alvorecer do Apocalipse
Notas iniciais
A brisa gélida da janela aberta me acordou alguns segundos antes do despertador, por tanto decidi continuar acordado, apenas fechando-a. Abri a gaveta do criado mudo e conferi meu aparelho celular, vazio, nenhuma mensagem. Em seguida, me coloquei de pé e caminhei no assolho rangente de madeira, descendo as escadas até o pavilhão de entrada, que dava acesso a cozinha. Finalmente lá, busquei um copo d' água e aguardei com o corpo escorado nas divisórias de mármore, ouvindo de lá de cima minha irmã repetir meus gestos, atrasada por alguns minutos.
De cara, minha primeira reação foi surpresa, ao reparar que seu cabelo se encontrava em um estado incrivelmente bom, além do rosto estar incrivelmente relaxado, diferente de mim, posso dizer. Acenei com a cabeça e postei o copo de vidro na pia, cruzando seu caminho na direção dos banheiros. Não estranhe, geralmente somos assim, frios.
Finalmente, me desvencilhei de todas as roupas, penteando o cabelo com os dedos, enquanto olhava o espelho, e, então, quando finalmente pus meus dedos no registro do chuveiro ouvi algumas batidas lá fora, acompanhadas pelos gritos da minha irmã.
—Pierr, você precisa ver isso! -gritou, intercalando com as batidas violentas na porta — Está passando no noticiário!
—Hã? Não dá pra esperar? — respondi — Estou meio ocupado aqui.
—Ahh, vamos lá! Seu jogo de mãos pode esperar, agora corre! — Pude ouvir uma última batida, e por fim, seus passos se distanciando. Imaginei ser um assunto urgente, então me contentei em bufar e vestir novamente as minhas roupas, recuando o corpo novamente até o saguão, aonde se encontrava a única TV da casa, uma setenta e duas polegadas. Joguei o corpo no sofá, ao lado de Dovie, e, então, indaguei:
—E então? Cadê a urgência? — Fixando os olhos na TV, percebi algumas noticias de canibais que atacaram pessoas em uma estrada, uma das avenidas que dava acesso a escola de Dovie estava barrada pela tropa de choque, impedindo o avanço da imprensa.
—Você não viu? É a rodovia da minha escola, e além disso, são zombies! — Disse ela em um tom exasperado, visivelmente animada.
—Tá legal, zombies? Você pirou de vez, senhorita Dovie. Vou te recomendar alguns psiquiatras. -Retruquei com rispidez.
—É, você realmente não herdou a inteligencia do papai, Pierr. Preciso traduzir? Eu quero que a gente vá lá, podemos evitar um dia de aula. Se não houver ninguém em casa eles não vão poder entrar — Ela deu uma pausa para respirar, apesar de seu rosto já adquirir um certo rubor.
—Hm, agora sim, falou minha língua. Você não conta pro papai, e, em troca eu te levo lá. —Pude reparar o semblante triste de Dovie assim que citei nosso pai desaparecido, sem dúvidas uma indelicadeza.
—Desculp... -Fui interrompido por Dovie.
—Sim, sim! Mas vamos pra lá agora, quem sabe não temos a chance de ainda pegar um ângulo bom? — Ela agarrou sua bolsa, agarrou meus braços, e, literalmente me arrastou até saída. Me deixei ser guiado apesar de trajar apenas os pijamas, um dia perdido de aula era suficientemente alegrante.
Repuxei um pequeno molho de chaves e pulei pra dentro do meu próprio carro, sim, eu tenho um carro, já tenho dezessete anos. E aliás, Dovie tem dezesseis, mas ainda sim não aprendeu a dirigir, sabe como é né? Encaixei a chave no carro no painel do Maserati Quattroporti, e pisei na embreagem, dando partida no carro. Pisei fundo no acelerador logo em seguida, diminuindo apenas para passar pelo porteiro do condomínio, quem nem se quer se deu ao trabalho de perguntar nosso caminho.
Tentei ligar o rádio, mas só ouvi alguns chiados, devo tê-lo quebrando sem perceber. Ainda sim, Dovie observava a passagem, indagada, até que nem tão longe, nem tão perto, encontramos a tão sonhada rodovia, ainda amontoada de repórteres. Minha irmã, com seu chame, deu um jeito de abrir passagem por todos eles, tomando a frente na fita policial que interrompia o avanço da imprensa, e, assim, ambos ganhamos um belo ângulo da balbúrdia no local. Haviam no mínimo nove ambulâncias espalhadas pelo local, e todas elas socorriam o máximo de pacientes, ou seja, três. Os policias se juntavam aos montes, todos munidos por pistolas 9mm, apontando para os corpos mortos, como se tivessem medo de que eles se reergue-sem.
Dovie apertou meu pulso e abraçou meu ombro, pude sentir o medo na sua voz assim que ela sussurrou.
—Acho que são zombies de verdade, você não está vendo? — Disse ela.
—Érr, eu permaneço acreditando na teoria de que são canibais. E aliás, que perigo né? Vivendo assim perto da nossa casa. —Retruquei, cético.
—Não se faça de bobo, você sabe que... —Ela foi interrompida pelo barulho de uma bala. No canto dos olhos, pude ver o policial acertar o saco que guardava um dos corpos mortos, e, pela primeira vez, as teorias vieram em sequência na minha cabeça.
—Se afastem, todos! —Gritou o policial que atirou, apontando a pistola para nós dois.
—Vamos, Dovie! —Fisguei seu pulso e me preparei para arrastá-la até o carro, mas fui repreendido com um grito. Virei os olhos para conferir seu corpo, e vi que um dos corpos, visivelmente alterado com manchas negras nos olhos, havia mordido seu braço.
—Ahhh, isso me mordeu! —Novamente, um barulho de bala interrompeu nos meus ouvidos, dessa vez acertando a cabeça da criatura que havia mordido Dovie. Outras dessas criaturas se reerguiam das ambulâncias, repetindo as mordidas nos enfermeiros.
Eu não podia hesitar, então apenas arrastei Dovie pela multidão e corria e gritava, exasperada. Por sinal, as criaturas aparentemente eram atraídas pelo som, já que ao olhar para trás pude ver que o pequeno exército de doze delas já se aproximava, os policiais, se encontravam na maioria mortos, mas aquele, o que salvou minha irmã, ainda resistia aos tiros nas criaturas, derrubando-as em sequência. Fechei os olhos e torci por ele, ainda tentando abrir caminho pelos repórteres, que dessa vez, decidiram não abrir passagem de jeito nenhum.
Uma das criaturas se aproximou de mais. Afastei-a com um chute no abdômen, derrubando seu corpo no chão, para ganhar tempo até o carro. Para minha surpresa, uma outra tomou seu lugar, agarrando meu braço. Segurei seus cabelos secos na mão direita, era uma mulher, e tentei evitar que ela me mordesse, com extremas dificuldades. Outros deles se aproximavam a minha volta, então apenas puxei meu braço com força, deixando o dente da criatura lascar de leve na minha pele, causando um pequeno sangramento. Já estávamos perto do carro, e, Dovie, já havia o aberto por mim.
Assumi o volante as pressas, acelerando o carro de imediato. Pelo retrovisor, pude ver fileiras de repórteres que não tiveram a mesma sorte que eu, alguns eram devorados, outros batiam suas vans contra outras, na pressa. E, é claro, alguns outros conseguam sobreviver. Lentamente um exército das criaturas se formava lá atrás, mas eu ainda ouvia os disparos do policial que salvara a vida de Dovie. Ela, por sua vez, chorava em meu ombro, estancando o sangramento profundo em seu braço coma as mãos. Ela murmurava algo sobre infecções, mas ainda sim não pude parar. Viajei pela primeira vez na minha vida sem um destino, definitivamente, não voltaríamos para casa.
Fale com o autor