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9 O Peso de Tanto Sereno
Notas iniciais
— Tu assustaste-te? — perguntou rindo
— Não, tu que me assustaste-mes. — respondi conjugando o verbo como ela, claro.
— És hilária. Estava já a ficar com saudades de ti. Eu e mana. — disse me abraçando. Jesus! Ela tava com saudade de mim! Nós eramos amiguíssimas, eu ela e a mana.
Rapidamente, uma mulher e outra jovem aparecem na porta do quarto no final corredor perguntando o que houve, e a que me assustou falou rindo "Mamãe, não vás acreditar! Assustei Ciça!".
— Ciça! Não acredito que deixaste levar pelas brincadeiras de Bebel — falou a outra jovem rindo e me abraçando forte — Que saudade!
Eu não sabia o que fazer, estava tremula e muda. Sabia que a qualquer momento eu poderia ter uma tontura de novo e voltar pro futuro, mas eu não queria isso de jeito nenhum. Leopoldina era linda, bem mais que os retratos e pinturas, parecia mais com o pai. Já Isabel, lembrava mais a mãe.

Princesa Leopoldina, D. Pedro ll, D. Teresa Cristina e Princesa Isabel. 1863 ou 1864.
Teresa Cristina era calma e melancólica. Já as meninas eram muito legais, eram doces e gentis, muito educadas por sinal. Ficamos conversando por horas nós quatro, eu me sentia mal por estar ali e saber exatamente tudo o que iria acontecer na vida de cada um, mas é claro não contei. Em 1863, ambas já estavam de casamento arranjado, e no ano seguinte iriam se casar. Eu só não entendia algumas coisas que elas falavam, eu nem prestava atenção, eu estava paralisada.
Era incrível estar no museu e poder tocar nas coisas sem ser presa ou algo do tipo, ele era ainda mais bonito naquela época, era tudo muito luxuoso. Só a sala de música dava nosso apartamento no Grajaú. As meninas só falavam de como estava o Rio e de seus noivos.
Vieram nos avisar que a comida já estava pronta. Eu não consegui levantar com aquele vestido, fiquei agarrada. Eu só conseguia rir, pois as três vieram me ajudar a levantar. Isabel e Teresa foram à frente, e Leopoldina ficou para me ajudar a arrumar o vestido, era um amor de pessoa. Nem parecia uma princesa imperial, pena que ficaria às sombras da irmã por a mesma ter assinado a Lei Áurea. Mas Isabel também era um amor, estava com 17 anos e se escondeu para me assustar.
Ao passar da porta da sala de jantar, minha vista escureceu e eu cai. Eu me desesperei e comecei a gritar, eu não queria voltar de jeito nenhum. Justamente agora que estava realizando um dos meus sonhos, conhecer Dom Pedro ll! E então perdi todos os meus sentidos.
Acordei deitada no chão. No chão da sala de jantar, exatamente onde tinha caído. Mas dessa vez quem estava lá era um segurança, onde eu estava era proibido para visitantes. A partir daquele momento eu comecei a cansar disso, eu estava ficando desgastada. Eu não podia mais ir a algum lugar que eu corria o risco de ficar tonta e voltar a uma época diferente, e depois acordar e todos acharem que eu estou doente ou só sou idiota.
Fomos pra casa, e eu estava mal. Só sabia chorar a viagem inteira, desejava que aquilo nunca teria acontecido. Se eu pudesse voltar no tempo e... se eu pudesse escolher não ir a Paquetá, eu não iria! Meus pais estavam preocupados, acharam que era TPM. Eles não acreditariam em mim, ninguém acreditaria. E se acreditasse, não entenderia. Trouxe dessa viagem comigo as meias que usei com a tal sapatilha, as guardei junto com o colar e a gravata.
Alguns dias depois, já tinha voltado às aulas, e numa aula eu estava distraída, pensando em sei lá o que. De repente entra na sala Ângela, aquela amiga de minha irmã dos anos 40. Parecia desesperada e triste. Meu coração gelou e eu não sabia como agir.
— Fernanda, até que enfim te achei! Não sabe o quanto sentimos sua falta, sua mãe e Emília estão desoladas. Você precisa voltar! — falou entrando na sala, como se não visse os outros alunos.
— Como assim, do que você tá falando? — perguntei. Agora quem viajava no tempo eram eles? — Como você veio até aqui?
— Do que você está falando Fernanda, sou eu a Ângela. Você precisa voltar por favor, vem comigo, por favor! — disse chorando, me puxando pelo braço tão forte que me machucou e me fez tropeçar em uma cadeira e cair, na frente da turma.
Eles riram, gargalharam. Quando levantei o rosto, não vi mais Ângela, vi o professor me expulsando da aula. Chamaram minha mãe, que foi me buscar. Eu não estava em condições de continuar ali, estava em estado de choque, só queria e sabia chorar. Meu Deus, eu não aguentava mais aquilo, já tinha passado do limite.
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