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10 Eu Tenho a Resposta: Eu Sou a Resposta
Notas iniciais
Num outro dia, estava na casa dos amigos dos meus pais. Estávamos num churrasco, de tarde, com mais algumas pessoas. Estava sentada ao lado de minha mãe que estava distraída conversando com umas amigas sobre como a carne de porco tinha matado uma conhecida de uma conhecida dela. Tinham várias pessoas conversando, dançando e comendo. Eu estava distraída, observando o movimento quando algo me chamou atenção na entrada da área onde estávamos, juro que vi Antônia parada me olhando fixamente. Meu coração gelou e todos os pelos do meu corpo se arrepiaram. Ela veio até mim com passos rápidos e disse:
— Menina, já está na hora do casamento! Inácio já está esperando, sua mãe está furiosa! Estão todos procurando você!
Fingi que não a via nem ouvia, eu estava em público. Talvez assim ela iria embora.
— Não está me ouvindo? Ande logo! Venha rápido, Iara! — disse me puxando pelo braço, me levantando da cadeira e me levando embora, com extrema violência.
— Me solta, eu não vou! — gritei. E então, como passe de mágica ela se desfez no ar. Olhei ao redor e todos estavam parados, me olhavam assustados. Minha mãe me puxou e me levou para o carro, disse que ia embora, nem se despediu de ninguém. Na semana seguinte, ela e meu pai me levaram a um psicólogo.
Isso me deixou furiosa, como podiam achar que eu estava maluca? Eles nem sabiam o que estava acontecendo, nem se preocuparam em me perguntar. Fiquei algumas horas conversando com a psicóloga e logo fui liberada. Lógico que não contei nada a ela.
Naquela noite eu tive um sonho, o mais estranho e curioso de todos: No sonho, eu estava dormindo e acordava na madrugada numa casa estranha. Eu sabia que estava sozinha na casa, que era grande e vazia. Não tinha luz, a unica iluminação vinha da Lua. Peguei uma lanterna do lado do colchão no chão onde eu estava dormindo e desci uma escada em espiral. A casa estava sem um móvel se quer. De repente eu ouço um barulho como um zumbido, como uma televisão antiga ligada no mudo. Fui à cozinha e havia uma mesa com um pano bordado. Fui à sala e havia uma televisão no chão, ligada na tomada, que iluminava o lugar. A sala era toda de azuleijo branco, me lembrava um necrotério apesar de nunca ter ido em um. A TV que antes estava sem sinal, agora estava passando um programa de auditório do Silvio Santos, mas a imagem estava ruim e sem som, parecia ser nos anos 80. Deixei a laterna ligada no chão, e a sombra que a televisão projetava na parede me aconchegava o coração. O clima era obscuro, eu me sentia esquecida e solitária. O silêncio era ensurdecedor. Sai para a frente da casa, e o chão era todo de azuleijo português vermelho. Tinham algumas plantas em vasos. Sai no portão, o bairro era calmo e silêncioso, as casas eram antigas, arriscaria dizer que foram construidas nos anos 50 ou 60. Andei um pouco pela rua e então acordei.
Uma semana depois, estava dormindo à tarde e acordei com uma sensação estranha. Abri os olhos e vi minha "mãe" dos anos 40 sentada na ponta da minha cama. Estava chorando com as mãos no rosto, me pedindo para voltar com ela. Ficou lá poucos segundos e depois desapareceu ali, na minha frente.
Notei que minha mãe de verdade andava bem abatida, meus pais brigavam direto e eu sentia que era por minha causa. Num dia, cheguei da escola e vi minha mãe lendo meu diário de viagens. Aquilo me ferveu o sangue, ela não tinha nenhum direito de mexer nas minhas coisas! Eu fiquei desesperada, não sabia o que responder. Falei que era um livro que estava escrevendo, um trabalho da escola. Não sei se ela acreditou muito.
Minha mãe me levou mais algumas vezes a consultas com um psicólogo, e também me levou para fazer exames. Eu não estava disposta a viver daquele jeito, não queria pensar na hipótese de que estariam achando que eu era louca. Eu estava imensamente triste, não sabia o que fazer, nem o que pensar, estava afogada de novo nos pensamentos de minha mente obscura.
A uns 5 meses, eu estava no meu quarto. E então Emília, minha irmã dos anos 40 e Miguel, meu irmão de 1883 apareceram para mim juntos me chamando de volta. Perguntei como eu poderia voltar e acabar com isso de uma vez e eles diziam que era só eu ir com eles. Eu estava cansada, esgotada, estressada, angustiada. Meu nome não era Iara nem Fernanda, nem Cecília nem nada disso. Meu nome era Maju, Maria Julia! Eu implorava para me deixarem em paz e eles ficavam ali repetindo as mesmas coisas, eu comecei a ficar nervosa. Minha cabeça estava a ponto de explodir, e então eu gritei. Gritei para que calassem a boca, para que aquilo acabassem e eles sumissem.
Minha mãe entrou no quarto chorando, pedindo para eu parar. Ela tinha escutado tudo e achou que eu estava falando sozinha. Perguntou o que estava acontecendo comigo, e eu contei tudo. Contei tudo o que tinha vivido durante o ultimo ano. Eu supliquei pra que acreditasse em mim, e ela só chorava.
— Você não tá acreditando em mim não é? — gritei chorando, desesperada — Mãe, eu posso provar, por favor! — Lembrei da caixa de sapatos embaixo da cama, então a peguei — De cada viagem que eu fiz, trouxe algo. Tá tudo aqui dentro, olha só! — entreguei a caixa a ela.
Ela pegou a caixa, abriu e se derreteu em lágrimas.
— Viu só?
— Maria, minha filha. Não tem nada aqui!
— Como assim não tem nada? Não pode ser — peguei a caixa, e a mesma estava vazia — Você pegou! Você pegou tudo que tava aqui e escondeu por que você só pensa em você e quer que eu fique como a louca da história, mas o que acontece é que você não sabe ser mãe!
Ela saiu e foi ligar para alguém. Eu estava com tanto ódio, eu precisava achar aquilo para provar a ela que eu não estava mentindo, que era tudo real. Revirei todo meu quarto, tirei as roupas das gavetas e do guarda-roupa, tirei o colchão da cama e a arrastei pelo quarto. Fui para o banheiro. Revirei tudo, joguei os potes e tudo de dentro do gabinete no chão. Fui ao quarto dela, revirei o guarda roupa e o banheiro e não achei absolutamente nada!
Eu estava tão desesperada e com raiva que sem pensar eu comecei a quebrar tudo que encontrava pela frente. Perfumes, cosméticos, maquiagem. Joguei as roupas dela e as do meu pai no chão. Eu estava fora de mim, havia perdido o controle. Depois de algum tempo, quando eu já havia me cansado e estava chorando sentada no quarto no meio de todo aquele caos, 3 pessoas entraram no quarto. Estavam de branco e tentaram um contato amigável:
— Oi Maria, a gente veio aqui para te ajudar. Vem com a gente!
Eles me pareciam a melhor e única opção naquele momento, então eu me entreguei. Quando peguei na mão de um deles, um outro deixou a mostra uma seringa. Eu me desesperei e comecei a gritar e relutar, mas eles eram três, e me espetaram aquilo na veia e eu adormeci.
Acordei numa cama de hospital, meus pais estavam nas poltronas do lado da cama. Perguntei o que tinha acontecido e disseram que eu havia desmaiado. E só. Minha cabeça doía demais, eu me sentia fraca e vazia. A partir do momento em que me deram alta, eu não fui mais a escola por alguns meses e hoje tomo alguns remédios tão fortes que me dão muitas dores. Também me levam a uma clínica para sessões de terapia de apoio, o que anda me ajudando em relação a minha pouca vontade de viver. Também nunca mais voltei no tempo.
A propósito, o sonho que eu tive a alguns meses atrás me gerou certa curiosidade: "eu estava andando em uma rua de paralelepípedos, ela era linda e arborizada. E de repente parei e observei a rua. À minha esquerda, havia uma casa com um muro bem alto com cerca elétrica de um lado da calçada de outra rua que se encontrava com a que eu estava, e do outro lado uma casa antiga, muito bonita e grande que ficava nessa esquina, haviam muitas árvores que quase a escondiam, parecia abandonada e tinha um portão e grades antigos, de ferro. À minha direita, o mar. Era calmo e sem ondas, com alguns barquinhos ancorados". Na rua da clínica onde eu me trato tem uma casa com um muro grande com cerca elétrica e uma casa abandonada com portão e grades de ferro, antigas e enferrujadas, exatamente como no sonho. Na lógica então, o mar calmo e sem ondas seria a clínica.
Um dia ouvi minha mãe conversando com minha vó por telefone, ela disse que 'no exame constava um tipo de "Esquizofrenia"'. Desde então eu vivo assim. Eu sei que tudo o que eu vivi foi real para mim, mas não sei se é algo real para as outras pessoas. Essas são minhas verdades, essa sou eu.
"Pra não sentir, faço um foguete subir.
Banco o faqui, tomo um saquê."
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