(we) - Winter
2 Primeiro dia
Notas iniciais
Desculpe por isso, mas eu "disse" que tentaria fazer disso algo que não parecesse um devaneio.
Estava tão ansioso que beirava a náusea.
A cada 5 segundos meus olhos se desviavam para o relógio na parede. Não conseguia me concentrar em nada. Faltavam três horas para o sol nascer, mas já estava pronto.
Cerrei uma das mãos, deixando as unhas machucarem minha pele. Um minuto a menos.
Respirei fundo, tentando me acalmar. Não tinha motivo para estar tão assustado.
Dali a 4 horas e 59 minutos estaria em uma sala cheia de desconhecidos curiosos.
Pessoas normais com problemas normais Completamente diferentes de mim.
Eu, Antero West, 15 anos, um garoto que não sabe seu peso ou sua altura, mas sempre é menor do que os outros garotos (e até algumas garotas) da sua idade, com um cabelo escuro e que insiste em cair sobre os olhos frios e cinzentos. Capaz de descrever corretamente a personalidade e os problemas de qualquer desconhecido depois de uma conversa casual. Incapaz de se afeiçoar a qualquer um.
Me levantei abruptamente e chequei novamente meus materiais. Isso me distraiu por um tempo, mas logo a ansiedade voltou.
Aquela sensação insuportável parecia cada vez mais sólida. Não havia como fugir da minha própria mente.
Repreendi a mim mesmo mentalmente. Estava pensando demais.
Por outro lado, não havia nada mais em que pudesse pensar. Minha vida era vazia, sem motivação e eu me esquecia de cada detalhe com facilidade. Não me lembrava de quase nada sobre o dia anterior ou mesmo sobre o resto deles. Como se não pertencesse à minha própria vida.
Estava quase na hora. O relógio era silencioso, mas eu podia ouvir os tortuosos segundos se arrastando em minha mente.
Encaixei desatento a mochila em meus ombros e passei pela porta sempre aberta de meu quarto. Desci as escadas sem pressa. Provavelmente estava pálido.
Não queria comer nada, falar nada, nem ver ninguém. Apenas queria me livrar da ansiedade o mais rápido possível. Mais 10 minutos e alguém estaria aqui. Deixaria de estar sozinho e poderia me acalmar... 10 minutos.
Assim que ouvi os passos comecei a em sentir estúpido. Como podia me preocupar tanto por nada?
— Bom dia. — cumprimentou Abel, meu gêmeo mais velho e fisicamente idêntico a mim, exceto pelos olhos, antes mesmo de me ver.
— Bom dia. — respondi. Não estava surpreso que ele soubesse que eu estaria ali, como em todas as manhãs.
Aproximando-se de mim, ele deu um sorriso bobo.
— Desculpe por te fazer esperar. — disse, à guiza de explicações, passando à minha frente.
Sentado na minha cadeira, copiando o conteúdo da lousa sem prestar real atenção, o mundo parecia bem menos assustador. Eu era grato pelo professor que exigia total atenção dos outros alunos, impedindo meus companheiros de classe de continuar com suas perguntas e sorrisos simpáticos e me permitindo me perder em devaneios.
Odeio pessoas simpáticas. Elas sempre acham que estão me fazendo um favor, nunca entendem que não quero a atenção delas, que estar isolado é minha escolha pessoal. Mas, principalmente, odeio seus sorrisos, suas tentativas de disfarçar o incômodo quando percebem que não consigo nem mesmo forçar um sorriso de volta, sua fragilidade, e — em alguns casos — sua gentileza forjada pela dor.
Não parecia ter ninguém que valesse a pena na minha sala, à primeira vista.
As aulas, o intervalo, e o tempo que esperei do lado de fora esperando por Abel desapareceram rapidamente da minha memória enquanto caminhávamos juntos para casa.
Estávamos falando sobre o tempo. Podia sentir as batidas do meu coração. Estava me apressando para acompanhá-lo. Senti alguns pingos de chuva, e então minha visão escureceu aos poucos.
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