Notas iniciais
... Bom, é isso

À deriva na escuridão, minha respiração era audível e inconstante. Não tinha controle sobre meu corpo. Estava perdido e em pânico. Ouvi um grito estridente. Talvez tenha sido meu.
Alguém sibilou e senti um agarre me meu pulso esquerdo.
Tentei olhar em volta, mas ainda não conseguia me mover. Alguém chamava meu nome ao longe.

Acordei em uma posição estranha. Estava encarando alguma coisa branca e demorei alguns segundos para perceber que era o teto da minha sala de estar. Estava no sofá cor de caramelo que nunca era usado. Perdi mais algum tempo pensando, tentando me lembrar do que tinha acontecido antes de me levantar.
Apesar do ambiente iluminado, havia uma porta aberta para um corredor escuro. Já era noite? Virei-me na direção da parede procurando por um relógio.
O sol devia estar se pondo àquela hora.
Suspirei, tentando pensar em um plano para passar pelo corredor que dava acesso às escadas.
Desde pequeno, sempre tive sonhos estranhos que me deixavam assustado. O elemento principal desses sonhos é sempre o escuro, e assim arrumei uma nictofobia, o que me impede de dormir durante a noite e acabei desenvolvendo — ta-dá! - narcolepsia. Não consegui me livrar dos sonhos, e ainda tenho que lidar com as consequências.
Mas Abel sabia disso. Ele não me deixaria sem saída de propósito. Com esse pensamento, voltei ao sofá. Ele viria.
A não ser que tivesse saído com alguém e perdido a hora de voltar. Não seria a primeira vez. Ele é o mais sociável de nós, apesar de tudo.
Com um pouco mais de atenção, percebi que não usava mais o uniforme da nossa escola, e minha mochila também não estava por perto.
Não tinha certeza, mas talvez a roupa que eu estava usando fosse de Abel. Senti meu rosto esquentar.
— Por que seu rosto está vermelho? — e lá estava ele, com seu sorriso bobo e simples que parecia diminuir qualquer problema no mundo.
Apesar de nossas diferenças, uma coisa que tínhamos em comum era o andar silencioso.
Que oportuno!
— Está com febre? — se aproximou de mim, ignorando minha falta de resposta, e se inclinou, tocando minha testa e afastando o cabelo que cobria parcialmente meus olhos — Você está quente...
É culpa sua por despir as pessoas enquanto estão dormindo!, berrei internamente.
— Me desculpe. — murmurei, finalmente lembrando dos momentos antes de adormecer — Você teve que me carregar até aqui?
Ele demorou um pouco para entender a abrupta mudança de assunto.
— Não foi nada. — disse, outra vez com seu sorriso bobo.
Sua mão ainda estava em minha testa e podia sentir sua respiração. Por algum tempo, ele só ficou lá, me olhando nos olhos com aquele olhar indecifrável, mas então se reergueu e me estendeu a mão.
— Vem. — era impressionante como seu rosto ficava sério quando não estava sorrindo — Eu vou te fazer companhia.

Nós ficamos no quarto dele, e conversamos sobre coisas triviais como o fato de estarmos novamente em salas diferentes e coisas importantes como nossos pais, que — segundo Abel — estariam de volta em três dias. Não prestei muita atenção nisso. Com certeza me esqueceria.
Por fim, Abel adormeceu em meu colo. Seu rosto sereno e o modo como dizia coisas confusas — incluindo meu nome — durante o sono fizeram com que eu me perguntasse que tipo de sonhos ele estaria tendo.

Notas finais
Os capítulos que escrevo acabam grandes e massivos se não os dividir assim, sinto muito.