kissing in the blue dark

4 All the Pretty Stars Shine for you


Notas iniciais
HEY! Como vcs estão? desculpem essa fanfiqueira relapsa ela demora para postar um novo capítulo.

Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância.

O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos.
-Sonho de uma noite de verão

Quando Aurélio e Ema chegaram, Julieta ainda estava reclinada sobre um contrato problemático. Seu humor naquele dia estava oscilante, tornando a convivência com ela um tanto quanto difícil. Todos a sua volta estavam acostumados com o gênio da Rainha do Café, mas as pessoas que não tinham conhecimento do temperamento de Julieta tendiam a se assustar. Por conta disso Camilo estava temeroso. Logo seus convidados estariam chegando, e a onda de mau humor de Julieta costumava durar alguns dias. Quando Aurélio e Ema chegaram Julieta estava trancada no escritório. Ela escrevia com força, anotava as coisas que precisava fazer marcando uma página com a tinta e a outra apenas com a força que pressionava a caneta. O som da conversa animada começou a irrita-la. Por Deus, será que eles não sabiam ser um pouco mais silenciosos?

Aurélio estava ansioso. Queria vê-la, saber se ela havia lido o livro, conversar sobre alguma coisa qualquer. Julieta o deixava intrigado, com uma imensa vontade de descobrir o que se escondia por debaixo do luto pesado. Mas Julieta parecia não ter pressa de vê-lo. A impressão que passava era que ela não queria ter marcado aquele jantar. Assim, ele estava decepcionado. O pobre Camilo estava claramente constrangido. Tentava de todas as formas ser um bom anfitrião. Ele conversava animadamente com Ema e tentava envolver Aurélio. Os três tentavam disfarçar a falta de Julieta.

Ela deu os ares da graça apenas quando o jantar foi servido. Sentou-se a cabeceira da mesa, quieta. Camilo ao seu lado esquerdo, com Ema ao lado dele, e Aurélio ao seu lado direito. A refeição foi ainda mais constrangedora. Julieta pouco falava e não se esforçava para que a conversa fluísse quando falavam diretamente com ela. A presença pesada dela fazia com que todos falassem contidos, mesmo que fossem três pessoas que facilmente ficavam entusiasmadas com os assuntos que tratavam.

Após todos comerem Julieta voltou para o escritório. Porém dessa vez Aurélio não se conteve e foi atrás dela, incentivado por Camilo. Encontrou a porta do escritório semiaberta e a observou concentrada em alguns papéis. Alguns segundos depois ela suspirou frustrada e relaxou o corpo contra a cadeira de couro. Ele podia ver que havia algo de errado com ela.

—A senhora leu o livro? — Perguntou assustando a Rainha do Café.

—O que o senhor está fazendo aqui?

—Vim falar com a anfitriã que não esteve muito presente durante a noite.

Ela lançou um olhar irritado para ele. Aurélio sorriu e sentou numa das cadeiras que estava em frente à mesa.

—Eu li o livro. — Respondeu simplesmente. Sabia que seu comportamento não havia sido dos mais exemplares e estava sentindo-se um pouco culpada.

—E o que achou?

—Totalmente deslocado da realidade. Fadas, duendes, feitiços. Não é meu tipo de literatura.

Ele sorriu. Claro que ela jamais admitiria que gostou do livro. Julieta realmente gostou de ler uma comédia. Fez bem a ela ter contado com algo mais leve do que os romances e poemas que geralmente lia.

—Então não gostou, uma pena. — Concluiu ele, em seu tom de voz era perceptível que ele estava desafiando ela a admitir que havia gostado do presente.

—Não disse que não gostei, falei apenas que não é o que geralmente leio.

—Então deixar a realidade um pouco de lado não é tão ruim, certo?

Ela o encarou. Ele estava provocando ela.

Julieta não respondeu. Voltou a atenção para os papéis que revisava antes de Aurélio chegar e esperou que ele deixasse o escritório. Mas ele não o fez, ficou quieto lendo os títulos dos livros que estavam na prateleira atrás dela. Julieta largou a caneta exasperada. Não era apenas a presença dele que a deixava um tanto quanto desconfortável, mas naquele dia sua mente parecia cansada demais para qualquer coisa. Talvez fosse o aniversário de casamento com Osório que estava se aproximando. Talvez ela apenas estivesse cansada demais depois de anos apenas jogando todos os seus sentimentos para debaixo do tapete.

—Você está bem? — Aurélio perguntou realmente preocupado. Algo devia estar incomodando ela, pois caso contrário Julieta não estaria agindo daquela forma. O último encontro deles havia sido agradável e ele acreditava que conseguiriam engrenar uma amizade.

—Estou.

Ela tinha as feições cansadas. Estava esgotada de trabalhar tanto.

—Por que não vamos dar uma caminhada?

Ela o encarou. A primeira vez que saíram para caminhar sozinhos acabaram trocando um beijo.

—Da última vez que o senhor me propôs uma caminhada não acabamos bem.

Nós nos beijamos, pensou Aurélio, isso não é algo ruim. De fato havia sido bem agradável.

—O que posso dizer? Aquele dia agimos por impulso, mas tenho certeza que hoje seremos mais cautelosos.

Julieta nada disse. Apenas deixou a cabeça repousar suavemente no encosto da cadeira.

—A senhora gostou de abandonar a realidade por algum tempo mesmo que através da leitura, não é mesmo? Por que não tenta fazer isso ao menos uma vez aqui, no mundo real? Todos precisamos de descanso e um pouco de distração. A senhora trabalha duro sempre, devia se divertir um pouco.

—Como o senhor poderia saber da minha rotina de trabalho?

—Basta apenas saber o seu título. Não seria a rainha do café se ficasse parada o dia todo.

Julieta sorriu. Gostava da companhia dele e da forma que ele não se intimidava pela posição dela.

—O senhor sabe dirigir?

O questionamento o pegou de surpresa. O que ela estaria planejando?

—Sei.

Julieta ponderou por alguns segundos. Mas Camilo e Ema? Os dois ficariam preocupados se notassem que os pais sumiram. Mas os dois não demorariam, certo? Voltariam bem rápido, após uma pequena volta pela cidade.

—Gostaria de dar uma volta por São Paulo comigo? — Ela poderia chamar seu empregado para isso, mas não queria estar numa situação tão impessoal naquele momento. Pela primeira vez em muitos anos gostava realmente da presença de alguém.

—Quer que eu lhe sirva de chofer?

Julieta arregalou os olhos. Não era essa a intenção que tinha, queria apenas estar com ele.

—Não foi isso que eu quis dizer...

Aurélio riu divertindo-se com reação dela.

—Será um prazer passar um tempo com a senhora.

Aurélio estava feliz com o convite. Poderia conversar mais com ela, descobrir mais sobre Julieta. Ele sabia que havia muito mais além da figura imponente da viúva.

Saíram da casa após falar com o chofer de Julieta. Não disseram nada para os filhos, pois não saberiam explicar a Camilo e Ema a relação dos dois. Era a primeira vez que a Rainha do Café sentava-se no banco da frente do próprio carro. Aurélio dirigia calmamente, saboreando o silêncio confortável que se estabeleceu entre os dois. Deu para Julieta o espaço que precisava para organizar os pensamentos e descansar.

—Qual é a sensação de dirigir? — Perguntou ela, finalmente quebrando o silêncio.

Ele parou pensou um pouco.

—É como um calmante para mim. Eu me sinto bem dirigindo.

—Deve ser a mesma sensação de cavalgar.

Ele sorriu.

—Não, eu acho que cavalgar é melhor. O vento no rosto, o contato com a natureza. O carro priva você de tudo isso.

Julieta sorriu.

—Sinto falta de ter tempo para andar a cavalo.

—Não sabia que a senhora gosta de cavalos. Para falar a verdade isso é surpreendente.

—Eu tenho um, o Soberano. É um animal lindo.

—Eu gosto muito de animais, especialmente os cavalos.

Ela aproximou-se um pouco dele.

—Para onde estamos indo?

Eles já haviam andado por um bom tempo, mas nenhum dos dois sabia exatamente quanto. Estavam numa estrada mais afastada da cidade, que provavelmente ia para o Vale do Café.

—Não sei. — Ele riu — Apenas fui guiando o carro, sem traçar nenhuma rota em especial.

—Vamos parar um pouco o carro. — Pediu Julieta.

Aurélio estacionou o automóvel num dos campos que ficava a beira da estrada. Eles saíram do carro e se apoiaram na lataria. Ele olhou para o céu estrelado e sorriu. Era uma noite agradável, que anunciava a chegada do verão. Ele gostava muito das noites, de ver os vários astros se exibindo no fundo azul escuro.

—Eu sempre gostei de olhar para o céu noturno. Quando era jovem costumava ir caminhar tarde da noite apenas para poder olhar as estrelas. — Aurélio falou.

Ela sorriu.

—A sua simplicidade me lembra meu pai. — Julieta disse – E esse é o melhor elogio que eu posso fazer a alguém. Papai era um homem incrível, muito sonhador. O maior sonho dele era ter uma fazenda de café. — Ela riu — Ele trabalhava pensando no dia que finalmente conseguiria comprar as terras para começar a plantar.

—Ele deve estar muito orgulhoso de você, então.

Julieta fitou chão tristemente. Seu pai nunca chegou a ver seu sucesso como Rainha do Café.

—Eu espero que sim.

Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes.

—Obrigada, Aurélio. — Disse Julieta.

—Pelo que?

—Por ser tão generoso comigo. Não estou acostumada a receber esse tipo de tratamento das pessoas. Você sabe o que falam de mim, ouviu o que disseram na festa, mas mesmo assim sempre me tratou de maneira distinta. É raro encontrar alguém assim, que não se deixa levar por opiniões alheias.

Aurélio ficou feliz ao escutar aquilo.

—Não há o que agradecer, Julieta. Eu tive uma imensa simpatia e respeito desde o momento que a conheci.

Julieta sorriu de maneira singela. Inclinou a cabeça e a deixou pousar sobre o ombro dele por apenas alguns segundos.

—Acho que deveríamos voltar. — Disse ela.

—Tem razão, as crianças já devem estar sentindo nossa falta.

—Crianças, Aurélio?

Julieta riu.

—Ema sempre será uma criança aos meus olhos.

—Devo admitir que vejo Camilo da mesma forma.

Ele riu e abriu a porta do carro para ela. Julieta entrou e ele a ajudou com a parte da saia que ficou para fora do carro e acabaria presa quando a porta fosse fechada.

—Foi uma noite ótima, Aurélio.

Ele ainda estava fora do automóvel, ao lado dela. Aurélio sorriu.

—Eu também gostei muito dessa noite, Julieta.

Os dois se olharam por alguns segundos. Sorriam sem motivo aparente. Estava escuro, mas era possível notar o que fluía entre os dois. Julieta não podia negar que era estranha a atração que sentia por ele. Aurélio colocou a mão sobre a dela. Ela sabia que provavelmente aconteceria novamente. E queria que acontecesse. O olhar dela fixou-se no dele. Ele inspirou lentamente.

A distância entre eles diminuiu.

—Eu quero beija-la. – Aurélio sussurrou.

Julieta não falou nada. Fechou os olhos e deixou os lábios entreabertos. Esperou que ele beijasse sua boca. Aurélio cumpriu a expectativa dela. Beijou de leve seus lábios, esperando uma reação. Ela colocou a mão sobre o ombro dele e virou o corpo para ficar mais confortável. Aurélio pousou uma das mãos no quadril dela e a outra no banco. Inclinou o corpo um pouco para aprofundar o beijo. Somente beijando ela novamente que ele percebeu o quanto gostaria de ter feito isso antes.

Julieta percebeu que estava perdida no momento em que se permitiu aproveitar a sensação de estar sendo beijada, e que admitiu gostar de estar beijando ele. E novamente reclusos os dois acabaram se contagiando por algo que nem eles mesmo compreendiam, mas que estava presente desde a primeira vez que se viram. Talvez fosse a solidão que perceberam um no outro, ou talvez fosse apenas desejo. Na verdade, o que era aquilo não importava muito para nenhum dos dois em um momento como aquele.

Sob o céu escuro, outra vez eles se lançavam ao desconhecido, agora sabendo ao menos o terreno em que pisavam, porém ainda um pouco atordoados. Mas afinal, não era disso que se tratava tudo? Lançar o corpo contra algo maior, que talvez pudesse engolir você por inteiro. E sentir o desespero e a alegria de não fazer ideia do que encontraria no fim.

Notas finais
e ai???