kissing in the blue dark

5 With just one wave it goes away


Notas iniciais
olarr!! esse capitulo ta um pouco diferente dos outros, mas ele é importante para o desenvolvimento da fic. Perdoem os erros, eu sou meio desligada para corrigir! espero que gostem!

O beijo terminou de maneira tão suave quanto começou. Ela abraçou-o, escondendo o rosto no ombro dele. Apesar de ter gostado daquele momento, sentia-se um pouco envergonhada. Aurélio acariciou as costas dela. Beijou a clavícula dela antes de se afastar. Ele fechou a porta do carro e sorriu ao ver que ela ainda tinha os olhos fechados. Contornou o automóvel e entrou.

—Está tudo bem? — Perguntou tocando a mão dela.

—Sim. — Ela sussurrou.

Estava sendo sincera. Respirou fundo e olhou para ele.

—Estava muito nervosa com o trabalho. Acho que me prendo demais aos negócios e esqueço de mim.

—Deve ser mesmo exaustivo ser alguém tão importante.

Ele ligou o automóvel e manobrou para voltar para a estrada.

—E você, nós não falamos tanto de você. Você disse que sua família possuía algumas terras no vale no nosso primeiro encontro.

Aurélio sorriu.

—Eu sou botânico. Cuido dos cafezais da fazenda do meu pai, e cuido dos animais também.

—Seu pai é cafeicultor? Será que é alguém com quem já fiz negócios?

—Talvez. O nome dele é Afrânio Cavalcante, — Riu — mas ele prefere Barão de Ouro Verde.

Julieta sentiu uma pontada fria no peito, que aos poucos foi se espalhando pelo corpo.

—Conhece ele?

Julieta assistia tudo pela fresta da porta. Escorada na parede, segurava um rosário branco que estava entrelaçado em seus dedos. Um homem discutia com seu pai, tentava convencê-lo a vender a terras. "Não venda, papai, por favor!" Ela pedia mentalmente. Eles tinham tantos planos para as terras que haviam acabado de adquirir. Ela havia sonhado com ele durante toda a infância o dia em que teriam sua própria fazenda.

—Já ouvi falar dele. — Ela disse tentando controlar a onda de emoções que havia acabado de quebrar sobre ela.

Aurélio olhou para Julieta após notar a mudança na voz dela.

—É surpreende saber disso. — Disse ela, ainda tentando disfarçar aquilo tudo.

—Meu pai e eu não temos muito em comum. — Ele riu baixinho.

Isso ela sabia. Porém como havia deixado escapar uma informação tão importante? Já haviam se visto algumas vezes e ela nunca pensou em perguntar. Ela nunca se importou com a condição social de Aurélio, essa era a verdade. Claro que os ternos notoriamente caros denunciavam que ele vinha de berço de ouro, mas Julieta nunca pensou a fundo sobre isso. Isso porque na maior parte do tempo evitava pensar nele e quando estava com ele conseguia apenas pensar no momento. Era simples assim. E ela estava frustrada com a negligência que teve sobre a vida de Aurélio.

Fizeram o resto do trajeto em silêncio. Chegaram quase meia hora depois. Ema estava histérica e Camilo tentava acalmar a garota de todas as formas.

—Mas e se aconteceu algo com eles? Meu Deus, Camilo, eu não saberei viver sem meu pai!

—Calma, Ema! Não aconteceu nada, eles estão apenas passeando! Não era isso o que nós dois queríamos, o nosso plano? Eles estão passando um tempo juntos, isso é ótimo!

—Plano? — Julieta perguntou ao entrar.

O Príncipe do Café arregalou os olhos, assim como a neta do Barão.

—Planos para encontrar um ao outro novamente! — Disse Ema. — Eu e Camilo nos tornamos grandes amigos.

Julieta sabia muito bem o que escutou, mas não tinha paciência para abrir uma discussão sobre aquilo, mesmo que a ideia de seu filho tentando interferir em sua vida pessoal a deixasse profundamente irritada.

—Isso! Afinal, Ema e Aurélio estão indo embora daqui dois dias. Estávamos combinado de nos ver novamente.

—Estão? — Julieta arqueou as sobrancelhas.

—Eu esqueci de mencionar. — Disse Aurélio — Já estamos aqui faz algumas semanas, está na hora de voltar para casa.

—Uma pena, não é mesmo, mãe? Logo agora que a senhora e o senhor Aurélio estavam se tornando bons amigos!

Julieta durante todo esse tempo se esforçava para manter a compostura. Queria ir logo para seu quarto.

—Sim, realmente uma pena. — Não caiu nas provocações do filho. — Porém tenho certeza que nós nos veremos novamente. — Ela deu um sorriso amarelo — Irei me recolher, boa noite e fiquem a vontade.

Aurélio assistiu ela subir as escadas após todos desejarem uma boa noite a ela. Quase no topo da escada, ela olhou por sobre o ombro e percebeu que ele a fitava. Rapidamente olhou para frente novamente e continuou a subir as os degraus. Aurélio riu baixinho. Naquele ponto já compreendia que Julieta tinha suas oscilações. E apesar das tantas voltas que era necessário fazer para conseguir contornar o gênio difícil e abrir uma parte da personalidade dela que era leve e acolhedora, ele gostava dela. Assistiu ela subir com toda sua pompa e permitiu a gratidão por conhecê-la invadir seu peito. Ele sempre acreditou que o acaso gerava coisas incríveis, e o fato de agora ter ela em sua vida era apenas uma prova daquilo.

—Então... — Camilo limpou a garganta — O senhor e minha mãe... Vocês estão namorando?

Aurélio gargalhou.

—Não! Sua mãe e eu somos apenas amigos, Camilo.

—Amigos, papai? Saindo sozinhos de noite? — Questionou Ema.

—Eu sei que isso pode ser um pouco confuso, mas sim, apenas amigos.

—Não é apenas confuso, mas também soa como uma grande mentira! — Ema disse quase rindo.

—Ora, Ema! — Aurélio olhou para os dois jovens a sua frente e foi incapaz de não rir da expectativa que eles claramente tinham sobre um possível relacionamento. — Para vocês jovens a vida e as relações são muito descomplicadas, mas para dois adultos as coisas são diferentes. Julieta e eu somos muito solitários e encontramos um no outro um amigo. Isso é tudo.

Ema e Camilo pareciam convencidos e um pouco decepcionados. Ela abraçou o pai e beijou seu rosto. Sabia que os últimos anos da vida dele estavam sendo solitários, mas apesar de tudo não poderia manipular os caminhos para que seu pai encontrasse alguém. E bem, ele tinha uma amiga agora, pelo menos. Alguém que contribuía para sua diminuir sua solidão. Ema estava feliz por isso.

Após alguns minutos de conversa, Aurélio e Ema voltaram para casa. Ele estava em um ótimo humor, por conta da noite que havia passado e esperava que Julieta estivesse sentindo-se tão bem quanto ele.
***

A Rainha do Café não conseguia dormir. Sua mente, apesar de cansada, borbulhava com memórias de um passado que ela tentava não relembrar. Porém aquela noite toda a angustia que viveu durante a juventude rasgava seu peito novamente. Aurélio era filho do Barão de Ouro Verde. O homem que destruiu o sonho de seu pai.

—Veja, Julieta! Essa terra é toda nossa! Não é lindo? — Seu pai gritava como uma criança. Exibia orgulhoso o terreno que havia acabado de comprar.
A jovem Julieta ria em pura alegria.

—É lindo, pai! É lindo demais! — Ela pulou nos braços do pai.

Ela era a primeira pessoa que ele levara para ver o lote que havia comprado. Aquilo era um sonho deles, e só deles. Desde quando era apenas uma criança Julieta escutava o pai falar dos planos de comprar uma fazendinha para produzir café. Havia ansiado por aquele momento desde que se tinha por gente. Márcio rodopiou segurando a cintura da filha. Aquele, sem dúvidas, era o momento mais feliz que compartilhavam.

Julieta se encolheu na cama. Chorava. Chorava como no dia em que viu seu pai de joelhos no chão, desesperado e perdido.

Julieta enxergava apenas as chamas que aos poucos reduziam tudo a cinzas. Fazia muito calor, muito. Escutava os próprios gritos, mas era como se todos eles saíssem da garganta de outra pessoa. O pai agarrou seus ombros, buscando confortar a filha. Na verdade estava procurando força para assistir tudo o que levou anos para conquistar lentamente queimar até não restar coisa alguma. Julieta fechou os braços ao redor do pai. Os dois foram ao chão. Era o sonho deles se desfazendo na frente dos dois.

Já era tarde quando Julieta pegou no sono. Dormiu forçando sua mente a vaguear por memórias menos sombrias, mas infelizmente em sua vida momentos muito seletos apenas vinham cheios de leveza e alegria. Ela acabou por ler o livro que havia ganhado de presente. Dele. Leu o livro inteiro novamente, de uma só vez. Caiu no sono com as páginas abertas sobre seu peito. Foi um sono conturbado. Fazia tempo que ela não tinha uma noite tão ruim.

Ele dava os últimos espasmos. Julieta não conseguia olhar. Não podia ver aquilo. Se ela apenas tivesse chegado cinco minutos mais cedo. Cinco minutos. A garrafa de bebida ainda estava sobre a mesa, o líquido estava quase no final.

Ela ainda podia escutar os grunhidos do pai no outro cômodo. E podia escutar os próprios gritos. Parecia que era apenas isso que fazia nos últimos meses. Gritava e gritava. Trabalhava. Ajudava o pai bêbado a ir para a cama. Cuidava das irmãs. Gritava. Sentia falta dos campos verdes do vale onde ficava a pequena fazenda do pai. Como eram verdes aqueles campos e como foi feliz o curto espaço de tempo que passaram por lá.

Olhou novamente. O pés de seu pai não alcançavam o chão. E ele não estava voando, como dizia que voava enquanto corria pelas terras da fazenda. Ele não era nem mesmo alguém naquele momento, sustentando apenas por uma corda.

E Julieta acordou. A memória ainda vívida em sua mente. Tomou a água que estava sobre a mesa perto de sua cama. Por anos ela tentou deixar aquela história toda. Tentou perdoar, como mandava a Bíblia. Tentou, mas seu lado mais pesado jamais permitiu. E esse mesmo lado já havia tomado sua decisão. Era hora de devolver o mal que foi feito para seu pai.

Notas finais
agora o cabaré vai pegar fogo! deixe seu comentário, pois ele incentiva muito!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.