enfeitiçada
1 Chapter 1
Notas iniciais
-R.
O pesadelo me sufoca. Eu grito, corro, peço ajuda, mas ninguém me ouve. Meu instinto me diz para continuar correndo, mas parar de gritar e tentar desacelerar meu coração, afinal, ele pode ouvi-lo.
Ele?
Não importa. Tento raciocinar sobre quem é ele, mas minhas pernas não se importam, correm para mais longe possível que podem. Chamo o ar intuitivamente. Ele me socorre. Sinto-o me levando por caminhos certos, sinto sua brisa me acalmando, me acalentando.
Tento enxergar algo além dos borrões verde escuro das árvores e plantas que me cercam, sinto o cheiro de terra e sinto meus pés descalços sobre ela e uma parte de mim quer me afundar nela, quero deixar que ela me esconda, me proteja, me guie e me abençoe, mas a outra parte diz que não é certo, que ainda tenho outras coisas para fazer, para proteger.
Ouço passos rápidos e perco a concentração. O ar me abandona e sinto meu coração acelerar de novo. Merda! Merda! Penso. Ele não pode ter me achado.
Volto a correr para qualquer direção e assim que ganho velocidade o bastante para não ver nada além de borrões verde escuro e marrons novamente, fecho os olhos assim que sinto um impacto em algo duro e gelado, mas que me incendia ao seu toque.
Afasto meus cabelos negros da face e abro os olhos lentamente, temendo o que ou quem ia ver.
Nada além de uma pele branca e um pouco musculosa de um braço forte. Nela havia traços negros pintados: tatuagens. Suspiro e mordo a língua tentando conter a adrenalina em meu corpo. Afasto-me bruscamente, tentando correr de volta, mas eu tropeço em algo macio e quente, ouço um rosnado e me viro, vejo um... O lobo.
Assim que vê meu rosto, ele abaixa a cabeça e uiva como se me conhecesse. Eu o conheço. Ele se chama Nótus. Eu não faço a mínima ideia de como sei o nome dele. Só sei de duas coisas a respeito disso, duas coisas extremamente insanas: Eu tinha dado esse nome a ele e sabia também que ele me esperava.
Viro-me novamente para a pessoa da pele branca cujo eu tenho a ideia de quem seja. Eu na verdade sei exatamente quem é. Aquela aparência de dezesseis anos, mas tão profundo, misterioso e maduro que o fazia parecer uma cara muito mais velho, um cara que não tinha só beleza.
Seu cabelo negro e curto está embaraçado, sua pele parece anêmica de tão branca, os olhos cor de âmbar – como se o verde e o castanho estivesse em harmonia – estão encarando meus olhos pretos e sem fundo como se eu fosse sua presa, os músculos rígidos dos braços se contraiam como se estivessem se segurando para não me segurar, em seu ombro direito está um corvo negro com penas extremamente opacas, sugando a pouca luz da floresta e me olhando sinistramente. Noto sua respiração. Sei que está assim porque eu estou, sei que é assim que ele se conecta comigo, sentindo a mesma adrenalina que eu.
Espero que ele diga algo, espero que me segure e me puxe para fazer algo comigo, mas só fica assim, parado, com seu corvo imbecil me vigiando.
- Você... – eu sussurro involuntariamente, tentando falar algo, mas falho.
Espero que a adrenalina se esvaia de meu corpo. Nótus Sai de trás de mim e senta ao meu lado. Eu poderia fugir, mas não posso, sei que apareceria na minha frente novamente.
Ele suspira.
- Não. Você... Você está viva? Você morreu! – Ele pergunta como se me conhecesse há anos. E sinto que o conheço, mas por algum motivo não consigo me lembrar de onde e de qual é seu nome.
- Quem é você? Eu não estou morta! Tenho cara de cadáver humano? – Eu ironizo. – E eu não conheço você.
- Você estava morta! Eu sei porque fui eu que... – Ele para no meio da frase e olha para os pés descalços. – Como não se lembra de mim? Pensamos que estivesse morta.
- Eu não acredito em você! E não sei quem são vocês! – Eu grito, fazendo minha voz ecoar.
Ele arregala os olhos surpreso e tenta tocar meu braço, seu toque me faz querer ficar perto de sua beleza indescritível e nunca mais larga-lo.
- Como você não se lembra de mim? De você? Quem você é agora?
- Não sinto coisas boas sobre você! Vozes em minha mente mandam eu me afastar de você, correr e você – Eu grito. Algo dentro de mim sabe que isso vai fazê-lo perder a confiança em mim e em si mesmo.
- Me responde. Quem é você agora? – Ele pergunta quase como um sussurro calmo e de repente a sensação de uma alegria iludida e apaixonada volta quando ouço esse som.
- Não lhe é do seu interesse. Deixe-me ir embora.
- Você não pode, não pode fugir de mim. – Ele diz e o corvo grasna.
- Por favor. Sei que você só quer me destruir. Sei que me odeia. – Eu digo tentando saber por que eu estou aqui. Quem sou eu? Quem é ele? – Sei que me odeia, e sei também que está me enganando.
- Eu não te odeio. Nunca vou conseguir te odiar.– Ele se aproxima bruscamente fazendo seu corvo voar e pousar no galho de árvore mais próximo e quando penso que vai me bater, ele me abraça. Logo sinto minha pele como se fosse fogo. Luto contra essa sensação porque sei que ela é errada, mas falho, me encolho sobre seu peito, sabendo que logo depois não vou mais poder fazer isso. Meus instintos me diziam para eu não confiar nele. Diziam-me que ele ia me enganar e me destruir.
Ele olha para mim, me colocando a sua frente. Olho em seus olhos tentando cavar cada pedaço que eu posso dele, tentando aproveitar cada segundo que ainda tenho antes de larga-lo.
Ele cola seus lábios nos meus, e, nossa! Agora percebo que era isso que faltava em mim e em minha vida, parecia que antes o mundo era seco, escuro e mórbido, mas agora acho que até o corvo dele parece cheio de vida.
O seu tom de urgência, agressividade e amor se junta me enlouquecendo. Sou tomada por um calor prazeroso e retribuo o beijo ainda mais agressiva que ele. Ele desce seus lábios para meu pescoço enquanto jogo a cabeça para trás e solto um suspiro. Ele me comprime ainda mais contra si e eu sinto o quanto ele está excitado. Jogo a cabeça para frente novamente, enquanto enfio minhas unhas pintadas de preto na pele de suas costas e o beijo e mordisco seu pescoço.
Acredite.
A palavra ecoa em minha cabeça tentando me persuadir. Mas estou irracional demais para ser persuadida, porque agora só penso em seu corpo colado no meu.
Puxo por sua cabeça a camisa branca de tecido fino, deixando-o apenas de calça jeans e deixando a mostra suas duas tatuagens de um código em romano em seu antebraço direito e a bússola no seu antebraço esquerdo outra de um. Lindo.
- Sabe que eu quero jogar você contra o tronco de uma dessas árvores e comer você, né? – Ele diz suspirando enquanto tira a minha blusa e deixando minha tatuagem de uma pequenina árvore com galhos mortos e retorcidos á mostra. Fico feliz por estar com meu sutiã preto de bojo enquanto ele me come com os olhos. – Caralho...
- Sei. Sei que você é totalmente louco por mim.
Ele me vai me beijando até a cintura enquanto gemo baixinho.
E então ouço seu corvo grasnar e Nótus uivar. Como uma espécie de aviso ele para, olha para mim ainda ofegante e me dá mais um beijo.
- Meu tempo está acabando. – Ele adverte e eu não entendo.
- Que tempo?
- Isso não está acontecendo de verdade. Isso é só nossa conexão nos impedindo de ficarmos longe demais um do outro.
- Sabe que nada mudou, não é? Sabe que ainda não acredito em você.
- Sei. Mas tenho esperança de que acredite.
- Por mais que eu sinta desejo por você. – Eu suspiro. – Nunca vou acreditar em você.
Ele faz uma careta amarga
- Não importa. Eu não sinto só desejo por você. Sinto mais, muito mais – Ele diz me encarando e eu sinto calafrios por meu corpo todo desejando que pudesse acreditar nele.
- Adeus. Sei que vamos nos ver em breve. – Ele diz passando o polegar em meu rosto.
Notas finais
-R.
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