enfeitiçada

2 Chapter 2


Acordo suando, com o meu cabelo longo e negro colado em minha cintura e em meu rosto. Pego o relógio do criado-mudo e vejo as horas. São seis da manhã ainda. Tento me lembrar do meu pesadelo e só me lembro de borrões verde-escuro, um grasnado, uma voz que me deixava louca e calma ao mesmo tempo e uma pele muito branca.

Vou até o banheiro e a primeira coisa que vejo quando entro é meu reflexo no espelho. Minha pele está mais branca que o normal, meus olhos estão negros e arregalados, minha boca avermelhada e inchada, os cabelos negros e longos estão suados e batem em minha cintura. Lavo o rosto e desço as escadas tentando não fazer barulho para não acordar minha mãe, meu padrasto ou Becca – Minha irmã mais nova de quatorze anos.

Quando chego à cozinha escura tenho quase certeza que vi a silhueta de alguém na janela, mas quando pisco não tem ninguém.

– O eu você está fazendo?! – A voz de minha irmã Becca quase me mata de susto.

Demoro um tempo para raciocinar a pergunta que ela faz.

– Eu... Vim beber água. – Digo ofegante pelo susto.

– Não era para você estar acordada. – Ela diz enquanto tira uma mecha de seu cabelo preto e liso do rosto e prende atrás da orelha. Noto que sua pele também brilha de suor.

– Você também teve um pesadelo, né?

– Não... – Ela olha para o chão e vejo seus dedinhos do pé se revirarem como toda vez que ela fica tensa, com medo ou quando está mentindo.

– Que merda você fez? – Eu cruzo os braços e ergo uma sobrancelha.

– Nada. – Ela olha para a parede atrás de mim. – É sério, pode ficar despreocupada.

– Despreocupada é a última coisa que eu posso ficar com você. Me fala o que você fez.

Ouço um barulho de porta abrindo. Provavelmente meu padrasto Max. Ai! Merda! E agora?

– Fica quieta. Você se esconde no banheiro minúsculo que só cabe uma pessoa, eu me escondo no sótão. – Eu sussurro para Becca. Ela assente e enquanto vou para o sótão a vejo entrando no banheiro.

O sótão é um lugar extremamente grande, sujo, empoeirado, úmido e desarrumado. Dê dois passos e você esbarrará no Taj Mahal.

Entro tentando não fazer barulho, mas a maldita porta solta um pequeno rangido. Dou três passos e quase acabo tropeçando em algo, mas tenho certeza que não é o Taj Mahal.

Está escuro e silencioso, é de dar arrepios. Sento no chão com o ouvido colado na porta. Max acende a luz da cozinha e começa a preparar o seu café da manhã. Ele é gerente de uma agência de carros e ganha muito bem – Tudo bem que ele está trabalhando nas férias, mas ele realmente ganha bem para isso. – tanto que não foi um problema minha mãe ter ficado grávida dele e ter tido que parar de trabalhar no hospital como cardiologista. Agora ela está de oito meses e vai ter direito a mais um mês sem trabalhar pós-parto.

Veja.

Uma voz masculina e estranhamente familiar sussurra em um ouvido me causando arrepios. Deus! É a voz que eu ouvi no meu pesadelo né? Flashbacks de um lobo e um corvo giram em minha mente. Concentro-me no sussurro tentando ligar a voz com o rosto.

Veja.

A voz sussurra de novo e consigo me lembrar de uma tatuagem.

Olho para trás. Não tem ninguém aqui, a não ser eu. Você está ficando louca minha consciência me diz. Mesmo assim eu me levanto, olho pelo buraco da fechadura e vejo-o com seu fone de ouvido lendo o jornal e comendo seu sanduíche de linhaça. Lentamente levanto e acendo um pequeno abajur velho que tem no outro lado, bem longe da porta para que e consiga ver pela fresta que tem alguma luz ligada aqui dentro.

A luz é extremamente fraca e desgastada, não me surpreenderia se queimasse daqui a pouco. Remexo em tudo, procurando qualquer coisa que a voz tinha me indicado. Acho que estou esquizofrênica.

Acho que já se passaram dez minutos e eu ainda estou aqui procurando algo que não sei o que é só por causa de uma maldita voz que eu cismei, mas não acho nada além de óbitos de pacientes da minha mãe, relatórios de compra e venda da agência de carro de Max, móveis velhos ou livros antigos. Limpo as mãos empoeiradas em minha camisa de dormir. Ando de volta até a porta e assim que toco a maçaneta ouço um barulho de asas. Assustada, me viro para ver o que é.

Arregalo os olhos assim que vejo o corvo negro. Sinto a pontada das lembranças do sonho voltando. Vejo olhos âmbar me olhando como se eu fosse a única coisa no mundo para ele. Lembro-me do seu beijo ser a única coisa que me fazia esquecer de tudo, que me fazia querer me entregar de braços para ele, me esquecer de tudo. Mas que tudo? Ando em direção ao corvo que parece uma estátua. Quando chego mais perto do corvo percebo que ele tem um papel e uma bolsinha muito pequena enrolada em suas patinhas. Pego cuidadosamente e começo a ler:

Procure nas paredes.

Ótimo conselho, nossa! Eu tateio as paredes a procura de algo. Minhas mãos acham um pequeno parafuso no meio da parede lisa, desenrosco-o e o puxo. Reparo que aquilo não era parede, era uma tábua. Puxo-a, dentro há livros, pastas e papéis. Arranco-os de lá e vejo a capa do primeiro livro.

700 modos de escuridão.

O nome do livro me causa arrepios, me lembram das penas do corvo.

Um barulho deporta batendo me assusta, pego os livros correndo e olho pela fechadura. Ufa! Ele já foi. Em seguida vejo a maçaneta de o banheiro girar e minha irmã sair lá de dentro. Faço o mesmo que ela ainda com os livros e papéis na mão, antes de sair olho para a janelinha de o sótão ver se o corvo ainda está ali, mas ele já foi.

– O que é isso?

– Hm... Livros e pastas que eu achei, são interessantes.

Ela me dá um olhar desconfiado e então me lembro.

– Hey! Agora você pode ir me contando o que você fez.

– Nada. – Ela fica pálida como se estivesse se lembrando de algo que havia esquecido.

– Você mente muito mal. – Eu sussurro com medo que nossa mãe acorde.

Subo as escadas enquanto ela pega um copo d’água e entro em seu quarto. A janela está aberta e o sol que já começa a nascer faz minha vista doer.

– O que você está fazendo aqui?! – Ela quase grita sussurrando. Se é que isso é possível. – Sai daqui. Agora.

– Cala a boca. Quer acordar nossa mãe?

– Vai á merda. Você está no meu quarto, e não era para estar.

Eu reviro os olhos e dou dedo do meio para ela enquanto saio.

Entro em meu quarto e reparo que algo diferente em meu quarto. A pena preta de um corvo... O corvo está em cima da minha cama, como se fosse um lembrete de que ele esteve aqui.

Volto para minhas cobertas junto com os livros e papéis que achei no sótão. Leio-os até sentir minhas pálpebras pesando.

Notas finais
Bjs gente, espero que gostem! *-*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.