back to the past
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Notas iniciais
Annabeth POV
Apesar de estarmos no fim de novembro, em pleno outono, a brisa daquela tarde de segunda-feira estava fria e acolhedora. Mesmo de moletom, jeans e touca, eu estava um pouco arrepiada.
Depois de enfrentar uma prova ridiculamente fácil de química, e me esconder de Percy, no banheiro feminino, até o fim da aula, minha mãe passou na escola para me buscar e agora estamos na entrada do cemitério, para fazer uma visita ao meu pai.
Nem parece que faz um mês que eu estava voltando da livraria e fui cercada pelos vizinhos murmurando coisas como: "Coitadinha!" ou "Será que ela já sabe?".
Aquele foi o pior dia da minha vida e tenho pesadelos regularmente por causa disso. É terrível.
Hoje é a primeira vez, depois do enterro, que mamãe e eu fomos lá.
Lógico que o ar de um cemitério não é dos melhores. Enquanto minha mãe falava com a "recepcionista", vi uma mulher, — em uma das capelas — chorando e abraçada ao caixão, que haviam acabado de fechar. Ela me lembrou minha mãe no dia do enterro de meu pai, e tenho certeza, que eu não fiz diferente.
Aquela cena me deixou triste e resolvi voltar a encarar o chão.
– O coveiro vai acompanhá-las — escutei a recepcionista dizer, enquanto minha mãe passava o braço em volta do meu.
* * *
Chegamos até um gramado, onde haviam diversas pedras de granito com vários nomes e frases gravados, com flores em cima — a maioria, murchas -.
Bem no meio, estava a do meu pai:
Frederick T. Chase
1976 — 2012
O amor e a loucura andam sempre juntos.*
Ver aquilo me deu vontade de chorar, e vi que minha mãe não estava muito diferente. Ela não parava de fechar os olhos e suspirar, então me mantive forte. Por ela.
– Ele não gostaria de vê-la assim, mamãe — falei, sorrindo — Lembra de quando ele chegava do trabalho e sempre me contava uma história? — dei uma risada — Ou daquela vez que ele inventou uma desculpa esfarrapada, porque não queria que a senhora soubesse que ele estava inventando outra coisa?
Ela deu um sorriso tímido e balançou a cabeça, assentido. Só de vê-la sorrindo, já me senti bem melhor. Aproveitei o momento, e apoiei a cabeça em seu colo. Já que estávamos juntos — os três -, resolvi contar tudo que havia acontecido nas últimas semanas. Quando terminei, minha mãe deu uma risada.
– Isso parece uma novela! — ela sorriu — Se estivesse passando na TV, eu não perderia nenhum capítulo!
– Mãe! — resmunguei e ri.
Ela parou de rir e me encarou.
– E você acreditou no Max? — ela perguntou.
– Claro — respondi — Por que eu não acreditaria?
Ela ficou pensativa por um momento e depois disse:
– Eu encontrei Tereza no shopping ontem — ela colocou uma mecha atrás da orelha — Nós conversamos e ela acabou me contando que ia voltar a morar na Espanha — ela passou a mão pelos meus cabelos e olhou para a sepultura do meu pai — Você acha que ela resolveria ir pra lá se tivesse voltado com o Peter?
Peter é o nome do pai de Max. Um cara alto, de cabelos lisos e um sorriso bastante sedutor. Tereza, mãe de Max, é uma mulher baixa, com os cabelos muito cacheados e é a pessoa mais simpática que existe. Ela nasceu na espanha e fala seis línguas diferentes, o que eu acho incrível. Já o Max, é uma mistura dos dois.
Há uns seis meses, Tereza descobriu que Peter a traía e pediu divórcio. Max, como já estava no último ano, ganhou um apartamento para morar sozinho e ficou por aqui mesmo. Tereza se mudou para a Califórnia, e depois voltou. Peter também ficou por aqui.
– A senhora acha que... — não consegui terminar de falar.
– Eu tenho certeza que os seus amigos pensam o mesmo que eu — ela disse — Acho o Max uma pessoa maravilhosa, mas você não acha essa história estranha demais?
– Mas... — murmurei e pisquei algumas vezes.
– Que tal você ligar pras meninas e chamá-las lá em casa? — minha mãe disse, mudando de assunto — Elas com certeza terão uma resposta melhor que a minha.
– Ah, tudo bem... — murmurei novamente.
– E não me chame de senhora de novo — ela resmungou.
* * *
Percy POV
– Eu tenho mesmo que fazer isso? — perguntei pela milésima vez.
– Tem — Apolo respondeu.
Eu estava vestindo um colete e preso em uma tirolesa que ia do palco até a outra ponta do estádio, onde eu iria me apresentar esta noite.
– E se eu cair ali no meio? — perguntei — Você sabe que vai ter cinco mil meninas ai no meio e se eu cair, não volto mais. Sabe disso, né?
– Você não vai cair, pelo amor de Deus! — Apolo resmungou — Cada dia que passa, você fica mais neurótico que a Ártemis.
– Mas você ainda não respondeu o que acontece se eu cair — retruquei.
– Ali no meio, não vai estar vazio — ele respondeu, apontando — O chão vai estar acolchoado, e os seguranças vão estar formando uma barreira...
– Mas e se eu cair antes de chegar lá? — interrompi.
– Caralho, menino! — ele berrou — Sobe nessa merda logo e desce essa porra antes que eu mesmo te derrube daí.
– Estressadinho — murmurei.
Subi o último degrau que faltava e encarei a vista. Era bem bonito, e ficaria mais ainda durante o show.
– Certo, soltem a música... — Apolo disse, no microfone.
Minha voz começou a ecoar pelo estádio e eu tenho que admitir, eu sou muito bom. Eu ainda acho estranho me ouvir no rádio ou entrar em um site qualquer e ter fotos minhas, ou passar por uma banca de revistas, e me ver na capa de várias delas.
– Quando começar o solo da guitarra, você vai — Apolo avisou.
Assenti e fiquei dançando, enquanto esperava. Toda a equipe estava rindo de mim, e mesmo assim, eu me senti um pouquinho melhor.
As últimas semanas foram um pouco tensas, tanto para mim, quanto para os meus amigos. Passei a manhã inteira procurando Annabeth pela escola, mas Thalia, Clarisse e Silena se recusavam a me dizer onde ela estava. O que, obviamente, não me ajudou nem um pouco.
Desde que nos beijamos, não consigo parar de pensar nela um segundo. E não falei com ela desde que isso aconteceu, o que está me dando nos nervos.
Estava tão distraído com isso, que nem percebi que o solo da guitarra havia começado, e que Apolo estava berrando para eu descer na tirolesa.
Desci alguns segundos atrasados, mas tudo bem.
A sensação do vento batendo no meu rosto era ótima. Me permiti virar e descer de costas, o que foi uma ótima ideia, já que eu poderia chegar do outro lado em pé. Na outra ponta do estádio — onde eu iria descer -, haviam colocado uma plataforma, onde eu ficaria até terminar a música. Achei aquilo incrível, e este foi o primeiro show que inventamos de fazer isso.
Quando cheguei ao outro lado, desci em pé — o que eu torci para que acontecesse — e tirei o colete de segurança, ficando só com a minha camisa e a bermuda. O microfone estava preso ao pedestal, e esperei a música terminar.
– Isso foi incrível! — eu disse no microfone — Vocês são demais, galera.
* * *
No fim do show, toda a equipe estava satisfeita. O negócio da tirolesa deu certo — e eu não atrasei de novo -, o público estava muito animado e eu nunca havia me divertido tanto em um show.
Antes de ir embora, eu teria que atender um grupo de fãs que haviam conseguido passes para ir até o camarim. Não é sempre que tem isso nos meus shows, é só quando deixam. Mas dessa vez, eu disse que não faria show nenhum, se não deixassem um grupo entrar no camarim.
É sempre divertido fazer isso, com exceção das vezes, em que rasgam a minha camisa ou tentam cortar fios do meu cabelo. Fora isso, é sempre divertido.
Quando saí do palco, troquei de camisa e bebi um pouco d'água. Fiquei sentado em uma cadeira, enquanto esperava o grupo entrar.
– Percy, já podemos mandá-los entrar? — Patrick, meu segurança, perguntou.
– Claro — respondi.
Patrick abriu a porta, e um grupo de dez pessoas entrou. Eram todas meninas, e usavam uma camisa branca com a minha marca.**
Assim que elas me viram, ficaram histéricas. Cinco seguranças estavam em volta delas, pedindo que ficassem calmas, e formassem uma fila. Foram necessários vinte minutos para que elas se acalmasse, e eu pudesse recebê-las. E mesmo estando todas na fila, e eu tendo que tirar fotos com cada uma e dar autógrafos, elas não paravam de fazer perguntas:
– Percy, é verdade que você terminou com a Calypso? — uma loira perguntou.
– Percy, você casaria comigo? — uma menina baixinha perguntou.
– Percy, em que escola você está estudando?
– Percy, tira foto comigo, sem camisa?
– Percy, me engravida?
Era uma pergunta mais louca que a outra.
Em menos de uma hora, eu já havia conversado e tirado fotos com quase todas elas, mas elas insistiram em ficar mais um pouco e fiquei conversando com elas. Era até estranho vê-las tão calmas, já que, há uma hora atrás, estavam berrando.
Assim que a última menina saiu, fui até o frigobar para pegar uma garrafinha de água.
Escutei a porta sendo aberta, e depois trancada. Me virei e vi a pessoa que eu menos queria ver agora.
– Oi, Percy — Calypso disse, com um sorriso travesso no rosto.
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