al Chemist
5 Capítulo 4 - A Garota do Lago de Ferro
Ka havia ficado uns dias em casa de luto à Athena, até que certo dia acordou bem cedo pela manhã e percebeu que era hora de continuar a vida, então se vestiu e saiu de casa. Ele andava por lindas colinas com vastos pastos cheios de gado, florestas com plantas exóticas e por vales belíssimos. Após andar muito, chegou à floresta onde encontrara os cavaleiros que iam em direção ao templo de Kira. Ele ficou um tempo parado, olhando as grandes árvores da floresta.
De volta onde tudo começou, pensou.
Ka continuou andando até chegar ao templo. A entrada estava vazia como sempre, os guardas haviam ido embora. Entrou, mas lá também estava vazio.
–Onde estão essas mulheres?– disse a si mesmo.
Será o dia de folga?
Continuou andando e foi para os fundos do templo. Lá encontrou Rehena sentada ao pé de uma árvore meditando e Kira cuidando de umas flores.
–Kira, precisamos conversar.– disse em voz séria.
–O que você quer?
–Quem são os Devoradores de Almas?
Neste momento tanto Kira quanto Rehena ficaram assustadas com o que ouviram. Rehena levantou-se rapidamente.
–Como você sabe sobre eles?!– perguntou Rehena.
Ka andou em direção à elas.
–Há alguns dias dois deles apareceram e mataram minha irmã. Depois disseram que ela era uma deles também.
–O quê?!!– disseram juntas.
Caramba, ele tinha uma irmã?!
–O que você sabe sobre eles?– perguntou Kira.
–Que eles absorvem as almas das pessoas para ficar mais fortes e serem imortais, pelo menos foi o que um deles disse.
–Sim...– Rehena entrou na conversa. –Devoradores de Almas, são seres sombrios, que possuem um enorme poder.
–Isso eu percebi.– Ka disse passando a mão esquerda no pescoço. –Eles também tem uns olhos estranhos. O líder deles disse que esses olhos podem ver tudo.
–Dependendo do nível de poder e do treinamento, esses olhos podem ver o futuro, parar o tempo ou até ressuscitar os mortos.– disse Kira.
Reviver os mortos?!!, pensou Ka. Isso é impossível. Ele disse que... ele pensava, enquanto olhava seu braço direito.
Ka parecia bem pensativo, nem prestava atenção ao que Kira e Rehena falavam.
–Ka, você está ouvindo?– perguntou Rehena.
–Ah, sim. Estou ouvindo.– respondeu após voltar a si.
–Ótimo. Então...
–Então está decidido.– disse Ka empolgado, interrompendo-as. –Vamos atrás desses Devoradores de Almas e de seus olhos!!
–Como assim vamos?– perguntou Rehena. –Você ficou maluco? Se eu for quem tomará conta de Kira?
–Ah, ela se vira sozinha.
–Rehena se for de sua vontade, vá. Eu ficarei bem com os outros cavaleiros.– disse Kira.
Não era o dia de folga deles? Acho. Ka se lembrou que não havia nenhum ali.
–Tem certeza?– Rehena perguntou.
–Certamente.
–Então já que é assim, vamos.
Ka e Rehena se despediram de Kira e foram em direção à floresta. Depois de passado algum tempo andando, calados, Rehena começou a conversar com Ka.
–Ei, Ka.
–O que é?– ele respondeu.
–Você vai chamar a Lulua para ir conosco não vai?
–Por que você acha isso, Rehena?
–Porque estamos indo em direção à vila em que ela mora.
–Acho que sim. E daí?
–Daí que você nos trouxe aqui de propósito, não foi?
–Claro que não. Foi só coincidência.– disse Ka querendo se safar.
–Não se preocupe, Lulua ficará feliz em nos rever. Principalmente em ver você, Ka.– caçoou Rehena.
–Muito engraçado.
Chegando no portão da vila, não se via ninguém nas ruas. Parecia uma cidade fantasma.
–Onde está todo mundo?– perguntou Rehena.
–Não sei, mas não gosto disso.– respondeu Ka.
Eles ficaram parados esperando por algo.
Silêncio.
–Ouviu isso?– perguntou Ka.
–Não, não ouvi nada.
Ka ouvira algo novamente. O farfalhar de folhas.
–De novo.
–Você está me assustando, Ka.
Será que estou ficando louco? pensou
–Acho melhor irmos ver o que está aconte...– Rehena disse.
–Shh!! Está ficando mais alto.– ele a interrompeu.
Mais silêncio.
Não, ele não estava louco, realmente algo estava se aproximando e então o barulho parou. O silêncio dominava o cenário e de repente uma casa à direta dos dois estourou como se algo estivesse se chocado contra ela fortemente.
–O que é isso?!– disse Rehena espantada.
A casa estava em escombros, totalmente destruída. Ka foi para o topo do entulho procurando o que havia se chocado contra a casa e se havia alguém nela. A casa, então, tremeu e Lulua, soterrada, se levantou toda empoeirada e tonta.
–Lulua, o que está havendo?– Ka perguntou.
–Ka, é você. Que surpresa vê-lo aqui.– respondeu Lulua pulando em cima dele e abraçando-o.
–Lulua, o que está havendo?!– disse em voz alta, colocando-a no chão.
Ka viu, de relance, os pés de Lulua. Ele só os vira uma ou duas vezes, sendo uma delas quando ele a carregou nas costas para sair do penhasco. Desta vez a capa estava mais curta, mostrando suas botas pretas que iam até abaixo dos joelhos, onde a capa terminava. Poderia ter acontecido enquanto lutava com a coisa que estava vindo.
Um rugido virtual foi ouvido e logo após, passos que estremeciam o chão se aproximavam.
–Ah, isso? Não é nada.
Então um grande robô surgiu de trás das árvores.
–Isso não é nada?!!– perguntou apontando para o robô.
Ka a puxou para onde Rehena estava e eles ficaram observando enquanto tentavam ir para o outro lado da rua, lentamente. O gigante robótico pulou por cima da casa destruída e se preparou para atacá-los. Ele vinha em direção a Ka, então Lulua rapidamente entrou em sua frente, sacou sua katana e partiu-o em dois e, passando direto por eles, cada metade por um lado.
–Agora foi!– disse ela embainhando sua katana.
E uma explosão ocorreu atrás deles. O gigante havia de certa forma morrido.
–Agora você pode me explicar o que foi isso?– disse Ka.
–Agora eu posso.– começou ela. –Desde que voltei para casa, o povo disse que aquele robô estava perturbando minha vila. Então eu tive que tomar providências.
–De onde ele veio?– perguntou Rehena.
–Não sei.
–Mais de uma semana se passou. Por que não o destruiu antes?– questionou Ka.
–Ele possuía uma espécie de campo eletromagnético no corpo que não me deixava acertá-lo. O ponto fraco era sua cabeça, não conseguia chegar perto o bastante. Aí você chegou, o distraiu para mim e eu o acertei.
–Ah, então quer dizer que eu servi de isca? Que legal.
–O importante é que já acabou.
–Lulua.– disse Rehena –Onde está todo mundo?
–Ah, sim. Com toda essa confusão eles foram para um lugar seguro perto do rio.
–Qual rio? Aquele em que nós caímos da outra vez?– Ka perguntou.
–Ele mesmo.
–Chama aquilo de lugar seguro?! Só pode estar louca.
–Não, não. Eles estão mais em cima, na nascente do rio.
–Penhasco é penhasco.
–O que vocês estão fazendo por aqui?– perguntou Lulua.
–Nada!– respondeu Ka, secamente, antes que Rehena pudesse responder.
Lulua ficou de cara fechada, desconfiada.
Seu chato, ela pensou.
Ka virou-se e continuou o caminho que seguiam antes, sem esperar Rehena.
–Ei, Ka. Não íamos chamá-la?
–Íamos?!
–Creio que sim.
–Tanto faz. Chamando ou não, ela virá de novo.
–Lulua, quer ir conosco numa nova jornada?– perguntou Rehena.
–Assim tão rápido? Logo agora que meu treinamento entrou em um novo nível?
–Se não quiser vir não importa.– disse Ka.
Lulua correu, parou na frente de Ka e ficou encarando-o. Sem desviar a visão dele, respondeu:
–Eu vou! Você vai ter que me aturar.
–Ótimo.– disse Rehena. –Partimos agora mesmo.
–Agora?! Eu tenho que avisar meu avô primeiro.
–Então vamos. Não temos tempo a perder.
Eles saíram da vila que estava destruída e deserta e seguiram pelo mesmo caminho da outra vez, porém ao chegarem ao penhasco eles não atravessaram, mas seguiram rio acima até chegarem a uma vila numa colina que ia desde o topo do penhasco até sua base, onde ficava o rio. A base era toda cheia de árvores e o penhasco começava ali. Ali era a nascente do rio.
Já era tarde, Ka estava cansado de procurar por um lugar para dormir, Lulua havia ido procurar o avô e Rehena também estava procurando um local. Ele estava andando há mais ou menos uma hora, então decidiu fazer um pequeno descanso, já estava quase chegando ao fundo do vale. Descansou por alguns minutos, se levantou e começou a procurar por Lulua, então escutou um barulho nas árvores, porém continuou andando. Mais a frente um grande foco luz saia de trás das árvores. Ele acelerou o passo e chegou ao fim do vale. Chegara a nascente do rio. Essa nascente possuía um banco de areia no meio do pequeno lago.
–Quem ousa invadir meu vale?– alguém perguntou.
–Seu vale?– Ka perguntou, com um ar de dúvida na sanidade da pessoa que disse aquilo.
Então um raio veio do meio das árvores em direção a Ka. O raio bateu em uma pedra causando uma enorme explosão. Lulua e Rehena, de onde estavam conseguiram ver e ouvi-la e seguiram cada uma por um caminho.
Quem quer que seja, tem uma péssima mira. pensou Ka.
Um homem baixo e decrépito surgiu do nada, com um manto negro como a noite, de cabelos brancos e olhos acinzentados cheios de pés de galinha.
–Quem é você e o que esta fazendo aqui perturbando meu santo lugar?– indagou o senhor com seus olhos inexpressivos.
–Meu nome é Ka.– respondeu. –E você como se chama?
–Eu sou Klaus.– respondeu o senhor enquanto tirava seu capuz.
–Você!– disse Ka apontando para ele. –O velho daquela vez... o avô de Lulua.
Ka se espantou, pois o senhor era a mesmo velho da outra vez. Ele era o velho que contava histórias numa tenda enquanto Ka, Rehena e Talazar comiam. Quando todos saíram, Ka tentou conversar com ele, mas por algum motivo o velho o expulsou.
–Desculpe, não me lembro de você, garoto.
A luz da fogueira não conseguia iluminar Ka totalmente, pois a árvore na qual ele estava ao lado, encobria a luz. Ka deu um passo a frente e o senhor olhou seus olhos. Na mesma hora ele se lembrou.
–Você?
–Sim sou eu.
–O que fazes aqui?
–Assuntos pessoais.– respondeu com rispidez.
–Os seus assuntos pessoais envolvem minha neta novamente?
–Se ela me seguir de novo...
–Pode deixar. Ela não vai te seguir.
–Assim espero.
–Mas vovô...– ela entrou na conversa.
–Nada de “mas vovô”! Desde que esse garoto chegou em nossa vila, aqueles robôs vem nos atacando e nós tivemos que nos mudar. Ainda têm muitos feridos para cuidar.
Aqueles robôs? Mas era um só.
–Não é culpa dele!
–Não importa de quem é a culpa. Você fica!– o velho disse e Lulua baixou sua cabeça. –E você, deve ir embora o mais rápido possível!
Ka se virou e subiu a colina.
–O que houve?– disse Rehena descendo enquanto Ka subia.
–Assuntos de família.– respondeu enquanto puxava Rehena de volta. –Venha. Vamos dormir.
***
Pela manhã, ao acordar e se virar, Ka encontrou Rehena dormindo ao seu lado. Ele se assustou e caiu da cama, fazendo um estrondo que a acordou.
–Bom...– bocejo. –Bom dia, Ka.
Ele fez uma careta como se estivesse perguntando: “O quê? Como assim você aqui?”
–O que foi?– perguntou ainda sonolenta.
–Eu... Nada, Rehena. Nada.
Um pouco mais tarde, eles saíram da aldeia deixando Lulua para trás.
–Lulua não ia conosco?– perguntou Rehena, mas Ka permaneceu calado. –Acho que devíamos voltar e buscá-la.– e novamente Ka não a respondeu. –Ei, Ka. Não vai falar comigo?
Então Ka parou e Rehena logo em seguida.
–Diga algo, garoto!
–Silêncio!
–Não me diga para ficar em silêncio!
Silêncio.
–Ah, cara!– reclamou Ka, e logo após correu de volta a vila.
–Ei, espere por mim!– gritou Rehena enquanto corria atrás.
Enquanto isso, Lulua lutava novamente com outro robô gigante, à beira do lago. Depois de levar uma grande surra, ela recebeu a ajuda do avô. Ele já não era tão jovem como antes, por isso não lutava muito bem, mas conseguia retardar o grande robô.
Ka, que havia chegado, somente observava de trás de uma árvore. Quando Rehena chegou, ele não a deixou passar.
–Está maluco? Eles irão morrer.– disse ela.
–Não, não vão.– respondeu Ka confiante. –Confie em mim... ou melhor, em Lulua.
Uma lembrança veio em sua mente. Rehena já dormia –em sua cama– e Ka ainda acordado, olhava as estrelas pela janela do quarto em que estavam. Era o segundo andar, e seus pés ficavam no telhado de barro. Ele estava sentado na janela, pensando, quando se virou para dentro e percebeu que sua amiga estava sentindo frio. Então desceu e cobriu-a com seu cobertor que a fez confortável. Ao se virar novamente para a janela, Lulua estava a sua espera, sentada.
–Podemos conversar?– perguntou ela sem tirar os olhos das estrelas.
–Claro.– respondeu Ka subindo de volta a janela.
Sentados na janela, eles conversavam sob o luar e o brilho das estrelas.
–Quero ir com vocês novamente.– disse ela como se não houvesse escolha de si.
–Mas seu avô precisa de você.– ele respondeu.
–Meu avô é rígido. Acha que tenho que ficar a minha vida toda aqui. Acha que vou me machucar ou algo assim.
–Ele se preocupa com você. Só quer seu bem.
–Se quisesse, não me deixaria presa.
–Você é a única família dele. Não quer te perder. Talvez ele pense que se você for, pode não voltar mais.
–É... talvez você tenha razão.
–Talvez, é?
–É...talvez.– ela riu.
***
Não lutando bem e com uma péssima mira devido à idade, Klaus não conseguia derrotar o robô. Lulua, caída no chão, não sabia o que fazer e Ka e Rehena assistiam. Klaus lançou uma grande bola de fogo no robô, porém só o que resultou foi uma grande nuvem de fumaça envolta do mesmo. Ele agora não o via mais, então o gigante robô o acertara um soco que o jogou no meio do lago.
–Mestre!!– gritou Lulua e foi correndo para onde ele caíra.
Rehena tentou ir ajudar, mas Ka segurou sua mão e a impediu.
–Deixe-a.– ele disse. –Ela deve fazer isso sozinha.
–Mas...
Ka balançou sua cabeça dizendo que não e Rehena permaneceu ali, imóvel, observando. Lulua corria desengonçada pela água procurando por seu avô, até que ele se levantou tossindo por quase se afogar.
–O senhor está bem?– perguntou enquanto ajudava-o a se levantar.
–Acho que sim.– respondeu tossindo.
O robô gigante procurava seu alvo. Seus olhos vermelhos apontavam para Lulua. Sua visão era amarelada com dois corpos vermelhos à sua frente. Visão de calor. Uma mira acendeu sobre eles dizendo ALVO TRAVADO. Depois ele começou a bipar, e bipou mais e mais rápido, até que seu peito se abriu e lançou um míssil. A força de lançamento foi tão grande, que o robô chegou a dar um passo para trás. Lulua se virou e ao ver que o míssil vinha em sua direção, desembainhou sua katana e cortou-o em dois, na vertical. Uma metade foi para sua esquerda e a outra, pra direita. Ambas explodiram atrás de Klaus, espalhando água para todo o lado. Lulua respirou fundo. O robô rugiu e se preparou para dar um potente soco nela. Em guarda, ela se preparava para atacar no momento certo e quando o robô deu seu grande soco, Lulua pulou e o robô acertou o chão. Ela pousou em sua mão e rapidamente correu por toda a extensão de seu braço até chegar em seu ombro. Deu-lhe o golpe final em seu pescoço e arrancou a cabeça.
Ka se virou.
–Ei, Ka...– chamou Rehena.
–Vamos. Acabou!– respondeu fazendo um gesto com a mão.
Os dois se foram.
O robô decaíra em curto circuito, agonizando até não ter mais forças para se mover. Sua cabeça caíra no lago e explodira.
Ka e Rehena já estavam longe da vila, do outro lado do penhasco.
–E Lulua?– perguntou Rehena. –O que vai acontecer com ela?– e parou.
–Oras.– respondeu Ka e parou mais a frente. –O que você acha?– ele riu.
Lulua passou correndo por Rehena e pulou nas costas de Ka, lhe dando um abraço.
–Então você vem conosco?– perguntou Rehena.
–Claro! Não perderia essa aventura por nada.– respondeu e depois piscou para Ka, que a olhava por cima do ombro.
–E seu avô?
–Ah, ele se convenceu que eu já sabia me cuidar. Mas disse que eu tenho um ano para voltar para casa. Quer que eu volte à tempo para meu aniversário de quinze anos.
–É tempo suficiente.– disse Ka.
Notas finais
---
Revisado por Magdalena Cunha
Fale com o autor