al Chemist

6 Capítulo 5 - O Vampiro e a Gárgula


Eles saíram da vila e andaram muito. Nas redondezas só havia árvores que se estendiam até onde os olhos podiam alcançar. Era como se as árvores se estendessem infinitamente para qualquer lado.

–Você sabe para onde estamos indo, Ka?– Rehena perguntou.

–Bem...não... mas quando chegarmos, vou saber.– respondeu.

Rehena parou.

–Estamos andando há dois dias, sem parar, e você nem sabe para onde estamos indo?!

–Estamos procurando os Devoradores de Almas.– respondeu e parou.

–Mas você nem sabe onde eles podem estar. Nem ao menos sabe por onde começar!

–Vocês duas podem descansar se quiser, eu vou continuar.

–Isso aqui não é um jogo de aventura em que você segue reto para o norte, enfrenta um chefe e termina com tudo!– bronqueou. –Olhe à sua volta!– apontou para Lulua que estava sentada no chão, muito cansada.

Silêncio.

–Tem razão.– disse Ka de cabeça baixa, sem se virar para trás. Lulua o olhou.

–Ei, Lulua.

–O que foi?

–Para onde é o norte?

–Acho que para lá.– Lulua apontou para a direção.

Ka foi até ela e deu sua mão.

–Quer ir para o norte, lutar contra um chefe, ficar mais forte e acabar com tudo?

Ao ouvir isso, seus olhos brilharam de alegria. Então, ela deu um grande sorriso, pegou na mão de Ka e se levantou.

–Está decidido! É para o norte que nós iremos!– disse Lulua.

E eles foram para o norte deixando Rehena para trás.

–Essas crianças...– resmungou Rehena, mas ainda sim, foi junto deles.

Eles andaram bastante pela floresta interminável. Naquela parte, ela era muito escura, só se via o caminho por onde andavam e pequenos raios de sol bem lá em cima que passavam pelas frestas das folhas.

–Ei, Ka.– disse Lulua cansada, quase se arrastando pelo chão.

–O que foi?– respondeu na mesma situação de Lulua.

–Já estamos chegando?

–Ainda não.

–E agora?

–Ainda não.

–Agora?

–Não.

–Agora chegamos?

–Não!

–Me avise quando chegarmos.

–Certo.

Eles viram, mais a frente, uma grande luz. Era a saída! Correram e ao saírem dali, viram um grande castelo muito antigo que aparentava ser mal assombrado. Já era tarde e o sol estava se pondo, o céu estava num tom magenta quase vinho. Eles perderam a noção do tempo enquanto andavam pela floresta escura.

–Lulua.

–Já sei.

–Chegamos.– disse ele sem desviar os olhos do castelo.

Lulua sorriu sem deixar a expressão de cansaço.

À sua frente, em volta do castelo, havia um jardim de árvores mortas, esqueléticas. Elas eram tão velhas que estavam deformadas. Suas deformações pareciam rostos de pessoas gritando. Os olhos, os narizes e as bocas eram buracos ocos que as corujas e corvos usavam como ninho. Os três passavam pelas árvores e centenas de olhos arregalados os acompanhavam. Ka andava calmamente, Rehena, paranóica, apostos para qualquer coisa e Lulua, morrendo de medo, sentindo calafrios sempre que via os olhos direcionados para ela. O chão era composto por excremento de ave e ossos de pequenos roedores mortos. O ambiente tinha um leve odor de morte que invadia as narinas dos jovens. Lulua cobria sua boca e nariz com a mão. Seus olhos lacrimejavam e seu estômago revirava.

–Que lugar estranho.– comentou Rehena.

Dezenas de morcegos rodeavam a torre mais alta do castelo. De longe era uma mancha negra em meio ao céu azul escuro iluminado pela luz da Lua. Eles continuaram em direção à entrada do castelo. A porta da frente era imensa e feita de madeira pesada. O puxador tinha a forma de uma cabeça de gárgula com a argola na boca. Ka segurou o puxador, pesado, e bateu com força na porta fazendo um estrondo que espantou as aves das árvores. Nada aconteceu.

Então, Ka tentou de novo, mais forte. Novamente nada.

Ele ergueu o puxador ao máximo e o jogou para baixo com toda a força. O som pareceu ter ecoado por todo o castelo e a porta talvez tenha tremido um milímetro.

–Será que tem alguém ai, mesmo?– ele perguntou.

Lulua se afastou para trás e olhou para cima, na torre onde estavam os morcegos.

–Acho que sim.– ela respondeu, apontando para lá. –Estou vendo uma luz na janela.

Ka foi ao seu lado ver.

–Tem razão. E como a luz está tremendo, pode ser uma vela.– ele disse.

–Vai ver não pagou a conta de luz esse mês.

–Será que a pessoa nos ouviu batendo na porta?

–Espancando, você quis dizer.

–Ah, se não ouviu, vai ouvir agora.

–O que você...?

–Ei! Abra a porta!– ele gritou e sua voz ecoou pela floresta, mas nada aconteceu.

Os dois ficaram olhando para cima à espera de algo. Então, um estalo muito alto veio da porta e eles se assustaram e olharam rapidamente para ela. Rehena estava segurando a maçaneta e uma pequena fresta na porta estava visível, indicando que ela a abrira.

–Por que estão gritando? A porta está aberta.– ela disse.

Porém a porta era muito pesada, então, os três resolveram empurrar juntos. Quando começaram, uma forte brisa soprou por entre a fresta aberta da porta, tentando empurrá-los para fora. O som que fazia era ensurdecedor, parecia que suas cabeças iam explodir.

–Que vento maluco é esse?– perguntou Lulua gritando.

–Eu não sei, mas parece que ele não quer que abramos a porta!– respondeu Rehena, também gritando.

–Continuem empurrando!– gritou Ka.

A porta se movia lentamente, rangendo, e o vento continuava intenso. Quando a porta estava aberta pela metade, eles a empurraram de uma vez e ela se escancarou. No mesmo momento a ventania parou e eles caíram para frente, no chão empoeirado. À frente deles uma escada larga, com um tapete vermelho, dava numa porta dupla. Eles subiram a escada com o olhar.

Outra porta que venta!

–Vai ver estavam esperando alguém.– disse Rehena.

–Para estar com essa poeira toda, a pessoa não deve ter aparecido.– respondeu Ka.

–Ou não apareceu por estar com essa poeira toda.– completou Lulua.

Os três subiram a escada e pararam em frente à porta. Ka aproximou sua mão da maçaneta, mas a porta se abriu sozinha.

Estranho.

Um forte cheiro de mato saiu daquela sala. Eles se afastaram e um tentáculo saiu rastejando a procura de algo. O tentáculo não era um tentáculo, mas uma raiz de planta.

–Não se mexam.– ordenou Rehena, sussurrando.

Nem precisava ter falado. Eles ficaram imóveis, observando o tentáculo “vegetariano” ir até a porta da frente e fechá-la. Com a força que a porta bateu, parecia que a planta estava nervosa por terem-na deixado aberta. O tentáculo voltou para a sala escura e eles entraram rapidamente antes que essa porta se fechasse também. Ao entrarem e se acostumarem com a pouca luz, viram que aquela sala não era diferente de todo o resto da propriedade, estranha.

O saguão principal era infestado de plantas. Todas eram verdes com manchas roxas. Robustas e com as bocas abertas: plantas carnívoras.

–Isso sim é estranho.– disse Ka, apontando.

Do outro lado da sala, havia uma escada em caracol que subia, provavelmente, para a torre. Os três se olharam. Sabiam o que tinham que fazer, mas o problema era: Como?

–É impressão minha ou o ar-condicionado está ligado?– disse Lulua, esfregando os braços enquanto andava lentamente para o outro lado da sala.

–A espécie dessas plantas carnívoras deve ter sido criada em habitats frios.– Ka estalou os dedos e a ponta de seu indicador e médio, juntos, incandesceram. Ele aproximou seus dedos flamejantes de uma planta, que reagiu com a luz. Era como se ela estivesse acordando de um sono profundo. –E ao que me parece, escuros também.– então, ele soprou seus dedos, que se apagaram e a planta voltou a ficar imóvel.

Depois de andar nas pontas dos pés, para que não pisassem nas raízes das plantas carnívoras, eles conseguiram chegar do outro lado do saguão. Subiram a escada de mármore em caracol que dava no topo da torre. Ela parecia não ter fim, como se o final da escadaria fosse ao céu. Quanto mais subiam, mais degraus surgiam. A torre não tinha janelas. Somente alguns castiçais presos na parede, a maioria sem velas e as que ainda restavam, mal iluminavam o caminho.

–Ei, Lulua.– disse Ka, ofegante. –Não pode usar seu cajado para fazer luz, não?

–Não tenho um cajado.– respondeu, também ofegando.

–Ah, achei que tivesse.

–Não tenho.

–Que pena.

–É. Mas para isso acho que eu precisaria de uma varinha, não um cajado. Os bruxos que possuem varinhas e mesmo que eu tivesse uma, não sei o encantamento de luz.

–Por que você não faz aquilo de novo com os dedinhos, Ka?– Rehena entrou na conversa, na mesma situação dos dois.

–Não sente o cheiro? Pode ser algo inflamável. A não ser que queira ir pelos ares...

–Tudo bem, então.

–Ei.– Ka parou. –Isso significa que estamos chegando.– e então, subiu as escadas correndo desengonçado deixando-as para trás.

–Aposto com você que as pernas dele estão dormentes.– disse Lulua.

–Não mais que as minhas.– Rehena respondeu.

A escada em espiral continuava, mas ela estava ficando avermelhada. Ka sabia que estava se aproximando do topo. Então, ele parou. Uma linha, vermelho-alaranjada, no chão tremia e em cima dela dava pra ver claramente uma porta de madeira. O cheiro era profundo agora, mas não era só o de gases altamente explosivos, era também de outras coisas. Coisas que Ka conhecia muito bem e nunca lembrava o nome.

Ele pegou a maçaneta e quando se preparou para girá-la...

–Ka, espere!– disse Rehena, alto.

Ele parou.

Lulua e Rehena apareceram atrás dele.

–Vamos juntos!– disse Lulua, ofegante.

Ka girou a maçaneta. Com um clique a porta destrancou e ele a abriu. A luz da vela veio em seus olhos. Porém não havia ninguém lá.

–Está vazia.– disse Rehena atrás de Ka.

Na pequena sala havia somente prateleiras nas paredes cheias de potes de vidro. Potes de todos os tamanhos, com líquidos de todas as cores e dentro, todo o tipo de objetos estranhos. Há via um pote com um pequeno tentáculo, mergulhado num liquido verde. Havia outro cheio de pequenos olhos, e mal se podia ver o líquido. Potes vermelhos e violetas brilhavam como se tivessem pequenas estrelas dentro.

Do outro lado da sala, abaixo da janela, havia uma mesa com a tal vela acesa e junto dela, uma pilha de livros grandes e velhos. O fogo dançando conforme a brisa entrava pela janela aberta. Ka foi até ela, enquanto Lulua e Rehena olhavam os objetos estranhos na pequena sala. Ka percebera que os cheiros dos gases eram de Metano e Propano, possivelmente Butano também, embora havia um muito familiar que ele não se lembrava do que era.

Lulua abafou um grito quando avistou um sapo dissecado em cima de uma das prateleiras. Rehena se maravilhava com os artefatos de metal. Ka segurou as abas da janela para fechar. Eles estavam no ponto mais alto da torre mais alta. Para todos os lados do castelo só havia floresta. Bem longe se via as montanhas. A cima da floresta, Ka percebeu um pontinho preto no céu.

O que será aquilo? Mais morcegos?, pensou

–Ei, Ka. Olhe que lindo esse pote.– disse Lulua.

Ele largou as abas e olhou para os livros e viu que o primeiro se intitulava “Alquimia Básica”. Quando se virou, seu coração parou, seu sangue gelou, os pelos de sua nuca se eriçaram e uma gota de suor gelado percorreu-lhe a testa. Suas pernas tremiam e sua respiração estava pesada. Seus olhos arregalados não desviavam do pote que Lulua segurava.

–Lulua...– ele engoliu em seco. –Coloque isso no lugar bem lentamente.

O pote era um pouco menor que os outros e tinha um líquido amarelo oleoso.

Como eu não percebi antes?

–Ka, você está me assustando.

–Por favor, faça o que eu disse.

Rehena olhou curiosa para os dois e colocou de vagar o relógio de prata, que observava, em cima da prateleira de origem. Ele agora ouvia seu coração que batia extremamente rápido. Lulua fez o que Ka lhe dissera: moveu os braços letamente até a prateleira à sua frente. Mas quando o pote estava a meio centímetro acima da prateleira, Lulua o soltou e Ka fechou os olhos com força e levantou os ombros.Nada aconteceu.

Silêncio.

O coração de Ka batia tão alto que ele pensou que as duas talvez estivessem ouvindo. Lentamente, ele abriu os olhos e viu que o pote estava lá, seguro.

–Precisamos sair daqui.– ele disse. –Agora!

–Por que, Ka?– perguntou Rehena.

–Vão para a porta devagar e depois desçam as escadas o mais rápido possível. E mais importante, não toquem em mais nada.

–Será que dá pra você nos explicar o que está acontecendo? Por que você ficou assim de repente?

Ka olhou para o pote dourado.

–Confiem em mim.

Rehena se virou para Lulua, mas ela já estava na porta. Então, fez o mesmo. Ka sentiu algo lá fora vindo em sua direção. Ele olhou pela janela e o pontinho preto agora ficou mais perto e batia asas. Ele se virou novamente e correu em direção à porta. O movimento de seu sobretudo fez alguns potes chacoalharem. Então, ele parou de frente à porta.

–Olha aqui.– disse Rehena descendo as escadas, correndo. –Eu sei que nos conhecemos há pouco tempo, mas esse garoto é maluco. Você o viu lá em cima?

–Não sei não. Aquele pote deve ter algo de que ele tenha medo, sei lá.

–Medo?! Parecia que íamos morrer se você não devolvesse à prateleira.

–Tem razão.

Elas desciam a escada o mais rápido possível, mas mesmo assim não terminava. Um grito foi ouvido lá de cima. Não foi um grito comum, foi um grito de alguma fera selvagem. Alguma coisa que elas não saberiam dizer do que era. A escada começou a ficar fria. Estavam chegando às plantas carnívoras. Ficou iluminada também e quando elas saíram da torre descobriram o motivo: alguém havia acendido as luzes e acordado as plantas. Ambas pararam e cada uma foi para um lado da porta e encostaram as costas na parede. Pensaram em voltar para a escada, mas ouviram algo descendo. Estavam encurraladas. E Ka ainda não havia chegado.

Nesse momento, um vulto vermelho passou por elas, saindo da escada da torre. Era Ka surfando na porta de madeira. Ele voara uns cinco metros à frente e uns três acima, antes da porta se chocar contra uma planta e se transformar em pedaços de madeira. Ka fora jogado ao chão, deslizando no piso.

–Ka...– disse Lulua, mas antes que ela pensasse em sair do lugar, uma grande BUM! saiu da escada.

Escombros flamejantes voaram para fora atingindo as plantas e a passagem fechou. As plantas gemiam, guinchavam... (ah, faziam um som estranho indicando que não estavam gostando de serem queimadas). Elas foram ao chão e viraram um monte de madeira velha, queimada.

Ka se levantou, tonto, e avistou Lulua e Rehena. Ele deu uns passos à frente, porém uma voz ecoou pelo saguão.

–É assim que você trata meu castelo?

Era uma voz firme como a de um executivo de trinta anos. Ka paralisou e se virou. Um homem de capa preta que cobria todo o corpo estava na porta por onde eles haviam entrado. Ela estava aberta. Seus cabelos negros, curtos e revoltos e sua braba crescendo lhe davam a impressão de que havia se isolado do mundo por um tempo, sem falar da pele branca como giz. Lulua e Rehena o avistaram e se maravilharam com o personagem.

–Quem é você?– perguntou Ka. –Olha, me desculpe pelo ocorrido lá em cima e...

O homem abriu os braços com força e sua capa se abriu também. De dentro dela saíram dezenas de morcegos. Seus olhos vermelhos e seus caninos ficaram mais evidentes. Por um momento ele parecia um animal. As garotas se assustaram e temeram. (Agora acredito que não estavam mais tão maravilhadas pelo homem). Então, ele virou pó. Não, espere. Pó não. Morcegos. Dezenas de morcegos. Como se ele fosse um quebra-cabeças que havia se desmontado em dezenas de morcegos que voaram para fora.

–Você pode nos explicar o que está acontecendo agora?!– disse Rehena, alto.

Elas foram em sua direção passando o mais longe possível das plantas restantes.

–Nitroglicerina.– disse Ka com os olhos vagos. –Um explosivo muito instável obtido da reação química da glicerina e dos ácidos nítrico e sulfúrico. Pequenas perturbações podem provocar uma explosão devastadora.– Lulua sentiu seu corpo gelar. Eles poderiam ter morrido e ela nem sabia do risco. –Vamos!– disse e correu para fora do castelo.

Elas correram também. A porta grande da entrada estava escancarada. Ao chegar ao jardim da morte, se viraram para o castelo. A torre havia sumido. Agora era somente uma pilha de pedras em chamas. Os morcegos circulavam o que restava da torre. E então, algo surgiu de baixo das pedras. Era grande, uns dois metros de altura, parecia ter chifres e tinha asas bem grandes, sem falar na cauda. A forma se levantou, sacudiu suas asas e levantou vôo.

–O que é aquilo?– disse Rehena e olhou para Ka.

Ka a olhou e quando voltou à torre, os morcegos haviam sumido.

–É uma gárgula.– disse a voz do homem atrás.

Eles avistaram a gárgula indo embora no céu.

–O que ela quer?– disse Ka. Os três se viraram para o homem.

–Me matar.

–Mas por quê?– disse Rehena.

–Eu era um alquimista. Servi de cobaia voluntária na mansão dos vampiros. Eles tentaram me transformar numa espécie de vampiro sintético, mas algo deu errado e tiveram que me matar, pois eu poderia infectar todo mundo. Consegui fugir e acabei encontrando uma matilha de lobisomens. Os lobisomens tentaram devorar-me, mas quando sentiram o gosto de sangue de vampiro, me jogaram de um penhasco. Depois um velho doido me achou e reconstruiu meu corpo.

–Então você é um... sei lá... “vampirolobenstein”?– perguntou Ka.

–Não necessariamente, mas é por ai.– ele respondeu rindo.

–O que houve depois?– Rehena perguntou.

–Ele ficou velho e morreu. Eu permaneci aqui no castelo. Então, transformado em lobo, toda noite eu ia para a vila aqui perto tentar me socializar um pouco. Certa noite, conheci uma mulher. Ela era bela, diferente, não tinha medo de mim... Então me revelei. Nos apaixonamos. Ela passou a me visitar toda noite. Entretanto, uma bruxa, com sede de poder, queria roubar meus segredos. Ela tentou me seduzir, mas eu sabia o que realmente queria. Ela não gostou quando soube que Zaara e eu estávamos juntos, então, a amaldiçoou. Todos os dias, ao pôr do sol, Zaara se transformava em uma terrível criatura irracional e com um enorme instinto assassino, e vinha tentar me matar. Sem poder nos ver durante o dia e lutando por nossas vidas à noite, a bruxa fez com que nos odiássemos forçadamente.

Eles o olharam ainda absorvendo a história.

–Ah, me desculpem. Eu sou Vaan.– o homem disse.

–Somos Ka, Lulua e Rehena.– Ka disse apontando cada um.

Ka olhou para Lulua. Ela havia estado quieta desde que saiu da torre.

–Não temos tempo.– disse Vaan. –Zaara voltará a qualquer momento.

–Voltará?!– disse Rehena impressionada. –Mas a torre explodiu e caiu em cima dela. Como pôde sair sem ferimentos?

–As gárgulas têm o corpo rígido como pedra. A explosão pode tê-la atordoado, mas a torre foi uma coisa normal.

–Que ótimo.– rosnou Ka.

A gárgula vinha furiosa, próxima às copas das árvores.

–Precisamos segurá-la até o nascer do Sol antes que ela nos mate.– disse Vaan.

–Isso foi bem animador.– disse Ka.

–Espere! Isso significa que você...– disse Rehena.

Lulua ainda estava em silêncio.

–O que você faria se pudesse salvar a pessoa que ama, sabendo que irá morrer tentando?

Rehena calou-se sem resposta. Lulua, então, se deu conta do que estava ouvindo e “acordou”. Ela andou em direção à gárgula, que vinha furiosamente de seu encontro. Quando se preparou para atacar Lulua, Ka lhe abraçou pelas costas e eles caíram no chão. Acima deles Vaan havia se jogado e agarrado a asas da criatura.

–O que deu em você, sua doida?– disse Ka levantando-se e ajudando Lulua a se levantar. –Você podia ter morrido!

–Eu... quase nos matei lá em cima. Só queria ajudar vocês.

–Fazendo uma besteira dessas?!

–Ainda estava em dívida com você por ter me salvado no penhasco. Se eu tivesse que morrer...– Ka a abraçou e ela se calou na mesma hora.

–Que mané dívida. Não é assim que funciona, mesmo que os amigos quase matem uns aos outros.– ele disse com os olhos vazios, pensando no passado.

A palavra “amigos” soou repetidamente na cabeça de Lulua e então ela o abraçou com firmeza afundando seu rosto no peito dele. O som do coração de Ka batendo depressa a fez se acalmar e por um momento esqueceu que estavam no meio de um luta.

Vaan e Zaara lutavam como dois cães raivosos. Ora no chão jogando terra para os lados, ora a dois metros de altura. Eles se socavam, chutavam, cabeceavam, poderiam fazer aquilo durante a noite toda (literalmente). E todos se perguntavam: onde é que o Sol havia se escondido? Então o céu azul escuro começou a ficar arroxeado e indo para um vermelho vivo.

–Você só precisa segurá-la por mais alguns minutos!– gritou Rehena, pois eles já estavam a quase quinze metros no ar.

Lulua os olhava tentando pensar em algo.

–Eles precisam descer. – disse Ka. –À essa altura, Zaara irá se partir em mil pedaços. A não ser que Vaan consiga erguer uma tonelada de pedras e correr para dentro do castelo a tempo. O que seria quase impossível.

Mas já era tarde. A gárgula subia aos céus como um foguete. Ela segurava o vampiro com toda a força. O céu estava laranja claro, o sol estava nascendo. A gárgula subia cada vez mais.

–O Sol está nascendo, por que ela não volta a ser humana?– questionou Lulua.

–Noite após noite, Zaara tentou lutar contra seu instinto Gárgula para desfazer a maldição, mas com toda a ira que ela sentia quando se transformava, seus esforços acabaram sendo em vão.– respondeu Ka.

–Até que a Gárgula dentro dela tomou o controle e se ergueu.– completou Rehena.

–Vaan não sabe disso, não é?– Lulua perguntou.

–Talvez não.– disse Ka. –Ou talvez saiba e não aceite.

–Adeus... Zaara.– ele respondeu com uma voz muito calma.

Os primeiros raios de sol saiam de trás das montanhas, finas linhas de fumaça saiam de Vaan e Zaara começou a virar pedra. Por um momento, Vaan viu Zaara em sua verdadeira forma, brilhando sobre a luz do Sol. Quando o sol em si saiu de trás das montanhas, ele entrou em combustão instantânea e ela se petrificou completamente. A gárgula, petrificada, ainda abraçada aos restos carbonizados do vampiro, caiu de volta, rapidamente. Em poucos segundos já estava perto do chão. Ka, Rehena e Lulua que estavam em baixo, se afastaram correndo. A grande estátua, junto com o boneco de cinzas, se chocou contra o chão. A gárgula se transformara em milhares de pedaços de pedra que voaram para todos os lados e o vampiro virou pó de cinzas.

Eles se levantaram batendo o pó das roupas.

–Vocês estão bem?– Ka perguntou.

–Estamos.– elas responderam juntas.

–Ah, o sol.– disse Lulua, alegre e com os braços abertos.

–Finalmente.– resmungou Rehena.

–Vamos!– disse Ka, voltando para a floresta, onde haviam saído.–Vocês venceram. Vamos dormir um pouco.

Desta vez eles foram à direção que estavam rumando no início.

Notas finais
Irá melhorar!

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Revisado por Magdalena Cunha