Zona Meia-noite
2 Capítulo 1 - Cedric
As pessoas vivem com medo. Isso as faz esquecer das coisas mais importantes que as mantém vivas, como esperança, humanidade, amor... Deve ser por isso que elas estão trancando suas casas agora. É quase meia-noite. Estou andando pelas ruas que estão quase completamente desertas, exceto pelas sombras que passam pelos becos escuros, provavelmente de moradores sem teto. Algumas pessoas me olham das janelas de suas casas, com expressões assustadas.
–Você é louco? — Alguém gritou — Eles irão te pegar, garoto! Se eu fosse você, procuraria um lugar seguro para me abrigar até o amanhecer. — não consegui identificar quem era, mas parecia a voz de uma mulher. O que estava acontecendo?
Olhei meu relógio de pulso. Meia-noite em ponto. Minha vista começou a ficar embaçada, até que não enxerguei mais nada. Senti meu corpo pender para a frente, como um peso morto e meus joelhos baterem com força no chão, causando uma dor estrondante. Então eu simplesmente apaguei.
Acordei algumas horas depois, com as minhas juntas doendo e minha cabeça latejando de forma horrível, como se eu tivesse bebido baldes de tequila noite passada. Demorei alguns momentos para recuperar totalmente a consciência, e levantei vagarosamente.Uma pontada de dor começou a se espalhar pelo meu ombro esquerdo, aumentando cada vez mais. Estava em um beco, em alguma parte de Chester's Mills, enquanto ainda estava amanhecendo. Comecei a andar pelas ruas, confuso, quando vi a cena mais horripilante da minha vida. Haviam várias pessoas mortas, na frente de casas, dentro de carros e jogadas nas ruas, como lixo. Todas elas estavam marcadas com um corte em forma de "C", até mesmo as que haviam sido...Queimadas... O cheiro era insuportável. Senti meus olhos aguarem e tampei a boca com a mão, abafando um grito. Aqui todas as pessoas deveriam desconfiar de todos que tinham o nome que começava com a letra "C". Inclusive eu. Enquanto passava, vi uma mulher falando em frente a uma câmera.
–Estamos ao vivo... Cerca de 10 mortos encontrados até agora... Os suspeitos continuam os mesmos: Casper, Christopher, Collin e Caden — Foi tudo o que eu ouvi, até me afastar.
Passei em frente a uma casa, onde uma mulher estava chorando, ajoelhada em frente a um corpo morto. Ela gritava desesperadamente. Me aproximei para tentar acalma-la.
–Com licença... Você está bem? — a mulher continuou com o olhar fixo no corpo inerte, me ignorando completamente. Talvez devesse a deixar sozinha. Quando me virei de costas para ir embora, a senti agarrar meu braço com força.
–Foi você não foi? Eu te vi vagando pelas ruas a noite — ela dizia em meio as lágrimas, enquanto apertava mais e mais forte meu braço — Que tipo de monstro faz isso? A culpa foi sua! — Ela gritou — Puxei meu braço com força e tentei me afastar, mas a mulher não me soltava. Foi quando dois policiais chegaram e a levaram para longe. Olhei para o meu braço. A marca de seus dedos havia ficado lá.
Senti uma mão tocar o meu ombro esquerdo, e eu soltei um gemido, logo em seguida tampando minha boca com a mão. Estava com medo de olhar para trás.
–Não ligue para Elisa, ela é louca. — Uma voz masculina soprou em meu ouvido. -Meu nome é Collin, e o seu?
Ele finalmente se afastou e apareceu em minha frente. Parecia desconfiado.
–E-eu sou Cedric.
Collin tinha o cabelo castanho cobre, olhos verdes claros intensos e aproximadamente 1,85. Tenho que admitir que ele tinha boa forma física e era bem bonito.
–Sabe, eu nunca te vi por aqui. O que me faz pensar que você não estava mesmo aqui antes, o que é estranho. Não é como se as pessoas fizessem fila para vir morar em Chester's Mills. — disse me olhando fixamente. — Além do mais, o governo não deixam que as pessoas saiam mais. Se deixassem ninguém ficaria, e o que acontece aqui se espalharia como uma praga. O que significa que você esta preso neste inferno, assim como o resto de nós. E você sabia disso, não é? — é claro que eu sabia. Tudo o que acontece aqui é escondido do resto do mundo. Eu vim aqui para ficar camuflado e fugir do meu passado. Mas Collin não precisava saber disso.
–Sim eu sabia. Acho que curiosidade é a palavra mais adequada para explicar o porquê eu estou aqui.
Collin analisou minha resposta por um momento, me encarando com o olhar frio. Seus olhos me davam arrepios.
–Você é estranho. — ele disse como se fosse a coisa mais normal do mundo.- Se você quiser um lugar para ficar, eu tenho um quarto de visitas sobrando lá em casa. Você poderia ficar lá até se instalar melhor. — não parecia uma má ideia, apesar de ser um pouco suspeito da parte dele. Afinal, ele poderia ser o assassino.
–Erm... Claro, por que não?
–Ótimo. — Collin foi me arrastando em direção a casa dele como se eu fosse um saco de lixo. Ele parecia bem calmo com tudo o que estava acontecendo. Aquilo foi extremamente estranho. Mas não protestei. Não iria arriscar passar mais uma noite nas ruas.
Sua casa era um sobrado branco com uma decoração meio rústica. Parecia ser meio antiga.
–Bem... é aqui. — ele disse abrindo a porta da frente e revelando uma sala de estar maior do que eu imaginava. — Venha. — Collin me levou até o andar de cima. — Sabe, aqui é a outra parte dessa porra de cidade que também é denominada de "zona meia-noite". Bom... fique a vontade. — Disse saindo do quarto.
Eu deveria segui-lo, descobrir se ele é o assassino. Acho que ele foi para a garagem. Minhas pernas não querem se mexer, sinto meu corpo rígido. Tenho que descobrir algo.
Engoli em seco e consegui descer as escadas até onde Collin estava.
[...]
–Sim, eu matei aquela vadia para você. — Collin dizia com uma voz mais ríspida que o normal. — Eu também... Sim, aquele filho da... — a porta grossa da garagem abafa as palavras, não estava escutando muito bem. — E aquela idiota... Sim, eu sei disso... Todas as provas apontam para ele...
Não conseguia raciocinar muito bem, estava tremendo, com os olhos arregalados. O ouvi desligar o telefone e subi rapidamente as escadas do sobrado, tentando não fazer barulho. Talvez eu devesse ir embora. Porém, se eu pegasse o assassino, depois de tanto tempo, seria tratado como um herói. Só era necessário eu ganhar a confiança de Collin, e então seria fácil. Toda a sorte estava ao meu favor.
Ouvi uma batida na porta e logo em seguida entrou Collin, sorrindo e sentou-se na cama do quarto. Ele me encarou um bom tempo, com os olhos arregalados parecendo estar em transe. Tudo o que eu podia fazer era encarar de volta.
–Você viu? Desconfiam de mim! — ele parecia alarmado. — Você acha que fui eu que matei eles?
Não sabia o que falar, então apenas sentei em seu lado, respirei fundo e me preparei para contar uma mentira.
–Bom, a este ponto, eles desconfiam de todos. Seria normal desconfiarem de você também. Todavia, não acho que seja você. Tenho a impressão de que é uma boa pessoa. Quem quer que seja este tal de "C" deve ser um lunático que deveria estar em algum hospício. Como poderia ser você? — espero que ele tenha caído nessa.
Collin deu um sorriso aliviado, e logo em seguida saiu do quarto, sem dizer mais nada. Eu estava suando frio. Por que ele me trouxe para casa afinal? Ele pode estar apenas esperando o momento certo para fazer de mim sua próxima vítima. O próximo corpo estirado no chão com um "C" causador de pânico geral. Eu estava ferrado. Precisava sair de lá, esfriar a cabeça. Talvez descobrir alguma coisa sobre a cidade.
Desci as escadas e encontrei Collin dormindo no sofá. Perfeito, não precisaria dar nenhuma explicação. Sai pela porta e fui andando até a praça principal. Lá eles faziam o funeral dos mortos, e os queimam. Não há mais espaço para corpos nos cemitérios da cidade. E eu sabia como acabar com tudo isso. Ah sim, eu sabia. Eu só precisava de provas contra Collin. Pense Cedric, pense.
A cada pessoa que passava chorando, eu sussurrava "meus pêsames". Era o mínimo que eu podia fazer. Algumas pessoas me agradeciam, já outras me olhavam com caras de desprezo, ou até me abraçavam, como uma garotinha fez. Quando eu sussurrei, ela simplesmente abraçou minhas pernas. Ela parecia estar sozinha. Pelo amor de Deus, ela devia ter o que? Cinco anos?
–Hey, vai ficar tudo bem ok? — comecei a acariciar sua cabeça.
Naquele momento, eu não fiquei triste. Na verdade, foi muito diferente disso. Eu fiquei enfurecido. Iria acabar com o sofrimento de todos, nem que morresse tentando.
Collin iria pagar por tudo isso.
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