Zerstören
6 Capítulo 6 - Memórias
Notas iniciais
Capítulo 6 – Memórias
[Sábado, 31 de outubro de 1981, 02h32]
James trancou a porta, respirou fundo e atravessou a sala de Alastor Moody, caminhando precisamente na direção do armário atrás da mesa. Tocou o buraco da fechadura com a varinha duas vezes e murmurou a senha. Em seguida, um estalo proveniente do interior do armário anunciou que este havia sido aberto com êxito. James puxou as duas portas com cuidado e seus olhos finalmente encontraram a Penseira de Albus Dumbledore.
O diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts havia deixado a Penseira sob custódia do Quartel, algumas semanas antes, para que os aurores pudessem investigar uma memória de um suposto Comensal da Morte recém-capturado. Além disso, por conta dos atentados recorrentes das últimas semanas, Dumbledore estava trabalhando com a Ordem da Fênix em tempo integral, tendo deixado Hogwarts temporariamente sob os cuidados da vice-diretora, a Profa. Minerva McGonagall.
Depois de colocar a Penseira sobre a mesa de Olho-Tonto Moody, James tateou o bolso interno de suas vestes e retirou dali um vidro fino, dentro do qual se estendia um fio prateado e ondulante. Ele hesitou por um momento, fitando a memória em suas mãos, sendo involuntariamente tomado por uma série de lembranças.
Poucas horas antes, ainda na noite de sexta-feira, um Patrono irrompera a sede da Ordem da Fênix, trazendo a notícia de que houvera uma explosão no vilarejo bruxo de Sherwood. Em tempos como aqueles, nenhuma explosão em nenhum lugar poderia ser tratada como um mero acidente. Imediatamente, todos os presentes na sede se encaminharam para o vilarejo. No caminho, James pediu a Sirius para enviar um patrono a Caradoc Dearborn, um auror e membro da Ordem que morava na pequena cidade, pedindo para que ele fosse verificar o que acontecera.
Mas a explosão havia acontecido na casa dele.
Quando os membros da Ordem da Fênix chegaram à Sherwood, encontraram um grande incêndio em uma das ruas centrais. Bruxos e bruxas corriam desesperados para todo o lado, apontando para as nuvens acima de suas cabeças. A Marca Negra iluminava o céu escuro, a casa de Caradoc estava em ruínas e ele jazia desfigurado sob as pedras.
Após passarem horas investigando a pequena propriedade e não encontrarem qualquer pista dos motivos para o ataque, os aurores e os membros da Ordem presentes tiveram de desistir de andar em círculos. Não havia mais nada ali. E não podiam ficar todos concentrados em um único local, enquanto havia uma guerra pelo resto do país. Além do mais, alguns deles precisavam começar a preparar a cerimônia fúnebre e outros precisavam entrar em contato com a família de Caradoc.
Mas James resolvera permanecer na região dos escombros. Seu cérebro havia estagnado com a informação de que mais um amigo estava morto. Remus insistira para que ele fosse para casa, mas sua sugestão jamais chegou a ser cogitada. Em pouco tempo, o único membro da Ordem que restara ali com ele fora Albus Dumbledore. Haviam decretado o toque de recolher e o vilarejo estava completamente silencioso.
“Receio que não haja mais nada por aqui, James.” Dumbledore declarou, por fim. Àquela altura, a Marca Negra já estava se desfazendo pelas nuvens. “Vou levar o corpo comigo. Não demore para voltar à Ordem. Precisamos nos organizar para o velório de Caradoc.”
James quase contestou a decisão do homem, afinal, como Dumbledore poderia transportar consigo um corpo completamente carbonizado? Mas antes que pudesse formular uma pergunta, ele viu um feixe laranja sair da ponta da varinha de Dumbledore e se estender na direção do que restara do corpo de Caradoc. A luz alaranjada o envolveu por inteiro.
“Não é seguro ficar aqui, James.” Dumbledore voltou a falar. “Voldemort claramente pretende assassinar todos os membros da Ordem. Já perdemos Dorcas, os Bones, os Prewett e agora Caradoc.”
“Não se preocupe. Em breve voltarei à sede.” James afirmou, sem tirar os olhos do cadáver circundado pela proteção laranja.
Dumbledore desaparatou, levando o corpo consigo. Finalmente sozinho, James permitiu-se desabar. Seus joelhos se chocaram contra o chão e ele fechou os olhos com força. Não fez nenhuma diferença, afinal, tudo estava escuro. Todas as luzes do vilarejo haviam sido apagadas com o toque de recolher. E o céu nublado não permitia que a Lua irradiasse sua luz prateada.
Foi quando James reabriu os olhos que tudo aconteceu. A poucos metros de distância, no local onde o cadáver de Caradoc Dearborn anteriormente estava, havia algo cintilante no chão. Era o único ponto luminoso dos arredores e era impossível não notá-lo ali. James estreitou os olhos por trás dos óculos para tentar enxergar, à distância, o que poderia ser aquilo. Mas não conseguiu identificar.
Era um fiapo de memória deixado por Caradoc, antes de morrer. E se James tivesse ido embora com Dumbledore, minutos antes, provavelmente ninguém chegaria saber da existência daquela substância mágica.
James sacudiu a cabeça e voltou a encarar o conteúdo da bacia sobre a mesa de Moody. Dando-se conta de estava perdendo tempo demais com devaneios, ele abriu o vidro, virou-o de ponta cabeça sobre a Penseira e despejou nela a memória de Caradoc. O líquido branco-prateado e fumegante se agitou quando entrou em contato com o fio mágico. Em seguida, James inclinou-se sobre a bacia e respirou fundo.
De repente, a sala de Moody começou a rodopiar em volta dele e tudo ficou escuro. James viu-se em uma sala sem qualquer iluminação e, por um momento, pensou que algo estivesse errado. Mas ao espiar o vidro da pequena janela, James reconheceu aquele céu nublado: ele estava no cômodo no qual Caradoc Dearborn provavelmente estivera preso, dentro de sua própria casa, no vilarejo de Sherwood.
James estava vivenciando os últimos momentos da vida do amigo.
Um ruído nas taboas do assoalho chamou sua atenção. Ele abaixou a cabeça para ver e encontrou Caradoc, de bruços, tentando se mexer com muito esforço. James rapidamente percebeu que ele havia sido torturado e, muito possivelmente, espancado. Em poucos minutos, os olhos de James se acostumaram à baixa iluminação e ele pôde ver que o rosto de Caradoc estava completamente ensanguentado.
Seu primeiro impulso foi o de que querer ajudá-lo. Mas, naturalmente, qualquer tentativa não faria a menor diferença. Tudo aquilo pertencia a uma lembrança e James não passava de um fantasma invisível naquele cenário. Tomado por um terrível sentimento de impotência ao ver o amigo tentar se arrastar pelo chão, James se perguntou qual era a intenção de Caradoc ao extrair aquela memória. Mas a resposta não tardou a vir.
– Esse idiota não vai nos dizer nada, milorde. – disse uma voz masculina, um tanto familiar, proveniente do outro lado da porta. – Já tentei de tudo.
– Agora é que não vai mesmo, Mulciber. – respondeu uma voz fria, mais distante. James se aproximou da porta trancada para poder ouvir melhor. – Você acabou de arrancar todos os dentes dele.
Houve um silêncio. James estava com a orelha muito próxima à porta, tentando captar qualquer som do lado externo daquele cômodo.
– Milorde, se quiser que eu finalize o serviço para o senhor, farei isso com o maior prazer. – disse uma voz feminina. James também a conhecia, afinal, perdera as contas de quantas vezes duelara com Bellatrix Lestrange.
– Não se preocupe, Bella. Você já fez sua parte descobrindo o endereço desse traidor do sangue. Tenho outros planos para ele.
– Não vai matá-lo, milorde?
– É claro que vou. – Voldemort vociferou. – Mas pretendo mandar um recado a Dumbledore. Já estou cansado de usar minha varinha para eliminar os seguidores dele. Quero mostrar à sociedade qual o lado mais poderoso. Quero mostrar a todos o que vai acontecer àqueles que insistirem em apoiar o lado... mais fraco.
James ouviu passos. Alguém começara a caminhar de um lado para o outro, do lado de fora. Aproveitando o momento de silêncio, James virou-se para espiar Caradoc por cima do ombro. Ele parecia estar sentindo muita dor na região da cabeça, pois tentava tocar as têmporas com ambos os dedos indicadores. Mas James não conseguiu olhá-lo por muito tempo. Vê-lo agonizar daquela maneira sem poder fazer qualquer coisa provocava-lhe uma sensação horrível.
– Vamos queimá-lo. E depois, queimar a casa. – Voldemort decidiu.
James ouviu a risada aguda de Bellatrix.
– Podemos fazer o mesmo com os McKinnon amanhã? – ela perguntou, ansiosa.
– Amanhã é o dia que nossos ancestrais puro-sangues comemoravam o Samhain, Bellatrix. – Voldemort lembrou-a, num tom ríspido. – Por isso, Bulstrode nos convidou para um banquete em sua casa, em Godric’s Hollow. O sobrinho dele passou no teste e vai se juntar a nós, vou marcá-lo com a Marca Negra antes do jantar. Preciso de novos espiões no Ministério, já que Dolohov fez o favor de ser apanhado.
– Um imprestável. – Bellatrix concordou.
– Agora não vamos perder mais tempo. – a voz fria do Lord das Trevas soou mais distante. James imaginou que ele estivesse se afastando na direção oposta à sala na qual Caradoc estava preso. – Mulciber, quando eu começar a incendiar a casa, conjure a Marca. Bellatrix, verifique se há alguém passando pela rua.
James ouviu Bellatrix abrir a porta da frente e fechá-la quase no mesmo segundo.
– Não há ninguém.
Houve mais um ruído no assoalho. Caradoc havia se virado de barriga para cima, as mãos ainda segurando a cabeça na altura das têmporas. Sua expressão era de puro sofrimento. James ouviu passos atrás da porta e soube que alguém estava caminhando naquela direção. Caradoc também notara a aproximação e, ainda deitado, jogou o corpo para o lado e deu as costas à porta, sem tirar as mãos da cabeça.
Sem entender muito bem o que Caradoc estava tentando fazer, James caminhou até o amigo. Contornou-o e, quando se postou diante dele, compreendeu. Caradoc estava tentando extrair a memória sem fazer uso da varinha, a qual provavelmente havia sido tomada por Voldemort. No instante em que o fio prateado começou a sair de sua testa, a porta da sala foi escancarada.
E então, aquela sala mal iluminada começou a girar e a desvanecer gradualmente. James ergueu a cabeça da Penseira e, no mesmo impulso, desabou na cadeira de Moody atrás dele. Sua mente fervilhava com todas as informações contidas naquela lembrança. Ele mal conseguia coordenar sua respiração para atender aos batimentos cardíacos acelerados.
Acabara de descobrir que William Bulstrode era um Comensal da Morte. James lembrou-se de ter cruzado com ele em um corredor do Ministério naquela mesma semana. Ele havia lhe apresentado o sobrinho, um garoto tímido e muito acima do peso, recém-formado em Hogwarts. E ele jamais teria desconfiado dos dois.
James teve de se esforçar para conseguir afastar aqueles pensamentos indignados sobre o espião recém-descoberto. Havia uma informação muito mais importante naquela memória. Voldemort e todos os seus seguidores estariam na casa de Bulstrode naquela mesma noite. E o melhor de tudo era a ideia de que eles estariam distraídos, celebrando o Samhain. Seria a situação perfeita para serem pegos de surpresa.
E foi assim, graças à ajuda de Caradoc Dearborn, que James elaborou, naquela madrugada, o plano que iria emboscar os Comensais da Morte e derrubar Lord Voldemort.
–--
[Segunda-feira, 14 de novembro de 1982, 14h20]
A ausência de James no Quartel naquela segunda-feira indicava duas coisas para Sirius Black. A primeira era que o amigo não iria comparecer ao Departamento de Aurores pelo resto daquela semana, assim como ele não o havia feito durante toda a semana anterior. E a segunda era que, se James continuasse não comparecendo, Olho-Tonto Moody repassaria seu cargo à Lily Evans sem qualquer hesitação.
– A região de Penrith cresceu muito nos últimos quatro anos. – ela explicava, inclinada sobre a grande mesa redonda do Quartel. Em seguida, ela fez uma pausa e moveu o dedo indicador por cima do mapa que estava estendido pela superfície. Fenwick, Shacklebolt e Hestia acompanharam seu dedo com os olhos. – Pelo que li num periódico trouxa no fim de semana, o governo deles construiu duas novas estradas, que vão daqui até aqui. Foram inauguradas há poucos meses. Por isso estamos tendo tantos problemas com Estatuto de Sigilo pela região. Vocês já repararam que quase todos os dias nós recebemos chamados de famílias bruxas dessas redondezas, pedindo o nosso auxílio e o da Central de Obliviação?
– Você tem razão. – Hestia concordou, sem tirar os olhos do mapa. – Eu não tinha reparado que todos os últimos casos aconteceram nesse raio de cem quilômetros.
– Esse é um dos males da aparatação. – Evans falou, séria. – Perdemos a noção de distância.
Sirius não pôde evitar um rolar de olhos. Ele definitivamente estava farto de ouvir aquela voz falsamente serena decretando verdades absolutas o dia inteiro.
O fato era que, embora ele, Marlene, Alice e Peter tentassem impedir o que estava acontecendo, Lily Evans tinha dentro de si um espírito de liderança que nenhum deles possuía. Após o falecimento de Dorea, James não comparecera mais ao Ministério e Sirius, que normalmente ocupava o lugar do amigo quando ele tinha alguma tarefa externa, viu-se perdendo sua posição de líder gradualmente toda vez que Evans surgia com uma solução genial para qualquer problema que surgia.
– E se obstruirmos as estradas? – Fenwick sugeriu. – Podemos forjar um desmoronamento, ou qualquer catástrofe natural. Os trouxas sempre aceitam acidentes naturais como explicação para tudo.
– Não. – Evans recusou na mesma hora. Ergueu a cabeça para olhar Fenwick nos olhos. – Você sabe quanto tempo eles levam para construir uma estrada, já que não têm magia? Você tem ideia da quantidade de dinheiro público que eles investiram nessas obras? – houve um silêncio desconfortável. – Nós precisamos ter mais consideração pela sociedade trouxa, Ben. Não é culpa deles se os bruxos não se importaram com as consequências do crescimento dessa região. Agora cabe a nós consertarmos o nosso erro.
Quando Evans terminou de falar, Shacklebolt a fitou com um olhar de pura admiração. Do outro lado da sala, Sirius cruzou os braços e desejou poder falar tudo o que estava pensando. Desejou que fosse James quem estivesse ali, explicando os procedimentos a serem conduzidos pelos demais. Mas era como se sua falta nem fosse sentida pelos outros aurores. E Sirius não conseguia suportar a ideia de que, mesmo depois de tudo o que Lily Evans havia feito, a presença dela fosse tão bem aceita por alguns colegas.
– Então devemos proibir que joguem Quadribol nas proximidades das estradas? – Fenwick indagou, um tanto descrente. – Devemos sugerir aos habitantes da região para que não usem magia fora de suas casas?
– Mas é claro que não, Ben. – Evans respondeu, calmamente. – Só precisamos criar uma barreira ilusória daqui até aqui. – ela voltou a apontar o mapa. – E aumentar os feitiços de proteção desse lado. Lógico que, para isso, precisaremos de muitos bruxos. Mas pode dar certo.
Com um toque da varinha, Evans transferiu as sugestões que acabara de proferir ao pergaminho. Fenwick, Shacklebolt e Hestia tornaram a abaixar a cabeça para conferir e a mesma expressão de concordância iluminou seus rostos.
– Vou levar o projeto para Moody aprovar. – Shacklebolt tomou a iniciativa.
Evans concordou com um aceno breve. Shacklebolt apanhou o mapa e saiu apressadamente da sala. Sirius continuou observando os colegas à distância, sem ocultar seu ar de clara reprovação.
– Bom, nós ainda precisamos atender a esse chamado aqui. – Hestia mostrou à Evans um memorando que tinha na mão. Fenwick balançou a cabeça positivamente. – Voltaremos assim que resolvermos.
Hestia e Fenwick seguiram o mesmo caminho de Shacklebolt. Pelo canto do olho, Sirius assistiu Lily Evans organizar alguns rolos de pergaminho sobre a mesa, distraída. Mais uma vez, ela estava trajando vestimentas tipicamente trouxas. Por que ela insistia em deixar escancarado em suas próprias roupas o fato de que não pertencia àquele lugar?
Sirius continuou analisando-a meticulosamente, como se estivesse procurando a deixa para desmascará-la. E Evans não demorou a notar seu olhar atento. Ela parou tudo o que estava fazendo e levantou a cabeça para devolver-lhe o mesmo olhar retilíneo e ininterrupto. Seus olhos faiscaram.
E então, a porta da sala foi aberta e Evans interrompeu o contato visual para ver quem havia chegado: era Kingsley Shacklebolt. Mas ele não entrou, permaneceu junto ao batente e segurava o mapa sobre o qual haviam acabado de discutir.
– Comecei a explicar a Moody sobre o projeto, mas ele me interrompeu para perguntar quem o tinha elaborado. – Shacklebolt fez uma pausa para abrir um sorriso triunfante. – Quando eu disse o seu nome, ele disse que não precisava ouvir. Mandou-me entregar direto ao Conselho do Bom Relacionamento Entre Bruxos e Trouxas.
Evans pareceu temporariamente sem reação.
– Bom, então faça isso, Shacklebolt. – foi sua resposta, seca e direta.
Shacklebolt abriu outro sorriso de admiração antes de puxar a maçaneta da porta e voltar a cerrá-la.
Evans tornou a virar a cabeça na direção de Sirius. Ele não havia deixado de observá-la em nenhum momento, mesmo durante a breve interrupção de Shacklebolt. E, naquele instante, ele percebeu que fazia mais de dois anos desde a última vez em que encarara aqueles olhos verdes por tanto tempo.
– Satisfeita? – Sirius finalmente fez a pergunta que queria fazer desde o início da semana anterior. Ele se aproximou e parou de frente para ela, mantendo a mesa redonda entre os dois. – Satisfeita com tudo isso?
– Com isso o quê? – ela rebateu, arqueando uma sobrancelha.
E ela ainda se sentia no direito de se esquivar com seu cinismo. Aquilo apenas serviu para intensificar seu rancor.
– Não é possível que você não sinta um pingo de remorso. – Sirius começou, sem precisar parar para pensar. Aquelas palavras estavam remoendo sua garganta desde o segundo em que ela voltara a colocar os pés no Quartel. – Não é possível que, depois de tudo o que você fez ao James, você ainda tenha coragem de voltar aqui e tirar a única coisa que sobrou na vida dele.
Evans certamente percebeu a raiva em seu tom. Mas tudo o que ela fez foi inspirar fundo sonoramente e continuar a encará-lo sem piscar. Após alguns instantes, ela umedeceu os lábios pálidos e ofereceu-lhe uma réplica:
– Você está insinuando que, ao ter trabalhado mais de doze horas por dia na última semana, eu tenho como objetivo apenas afetar James?
Sirius começou a contornar a mesa, lentamente, com os olhos fixos nela. Como alguém poderia ser tão hipócrita?
– Não. – ele falou, friamente. – Eu estou insinuando que você não tem caráter e não se importaria em foder ainda mais com a vida dele.
Quando Sirius parou ao seu lado, Evans girou o corpo para ficar devidamente de frente para ele. Ela certamente notou seu olhar perigoso. E, por mais que ela desejasse desesperadamente ocultar qualquer sentimento, Sirius convivera com ela tempo o suficiente para captar sua tensão.
– Isso não é sobre James, Sirius.
– O que eu não entendo, Evans – Sirius inclinou-se sobre ela, obrigando-a a encurvar-se ligeiramente para trás. – É o que você tem a ganhar com tudo isso. Você já fodeu com tudo há dois anos. Então por que voltou? Para foder com o que sobrou também?
Evans assumiu uma expressão ultrajada. Como se houvesse se ofendido com o que ele dissera. Mas Sirius sabia que era puro fingimento, como todas as outras reações que ela transparecia. Sirius aproximou-se ainda mais. Ele queria intimidá-la, fazer com que ela desistisse daquele teatro e fosse franca de uma vez.
– Lily? Sirius?
A troca de olhares era tão intensa que nenhum dos dois notou que Remus Lupin havia adentrado a sala. Sirius endireitou a postura e se afastou alguns passos, claramente contrariado. Evans permaneceu atordoada por alguns segundos. E, muito lentamente, ela voltou a se virar para frente.
– Tudo bem em Hogsmeade? – ela indagou, tornando a mexer nos rolos de pergaminho sobre a mesa.
– Tudo resolvido. – Remus respondeu, seus olhos alternando entre Sirius e Lily, como se tentasse adivinhar sobre o que estavam conversando segundos antes.
Sirius não gostou do ar reprovador que o amigo recém-chegado abertamente exalava. Principalmente porque, nos últimos dias, Remus tratava Lily Evans como se nada jamais houvesse acontecido. Como se ela não os tivesse abandonado sem qualquer explicação, no pior momento da guerra. Como se ela não tivesse destruído a vida do melhor amigo dos dois, James.
Remus seguramente detectara o clima pesado pelo qual o ambiente estava tomado. Por este exato motivo, antes que o silêncio se tornasse absolutamente torturante, ele decidiu quebrá-lo.
– Lily, eu também preciso te avisar. – ele começou, um tanto receoso. Sirius instantaneamente adivinhou o que viria a seguir e direcionou ao amigo um olhar indignado. Ele não podia acreditar. – Eu não poderei vir trabalhar amanhã.
Mas por que Remus estava se justificando à Lily Evans como se ela fosse o Auror Capitão? Todos no Quartel sabiam das condições de Remus e nunca lhe cobravam satisfações quando ele precisava se ausentar, por conta da Lua Cheia. Então por que ele estava ali, se explicando, como se precisasse de permissão? Ou como se Lily Evans possuísse o direito de negar que ele faltasse ao trabalho?
– Eu sei, Remus. – Evans disse. Sirius viu uma pequena linha ao lado de sua boca se encurvar para cima, formando algo semelhante a um meio-sorriso. – Aliás, tenho algo para você.
Evans começou a andar na direção do armário junto à parede. Passou por Sirius, mas não o olhou. Abriu a porta dupla e apanhou um frasco redondo, cuja entrada estava vedada por uma rolha de cortiça. Em seguida, Evans voltou a andar, daquela vez, na direção de Remus.
– Beba isso antes de jantar. – ela entregou-lhe o frasco. – Você vai se sentir um pouco melhor amanhã, quando acordar.
Remus aceitou o recipiente de bom grado, sendo assistido sob o olhar inconformado de Sirius. Ele não podia acreditar que Remus estivesse mesmo agindo daquela forma. Aquela expressão de gratidão em seu rosto era praticamente um insulto à dor de James. Um desrespeito ao sufoco pelo qual eles passaram durante o último ano da guerra, quando Evans lhes virara as costas.
– Obrigado.
Remus colocou a mão sobre o ombro dela, fazendo com que Evans se retraísse, surpresa.
– Preciso voltar à Sala de Preparos. – ela subitamente se lembrou, um tanto nervosa. – Deixei algumas penas de Jobberknoll¹ cozinhando. Até.
Evans adiantou-se para a saída, sem olhar para trás. Quando voltaram a ficar sozinhos na ampla sala do Quartel, Sirius avançou alguns passos na direção do amigo, afunilando as pálpebras para poder lhe dirigir o olhar mais sombrio e acusador que era capaz de oferecer.
– Você não pode estar falando sério. – Sirius teve de controlar o volume de sua voz, pois já sentia uma imensa revolta circular em suas veias. – Você não vai beber essa merda, cara. Você não faz ideia do que ela pode ter colocado aí e–
Mas Remus não estava minimamente interessado em ouvir o que Sirius tinha para dizer. Sem sequer esperar o amigo terminar seu discurso, ele deu meia volta e saiu da sala também.
–--
[Segunda-feira, 14 de novembro de 1982, 20h02]
– James, abra essa merda! Eu sei que você está aí.
Sirius chocou o punho contra a porta mais uma vez. Encostou a testa na madeira e esperou.
Quase um minuto se passou sem que nada acontecesse. E então, Sirius socou a porta com força novamente. Imediatamente sentiu uma dor latejante nos ossos da mão, mas não se arrependeu de ter aplicado aquele soco. Precisava fazer James acordar. Precisava fazer com que James ouvisse o que ele tinha a dizer.
E então, a porta foi destrancada pelo lado interno. Sirius esperou que James a abrisse e o mandasse entrar. Mas, mais uma vez, nada aconteceu.
Lentamente, Sirius a abriu e se deparou com a sala do apartamento do amigo no mais completo caos. A mesa de centro havia desaparecido sob os milhares de copos vazios, garrafas de whisky e pratos sujos. Havia roupas espalhadas pelo sofá e embalagens de comida vazias pelo chão. O apartamento exalava um odor forte de cigarro e mofo. A iluminação fraca proveniente do fogo baixo da lareira deixava tudo ainda mais carregado.
Sirius encontrou James largado em uma poltrona. Ele vestia apenas as calças largas do pijama e segurava um cigarro entre os dedos, com os olhos fixos no fogo. E a barba por fazer em seu rosto dava-lhe uma aparência ainda mais negligente.
Aquela era a primeira vez em que o via desde o enterro de Dorea. James não saíra mais do apartamento desde então.
– Chega, James. – Sirius começou, andando até ele. – Já chega disso. Você precisa voltar ao Quartel. Você precisa voltar a viver.
James piscou algumas vezes, mas não respondeu. A brasa do cigarro já havia alcançado o filtro, portanto ele o atirou nas chamas da lareira depois de tragá-lo pela última vez.
– Não adianta você fingir que eu não estou aqui, Prongs. – Sirius continuou. Enterrou as mãos nos bolsos para esconder seu nervosismo. – Você tem todo o direito de sofrer pela perda da sua mãe, mas você não pode se entregar desse jeito. Já chega! O Quartel está uma merda, Evans está assumindo o controle de tudo e ninguém fala nada! Até Moony passou para o lado dela! E se você não voltar logo, é possível que Moody a nomeie Auror Capitão ainda essa semana!
– Foda-se. – James retrucou, indiferente.
– Foda-se? É isso que você tem a dizer? – Sirius explodiu. – Vá se foder você, James! Você está se afundando num buraco que não tem mais volta! E isso não tem nada a ver com Dorea, ou com as perdas da guerra. Isso está acontecendo desde que ela foi embora!
James levantou os olhos para ele.
– Sirius, quer fazer o–
– EU AINDA NÃO TERMINEI! – Sirius se impôs, tomado por uma fúria que estava reprimida havia muito tempo. – Já chega de perder sua vida por algo que não tem mais volta, James! Lily não vale a pena, ela sequer se importa com o que te causou! Ninguém mais aguenta seu mau humor, cara! Você se tornou uma pessoa chata pra caralho! E agora, depois de dois anos te aturando desse jeito, todo mundo está desistindo de você! Moony está se afastando e se aproximando dela! Peter voltou a se isolar no estoque de poções do departamento e não conversa direito com ninguém! Emmeline já cansou de dar murro em ponta de faca! Você está afastando todo mundo de você, será que não percebe? ACORDA, PRONGS!
Quando acabou de falar, Sirius percebeu que estava ofegante. Mas James permanecia impassível, na mesma posição, encarando-o de modo impenetrável.
E, diante daquele silêncio afrontoso e potencialmente infinito, Sirius resolveu desistir. James não iria se abrir, não iria lhe dizer nada. Ele sequer parecia chocado ou afetado com o que acabara de ouvir. E não havia mais nada que pudesse ser feito.
Sirius deu meia volta e se dirigiu à porta.
– Não sei se você sabe, mas hoje é noite de Lua Cheia. – ele avisou, girando a maçaneta. – Esperamos que você apareça. Tchau.
– Sirius.
Sirius tornou a se virar para ele, com uma expressão interrogativa.
– Minha mãe me deixou uma memória. – James contou. Seu olhar voltou a se perder nas chamas da lareira. – Dumbledore a entregou para mim, àquela hora, no cemitério.
Sirius rapidamente se lembrou do momento em que estavam indo embora do cemitério, quando Dumbledore se aproximou e chamou James para conversar em particular.
– E o que tinha nela? – perguntou Sirius.
James passou a mão pelos cabelos.
– Não sei, eu ainda não a coloquei na Penseira.
– Não? – Sirius soltou a maçaneta e avançou sobre a poltrona na qual James estava acomodado. – E por que não?
– Porque, segundo a carta que minha mãe enviou a Dumbledore, é sobre Lily.
Ao ouvir aquele nome, Sirius murchou os ombros. Por que aquela mulher estava em todos os lugares, sendo que a intenção dela era a de desaparecer da vida de todos?
– E o que mais tinha nessa carta?
– Não sei. Dumbledore não me mostrou.
– Então você precisa ver essa memória logo, James! – Sirius decidiu. – Talvez sua mãe soubesse de alguma coisa sobre o que a Lily andou fazendo nesses últimos anos, já parou para pensar? Talvez seja algo que podemos usar para tirá-la do Ministério de uma vez! Se sua mãe deixou isso para você antes de morrer, com certeza deve ser muito importante, Prongs!
James suspirou pesarosamente.
– Sei disso. Mas não sei se quero saber o que é. Não quero mais me envolver com nada que esteja relacionado a ela, não me faz bem, não quero...
– James, sinto muito, mas você não tem opção. – Sirius pontuou. Fez uma pausa pensativa, e James fixou os olhos nele e aguardou pelo desfecho daquele raciocínio: – Não se trata mais só do relacionamento de vocês, cara. Ela está assumindo o controle do Quartel, um dos setores mais importantes do Ministério! Se ela se aliou às trevas e ainda estiver metida com aquele amiguinho dela, as coisas podem voltar a piorar, você sabe bem disso. Você sabe o que houve com Voldemort, você sabe que–
– Não, Sirius. – James elevou o tom de voz. – Essa memória não tem nenhuma relação com Voldemort ou a guerra, disso tenho certeza. Se minha mãe soubesse de qualquer coisa a respeito, ela teria me dito na hora, na época. É por isso que não entendo... não consigo fazer ideia do que pode ter na memória. E, honestamente, eu não sei se quero saber.
– Bom, de uma coisa eu sei: se Evans assumir a liderança, eu vou cair fora. Peter também, tenho certeza. Mesmo que ela nunca tenha se aliado a Voldemort, eu não confio nela. – Sirius concluiu, tentando não transparecer sua desesperança, embora fosse inevitável. – Então trate de voltar e ocupar seu lugar no Quartel. Agora, levanta daí, vá tomar um banho e vamos à casa do Moony.
Sirius estendeu a mão a James, oferecendo-lhe apoio para se reerguer. E, após alguns segundos de hesitação, James a aceitou.
–--
[Terça-feira, 15 de novembro de 1982, 06h27]
James trancou a porta, respirou fundo e atravessou a sala de Alastor Moody, caminhando precisamente na direção do armário atrás da mesa. Tocou o buraco da fechadura com a varinha duas vezes e murmurou a senha. Em seguida, um estalo proveniente do interior do armário anunciou que este havia sido aberto com êxito. James puxou as duas portas com cuidado e seus olhos finalmente encontraram a Penseira de Albus Dumbledore.
Ele viera direto da casa de Remus, assim que sua transformação terminara. Ainda tinha todos os arranhões e feridas abertas, resultantes da longa noite, mas não sentia qualquer resquício de dor. Havia adrenalina demais percorrendo sua corrente sanguínea naquele momento. E fora a força daquela adrenalina que o impulsionara a estar ali.
James puxou o vidro com a memória de suas vestes, abriu-o e assistiu ao fio prateado se misturar com o conteúdo da Penseira. Em seguida, ele se debruçou sobre a mesa e mergulhou o rosto na bacia.
A sala de Alastor Moody começou a se fundir com uma luz muito clara. Em pouco tempo, todo o cenário ao redor de James se transformou em um corredor largo, de paredes brancas, iluminado por muitas velas que pairavam pelo teto, muito acima de sua cabeça.
James virou o rosto para procurar por Dorea e finalmente reconheceu o local onde estava. Era o Hospital St. Mungus. E a porta diante de seus olhos era a mesma porta do quarto no qual ele ficara internado, dois anos antes, quando fora atingido pelo feitiço de Avery bem do lado esquerdo peito.
Os passos no fim do corredor interromperam seus pensamentos. Dorea Potter se aproximava, trajando vestes púrpuras de tafetá, com seus cabelos escuros salpicados de fios grisalhos presos num coque firme atrás da nuca e seu chapéu cônico perfeitamente inclinado para a direita, como ela costumava usá-lo. James sentiu um aperto por vê-la caminhar na sua direção, tê-la ali, tão próxima, e sequer poder tocá-la.
Dorea abriu a porta e entrou no quarto. James a seguiu. Mas a cena com a qual se deparou intensificou ainda mais a contração dos músculos de seu coração.
Ele viu a si mesmo no leito hospitalar, completamente inconsciente. E, como se o choque de ver a si próprio naquela situação já não fosse forte o bastante, havia mais: Lily estava sentada, ao lado de sua cama, segurando uma de suas mãos. Sua aparência era frágil, exausta, como se estivesse há muito tempo sem se alimentar e dormir devidamente.
– Alguma novidade? – Dorea perguntou, olhando para o filho desacordado.
Lily finalmente virou-se para encará-la. James reparou que seus olhos estavam injetados e lacrimosos, exatamente como ficavam quando ela chorava por muito tempo.
– Nenhuma. – a voz de Lily estava tão fraca quanto seu semblante. – Amy disse que tudo o que podemos fazer é esperar. Mas ela pediu para não alimentarmos muitas esperanças. Ele pode ficar assim por meses, talvez anos.
Dorea levou as mãos ao rosto, desolada. Pouco tempo depois, James pôde ouvi-la abafar um choro.
– Meu filho... – a Sra. Potter se aproximou da cama, afastando as lágrimas com as costas da mão.
Ficaram em silêncio, ambas com os olhos voltados para James.
– Conversei com Dumbledore mais cedo. – Dorea voltou a falar e Lily se virou para ouvir. – Ele me contou que Você-Sabe-Quem e seus seguidores estão perseguindo todos os nascidos-trouxas que trabalham no Ministério. Depois do ataque de semana passada, muitos resolveram ir embora.
Lily crispou os lábios, um pouco desconfortável.
– Sim. Mas isso não é novidade, eles sempre tiveram os nascidos-trouxas como alvo.
Mas Dorea não estava apenas papeando. James a conhecia muito bem, ele conhecia aquele olhar ameaçador, aquele método de abordagem claramente premeditado. Ela estava acusando Lily.
– Sirius me contou que James se jogou na frente do feitiço, para proteger você. – ela continuou, mirando Lily com uma reconhecível aversão. – Meu filho é um bom homem, Lily. Bom demais para morrer desse jeito. Não concorda?
Lily soltou a mão dele e se levantou. Ela estava nitidamente abismada e, ao mesmo tempo, receosa com o que a sogra ainda tinha a dizer.
– Concordo. – ela respondeu, de cabeça erguida. – James é uma pessoa maravilhosa. E ele vai sobreviver.
A Sra. Potter deu um passo à frente, ficando a menos de um metro da nora.
– Você o ama, Lily? – ela sussurrou a pergunta, semicerrando os olhos. – Você o ama de verdade?
– Sim.
– Mas será que ama mesmo? – falou Dorea, com desprezo. – Afinal, você está aqui, mesmo sabendo que sua presença significa um risco para ele.
– Estou aqui porque não vou deixá-lo sozinho, Sra. Potter. – Lily contestou, num tom definitivamente mais hostil.
– Veja bem, Lily. – a Sra. Potter pigarreou. – Eu não tenho absolutamente nada contra o seu... status sanguíneo. Eu sinceramente não me incomodei com isso quando James começou a namorar você e eu jamais me incomodaria se não estivéssemos em guerra. Mas você infelizmente não teve a mesma sorte de ter nascido como nós. Você acha justo que, por sua causa, James tenha de estar constantemente em perigo?
– James é um auror, Sra. Potter. – Lily cerrou os punhos, devolvendo à sua mãe o mesmo olhar implacável.
– James é auror porque você é auror, em primeiro lugar! – Dorea alterou-se consideravelmente. – Antes de vocês começarem a namorar, ele estava prestes a assinar o contrato com o Wigtown Wanderers! Ele resolveu mudar de ideia porque você o influenciou!
O queixo de Lily despencou.
– Eu nunca pedi para que ele mudasse de ideia. – Lily piscou diversas vezes para dissipar as lágrimas que surgiam pelos cantos dos olhos. – James é um homem de ideais, ele nunca conseguiria ignorar uma guerra como essa para ir jogar quadribol! Nós vimos o poder das Artes das Trevas crescer em Hogwarts, bem debaixo do nariz de Dumbledore! Como você esperava que James ignorasse o que estava acontecendo e fosse viver uma vida alienada na Escócia? Ora, por favor, Sra. Potter! Tem certeza de que a senhora conhece mesmo o seu filho?
– Como você ousa dizer que eu não conheço o meu filho? Coloque-se em seu lugar! – Dorea ficara muitíssimo ofendida. Seu peito arfava copiosamente e seus olhos brilhavam em fúria. James temeu que ela avançasse para cima de Lily a qualquer momento. – Você não é mãe, você não faz ideia do que eu estou passando tendo que ver meu filho de vinte anos deitado nessa cama de hospital! Você não tem ideia do que é ver seu filho trocar a segurança de ser puro-sangue para viver uma vida miserável somente para defender a raça da namoradinha da adolescência! Eu já tolerei essa situação por tempo demais, Lily, e eu não estou disposta a perder meu único filho para uma guerra da qual ele sequer precisava fazer parte! Tudo o que está acontecendo aqui é culpa sua!
James foi tomado por uma sensação de profunda impotência por não poder interferir naquele discurso tão irracional. E, ao perceber que Lily começara a chorar, encurralada entre a cama, a parede e Dorea, James quis abraçá-la para nunca mais soltar. Quis gritar para que ela não desse ouvidos à sua mãe.
– Ouça, Sra. Potter, sinto muito se–
– Cale-se! – Dorea ordenou. – E não adianta começar a chorar, eu não vou me comover com essa ceninha. Saia daqui! Deixe-me sozinha com meu filho e não volte nunca mais! Vá procurar outros sangue-ruins para lutar com você e deixe meu filho em paz!
Lily se desvencilhou de sua mãe, atravessou o quarto e saiu. Não olhou para trás. Ela se foi tão rapidamente como se tivesse aparatado. E assim que desapareceu atrás da porta, o cenário começou a se desfazer.
James viu-se novamente na sala de Moody. Exatamente como da última vez em que estivera ali, diante de uma Penseira, ele desmoronou na cadeira do chefe e foi tomado pela mesma sensação de torpor. Seus músculos latejavam. Inúmeros sentimentos se misturavam dentro dele. Sentiu raiva de sua mãe e sentiu-se culpado por isso. Sentiu empatia por Lily, mas, ainda sim, a raiva por ela tê-lo abandonado ainda predominava. Sentiu-se, acima de tudo, absolutamente sozinho.
E toda aquela mistura de sentimentos fervilhando dentro dele converteu-se num incontrolável acesso de choro.
–--
Naquele momento, Mundungus Fletcher presenciava algo que ele julgou ser absolutamente trivial. Mas, um dia – e ele nunca poderia imaginar que esse dia não tardaria a chegar –, o que ele estava vendo iria mudar as vidas de James Potter e Lily Evans para sempre.
Fale com o autor