Zerstören

7 Capítulo 7 - Barreira


Notas iniciais
Oi, queridos! Dedico esse capítulo às leitoras Sá Potter (u/210384/) e Pokie (u/270260/), que escreveram recomendações INCRÍVEIS para Zerstören. Queridas, as palavras de vocês serviram de combustível para que esse capítulo finalmente fosse concluído. Muito obrigada! ♥ Criei uma playlist para a fanfic, quem quiser acompanhar a leitura ouvindo-a, aqui está o link: http://meu.vagalume.com.br/carollair/playlist/5997968/ RESUMO DAS DATAS: 23 de setembro de 1980 – Batalha contra os cinco Comensais na qual James é estuporado. 26 de setembro de 1980 – Lily é vista pela última vez, no Cabeça de Javali 30 de setembro de 1980 – James acorda no Hospital St. Mungus, sozinho. 30 de setembro de 1980 – James vai procurar por Lily no apartamento que ela dividia com Dorcas. 22 de outubro de 1982 – Moody anuncia o retorno de Lily ao Quartel. 05 de novembro de 1982 – Dorea Potter morre. Agora, o capítulo!

Capítulo 7 – Barreira

[Sexta-feira, 18 de novembro de 1977, 18h53]

Emmeline Vance não pôde evitar um profundo suspiro ao girar a maçaneta. Um suspiro ansioso. Atrás da porta recém-aberta, ela encontrou o amplo dormitório feminino do sétimo ano. Havia apenas uma pessoa ali, parada diante de um espelho na outra extremidade do quarto: sua melhor amiga, Lily Evans.

— Emme! – Lily a chamou assim que a viu, através do reflexo do espelho. Girou o corpo e virou-se para saudar a amiga. – Onde você estava?

Um pouco desconcertada, Emmeline começou a enrolar uma mecha loura que caía sedosamente sobre seu ombro direito.

— Desculpe, eu perdi a hora, Lily... – ela começou, lançando um olhar significativo à amiga. – Eric queria me encontrar antes do treino de quadribol da Lufa-Lufa, sabe, mas acabamos encontrando uma sala vazia e perdemos a hora...

Ao contrário da bronca que estava esperando receber, Emmeline respirou aliviada ao ouvir a risada de Lily ecoar pelo ambiente. Foi então que finalmente reparou que a amiga já estava pronta. Exceto pelos cabelos ruivos, que estavam soltos e displicentes como o habitual, Lily estava completamente diferente do que costumava estar durante a rotina da semana. Em vez do uniforme de Hogwarts, Lily trajava um bonito vestido preto, meias-calças da mesma cor e sapatos vermelho-escuros. Seu pescoço estava envolto por uma fina gargantilha de veludo, na qual uma pedra precisamente da mesma cor dos sapatos estava pendurada, formando um conjunto elaboradamente bem combinado. Típico de Lily.

— Lily, você está linda! – Emmeline resumiu o que via, levando as mãos à boca. – Já está pronta? Já são sete horas?

Quase.— Lily respondeu, alisando o vestido nervosamente, tentando esconder sua ansiedade. – Você viu se ele já estava me esperando na sala comunal? Aliás, você acha que eu deveria passar batom? Acha que está faltando alguma coisa, por favor, seja sincera–

Emmeline riu do desespero da amiga.

— Não vi James na sala comunal. Mas não ouse pensar que ele mudou de ideia. – acrescentou, forçando-se a ficar séria ao ver que Lily arregalara os olhos. – Sair com você é tudo o que ele sempre quis, você sabe! Quero dizer, a escola inteira sabe! Agora, sobre o batom, eu definitivamente não recomendo, a não ser que seja aquele da nova coleção da Madame Bouche, que “não sai e não borra nem com um beijo de dementador”.

Lily não segurou o riso, mas balançou a cabeça negativamente, insinuando que Emmeline estava redondamente enganada ao pensar que beijar James Potter fazia parte de seus planos para aquele encontro.

— Ora, Emmeline, por favor, nós só vamos conversar...

— Ah, sim, claro, depois daquele beijo no campo de quadribol no sábado passado, realmente, Lily, esse encontro vai ser pura conversa...

O rosto de Lily foi tomado por um rubor descomunal.

— Eu falei para ele que ele não deveria ter feito aquilo, eu só tinha ido cumprimentá-lo pela vitória da Grifinória! Além disso, eu... – Lily se interrompeu ao dar uma olhada para o relógio de pulso. – Meu Deus, Emme! Faltam dois minutos para as sete horas. Dois minutos!

— Então respira fundo e desce logo!

Mas Lily murchou e baixou os olhos, sendo repentinamente tomada por algum pensamento que a deixou séria e ligeiramente desconfortável. Emmeline assumiu uma expressão confusa ao reparar que a amiga mordia o lábio inferior. Lily não lhe dirigiu o olhar ao perguntar:

— Você está mesmo o.k. com tudo isso, não é?

E então, Emmeline compreendeu o que havia causado aquela mudança tão drástica no clima anteriormente divertido e amigável.

— Lily, ouça. – Emmeline esperou que a amiga finalmente voltasse a encará-la para continuar: – Eu já te disse tudo isso anteontem, mas não ligo de repetir. Eu e James saímos uma vez, três anos atrás. O que eu senti por ele, se é que eu realmente senti alguma coisa, já passou há muito tempo. Eu e Eric estamos juntos há quase um ano e eu nunca gostei tanto de alguém como gosto dele; nem se compara com qualquer outro cara com quem eu já tenha saído antes. E você sabe de tudo isso melhor do que ninguém!

Sim, Emme, mas você foi super apaixonada pelo James nos primeiros anos da escola! – Lily tinha um tom de desculpas, o rosto ainda corado. – Por isso a ideia de eu sair com ele ainda me parece ser tão... errada.

Errada? – Emmeline sorriu com sinceridade, admirando a preocupação de Lily. – Por Merlin, Lily, o que eu tive com James foi coisa de criança! Depois ter saído com Albert Bell por seis meses ano passado e estar namorando o Eric agora, posso te afirmar isso com certeza. Errado seria você deixar de sair com ele por causa disso! Além do mais, James sempre foi apaixonado por você!

Lily finalmente pareceu convencida. Emmeline olhou para os olhos verdes da amiga e notou que eles brilhavam numa mescla de felicidade e alívio.

— Desculpe-me por ter voltado a esse assunto, Emme. – Lily recomeçou, tomando as mãos de Emmeline e olhando em seus olhos. – Mas você é minha melhor amiga e não quero que nada estrague isso. Nossa amizade é muito importante para mim.

Lily talvez nunca soube o quanto aquelas palavras mexeram com Emmeline. Emmeline sentiu seus olhos começarem a arder e, numa tentativa de esconder a formação repentina das lágrimas e driblar sua súbita dificuldade de formular uma resposta à altura, ela abraçou a melhor amiga com força.

— Você já está atrasada, Lily. – Emmeline disse, após alguns segundos, soltando-a do abraço.

— Merlin, você tem razão! – Lily passou as mãos pelos cabelos três vezes. – Está bom assim? Será que–

— Sim, você está ótima! Agora vai logo!

Emmeline empurrou Lily pelos ombros até a saída do dormitório.

— Me deseja boa sorte?

— Você não precisa de sorte, Lily. – Emmeline abriu a porta e continuou empurrando a amiga. – Você só precisa parar de colocar barreiras entre você e James.

Emmeline talvez nunca soube o quanto aquelas palavras mexeram com Lily. A ruiva ponderou por um segundo e abriu um sorriso deslumbrante para a amiga. Em seguida, Lily iniciou sua descida rumo ao seu primeiro encontro com James Potter.

Quando Emmeline fechou a porta atrás de si e escorou suas costas contra sua superfície, seus pensamentos ainda estavam absortos em Lily e James. E ela se sentiu sinceramente satisfeita ao se dar conta de que, de fato, a possibilidade dos dois iniciarem um relacionamento duradouro lhe provocava sentimentos unicamente felizes.

—--

[Quinta-feira, 18 de novembro de 1982, 10h23]

Emmeline Vance não pôde evitar um profundo suspiro ao girar a maçaneta. Um suspiro pesaroso. Atrás da porta recém-aberta, ela encontrou a ampla sala do Quartel General de aurores. Havia apenas uma pessoa ali, parada diante de uma mesa redonda no centro do cômodo: sua antiga melhor amiga, Lily Evans.

Fazia quase um mês desde que recebera a notícia de que Lily havia retornado ao Departamento de Aurores. No entanto, conseguira evitar aquele encontro até aquele momento. Até o momento em que o seu departamento, o de Execução das Leis da Magia, recebera uma tarefa do Departamento de Aurores por intermédio do Conselho do Bom Relacionamento Entre Bruxos e Trouxas. E somente quando algumas dúvidas surgiram dentre os membros de sua equipe, Emmeline viu que a auror que criara o projeto pelo qual ela se tornara responsável era Lily Evans.

Lily virou a cabeça na direção da porta no mesmo instante em que Emmeline a abriu. Ela pareceu momentaneamente aturdida com a inesperada visita, mas ergueu a cabeça e retribuiu o olhar firme, aguardando silenciosamente a explicação que ela sabia que não tardaria a vir.

— Bom dia. – Emmeline a cumprimentou, num tom inapropriadamente cordial. – Preciso tirar umas dúvidas com você sobre o projeto da região de Penrith. Você está com tempo livre agora?

Alguns memorandos de cor lilás ainda voavam ao redor do enorme lustre sobre a mesa redonda, mas Lily balançou a cabeça positivamente, aparentemente incapaz de fazer uso da própria voz para responder. Apesar de ter observado aquela estranha falta de reação, Emmeline manteve sua postura imponente.

— Você elaborou um projeto para proteção do Estatuto do Sigilo em Magia para a região de Penrith. – Emmeline colocou os pergaminhos com o conteúdo do planejamento diante de Lily, sobre a mesa. – Mas esse projeto tem como base sete tipos diferentes de Feitiços Antitrouxas e três Feitiços Ilusórios, dos quais um deles ninguém do meu departamento tinha ouvido falar até então. Além disso, você colocou aqui que todos os feitiços devem ser lançados simultaneamente por dez bruxos, posicionados a dez quilômetros de distância um do outro, para formar uma barreira ultra extensa de cem quilômetros. Você quis dizer isso mesmo? Cem quilômetros? Isso é possível?

Lily demorou meio segundo para finalmente voltar a se mexer. Ela confirmou com um aceno.

— Sim, é possível.

— Mas isso nunca foi feito antes.

— Nunca foi feito porque nunca tentaram.

Houve uma breve disputa de olhares. O discreto choque que inicialmente havia tomado conta das reações de Lily já não mais existia. Agora ela exalava a mesma imponência e impassibilidade que também circundavam Emmeline.

— Certo. – Emmeline voltou a olhar os pergaminhos sobre a mesa. – Então precisamos de algumas explicações. – com um aceno de varinha, ela conjurou uma pena e um tinteiro, que flutuaram diante dela. – Primeiro, qual a vantagem de erguermos uma muralha tão extensa em vez das pequenas, mas numerosas, barreiras de proteção estabelecidas pelo Padrão de Proteção Máxima de territórios habitados por bruxos?

— Existe uma grande diferença entre a região de Penrith e as outras regiões protegidas pelas barreiras do Padrão de Proteção Máxima. – Lily começou, serenamente, e a pena conjurada por Emmeline apressou-se a registrar suas palavras. O som daquela voz serena produzia uma sensação nostálgica incompreensível. – Penrith se tornou um importante centro comercial para os trouxas nos últimos anos e atualmente se encontra em um momento de constante expansão. Para protegermos os povoados bruxos que existem nas vizinhanças, sem ter de alterar a memória de qualquer pessoa ou ter de passar por cima da comunidade trouxa, precisaremos construir uma barreira ilusória sem espaçamentos, que cerque todos os vilarejos mágicos. Do contrário, os trouxas continuarão encontrando espaço para a região crescer entre as frestas das pequenas, mas numerosas, barreiras de proteção que você acabou de mencionar. É importante ter em mente que...

Emmeline não estava mais ouvindo. Não ouvia mais nem a pena encantada riscando freneticamente o pergaminho. Ela permitiu que seus pensamentos se afastassem do projeto, de Penrith e das barreiras de proteção antitrouxa. Mergulhou em várias lembranças antigas, dos tempos da escola, nas quais Lily lhe explicara diversas atividades acadêmicas com aquele mesmo ar professoral. Lembrou-se de Lily lhe pedindo conselhos sobre rapazes, lembrou-se de quando Lily fora seu único ombro amigo após o término dolorido de seu primeiro namoro, lembrou-se de Lily abraçando-a ao final do primeiro duelo contra Comensais da Morte, poucos dias após terem se formado em Hogwarts. Lembrou-se de como Lily chorou naquela noite, lembrou-se da amiga lhe confessar o quanto tinha medo de perdê-la, perder James...

— Como você está? – Emmeline subitamente ouviu-se perguntar, voltando ao presente. Acenou com a varinha para fazer a pena parar de registrar tudo o que diziam e o objeto caiu inanimadamente sobre a mesa.

Lily piscou algumas vezes, incerta se ouvira bem.

O quê?

— Eu quero saber como você está. – Emmeline repetiu, com muita clareza.

Mas Lily ainda não parecia ter compreendido. Lançou-lhe um olhar demorado, como se estivesse avaliando se Emmeline quisesse mesmo receber uma resposta. Emmeline manteve-se impassível e aguardou.

— Estou bem. – respondeu Lily, por fim. – Você?

Emmeline suspirou, arqueando as sobrancelhas, assumindo uma aparência desanimada.

— Eu não sei. – falou, honestamente. – Tudo estava bem até pouco tempo atrás. Ou eu achei que estava. E então, você voltou. O que é bom, porque pelo menos eu descobri que você está viva. Mas você voltou e... é como se nem tivesse voltado. Você não veio me procurar. Não tentou se aproximar de nenhum de nós, não nos contou nada sobre o que aconteceu. Nada.

Lily apenas baixou os olhos e passou a mão aleatoriamente pelos pergaminhos sobre a mesa.

— Você não pretende nos contar, não é? – Emmeline continuou, notando que Lily não faria qualquer comentário sobre seu desabafo.

— Não.

Nunca?

Lily apanhou um dos pergaminhos.

— No momento, acho que seria mais prudente se resolvêssemos esse impasse sobre a Proteção–

— Lily. – Emmeline tomou o pergaminho de sua mão e o jogou sobre a mesa, sem tirar os olhos do rosto da antiga amiga. Lily lançou um olhar atento para o pulso que Emmeline havia acabado de usar para afastar o pergaminho, como se não acreditasse em sua ousadia. Emmeline, porém, não deixou-se abalar: – O que aconteceu com você? Você não pode, ou você não quer nos contar?

Elas se encararam por um momento. Olhar para os olhos de Lily Evans após dois anos acreditando que nunca mais os veria despertara alguma coisa em Emmeline. Durante o primeiro ano sem notícias de Lily, ela sentira uma mescla de saudades com raiva. Mas desde que começara a namorar James, Emmeline passou evitar ao máximo pensar em Lily. Pois além do vazio que seu desaparecimento deixara e da raiva que sentia por ter sido abandonada inexplicavelmente, surgira também um novo sentimento insuportável: a culpa. James havia sido, afinal, o namorado de sua melhor amiga.

— Que diferença faz, Emmeline?

Emmeline retornou de seus devaneios, mais abalada do que nunca. Seu coração estava disparado.

— Toda! – exclamou ela, deixando seu lado emocional tomar conta. Não havia planejado aquela discussão, mas agora que a havia iniciado, decidira falar tudo o que guardara. – Faz toda a diferença! Você não querer contar é uma coisa. Não poder, é outra. Se você quer nos contar, mas não pode... talvez eu possa ajudar!

Lily expirou sonoramente.

— Não, Emmeline, você não pode. – disse ela, com a voz mais suave. – Não há nada a ser ajudado.

— Então você simplesmente não quer contar, é isso?

Pela primeira vez durante aquela conversa, Lily pareceu irritada.

— Sim, é isso. Meus motivos não lhe dizem respeito. – então ela direcionou os olhos para os pergaminhos e voltou a manuseá-los. – Agora, se pudermos continuar com isso, seria ótimo. Acabou de chegar outro memorando e eu preciso continuar meu trabalho.

Emmeline teve pouco tempo para ficar indignada com a frieza de Lily. A ruiva retomara sua explicação sobre os Feitiços Antitrouxas como se não tivesse havido qualquer interrupção. Emmeline não falara mais nada, apenas ouviu-a, esforçando-se para prestar atenção, enquanto a pena encantada voltava a transferir ao pergaminho tudo o que Lily dizia.

— Você tem mais alguma dúvida? – ela encerrou sua explanação com a pergunta.

— Não. – negou Emmeline, empilhando todos os pergaminhos e abraçando-os contra o peito. – Muito obrigada.

Lily não respondeu. Convocou um memorando, abriu-o e começou a lê-lo, indiretamente deixando claro que a conversa das duas havia terminado. Mas Emmeline ainda estava demasiadamente incomodada. Apesar de desprezar a atitude de Lily de negar-lhes qualquer explicação sobre seu desaparecimento, Emmeline ainda sentia-se, de alguma forma, em débito com ela.

Lily lhe devia uma explicação e recusara-se a dizê-la. Emmeline também lhe devia uma, apenas uma, e descobriu que não conseguiria agir como Lily. Ao contrário da antiga melhor amiga, Emmeline possuía princípios irrefutáveis. A vontade de ter sua consciência tranquila era muito maior do que a vontade de pagar-lhe na mesma moeda, optando por ser igualmente desprezível, fingindo que nada houvesse acontecido.

Foi quando Emmeline chegara à porta do Quartel que ela tomou sua decisão. Tornou a se virar para trás, encontrando Lily parada na mesma posição, lendo o mesmo memorando.

— Lily. – chamou-a.

Ela abaixou o papel lilás e encarou Emmeline mais uma vez. Sua feição era dura e impenetrável.

— Sim?

— Eu não sei se você já está sabendo... – começou Emmeline, escolhendo suas palavras cautelosamente. – Mas eu estou namorando James. Faz um ano.

Algo quase imperceptível mudara na expressão de Lily durante um brevíssimo instante. Se Emmeline tivesse piscado na fração de segundo que sucedeu a palavra “ano”, ela não poderia ter visto. Mas ela não piscou. Ela viu os olhos de Lily se arregalarem um milímetro e voltarem ao normal logo em seguida. Viu-a comprimir minimamente os maxilares e relaxá-los antes que seu rosto apresentasse qualquer alteração. Seu imperceptível desequilíbrio desapareceu sem deixar vestígios, tão rapidamente quanto surgira.

— Por que você está me dizendo isso? – perguntou, sob a mesma postura que mantivera durante toda a conversa.

A resposta para aquela pergunta era absolutamente clara para Emmeline.

— Porque não quero que pense que eu nutria qualquer sentimento por ele, enquanto vocês estavam juntos. Eu nunca o olhei de outra forma, naquela época. – Emmeline fez uma pausa, procurando ser o mais honesta possível. – Não estou lhe dizendo isso para atingi-la, Lily. Só estou lhe contando isso em nome da amizade que tivemos no passado. Porque, para mim, ela foi verdadeira.

Lily apenas fitou-a em silêncio. Depois de ter absorvido todas as informações, ela voltou a ler o memorando em suas mãos.

A conversa havia sido encerrada definitivamente.

Quando Emmeline fechou a porta atrás de si e escorou suas costas contra sua superfície, seus pensamentos ainda estavam absortos em Lily e James. E ela se sentiu sinceramente insatisfeita ao se dar conta de que, de fato, a possibilidade de Lily ainda sentir alguma coisa por ele lhe provocava sentimentos unicamente infelizes.

—--

[Quinta-feira, 18 de novembro de 1982, 17h23]

— Evans, Moody quer ver você.

O aviso de Kingsley Shacklebolt cortou o Quartel General, sobrepondo-se sobre todas as vozes. Lily Evans interrompera sua explicação à Marlene McKinnon e a Remus Lupin no mesmo instante.

— Agora?

— Agora.

Ela abandonou os documentos que segurava sobre a mesa, contornou-a e saiu do aposento, sendo seguida pelo rapaz recém-chegado. No entanto, os aurores que haviam permanecido no local não voltaram imediatamente às suas tarefas interrompidas. Todos se entreolharam, curiosos.

— Espero que ele a demita. – Alice Longbottom confessou em voz alta.

— Acho difícil, Alice. – Benjamin Fenwick palpitou, lançando um olhar triunfante a Sirius Black, que estava encostado junto à lareira do outro lado da sala, de braços cruzados. – É mais provável que ele a nomeie Auror Capitão de uma vez.

Ao perceber a leve provocação, Sirius se aproximou de Marlene e Remus, que haviam permanecido parados, junto à mesa redonda. Lily Evans estivera discutindo com eles sobre o possível paradeiro de um bruxo foragido chamado Robin Mould. Quando Sirius chegou, ele percebeu que os amigos conversavam aos cochichos.

— Ela está estranha hoje... – comentava Marlene, casualmente, tentando ocultar sua apreensão.

— Eu também percebi. – Remus concordou. – Está distraída demais, não achou?

Mas Sirius não estava minimamente interessado em Lily Evans.

— Você não precisava ter vindo hoje, Moony. – disse, de repente, olhando diretamente para uma cicatriz recente que riscava o lado esquerdo do rosto de Remus.

— Eu vim porque já me sinto melhor. Não foi Lily quem me obrigou a vir trabalhar.

Sirius e Remus se encararam.

— Aliás, Sirius, como está James? – Marlene os interrompeu, a fim de evitar que a discussão se prolongasse. – Você falou com ele nos últimos dias? Emmeline me contou que foi até a casa dele ontem, mas ele não abriu a porta. Talvez ele já estivesse dormindo quando ela chegou... – Remus lhe lançou um olhar descrente. Marlene cedeu, aborrecida: – Mas acho que ele simplesmente não quis abrir. Como sempre.

Sirius expirou desanimado.

— Não. Não fui mais lá. Resolvi dar um tempo a ele.

Naquele instante, Lily Evans retornou ao Quartel, parecendo ligeiramente perturbada. Não dirigiu o olhar a ninguém, apenas voltou ao local da mesa onde estivera anteriormente, entre Marlene e Remus, e retomou sua explicação do ponto em que havia sido interrompida. Do outro lado da sala, Alice voltou a escrever seu relatório, desapontada.

Sirius tornou a se afastar e apoiar o cotovelo no batente da lareira. Não suportava ficar muito próximo de Lily Evans. Não suportava a ideia de olhá-la nos olhos e ter de tratá-la com o mínimo de respeito. Detestou que o dia no Departamento de Aurores estivesse tão calmo e ele não tivesse nenhuma tarefa externa para fazer.

Varreu o Quartel com os olhos e encontrou o olhar malicioso de Benjamin Fenwick cravado em sua direção. Havia um sorriso discreto moldando seu rosto. Mas Sirius não lhe daria o prazer de responder à provocação infantil que recebera minutos antes. Não se importava com ele a ponto de se incomodar.

Fenwick apoiava Lily Evans em tudo o que ela decidia no Quartel, mais para contrariar Sirius – e, indiretamente, James – do que por realmente concordar com ela. Não havia qualquer dúvida. Sirius sabia que o rapaz cobiçava o cargo de Auror Capitão havia anos e nunca aceitara a nomeação de James após a morte do antigo dono do posto, Caradoc Dearborn. Fenwick era quase dez anos mais velho do que James e deixava claro – sempre que tinha a oportunidade – que detestava ter de obedecer às ordens de um moleque.

Curioso que ele não sentisse a mesma aversão em relação à Lily Evans, já que ela era tão jovem quanto James. Sirius supôs que, para Fenwick, se James perdesse o cargo para qualquer outra pessoa, já seria o suficiente.

Babaca. – Sirius murmurou quase inaudivelmente, mas desejou que Fenwick tivesse conseguido ler seus lábios.

A porta foi escancarada violentamente. Pela segunda vez em poucos minutos, todos os presentes ergueram a cabeça e automaticamente direcionaram-nas na direção da entrada, a fim de ver quem havia acabado de chegar.

Sirius raramente vira Peter Pettigrew tão furioso quanto naquele momento. Seu rosto redondo estava púrpura, seus olhos claros estavam espremidos pelas sobrancelhas franzidas e seus punhos cerrados tremiam visivelmente.

— Está tudo bem, Peter? – indagou Marlene, preocupada.

Peter se postou no centro do aposento, estendeu o braço roliço para frente e apontou o dedo indicador diretamente para Lily Evans.

Sumiram ingredientes do estoque.

Houve um silêncio. Embora a acusação houvesse sido feita de modo indireto, ela fora muitíssimo clara e todos pareceram tê-la compreendido. Os aurores desviaram a atenção da figura preocupante de Peter Pettigrew para encararem uma Lily Evans curiosamente assombrada. Onde estaria sua típica frieza naquele momento?

— Sumiram ingredientes do estoque! – ele repetiu, entredentes. – Onde estão eles, Evans?

Lily Evans piscou algumas vezes.

— Pettigrew? – Fenwick se aproximou dele com cuidado, como se temesse uma explosão. – Você tem absoluta certeza do que está... insinuando?

— SIM! – Peter grunhiu, seu rosto ficando ainda mais vermelho. – Passei a manhã inteira conferindo! Tenho absoluta certeza! E quem mais anda mexendo nos estoques? Só pode ter sido ela!

E ele tornou a apontar o dedo para Lily Evans.

Após mais um momento perturbador tomado pelo silêncio, Lily Evans finalmente pareceu compreender que precisava responder à acusação. Andou até o centro do Quartel e parou diante do rapaz recém-chegado.

— Peter, eu andei preparando muitas poções nas últimas três semanas. E também tenho trabalhado muito nos últimos dias, então talvez possa ter me esquecido de registrar todos os itens que usei. Peço desculpas. Prometo que vou prestar mais atenção.

Peter soltou uma risada de escárnio.

— Você acha mesmo que vou acreditar nisso? – ele voltou a rir de forma totalmente não natural. Sirius nunca o vira agir assim antes. – Você realmente achou que ninguém daria falta, não é, Evans? E você está surpresa por ter sido eu quem descobriu, não é? Posso ver pela sua cara! – usando um falsete extremamente agudo, ele continuou: – “Pettigrew é um idiota, ele nunca vai perceber que estou roubando itens raros do estoque!” Então você achou mesmo que o idiota do Pettigrew nunca iria perceber, não é? – Peter estreitou os olhos para Lily Evans. Em seguida, explodiu em berros: – POIS ESTAVA MUITO ENGANADA! EU CONHEÇO CADA INGREDIENTE DE CADA POÇÃO ARMAZENADA NAQUELE ESTOQUE! E EU SEI MUITO BEM QUAIS SÃO OS INGREDIENTES USADOS EM TODAS! E OS INGREDIENTES QUE SUMIRAM NÃO SÃO USADOS EM NENHUMA!

— Peter, ouça, eu–

— ONDE ESTÃO AS DUAS DUZIAS DE RAÍZES VALERIANAS? E OS VIDROS COM AS VAGENS SUDORÍFERAS? – ele continuou a gritar desnecessariamente alto. – NÃO SÃO USADAS NA POÇÃO POLISSUCO, NEM NA VERITASSERUM, NEM NA POÇÃO WIGGENWELD E MUITO MENOS NA POÇÃO DO RENDIMENTO QUE VOCÊ PREPAROU VINTE DIAS ATRÁS! ENTÃO ONDE ESTÃO ESSAS MALDITAS RAÍZES E PLANTAS? PARA QUÊ VOCÊ AS ROUBOU?

Não havia uma pessoa presente que não estivesse em choque. Até mesmo Sirius, cujo ar de eterna displicência era praticamente inabalável, estava boquiaberto. E o que realmente o intrigava em toda aquela situação não era a acusação de Peter – segura e pertinente –, mas a falta de reação de Lily Evans. O quanto ela parecia nervosa e desconcertada, a ponto de ruir ali mesmo. A barreira que ela havia imposto por meio de sua impassibilidade havia desmoronado por completo.

— E-eu não as roubei, Peter. – Lily Evans declarou.

Ah, não? Então onde elas estão? – Peter diminuíra o volume da voz, mas a agressividade permaneceu em seu tom. – Você as levou para sua casa para dar um passeio?

Lily Evans murchou os ombros, numa clara atitude de derrota. Ela buscava palavras para se justificar ou se defender, mas não conseguia exprimir qualquer coisa. Sirius sentiu um sorriso interno rasgar seus pensamentos. Ele nunca havia imaginado que, dentre os amigos, seria Peter quem encontraria as primeiras provas a respeito das mentiras de Lily Evans. Imaginou como Olho-Tonto Moody reagiria quando chegasse a seus ouvidos a notícia de que sua protegida andava afanando ingredientes do estoque do departamento.

Mas para a surpresa de todos, Remus se colocou entre Lily Evans e Peter.

— Lily não roubou nada. – afirmou ele, calmamente. – Ela provavelmente usou esses ingredientes para fazer uma poção para mim, não foi, Lily?

Lily Evans imediatamente levantou a cabeça e assentiu repetidamente.

— S-sim!

— Como assim? – Peter cruzou os braços. – De que poção vocês estão falando?

Em seguida, Remus virou-se para Sirius. O corte de seu rosto pareceu cintilar.

— Uma poção para a Lua Cheia. Sirius estava comigo quando ela me entregou o frasco na segunda-feira, não é, Sirius?

Sirius viu todos os colegas virarem suas cabeças para olhá-lo. Detestou que Remus o tivesse colocado naquela discussão. Peter tinha um olhar indignado e definitivamente questionador. Sirius não havia lhe contado a respeito da cena que presenciara na mencionada segunda-feira, pois ela havia lhe provocado uma imensa repugnância.

Mas a muito contragosto, ele decidiu dizer a verdade. Não por Lily Evans, evidentemente. Mas por Remus.

Sim, eu estava.

Naquele momento, Marlene assumiu uma expressão confusa, perguntando-lhe com o olhar se ele estava falando a verdade. Sirius lhe confirmou com um aceno impaciente. Era óbvio que não estaria mentindo. Afinal, por que ele mentiria para acobertar Lily Evans?

No entanto, aquela indagação fez Sirius estacar. Foi então que percebeu. Era exatamente aquilo que Remus estava fazendo: acobertando Lily Evans. Mas por que o amigo estaria fazendo aquilo?

Evans. – Peter pronunciou aquele nome demonstrando pura repulsa. A defesa apresentada por Remus não parecera aliviar sua acusação. Muito pelo contrário. Ele parecia ainda mais contrariado com o imprevisto. – Você usou mesmo esses itens para preparar aquela poção para o Remus?

— S-sim.

Mas Peter claramente não estava convencido. Parecia decidido a desmascará-la diante dos principais aurores do Quartel.

Curioso. Então por que não os registrou no livro de controle do estoque?

Lily Evans não hesitou daquela vez.

— Porque é uma poção não oficial. – ela explicou, trocando um olhar de confirmação com Remus. – A Poção de Acônito ainda não foi aprovada pela Confederação Internacional, embora sua eficácia já esteja comprovada. Fiquei com medo de que me proibissem de prepará-la. Foi por isso.

Aquele argumento tão bem estruturado foi o suficiente para que Peter voltasse a se descontrolar.

— Mas você precisava de autorização para usar itens raros como raízes valerianas e vagens sudoríferas, Evans! – ele voltou a gritar, ainda notavelmente furioso. – Você não pode simplesmente entrar no estoque e sair pegando o que bem entende! Você precisa de uma autorização do Auror Capitão para fazer isso!

Do outro lado da sala, Benjamin Fenwick soltou uma risadinha debochada. Sob os olhares curiosos dos demais, ele se endireitou e pigarreou.

— Desculpem. – ele disse, embora não houvesse traço algum de remorso em sua voz. – Mas é meio ilógico, não acha, Pettigrew? Como Lily poderia ter uma autorização do Auror Capitão, sendo que ele não dá as caras no departamento há duas semanas?

Sirius preparou-se para devolver-lhe uma resposta merecidamente grosseira. Fenwick definitivamente estava passando dos limites com suas ironias incessantes. Mas antes que qualquer outra coisa pudesse acontecer, o Auror Capitão entrou pela porta anteriormente escancarada por Peter e estacou junto à entrada.

James usava vestes formais e seus cabelos rebeldes estavam ainda mais despenteados do que o normal. O distintivo dourado de Auror preso em seu peito reluziu. Sirius não evitou um sorriso surpreso ao ver o melhor amigo exalar o ar ostensivo de sempre. Alice e Marlene se entreolharam, com os rostos iluminados de satisfação. Fenwick amarrou a cara.

— Pude ouvir os gritos do outro lado do andar. – falou ele, casualmente, postando-se entre Peter e Lily Evans. – O que está acontecendo aqui?

Lily Evans não o encarou e não respondeu. As veias de seu pescoço se retesaram quando ela engoliu em seco, em uma clara tentativa de manter-se calada. Mas Peter rapidamente tomou a palavra, atraindo para si todas as atenções.

— Evans ignora as regras do departamento. – começou ele, pomposamente. – Sai pegando itens raros do estoque sem permissão, não os registra no livro e agora alega que os usou para fazer uma poção ilegal.

— Uma poção para mim. – Remus interveio.

James analisou Remus por um momento. Lily Evans permanecera com os olhos fixos no chão. Dois memorandos entraram voando pela porta e começaram a flutuar em volta do lustre, mas ninguém lhes deu importância.

— Acônito? – James indagou, por fim.

— Sim. – Remus assentiu.

Sem precisar virar o rosto para o lado, Lily Evans levantou os olhos para fitar James. Os olhos dos dois se encontraram e o contato visual provocou arrepios em todos os presentes.

— Quais ingredientes estão em falta? – James perguntou a Peter, sem quebrar a troca de olhares com Lily Evans.

— Ela sumiu com as raízes valerianas e as vagens sudoríferas.

James virou-se para o amigo e disse:

— Então encomende mais.

Peter ficou horrorizado com a simplicidade da sentença. Até mesmo Sirius sentiu-se decepcionado com a reação negligente do melhor amigo. Esperou que James fosse explodir com Lily Evans após aquela intensa troca de olhares. Por que ele decidira agir daquela forma tão pacífica, como se estivesse acreditando na óbvia desculpa que Remus improvisara? Não era possível que James não houvesse compreendido a gravidade daquela situação.

— Não é possível que você tenha acreditado nesses dois, Prongs! – Peter se revoltou, tirando as palavras da boca de Sirius. – Eu não sei quais são os ingredientes dessa Poção de Acônito, mas tenho certeza de que ela é feita com muito mais do que duas ervas!

— Era exatamente isso que eu estava pensando. – Alice se pronunciou, subitamente. – É mesmo muito curioso que Evans tenha se esquecido de registrar apenas dois ingredientes.

— Dois ingredientes muito raros, aliás! – Peter acrescentou, aliviado por ter recebido o apoio da colega.

— Chega. – James ordenou, sério. Pousou os olhos em Peter, depois em Alice e, por fim, voltou-se para Lily Evans. – Não quero que outros itens tornem a sumir, Evans. Agora...

— Mas, Prongs...!

— ...Quero que você volte para a Sala de Preparos. – James continuou ignorando os protestos de Peter, que rapidamente se calou. – Fenwick continuará trabalhando com você lá. E muito obrigado por ter tomado conta do Quartel na minha ausência.

Inesperadamente, Lily Evans sorriu. Desde que ela havia retornado, aquela era a primeira vez em que Sirius vislumbrava em seu rosto um vestígio de seu antigo semblante alegre.

— Bem vindo de volta, James. – ela lhe disse.

Lily Evans fez uma rápida mesura e se adiantou para a saída do aposento. Fenwick a seguiu, com os braços cruzados, lançando um último olhar demorado para o Auror Capitão. Quando o som dos passos dos dois esvaeceu ao final do corredor, James – ainda sob os olhares receosos dos demais – convocou os dois memorandos que ainda rodopiavam pelo teto, tomou-os nas mãos e se retirou do aposento, rumo a sua própria sala.

— Finalmente ele voltou. – Alice quebrou o silêncio. Em seguida, ela se sentou junto à escrivaninha na qual estivera anteriormente e voltou a escrever seu relatório.

—--

[Quinta-feira, 18 de novembro de 1982, 18h32]

— Potter, Moody quer ver você.

O aviso de Kingsley Shacklebolt cortou a sala de James e despertou-o de seus devaneios. O Auror Capitão endireitou-se, ergueu a cabeça para fitar o rapaz que acabara de surgir à porta de sua sala e colocou-se de pé.

— Agora?

— Agora.

James saiu de sua sala e virou à esquerda no corredor. Shacklebolt não o acompanhou. Quando James parou diante da sala de Alastor Moody e levantou a mão para bater na porta e anunciar sua chegada, ela se abriu.

Seu chefe a havia aberto por dentro, com um aceno de varinha. Quando entrou, James recebeu um olhar severo de Moody. Os objetos extravagantes que cobriam todas as superfícies da sala estavam mais agitados que o habitual. O famoso espelho-de-inimigos de Moody, pregado à parede no canto direito da sala, possuía uma espécie de vulto indistinguível e bruxuleante.

Fazia mais de dois anos que James não via qualquer coisa se refletir naquele espelho. Mas não teve tempo de dar continuidade àqueles pensamentos, pois Moody pigarreou alto e começou a falar.

— Então você resolveu dar as caras, Potter. Achou que não haveria nenhum problema em passar duas semanas ausente, sem dar qualquer satisfação, e retornar desse jeito, como se nada tivesse acontecido...

James reparou que o chefe não o convidara para sentar.

— Estive enfrentando muitas dificuldades com o falecimento de minha mãe.

O olho-tonto de Moody girou três vezes no sentido horário. Um evidente sinal de impaciência. Provavelmente já havia previsto que James fosse lhe dizer algo do tipo.

— Duas semanas é tempo demais, Potter.

Houve um momento de silêncio durante o qual James começou a cogitar seriamente a possibilidade de ser demitido. Antes de se deixar levar por tais pensamentos, porém, ele lembrou-se de tudo o que havia feito pelo Departamento de Aurores nos últimos anos. James havia, definitivamente, se dedicado mais do que qualquer um de seus colegas. E após o fim da guerra, ele havia sido o único que ainda não tirara uma semana de folga sequer.

— Então desconte essas duas semanas das minhas férias. – respondeu James, petulantemente. – Já faz uns três anos que não tiro, caso não se lembre.

O rosto parcialmente desfigurado por cicatrizes de Moody se contorceu. Ele se levantou e se inclinou sobre a mesa, apoiando-se em ambas as mãos e olhando para James com os dois olhos.

— Uma hora atrás, eu convoquei Evans a esta sala, pedi para que ela se sentasse nesta cadeira e ofereci a ela o posto de Auror Capitão. – contou ele, lentamente, saboreando a sensação de suas palavras ácidas. – Ela recusou. Eu insisti. Mas ela disse que você voltaria ainda hoje. Então eu disse a ela que, se você não voltasse, ela teria de aceitar. – Moody fez uma breve pausa, estudando James com os olhos. – Mas você voltou.

James repassou aquela informação mentalmente. Lily recusara o posto. Lily sabia que ele voltaria hoje. Mas ele só havia decido retornar poucos minutos antes de ter entrado pela porta do Quartel e ter interrompido a discussão de Lily e Peter. Então, como ela soubera? Só havia uma possibilidade. Será que... ela também havia se lembrado?

— Quero que controle Pettigrew. – Moody continuou, obrigando James a abandonar suas especulações. – Não vou tolerar mais esse tipo de escândalo no meu departamento. Observei tudo daqui. – seu olho mágico girou mais uma vez. – Quero que o mantenha naquele estoque, já que ele é inútil demais para duelar em tarefas externas. E se não puder fazer isso, Potter, terei de demitir seu amigo. Ouviu bem? – James assentiu. – Certo. Está dispensado.

James suspirou em concordância e deu meia volta para se dirigir à saída. Tinha consciência de que deveria ter argumentado com o chefe e ter defendido seu amigo. Apesar da abordagem imatura, Peter estava certo em ir cobrar explicações de Lily. Mas os pensamentos de James ainda estavam presos ao que Moody havia lhe contado. Lily sabia que ele iria voltar. Ela também havia se lembrado.

Quando James estava fechando a porta atrás de si, Moody deu-lhe um último aviso:

— Não pense que me esquecerei dessas duas semanas quando você pedir para tirar férias, Potter.

—--

[Quinta-feira, 18 de novembro de 1982, 18h42]

Ao deixar a sala de Alastor Moody para trás, James se deu conta de que não havia mais como adiar o inevitável.

Desde o momento em que vivenciara a memória de Dorea na Penseira, no início daquela semana, James decidira procurar Lily e propor a ela uma conversa pacífica e baseada puramente na verdade. Mas o receio de que ela o afastasse e lhe despejasse mais mentiras sobre o que tinha lhe acontecido fizera com que ele adiasse seus planos, embora não o tivesse feito desistir deles. E ao verificar a data no calendário pouco mais cedo naquele dia, James compreendeu que não conseguiria mais adiar aquela conversa.

Em vez de retornar a sua sala, ele seguiu pelo corredor, virou à direita na bifurcação e parou diante de uma porta branca, atrás da qual se localizava a escada circular que o levaria até a Sala de Preparos.

Desceu-a silenciosamente. A cada degrau, o ambiente se tornava cada vez mais escuro. Não havia velas ou archotes para iluminar o pequeno túnel. A única fonte de luz existente provinha da porta entreaberta que se postava a poucos passos do último degrau. Ao alcançar o patamar, James ouviu o murmúrio de vozes escapar pela fresta.

— Vai me dizer que não concorda, Lily? – dizia a voz de Fenwick. – Pettigrew passou dos limites com aquela gritaria. Aliás, que moral ele tem para sair apontando o erro dos outros assim? Ele está sempre fazendo merda! Ano passado, ele teve de tirar uma licença médica por ter se cortado inteiro ao mexer nos chifres de erumpent do estoque. Quem é que não sabe que os chifres desse animal perfuram qualquer coisa? A sorte dele foi que aqueles chifres não tinham mais aquele líquido explosivo, sabe? Se bem que agora acho que teria sido bom se ele tivesse...

Ben. – Lily tinha um tom reprovador.

— Ah, qual é, Lily! – Ben deu uma risadinha. – De qualquer forma, todo mundo sabe que Pettigrew só continua aqui porque Potter o protege. Moody já quis demiti-lo milhares de vezes. A época da crise de contratação no departamento já passou faz tempo, hoje há vários aurores recém-formados, como Shacklebolt, aguardando uma vaga no Quartel. Pettigrew obviamente sabe disso muito bem. Aliás, acho que é por isso que ele está vigiando você desse jeito, procurando qualquer errinho seu para te denunciar e mostrar para todo mundo que é melhor do que você. Sem Potter aqui para defendê-lo, Pettigrew sabe que precisa mostrar serviço.

— Eu sinceramente não me importo. – Lily encerrou a questão. – Você separou os hemeróbios que eu pedi?

— Aqui, madame.

James ouviu o ruído de uma rolha sendo removida e, em seguida, um caldeirão começar a borbulhar. Decidiu esperar mais um pouco para entrar. Queria ouvir mais. Algo naquela conversa o incomodara significativamente. Nunca se simpatizara com Fenwick e sabia que aquela impressão era recíproca, portanto não se surpreendeu ao ouvir a opinião negativa dele sobre sua liderança. O que havia realmente incomodado James fora descobrir que Fenwick e Lily tinham uma relação tão... próxima. Até aquele momento, James acreditara que os dois mal se falavam durante o expediente na Sala de Preparos. Acreditara, por um motivo que agora ele sabia ser ingênuo, que Fenwick permaneceria do lado dos membros da Ordem da Fênix e manteria uma considerável distância da mulher que supostamente os havia traído.

— E também já piquei a pele de ararambóia em cubos para você. – Fenwick informou, orgulhoso.

— Nossa, sem eu nem precisar pedir? – Lily fingiu-se surpresa.

— Você vê? – ele riu. – Será que agora você já pode cogitar sair para jantar comigo?

James não pôde esperar para descobrir se a resposta de Lily seria positiva. Ele entrou e encontrou os dois sentados lado a lado, diante de um caldeirão borbulhante.

— Fenwick, eu gostaria de conversar com Lily a sós.

Fenwick franziu as sobrancelhas e virou-se para olhar Lily.

— Devo...? – ele perguntou a ela, em voz baixa.

— Tudo bem, Ben. – Lily assentiu.

Ela voltou a agitar o conteúdo do caldeirão com uma enorme colher, sem demonstrar qualquer curiosidade sobre a inesperada visita de James, enquanto Fenwick se levantava e, claramente a contragosto, saía da sala.

— Lily. – James chamou-a, após alguns segundos.

Lily pousou a colher junto à borda do caldeirão, olhou para James e colocou as mãos sobre o colo, aguardando.

James estava decidido. Decidido como não estivera na primeira vez em que a vira, após dois anos, no primeiro dia de seu retorno. Naquela ocasião, ele não conseguira reunir as forças necessárias para que tivessem aquela conversa e ela foi embora, sem ter lhe dado qualquer explicação.

James também estava calmo. Calmo como não estivera no momento em que a abordara da saída do salão, ao final da festa do Ministério da Magia. Naquela ocasião, James não conseguira reunir a tranquilidade necessária para que tivessem aquela conversa e ela foi embora, mais uma vez, sem ter lhe dado qualquer explicação.

Antes de começar a falar, porém, James deu um passo para trás e escorou o quadril e as duas mãos em uma mesa que estava ali, encostada à parede. Colocou uma perna sobre a outra e respirou fundo. Decidida e calmamente.

— Estou já adiando essa conversa há alguns dias. – James procurou ser o mais sincero possível. Apesar de tudo o que acontecera entre os dois, ele sabia que Lily o conhecia muito bem. E ser profundamente honesto com ela naquela conversa certamente a incentivaria a se esforçar para ser honesta com ele também. – Você deve ter sabido que minha mãe faleceu no dia cinco. – Lily fez que sim. – Ela me deixou uma memória e Dumbledore me emprestou a Penseira dele para que eu pudesse vê-la. Mas só na última terça-feira de manhã, antes do início do expediente, eu fiz isso.

Sem demonstrar qualquer indício de interesse, Lily perguntou:

— Por que você está me contando isso?

— Porque a memória era sobre a noite em que você foi embora. – James contou, sem rodeios. Lily finalmente perdera a postura desinteressada e permitiu que sua boca se entreabrisse sutilmente de surpresa. – A lembrança mostrava o momento em que minha mãe entrou no quarto onde eu estava e te expulsou do hospital. E também vi todas as coisas... ofensivas que ela te disse.

Quando James terminou de contar, Lily suspirou pesarosamente e abaixou os olhos para mirar suas mãos sobre seu colo. Mas não se pronunciou. Parecia estar muito longe dali, revivendo a mesma memória dentro de sua cabeça.

— Lily? – James a chamou de novo, em voz baixa. Esperou até que ela erguesse o olhar para ele para continuar: – Você foi embora por conta do que minha mãe te disse?

Lily se levantou. Contornou o caldeirão e parou diante dele, mantendo uma distância categórica. James quis tocá-la, mas mesmo que estendesse seu braço, ele não a alcançaria.

— James, você acredita mesmo que eu deixaria tudo para trás só porque sua mãe me chamou de “sangue-ruim”?

James balançou a cabeça.

— Eu não estava me referindo a esse insulto. Me referi ao que ela disse antes. Sobre sua presença ser uma ameaça para mim. Foi por isso?

Lily cerrou os olhos e uniu as mãos sob o queixo, como se estivesse compenetrada em uma oração. Em seguida, ela respirou profunda e sonoramente, reabriu as pálpebras e semicerrou os olhos em sua direção.

— Não, James.

— Então qual foi o motivo? – James lutou para manter seu aspecto calmo. – Por que você foi embora, Lily? Fale a verdade!

— Eu já te contei o que aconteceu. – respondeu ela, num tom cansado. Apoiou o queixo sobre os nós dos dedos, indiretamente suplicando para que ele aceitasse sua justificativa de uma vez. – Eu decidi ir embora porque estava com medo. Voldemort viria atrás de mim para se vingar pela prisão de Avery. Sim, James, foi por isso. – Lily acrescentou ao ver James abrir a boca para contra argumentar. – Eu entendo que você queira romantizar toda a situação, preferindo acreditar que exista um motivo nobre por trás de tudo. Mas não há nobreza nenhuma no que fiz, James, sinto muito. Eu só fui embora porque queria me salvar.

James passou as mãos pelo rosto, impacientemente, levantando os óculos até a testa para esfregar os olhos. Sentiu o sangue ferver em suas veias, clamando por um pouco de nicotina. Precisava manter-se calmo. Perder o controle só a faria ir embora.

Você está mentindo.

— Não, não estou.

Ah, não? Então quer dizer que, de um dia para o outro, você decidiu que só se importava consigo mesma e resolveu fugir para se safar? Depois de ter se arriscado por quase dois anos na guerra, lutando por uma causa que você sempre defendeu, você acordou naquele dia e achou que era hora de tirar umas férias? Foi assim? Mesmo depois de tudo o que nós tínhamos vivido juntos, você simplesmente decidiu ir embora sem achar que precisava me dar qualquer explicação? Você acha que isso faz algum sentido, Lily?

Apenas quando fez silêncio, James percebeu que estivera gritando. No entanto, Lily não parecia ter se incomodado; ela parecia já estar esperando por aquela reação.

Acho. – Lily murmurou, abaixando a cabeça. – E você precisa começar a aceitar os fatos, James. Mesmo que não goste deles.

Não. – James negou com a cabeça. – Não faz sentido! Se o que você está alegando for mesmo verdade, então tudo o que vivemos juntos antes não foi real. A Lily que eu conheci nunca agiria assim. Ela nunca teria abandonado a Ordem da Fênix! Ela nunca teria me abandonado!

Lily arfou. Aquelas palavras haviam inegavelmente perfurado a barreira atrás da qual sua verdadeira personalidade estava escondida. Ao vê-la franzir as sobrancelhas daquela maneira tão ferida e assistir àqueles olhos verdes ganharem vida novamente ao se encherem de lágrimas, James percebeu que seu desabafo finalmente vencera os insistentes esforços de Lily em ocultar suas emoções. Ela perdera as forças para continuar contendo seus sentimentos. James finalmente conseguira atingi-la.

Portanto ele precisava insistir.

— Está vendo? – ele continuou, em meio a um sorriso fraco de compreensão. – Você não nega! Eu sei que você está me escondendo a verdade! Então diga, Lily! Por que você foi embora?

De repente, Lily recobrou a postura. Sacudiu a cabeça, respirou fundo e virou-lhe as costas para se afastar. Em seguida, ela começou a juntar seus pertences sobre a mesa ao lado do caldeirão e jogou a bolsa sobre o ombro, pronta para ir embora.

— Não! – James contornou a sala e colocou-se à frente dela. Lily evitou seus olhos. – Você não vai embora! Não vou permitir que você vá, não antes de me contar tudo!

— Eu te contei tudo! – Lily retrucou, olhando-o com raiva. Seus olhos ainda estavam levemente marejados, contradizendo a afirmação que acabara de fazer. – Eu fugi porque não queria morrer! Aceite de uma vez, James, e pare de ficar insistindo nisso! Essa é a verdade!

James decidiu que não iria deixá-la ir embora tão fácil. Não quando finalmente havia conseguido alcançar seus sentimentos. Ele deduziu que, se mantivesse sua determinação, sinceridade e, acima de tudo, sua calma, Lily não conseguiria continuar mentindo por muito mais tempo.

— Se você realmente falou a verdade, então por que está se esquivando? – indagou ele, dando um passo à frente. Estavam muito próximos, como não haviam estado nos últimos dois anos. – Por que está fugindo de mim?

— Não estou fugindo de você. – Lily tentou dar um passo para trás, mas suas pernas colidiram com a mesa. – Só estou exausta, James. Hoje foi um dia... – ela olhou para cima, procurando o adjetivo adequado para continuar. – Terrível.

Subitamente, James lembrou-se da discussão entre ela e Peter sobre o suposto roubo de ingredientes, mais cedo naquele dia. Imediatamente, teve vontade de lhe exigir uma explicação sobre aquele episódio também. Mas decidiu não fazê-lo, pois temeu acabar afastando-a de vez com mais questionamentos. Por ora, Lily não precisava ter consciência de que James sabia muito bem que ela não usara aqueles itens para preparar a Poção de Acônito. Ele sabia que se quisesse realmente descobrir o que Lily estava tramando, precisaria ter muita cautela. Portanto, deixou para tratar daquele assunto mais tarde.

— Pare de mentir. – James pediu mais uma vez, agora se referindo não só às justificativas ilógicas sobre sua fuga, mas também sobre suas intenções com os ingredientes desaparecidos.

— Eu não estou mentindo. Pare você de insistir!

— Não. Só vou acreditar em você quando você disser, olhando nos meus olhos, que está falando a verdade. Quero que diga claramente que essa sua história de ter fugido de uma suposta vingança de Voldemort é totalmente verdadeira. Quero que diga, também, que se essa história for verdade, a Lily que eu conheci há onze anos e que aceitou se casar comigo três dias antes de me abandonar nunca existiu. Porque, sim, uma coisa anula a outra. E se você estiver mesmo falando a verdade e tiver ido embora daquela forma pelos motivos que insiste em repetir, então, Lily, isso significa que você nunca sentiu nada por mim. Você nunca me amou.

Ao terminar de ouvir, Lily voltou a assumir uma expressão de dor, suas sobrancelhas se franziram e seus olhos se estreitaram.

— James...

— Diga! – James exigiu, sentindo seus próprios olhos encherem-se de água.

Lily olhou para cima para que nenhuma lágrima escapasse de seus olhos. Parecia estar reunindo a coragem. O coração de James palpitava de modo tão descompassado, que seu som parecia uma daquelas melodias de tambores retumbantes que precediam momentos de grandes revelações.

— James. – Lily tomou a palavra com uma voz firme e voltou a olhar dentro de seus olhos. – Eu estou falando a verdade. – seus olhos voltaram a lacrimejar. – A história que lhe contei sobre temer uma vingança de Voldemort é totalmente verdadeira. – Lily não pôde conter o primeiro soluço. Levou as mãos à boca para tentar abafar o som, mas foi inútil. – E eu nunca amei você.

Aquela declaração penetrou em seu âmago como uma flecha pontiaguda e venenosa, maldosamente alvejada pelas costas. James definitivamente não esperava que ela fosse dizer aquilo. Acreditou com todas as suas forças que havia conseguido derrubar a barreira que ela impusera entre os dois. Acreditou inteiramente que conseguiria fazer Lily lhe dizer a verdade, pois ela só poderia estar mentindo. Afinal, se aquilo fosse a verdade, por que aquelas palavras pareciam machucá-la tanto quanto a ele? Por que ela estaria chorando?

Foi então que James finalmente compreendeu. Talvez o que ela dissera fosse, de fato, a verdade. Talvez Lily tivesse razão: ele a idealizara demais. Ela nunca o amara de verdade. No momento em que se viu correndo verdadeiro perigo, não tendo mais ninguém que pudesse colocar-se entre ela e os feitiços lançados pelos Comensais, ela decidiu ir embora para se salvar. E aquelas lágrimas que ela obsessivamente tentava esconder não passavam de lágrimas de pura vergonha. Vergonha por ter de admitir que o enganara por tanto tempo.

— Adeus, James.

Lily passou as mãos pelas bochechas para remover as lágrimas, enxugou-as na blusa e passou por ele em direção à saída da Sala de Preparos. Embora ainda estivesse tomado por uma sensação desgostosa de choque, James sentiu que precisava lhe dizer uma última coisa. Uma última coisa antes de nunca mais tocar naquele assunto.

— Há quanto tempo você já estava planejando ir embora com ele?

Muito lentamente, Lily deu meia volta para poder olhá-lo. Sua expressão era de puro assombro.

— Ele quem?

— Como assim, ele quem? Você sabe muito bem de quem eu estou falando! – James não podia tolerar que, depois de tudo, ela ainda quisesse se fingir de ofendida. – A última vez em que você foi vista, Lily, foi no Cabeça de Javali, com Snape! Aberforth te viu saindo de lá com ele, na noite do dia vinte e seis de setembro!

Ao se dar conta de que a surpresa estampada em seu rosto era absolutamente sincera, James compreendeu que, até aquele momento, Lily pensava que seu encontro com Severus Snape naquela noite fosse um evento completamente desconhecido. Ela não fazia a menor ideia de que havia sido vista por Aberforth dentre a multidão.

— Eu não... Eu não... – ela começou, mas se interrompeu. Não conseguiria elaborar qualquer sentença enquanto não assimilasse aquela informação por completo. Após alguns segundos em silêncio, ela completou: – Eu não acredito que você achou que eu tinha ido embora com ele, James!

Naquele instante, Lily parecia ter deixado de lado todas as suas tentativas de aparentar desinteresse. Ela estava visivelmente furiosa com aquela insinuação.

— Você acabou de confessar que nunca me amou. – respondeu James, observando-a com muita atenção. – Então essa hipótese voltou a fazer sentido, já que–

Lily ergueu a mão direita, ordenando, por meio do gesto, que ele se calasse.

— Não! – ela vociferou, indignada. – É claro que eu não fui embora com ele! Mas que ideia absurda!

— Ah, não? – James arqueou as sobrancelhas, transparecendo descrença. Mas, no fundo, sentiu uma pontada de entusiasmo por perceber a convicção na voz de Lily ao negar suas suspeitas. Ela não só estava negando a possibilidade de ter ido embora com Snape, como também parecia nauseada por saber que James a havia cogitado. – Então por que você foi encontrá-lo?

Lily tinha um olhar ferido.

— Eu não fui encontrá-lo, James. – ela suspirou, pesarosa, como se falar sobre aquele encontro fosse algo extremamente dolorido. – Depois que sua mãe falou todas aquelas coisas para mim, eu saí do hospital totalmente transtornada. Estava tão desesperada que não prestei a mínima atenção à minha volta. E ele estava só esperando a deixa para me pegar desprevenida.

Uma ideia horrível tomou os pensamentos de James.

— Ele te levou...?

— Não! – Lily balançou a cabeça negativamente. – Ele só me abordou. Como eu estava completamente fora de mim, não notei que ele tinha se aproximado, senão teria desaparatado antes que ele tivesse conseguido me paralisar... Mas eu não o vi. E ele me tranquilizou, avisando que só queria conversar. Mas como ele era um Comensal da Morte, tive medo. Então sugeri que fôssemos a um lugar público. Não queria ficar sozinha com ele. Por isso, fomos ao Cabeça de Javali.

James esperou pela continuação, mas ela não veio. Por um segundo, ele realmente acreditou que Lily lhe falaria tudo. Mas ela havia se perdido em suas próprias lembranças, parecendo estar compreendendo aspectos que até então jamais havia compreendido. Aquela era, provavelmente, a primeira vez que Lily estava contando aquilo a alguém.

— E o que ele queria conversar com você? – James perguntou, sem saber o que esperar como resposta.

Mas quando Lily voltou os olhos para ele para lhe responder, James notou que a barreira impermeável havia tornado a se impor entre eles. Ela estava arquitetando uma resposta mentirosa, pois seu rosto voltou a se tornar neutro e distante.

— Severus me contou que Voldemort estava planejando se vingar de mim por ter prendido Avery. – ela declarou, descaradamente, sem sequer imaginar que James podia ver claramente que ela estava mentindo. Percebeu que, a cada mentira que ouvia, mais fácil se tornava para identificá-las. – E então eu resolvi ir embora naquela noite. Foi isso. – em seguida, Lily arrumou a bolsa sobre o ombro, tornou a se virar para a porta e disse: – Adeus, James.

— Espere. – ele pediu.

Lily o olhou por cima do ombro.

— Você recusou o cargo de Auror Capitão e aceitou aquela condição de Moody porque sabia que eu iria voltar hoje. Ou seja, isso significa que você se lembra da nossa promessa. – James fez uma pausa para contemplar, mais uma vez, uma expressão de espanto se apossar de Lily. – Agora, me responda: como é que você diz que nunca me amou, mas, mesmo depois de cinco anos, você se lembra da data em que começamos a namorar? E da promessa que fizemos de sempre nos vermos no dia dezoito de novembro, independente de tudo?

Soltando um suspiro resignado, Lily saiu pela porta e a bateu atrás de si. Mas seu silêncio indignado fora o suficiente para lhe servir de resposta.

James percebeu que não sentia mais o antigo pesar em seu peito. Sentia-se leve. Aliviado. Dentre as inúmeras incertezas que dominavam sua mente naquele momento, havia uma única certeza. E aquela certeza lhe serviria de combustível para descobrir o verdadeiro motivo que fizera Lily Evans deixar tudo e todos para trás.

—--

Naquele momento, Emmeline Vance fazia a escolha mais difícil de sua vida.

Notas finais
E aí, queridos, o que acharam? Desculpem pelo tamanho do capítulo, mas eu precisava compensar minha demora de alguma forma, não é? Espero que tenham gostado! Mas e aí, o que me contam? Qual será essa certeza que o James adquiriu no final da conversa, hein? Pistas? Bom, acho que hoje não tenho nenhuma observação para fazer. Só que estou MUITO curiosa para saber o que vocês acharam! ♥ Então, por favor, me contem!! Estou terminando de responder os comentários, então aguardem que se sua resposta não chegou, ela vai chegar em breve! ♥ Obrigada por todo o apoio, de verdade! Beijos, Carol Lair (@carollairr)