Zerstören
5 Capítulo 5 - Luto
Notas iniciais
Capítulo 5 – Luto
[Terça-feira, 07 de outubro de 1980, 17h22]
Somente quando as correntes que suspendiam o caixão começaram a tinir sonoramente, a primeira lágrima escorreu pelo rosto de James. Lentamente, o caixão de mogno marrom-avermelhado começou a se mover para dentro da cova e Dorcas Meadowes finalmente descansaria em paz, embaixo da terra.
O terreno do cemitério de Godric’s Hollow era cheio de relevos irregulares. Dorcas estava sendo sepultada em um dos pontos mais altos do local e, por conta disso, o vento gélido era terrivelmente cortante. Uma lufada particularmente forte fez com que todos os presentes apertassem suas capas negras contra si, ao mesmo tempo. Mas James não se moveu. Ele não sentia frio algum. Seus sentidos estavam ocupados demais processando a ideia de que Dorcas nunca mais estaria entre eles. Ao seu lado, Marlene chorava alto, abraçada a Remus, cujo rosto ainda carregava a mesma expressão de choque de quando recebera a notícia. Peter estava do outro lado de Remus, com o olhar triste e lacrimejante fixo no caixão.
Voldemort matara Dorcas pessoalmente, naquela madrugada. Os aurores todavia não possuíam muitas informações a respeito do ataque: tudo o que sabiam era que o Lorde das Trevas invadira o apartamento de Dorcas durante a noite e sumira logo depois de cometer o assassinato, deixando a Marca Negra no céu. Havia sinais profundos de tortura por seu corpo, mas provavelmente Dorcas preferira morrer a entregar a Voldemort qualquer informação.
— Dorcas Meadowes foi uma verdadeira heroína e sua bravura jamais será esquecida. – a voz de Albus Dumbledore se elevou mais uma vez. A Sra. Meadowes, a mãe de Dorcas, voltou a soluçar copiosamente, com o rosto escondido atrás das mãos trêmulas. – Que seu exemplo seja seguido por todos aqueles que sonham com a restauração da paz.
Naquele momento, o som do caixão se chocando com fundo da cova ecoou pelo cemitério. E então, os demais presentes apontaram a varinha para as nuvens densas acima de suas cabeças e produziram faíscas branco-prateadas na direção do céu.
Foi então que James subitamente se deu conta de que Sirius havia desaparecido da pequena aglomeração. Olhou por cima do ombro, ainda com a varinha apontada para cima, e encontrou o amigo consideravelmente afastado do grupo, fumando de costas para a cerimônia fúnebre, enquanto contemplava o mar de túmulos que se estendia diante de seus olhos. Mas antes de voltar a se virar para frente, James resolveu dar mais uma olhada em volta. Não havia mais ninguém por perto.
Ela definitivamente não viria. Nem mesmo a morte da melhor amiga faria com que ela voltasse.
James cerrou os olhos e tentou afastá-la de sua mente. Tentou imaginar o que Dorcas havia passado em seus últimos momentos, embora soubesse que jamais poderia ter certeza alguma sobre o que acontecera. Por quanto tempo Dorcas teria sido torturada? Como Voldemort descobrira onde ela vivia? Como ele conseguira quebrar todos os feitiços de proteção, sem que ela notasse e enviasse um patrono para a sede da Ordem?
Dois bruxos começaram a cobrir o caixão com terra e, em pouco tempo, a cova estava completamente preenchida. Em seguida, as pessoas começaram a se aproximar da lápide para conjurar belos arranjos de flores. Dentre os presentes, James reconheceu dezenas de funcionários do Ministério da Magia e alguns colegas de Hogwarts. Os bruxos que já haviam prestado suas condolências junto à lápide se afastavam pelo caminho de pedras que serpenteava pela colina, em direção à saída do cemitério, mas desaparatavam muito antes de alcançarem os portões. E, assim, pouco a pouco, o local se tornava cada vez mais deserto.
— Eu ainda não consigo acreditar. – James ouviu Emmeline sussurrar ao seu lado. – Ontem mesmo eu encontrei com Dorcas na sede da Ordem. – ela continuou, com a voz embargada, assistindo a Moody conjurar uma coroa de rosas brancas e posicioná-la por cima de todos os outros arranjos de flores. – Eu percebi que ela estava quieta, mas não perguntei nada porque achei que ainda fosse por conta do desaparecimento da Li... do desaparecimento dela.
James sentiu um arrepio percorrer sua espinha quando Emmeline quase dissera aquele nome, mas manteve sua postura impecavelmente inalterada. Em seguida, tateou o bolso interno do casaco e retirou dele um maço de cigarros. Puxou um cigarro com os dentes e acendeu-o sob o olhar surpreso de Emmeline.
— Você voltou a fumar? – ela perguntou, preocupada.
James chacoalhou os ombros, indiferente, enquanto assistia à Alice e Frank conjurarem uma faixa ornamentada com o Brasão do Auror bordado em fios de ouro. O casal depositou a faixa estendida sobre a lápide e também se afastou.
Meia hora depois, grande parte das pessoas já havia ido embora. James observou que haviam restado apenas Emmeline, ao seu lado, Remus e Marlene, junto à lapide, Peter logo atrás dos dois, Dumbledore e Moody, que consolavam a Sra. Meadowes e, por fim, Sirius, que permanecia mais afastado e não manifestava qualquer sinal de que voltaria a se aproximar.
— Moody vai acompanhá-la até sua casa, Sra. Meadowes. – James ouviu Dumbledore comunicar gentilmente à mulher. – A senhora precisa descansar. A noite está caindo e não é sensato ficarmos expostos a céu aberto em tempos como estes.
Remus, Peter e Marlene se afastaram para que a Sra. Meadowes pudesse se despedir da filha com merecida privacidade. Quando Marlene avistou Emmeline, veio correndo na direção da amiga, que a recepcionou de braços abertos. Marlene voltou a se desmanchar em lágrimas, agora com o rosto enterrado por entre os cabelos loiros de Emmeline.
James abaixou a cabeça, mas pôde ver, pelo canto do olho, que Remus e Peter também se aproximavam. Sentiu um toque no ombro e soube que Sirius também estava ali.
— Dorcas n-não merecia isso! – Marlene soluçou, em voz baixa. Emmeline cerrou os olhos e acariciou a cabeça da amiga. – Por que Voldemort escolheu justo ela?
Todos também estavam se perguntando a mesma coisa. Mas a única explicação que pairava sobre as suspeitas de James era o fato de Dorcas ser uma auror recém-formada, mestiça e membro da Ordem da Fênix. Alguém que Voldemort mataria sem qualquer hesitação.
— Deve ter sido ela. – Peter falou, de repente. Marlene soltou-se do abraço de Emmeline e virou-se para encará-lo. – Lily contou a Você-Sabe-Quem como quebrar os feitiços de proteção do apartamento delas. Dorcas foi só a primeira de nós a morrer.
Todos fixaram os olhos em Peter, igualmente surpresos com aquela declaração. Emmeline levou as mãos à boca e Marlene parou de chorar na mesma hora.
— Eu concordo com Peter. – Sirius proferiu, sombriamente.
E então, todas as cabeças se viraram para ele. Sirius, porém, manteve seus olhos distantes e não retribuiu o olhar de confirmação que todos aparentemente esperavam.
— Mas o que vocês estão dizendo? – Remus rebateu, inconformado. – Lily nunca faria isso.
— Ela sumiu com Snivellus, não? – Peter retorquiu, irritado.
James não tinha forças para intervir naquela conversa, embora fosse claro, pelos olhares de esguelha que recebia, que os amigos queriam que ele também se manifestasse. Desde que ela desaparecera, todos pareciam estar sempre avaliando seu sofrimento silencioso, esperando que ele explodisse. Mas James havia se fechado para o assunto e nunca permitia que seus pensamentos dessem muitas voltas ao redor da mulher que o abandonara. Sequer dedicara tempo o suficiente para formar alguma opinião ou teoria sobre seus motivos para ter fugido.
O silêncio que os dominou permitiu com que os uivos do vento se tornassem mais audíveis.
— Se Lily tivesse mesmo ido para o lado de Voldemort, à essa altura ele já teria invadido a sede da Ordem. – Emmeline falou, muito séria. James agradeceu-a internamente por ter quebrado o silêncio. – Dentre tantas informações que ela poderia entregar a ele, por que ela escolheria a localização da casa de Dorcas? Por que não contou de uma vez como chegar ao lugar onde todos nós nos encontramos diariamente, por exemplo?
— É só uma questão de tempo, Emmeline. – Peter insistiu.
— Concordo. Mas espero que Dumbledore entenda que é hora de transferir a sede da Ordem para outro lugar, o quanto antes. – Sirius refletiu, olhando para o diretor de Hogwarts pelo canto do olho. Dumbledore conversava aos sussurros com Moody, enquanto a Sra. Meadowes chorava, no chão, apoiada à lápide da filha.
— Se Lily tivesse nos traído, Sirius, nós já estaríamos todos mortos. – Remus disse, num tom calmo, a fim de dissipar uma possível discussão.
— Também acho que ela não nos traiu, mas... – Marlene começou, hesitante. Parecia se controlar para não desabar, pois estava tremendo. Seu nariz e olhos estavam muito vermelhos de tanto que havia chorado nas últimas horas. – Mas não acho que o que aconteceu tenha sido coincidência. Lily ter ido embora tão de repente... e, na semana seguinte, terem invadido o apartamento onde ela morava. E, por isso, Dorcas... – seus olhos se encheram de lágrimas ao pronunciar o nome da amiga. – Dorcas acabou sendo assassinada...
— Dorcas acabou sendo assassinada simplesmente por estar lá. – Emmeline concluiu o raciocínio de Marlene, que balançou a cabeça afirmativamente. – Concordo com você, Marlene. Não acho que tenha sido coincidência.
Independentemente de qualquer hipótese, o fato era que Dorcas estava morta e nada a traria de volta. E sua morte também seria mais um desfalque para a Ordem da Fênix. Duas pessoas em menos dez dias. Quantas chances de derrotarem Voldemort e seus seguidores eles possuíam agora? James subitamente sentiu-se com frio.
— Até quando vocês vão ficar inocentando a Lily? – Peter parecia desacreditado com o que Emmeline, Remus e Marlene sugeriram. – Ninguém some desse jeito se não tiver feito uma grande merda! – ele passou a mão pelo rosto, procurando se acalmar. Virou-se para James, dizendo: – O que você acha, Prongs?
Mas James já havia decidido que não falaria sobre o assunto. Não pronunciaria o nome dela ou ficaria se remoendo sobre possíveis motivos para sua fuga. Além do mais, ele definitivamente não havia formado opinião alguma sobre o assassinato inesperado de Dorcas, o choque daquela informação ainda não permitira que ele tivesse conseguido esboçar uma teoria bem fundamentada.
— Eu tenho plena confiança de que Lily não traiu a Ordem da Fênix. – a voz grave de Dumbledore soou atrás da roda.
Marlene e Peter abriram espaço para que o bruxo recém-chegado também pudesse participar do círculo. James direcionou os olhos para a lápide de Dorcas a fim de conferir como estava a Sra. Meadowes, mas a mulher não estava mais ali. Moody também havia desaparatado, possivelmente para acompanhá-la até sua casa.
— Desculpe, mas o que te faz ter tanta certeza disso? – Sirius o confrontou, descrente.
Os olhos azuis de Dumbledore brilharam na direção de James, por trás dos óculos de meia-lua.
— Um verdadeiro traidor não tem motivos para fugir enquanto não levantarem suspeitas a respeito de sua lealdade. – respondeu ele, tranquilo. – Um verdadeiro traidor permanece o quanto puder para repassar o máximo de informações possível. Ora, se Lily realmente estivesse trabalhando para Voldemort, mas ninguém parecia desconfiar disso, por que ela precisou partir tão de repente? Pense bem, rapaz. Há algo inestimável nesta história que estamos deixando passar.
Sirius e Peter trocaram um olhar incrédulo, mas não protestaram. E, pela primeira vez desde que os amigos iniciaram aquela conversa, James sentiu-se instigado a participar. Dumbledore parecia muito seguro do que estava afirmando.
— O senhor está sabendo de mais alguma coisa, professor? – James ouviu-se perguntar, inesperadamente. Todos assumiram expressões surpresas por terem finalmente ouvido sua voz.
Emmeline, que ainda estava ao seu lado, apoiou uma das mãos sobre seu ombro. Sirius cruzou os braços, como se desaprovasse seu interesse. Dumbledore suspirou antes de responder:
— Não, James, infelizmente desconheço as razões pelas quais Lily precisou nos deixar. Mas tenho certeza de que, independentemente do que tiver lhe acontecido, seus motivos foram nobres.
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[Sexta-feira, 05 de novembro de 1982, 11h00]
Somente quando as badaladas do relógio junto à parede começaram a tinir sonoramente, Marlene McKinnon decidiu tomar uma atitude.
James não viera trabalhar naquela manhã. Sirius, Remus e Peter também não. Evidentemente, a ausência dos quatro no mesmo dia não podia ser mera coincidência. Marlene estivera esperando uma notificação de James com orientações e explicações a respeito do não-comparecimento deles, mas, até aquele momento, nenhum patrono ou carta havia chegado.
Para agravar ainda mais a situação, Alastor Moody continuava executando uma tarefa externa e só voltaria na próxima segunda-feira. Não havia ninguém ali que pudesse orientá-los e, àquela altura do dia, algo precisava ser feito com urgência. No entanto, dentre os presentes, ninguém parecia querer tomar a iniciativa.
O teto do Quartel já estava coberto de memorandos. Os pássaros de papel enfeitiçados se dirigiam para a sala de James, como de costume, mas, ao se depararem com a porta fechada, seguiam para o Quartel. Àquela altura, havia uma considerável quantidade deles ali, voando inquietamente.
— Bom, não adianta continuarmos esperando. – Marlene concluiu, colocando-se de pé. – Já são onze horas, precisamos dar sequência ao trabalho, mesmo sem James e Moody. Vou tentar resolver o que der. Posso contar com vocês?
— Você tem razão, Marlene. – Alice também se levantou. – Conte comigo. Frank?
Frank pulou da cadeira e se aproximou da esposa e de Marlene. Em seguida, Hestia Jones e o jovem Kingsley Shacklebolt, os outros aurores presentes, também se aproximaram.
— Certo. – Marlene tomou a palavra. Tirou a varinha do bolso interno das vestes e apontou para um memorando qualquer. – Vamos começar.
Marlene executou um feitiço de convocação simples e apanhou um memorando endereçado a James. Abriu-o e encontrou uma letra garranchosa comunicando:
(09:54) Um bruxo altamente embriagado foi visto por mais de vinte trouxas, próximo à cidade de Salisbury, transformando montes de palha em tabaco. Favor enviar 1 auror. Martha Molloy, da Comissão de Justificativas Dignas de Trouxas, e Joseph Adams, da Central de Obliviação, aguardam seu chamado.
Escala Stump de grau de emergência (0 a 5): 4.
Marlene estacou. Não soube o que fazer diante de tal informação. Quem James enviaria para tal tarefa? Ela normalmente ficava incumbida de investigações longas, muito raramente atendia a missões emergenciais como aquela. E como ela deveria responder ao chamado dos bruxos mencionados, por meio de um memorando ou da Rede de Flu?
Ainda completamente indecisa, Marlene espiou o memorando que Alice convocara. A amiga parecia tão incerta quanto ela.
(10:21) Tentativa de furto no caixa da loja “Empório das Corujas”, no Beco Diagonal. Madame Atkinson, a proprietária, apanhou o suspeito após um duelar com ele e o trancou no armário de vassouras. Favor enviar 2 aurores, pois o acusado pode manter a postura agressiva. Walden Gilliam, do Departamento de Execução das Leis da Magia, irá acompanhar o caso.
Escala Stump de grau de emergência (0 a 5): 3.
— Quem você acha que deve ir? – Alice perguntou quando percebeu que Marlene terminara de ler. – Sirius e Remus normalmente ficam com os casos de furtos...
Mas antes que Marlene pudesse tentar responder, Shacklebolt levantou os olhos de seu memorando e interveio:
— McKinnon, esse aqui é grau cinco na Escala Stump! – ele parecia muito preocupado. – Um homem explodiu a cozinha fazendo uma poção! Trouxas já perceberam a fumaça, estão exigindo pelo menos três aurores e–
— Marlene, esse é grau cinco também! – Frank o interrompeu, sem tirar os olhos de seu papel. – O Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas exige a presença de um auror para a operação de resgate de uma família que vive em um casebre dominado por bandinhos, a casa pode desmoronar a qualquer momento! Estão esperando a confirmação de Moody! Quem–
— Houve uma briga envolvendo duelos num bar de um vilarejo bruxo chamado Sherwood! – a voz de Hestia se sobrepôs à de Frank. – Eles precisam do maior número possível de aurores, parece que faz horas que estão duelando, a população está em pânico e–
— ACALMEM-SE! – Marlene exigiu.
Todos se calaram e a encararam, assustados. Marlene percebera que sua respiração estava ofegante, portanto, antes de voltar a falar, respirou profundamente algumas vezes.
— Certo. – Marlene recomeçou, endireitando a postura. – Temos no mínimo uns dez chamados aqui. Precisamos nos organizar! Acho melhor ordenarmos todos pelo horário de envio, o que acham?
Alice, Frank, Shacklebolt e Hestia se entreolharam, como se perguntassem telepaticamente se alguém sabia responder à pergunta. Houve um silêncio breve, porém devastador.
— Eu não sei, McKinnon. Potter e Moody normalmente só nos comunicam qual é a situação e aonde devemos ir. – Shacklebolt arriscou. – Nunca me ocorreu se eles priorizavam os chamados pela ordem de emissão.
— Parece o certo a se fazer, Marlene. – Frank decidiu, sem querer perder mais tempo. – Tem chamados esperando desde às oito horas da manhã. Quantos somos? Cinco?
— Não, somos seis! Onde está Fenwick? – Marlene subitamente se lembrou do colega. – Ele não está trabalhando em nenhuma investigação, não é?
— Ele está... Vigiando a Evans, na Sala de Preparos. – informou Shacklebolt. Todos assumiram as mesmas expressões de desgosto. – Mas acho que Potter não gostaria que Fenwick saísse de lá.
— Azar o dele! – Marlene retrucou, irritada. – Vamos precisar de Fenwick fazendo algo de realmente útil hoje, estamos com cinco desfalques! Shacklebolt, vá chamá-lo, por favor!
Shacklebolt se adiantou para a saída do Quartel. Enquanto aguardava pelo retorno dos colegas, Marlene convocou mais um memorando. Um sutil desespero começou a se espalhar por seu corpo ao tentar contar o número de pássaros de papel que ainda restavam, voando acima de suas cabeças. O que poderia ter acontecido para que James, Sirius, Remus e Peter não tivessem vindo ao Ministério? Será que ela deveria mandar alguém atrás deles?
— Que sorte você não ter ido para a Travessa do Tranco hoje. – falou Alice.
— Nem me lembre. – Marlene resmungou, suspirando. – Aquela investigação na Borgin & Burkes não vai dar em nada, está tão óbvio! Até Moody já se deu conta disso, mas James insiste em continuar. Pelo menos não preciso mais ir todos os dias e, por sorte, hoje é um deles.
— O que aconteceu? – a voz de Benjamin Fenwick atraiu a atenção de todos. Ele atravessou a passagem da porta, pisando firme.
Marlene abriu a boca para dar-lhe uma explicação apressada sobre a situação, mas fechou-a antes de pronunciar a primeira palavra. Lily Evans surgiu logo atrás dele, com Shacklebolt ao seu encalço.
— Por que você a chamou, Shacklebolt? – Marlene questionou, semicerrando os olhos para o rapaz e evitando o olhar atento da recém-chegada.
— A questão é que...
— Ele não me chamou, Marlene. – Lily Evans tomou a palavra. Sua voz serena fazia com que o cenário parecesse ainda mais desesperador. – Eu vim porque também sou auror. Estou aqui para isso.
— O que aconteceu aqui? Onde está o Potter? – Fenwick voltou a perguntar.
Houve um momento de silêncio. Marlene estava ciente de que não tinham tempo sobrando, mas ela simplesmente não queria responder aquela pergunta na frente de Lily Evans. Não que houvesse um motivo realmente claro para justificar aquele desejo; pelo contrário. Ela ponderou por quase um minuto, mas, daquela vez, foi Alice quem tomou a decisão primeiro.
— Não sabemos, Ben. – ela respondeu, mas seus olhos castanhos estavam fixos em Lily Evans, como se medissem cada um de seus movimentos. – Sirius, Remus e Peter também não vieram.
— Aconteceu alguma coisa? – Fenwick insistia em obter uma resposta.
— Não sabemos. – Marlene repetiu, impaciente. – Mas precisamos nos mexer! Vamos abrir todos os memorandos e organizá-los por horário. Depois, vamos nos dividir para resolver tudo, se cada um de nós ficar com dois ou três casos, vamos conseguir dar conta.
E então, Marlene apontou a varinha para os memorandos que ainda sobrevoavam ansiosamente o lustre de velas, a fim de convocá-los. Mas Lily Evans a impediu de fazê-lo com um gesto educado com a mão.
— Marlene. – começou ela, calmamente. – A ordem de resolução dos casos deve ser regida pelo grau de emergência da Escala Stump. O horário é o segundo critério.
Todos olharam interrogativamente para Lily Evans, como se não pudessem acreditar no que haviam acabado de ouvir. Não demoraram a reconhecer que aquela afirmação estava absolutamente correta, mas ninguém teve coragem de admiti-lo em voz alta. Marlene foi a última dentre os presentes a virar o rosto para encará-la. Percebeu que as olheiras profundas ainda rodeavam seus olhos verdes e, pela primeira vez desde seu retorno, ela se perguntou onde Lily Evans estaria morando. Por que aquelas olheiras nunca desapareciam? O que Lily Evans fazia depois que ia embora do Ministério?
— Você está certa, Lily. – Fenwick concordou, interrompendo o fluxo de questionamentos que havia tomado a mente de Marlene. – Vamos começar.
Com um aceno da varinha, Fenwick fez com que todos os memorandos se enfileirassem no ar, diante de seus olhos. Pouco tempo depois, todos eles estavam desdobrados e ordenados pelo grau de urgência. Após terem finalmente concluído o primeiro passo do trabalho, os aurores iniciaram uma discussão sobre como se dividiriam para cumprir as tarefas. Marlene observou que Lily Evans não falara nem uma vez. Ela assistia a todos os colegas argumentarem e discordarem com atenção, como se os estivesse analisando.
— Eu, Alice e Shacklebolt podemos cuidar da explosão causada pela poção. – Frank dizia, num tom grave. – Só precisamos que alguém da Comissão de Justificativas Dignas de Trouxas nos acompa–
— Frank, você não sabe lidar com trouxas! – Alice protestou. – Da última vez, o Departamento de Acidentes e Catástrofes Mágicas enviou um comunicado a Moody pedindo para que você nunca mais entrasse em contato com eles em missões e–
— Eu sei, Alice, mas Diggle está de férias e Remus não veio, então quem mais poderia cuidar desse problema?
— E se enviarmos um patrono a Podmore, será que ele–
— Não. – Marlene interveio na mesma hora. – Podmore não pode.
— Onde está ele? – Lily Evans subitamente perguntou. Mais uma vez, o som de sua voz chocou os demais. – Eu nunca o vejo aqui.
Desde o fim da guerra, Sturgis Podmore ficara encarregado de vigiar os ex-Comensais da Morte que haviam escapado de serem encarcerados em Azkaban. Nem mesmo Marlene sabia detalhes a respeito da execução da missão do colega. Nas raras vezes em que Podmore visitava o Departamento de Aurores, ele se dirigia diretamente para a sala de Moody. Tudo o que ela sabia era que, nos últimos tempos, Podmore estivera vigiando os arredores da Mansão Malfoy.
Mas Lily Evans não era alguém de confiança. Marlene não sabia mais nada sobre ela, não sabia o que a fizera partir dois anos antes e muito menos o que a fizera retornar. E, pior: não sabia o que ela estivera fazendo durante todo aquele tempo.
— Podmore é responsável por uma missão sigilosa. – Marlene respondeu-lhe. Depois, lançou um olhar intimidante para Alice, informando-a mudamente para não deixar escapar qualquer coisa a respeito do assunto. – Enfim. Hestia, você pode cuidar da operação de resgate daquela família que mora no casebre dominado por bandinhos; Shacklebolt, Alice e Frank vão ao local da explosão–
— Mas Frank não pode lidar com trouxas! – Alice lembrou-a.
— Minha especialidade são duelos, Marlene, não resgates! – Hestia reclamou.
— ...eu acho que Potter nos mandaria primeiro para...
— ...e como eu vou saber quantos trouxas viram o homem transformar a palha...
— ...é muito arriscado, o ladrão do Empório das Corujas pode tentar...
— ...alguém da Central de Obliviação já deveria ter ido...
Um estrondo fez todos se calarem. Lily Evans batera com a palma da mão direita com força sobre a mesa redonda que ficava no centro da sala. Quando todos fizeram silêncio, ela voltou a erguer a cabeça para fitar os colegas. Lily Evans estava decididamente furiosa, seu rosto havia sido tomado por uma intensa vermelhidão.
— Mas o que está acontecendo aqui? – ela explodiu. – Desde quando vocês se tornaram tão covardes? Que eu me lembre, ninguém costumava ficar aqui, esperando ordens! A iniciativa de vocês acabou junto com a guerra, por acaso?
Durante o inesperado protesto de Lily Evans, todos foram dominados pela mesma sensação de assombro. Quando terminou de falar, ela olhou mortiferamente para eles, como se os desafiasse a contestá-la. Mas o choque de Alice não demorou a passar e ela foi a primeira a dizer exatamente o que os demais estavam pensando:
— Quem é você para mencionar a guerra para nós? – ela deu um passo à frente, fuzilando Lily Evans com os olhos. – Você não tinha nem que estar aqui, em primeiro lugar! Como você tem coragem de nos criticar, sendo que você nos virou as costas quando mais precisávamos?
— Pelo amor de Merlin, Alice! – Lily Evans revirou os olhos. – O que uma coisa tem a ver com a outra? Temos quase quinze chamados atrasados aqui e, em vez de aceitar que eu estou certa e começar a se mexer, você prefere levar o que eu disse para o lado pessoal? Por favor.
Alice estava boquiaberta.
— Eu não consigo acreditar na sua cara de pau! Como você tem coragem de fingir que nada aconteceu? Você acha que nós somos estúpidos? – Alice fez uma pausa para respirar. – Vá embora daqui, Lily, esse não é mais o seu lugar!
— Lily, acho melhor você voltar para a Sala de Preparos. – Marlene resolveu encerrar a discussão.
— Não, eu não vou! – Lily Evans retorquiu, sua voz transparecendo uma clara irritação. Ela caminhou até a lareira, do outro lado do aposento, e continuou: – Se alguém não tomar uma atitude, vocês vão ficar discutindo até o fim do dia? Sem James aqui, vocês não sabem mais o que fazer? Então deixe eu mostrar como se faz. – e, então, ela apanhou um punhado do pó brilhante que estava logo acima da lareira e atirou-o nas chamas: – Departamento de Acidentes e Catástrofes Mágicas!
Todos assistiram à Lily Evans enfiar a própria cabeça por entre as chamas, de costas para eles. Alice ainda estava nitidamente contrariada e bufava sonoramente. Enquanto assistia a Lily Evans fazer uso da Rede de Flu, ela se virou inconformada para Marlene, relutando em aceitar a situação.
— Marlene, nós não podemos permitir isso! – ela sussurrou para a amiga. – Essa é exatamente a oportunidade que ela estava procurando! James vai ficar furioso–
— Lily Evans, do Departamento de Aurores. – eles puderam ouvi-la se apresentar, ainda com a cabeça enterrada no meio do fogo. Alice se calou. – Gostaria de saber se é possível aparatar no local da explosão do caldeirão em Brighton. – continuou ela. – Certo. Tivemos um problema aqui, peço desculpas. Não, Moody não está. Potter também não. Ok, obrigada. – Lily Evans voltou a se endireitar. Deu meia volta e olhou para o grupo de aurores, afastando a fuligem de seus cabelos. – Não é recomendado aparatar nos arredores do apartamento do homem que explodiu a própria cozinha, está infestado de trouxas e bombeiros. O chefe do Departamento de Acidentes me informou que oito pessoas do Esquadrão de Reversão de Mágicas Acidentais já estão lá há duas horas, cuidando de tudo. Alice e Shacklebolt, vocês precisam ir agora! Usem a lareira do apartamento da frente, ninguém mora nele.
Shacklebolt andou apressadamente até a lareira. Alice cruzou os braços, recusando-se a obedecer, mas Frank censurou seu comportamento.
— Alice, por favor, não faz sentido levar isso para o lado pessoal. Uma pessoa está precisando de ajuda!
Alice finalmente cedeu e, quando chegou à lareira, Lily Evans estava informando a Shacklebolt o endereço.
— Dover Road, número vinte e um, apartamento doze. – dizia ela, com firmeza na voz. – Depois que resolverem tudo por lá, voltem a esse apartamento vazio e se dirijam imediatamente à lareira do Caldeirão Furado. Vou deixá-los encarregados do caso do Empório das Corujas também.
Shacklebolt confirmou com a cabeça.
— Evans, só mais uma coisinha. – ele pigarreou. – Quanto ao Empório das Corujas, estava escrito no memorando que Walden Gilliam, do Departamento de Execução das Leis da Magia, iria acompanhar o caso.
— Não se preocupe, vou avisá-lo assim que vocês forem. – Lily Evans o tranquilizou, aparentemente satisfeita por não captar nenhuma resistência da parte de Shacklebolt. – Podem ir.
Antes mesmo que Alice e Shacklebolt tivessem desaparecido pela lareira, Lily Evans começou a explicar a Frank o que ele deveria fazer. Marlene involuntariamente pegou-se lembrando dos tempos em que Lily e James eram a dupla de ouro do Departamento, responsáveis por criar as emboscadas estratégicas para apanharem os Comensais da Morte. O fato era que, mesmo tendo estado afastada durante os últimos dois anos, Lily Evans aparentemente não perdera a postura de liderança que costumava exercer. Enquanto ouvia a ruiva distribuir instruções com sua típica impecabilidade, Marlene sentiu-se de volta ao passado. Por uma fração de segundo, Marlene reconheceu naquela mulher a mesma Lily Evans tão admirada que conhecera e que tantas vezes servira de exemplo para os aurores desencorajados, na época da guerra.
— Ben, você pode cuidar do resgate daquela família? – Lily Evans perguntou, assim que Frank desapareceu pelo buraco da lareira. – Lembro que você sempre se deu bem em resgates envolvendo pragas mágicas.
Fenwick abriu um sorriso.
— Você tem boa memória, Lily. – ele lhe respondeu, bem humorado.
Lily Evans não sorriu de volta, apenas desviou o olhar e voltou a se aproximar da mesa. Conjurou um pedaço de pergaminho, pegou a pena que jazia sobre a superfície e começou a escrever nele.
— Vou enviar esse memorando para o Departamento de Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas. – ela explicou, enquanto escrevia apressadamente. Depois de terminar, ela tocou o papel com a ponta da varinha e ele imediatamente se transformou em uma dobradura em formato de pássaro. – Escritório de Orientação sobre Pragas, quarto nível. – ela sussurrou, ainda apontando a varinha para o memorando.
O pássaro atravessou a sala e saiu pela porta. Lily Evans tornou a se virar para Fenwick e entregou-lhe o memorando que continha a descrição da situação.
— O endereço da casa está aqui? – ele perguntou.
— Sim. Você pode chegar lá por meio de aparatação, pelo que consta nas informações. – ela explicou. – Depois de resolver tudo por lá, você deve ir imediatamente para o vilarejo de Sherwood. Ok?
Fenwick piscou com um olho só e saiu do Quartel. Seus passos ainda podiam ser ouvidos no corredor quando Marlene e Hestia foram convidadas a se aproximarem da mesa por meio de um gesto de Lily Evans.
Hestia parecia muito tranquila e Marlene julgou que fosse pelo fato da colega jamais ter sido próxima de Lily Evans no passado. Hestia pertencera à Lufa-lufa em Hogwarts; quando participou do mesmo treinamento de aurores de Lily e Marlene, a guerra estava em seu auge e, por conta disso, o treinamento, que normalmente possuía três anos de duração, fora encurtado pela metade. Portanto, não havia tempo para que os aspirantes a auror conseguissem fazer novas amizades. Marlene só teve a oportunidade de conhecer Hestia de verdade durante o último ano, quando as coisas finalmente voltaram a se acalmar.
— Hestia, você se especializou em duelos, não é? – Lily Evans perguntou, embora não parecesse incerta daquela informação. Hestia confirmou com a cabeça. – Então, você e eu vamos direto à Sherwood. – em seguida, virou-se para Marlene. – Você pode cuidar do caso do bêbado que ficou se exibindo para os trouxas? Você tem praticado Feitiços de Reversão?
— Sim. – respondeu Marlene. Quando Lily Evans voltou a se curvar sobre a mesa, provavelmente para escrever outro memorando para a Central de Obliviação, ela interveio prontamente: – Não precisa, eu mesma faço isso. Vocês deveriam se apressar.
Lily Evans endireitou-se e olhou-a nos olhos. Marlene sustentou o olhar com a mesma intensidade e rapidamente captou a mensagem. Lily Evans estava lhe agradecendo.
— Quando terminar, nos encontre em Sherwood. – ela falou, por fim. Marlene balançou a cabeça positivamente.
— Vejo você mais tarde, Mar! – Hestia se despediu.
E então, Lily Evans e Hestia seguiram os mesmos passos de Fenwick. Quando se viu completamente sozinha, Marlene sentou-se à mesa e escreveu um memorando aos dois departamentos que também iriam acompanhar o caso. Enquanto relia o pergaminho para verificar se faltava alguma informação, Marlene questionou-se mais uma vez sobre o que poderia ter acontecido para que James, Sirius, Remus e Peter não viessem ao Ministério. Pensou na Lua Cheia, mas esta só se daria na semana seguinte. E os rapazes, exceto Remus, nunca deixavam de ir trabalhar por conta daquilo.
Mas a tão esperada explicação para aquele mistério não tardou a chegar. Marlene havia acabado de se levantar, após ter despachado o memorando, quando uma fumaça prateada irrompeu pelas paredes e iluminou a sala. A névoa parou a poucos metros de Marlene e rapidamente assumiu a forma de um enorme cachorro. Antes mesmo de ouvir a voz de quem o havia conjurado, ela já sabia a quem o patrono pertencia.
— Dorea Potter faleceu hoje pela manhã. – a voz de Sirius soou da boca do cão. – O enterro vai ser amanhã, em Godric’s Hollow, ao pôr do sol.
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[Sábado, 06 de novembro de 1982, 16h45]
Somente quando as correntes que suspendiam o caixão começaram a tinir sonoramente, a primeira lágrima escorreu pelo rosto de James. Lentamente, o caixão branco ornamentado com detalhes dourados começou a se mover para dentro da cova e Dorea Potter finalmente descansaria em paz, embaixo da terra.
Foi só quando viu o caixão desaparecer cova adentro que James finalmente assimilou o que estava acontecendo. Até aquele exato instante, ele estivera em choque desde o momento em que recebera a notícia do elfo doméstico de sua mãe, na manhã do dia anterior. Sua mãe estava morta. Falecera durante o sono, sem dor, sem perceber. Segundo o elfo, desde que Dorea tivera de ir ao Hospital St. Mungus, seu estado de saúde entrara em considerável declínio.
Mas a teimosia da Sra. Potter não permitiu que ela voltasse a procurar um medibruxo. “É só uma gripe, vai passar logo”, era o que ela repetia ao elfo, em seus últimos dias. James conhecia a mãe o suficiente para saber que ela teria agido exatamente daquela maneira. O elfo se culpava e chorava ininterruptamente desde que dera a notícia a James, no dia anterior. Seu pranto piorou quando dois bruxos, vestidos de preto, começaram a cobrir a cova de Dorea com movimentos suaves de suas varinhas.
Não havia muitas pessoas presentes no cemitério naquele triste entardecer. A família Potter não possuía mais muitos membros vivos e Dorea não tinha mais contato com seus parentes da família Black. O chefe de cerimônias declamava palavras solenes ao lado do túmulo, mas James não prestava a mínima atenção. Ele só pensava em uma única coisa. Sua mãe lhe escrevera várias vezes naquela semana, pedindo para que ele fosse visitá-la. Mas ele não fora. Será que ela queria se despedir? James nunca saberia.
Pouco tempo depois, uma agitação entre os presentes obrigou James a abandonar seus pensamentos. A cerimônia fúnebre chegara ao fim e as pessoas à sua volta lançavam faíscas da ponta de suas varinhas em direção ao céu alaranjado pelo pôr do sol. Mas ele não se mexeu. Quando a homenagem terminou, James finalmente percebeu que, ao seu lado direito, Albus Dumbledore encarava fixamente o horizonte, com um ar enigmático. Até então, James não havia notado a presença do homem no cemitério. Há quanto tempo ele estaria ali?
Os bruxos começaram a se aproximar da lápide para conjurar belos arranjos de flores. Dentre os presentes, James reconheceu alguns funcionários do Ministério da Magia e amigos da família. Aqueles que terminavam de prestar suas condolências junto à lápide partiam em direção à saída do cemitério. E, assim, pouco a pouco, o local se tornava cada vez mais deserto.
— Vamos, James. – Sirius murmurou. – Você precisa descansar.
James permanecera imóvel durante todas as homenagens. Seus olhos ardiam e o rastro da única lágrima que derramara já havia desaparecido por completo.
Emmeline, dando-se conta de que James sequer havia ouvido a sugestão de Sirius, enlaçou o namorado pelo braço e tentou conduzi-lo na direção do caminho de pedras que os levaria à saída do cemitério. James cedeu sem apresentar qualquer resistência. Embora seu olhar estivesse imóvel, vidrado no túmulo de Dorea, suas pernas obedeceram aos comandos de Emmeline e, poucos segundos depois, o casal, seguido por Sirius, começou a se afastar.
— Eu gostaria de dar uma palavrinha com James. – a voz de Dumbledore surgiu atrás deles.
James parou de andar e virou-se para trás. Sirius e Emmeline trocaram um olhar intrigado e andaram alguns passos para longe, oferecendo privacidade a James e Dumbledore.
— Eu sei que talvez esse não seja o melhor momento, mas precisarei voltar à Hogwarts amanhã cedo. Então precisa ser agora. – Dumbledore começou, num tom gentil. – Recebi uma carta de sua mãe, quinta-feira à noite. Ela queria que eu lhe entregasse algo muito importante.
James levantou a cabeça e o encarou pela primeira vez. Dumbledore tateava os bolsos internos das vestes. Quinta-feira à noite, enquanto ele estava bebendo com os amigos no Três Vassouras, sua mãe escrevia uma carta a Dumbledore endereçada a ele e se preparava para dormir um sono do qual jamais acordaria. James sentiu o aperto em seu peito se intensificar com aquela nova informação.
Dumbledore retirou um longo vidro, semelhante a um tubo de ensaio fino, do bolso. Dentro da parede transparente do objeto, havia um fio prateado brilhante. Uma memória.
— Sua mãe gostaria de ter te contado pessoalmente, mas, como decidiu fazê-lo tarde demais, receio que extrair esta memória tenha sido a melhor saída que ela encontrou. – Dumbledore voltou a falar, oferecendo o vidro com a memória a James. – Deixei minha penseira com Alastor. Ele a guardou em sua sala, no Ministério, e ela ficará lá durante o tempo que você precisar. Não tenha pressa para usá-la.
James aceitou o tubo e guardou-o nas vestes.
— Obrigado.
— Ora, não por isso.
James fez menção de se virar para ir embora, mas deteve-se. Voltou a encarar Dumbledore.
— O senhor sabe sobre o que pode ser? – ele perguntou, referindo-se à memória.
— Não tenho muita certeza. – Dumbledore respondeu, olhando-o por trás dos óculos de meia-lua. – Mas receio, pelas informações contidas na carta, que essa memória tenha alguma relação com Lily Evans.
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[Sábado, 06 de novembro de 1982, 17h37]
Emmeline estava exausta, mas não podia simplesmente ir embora e deixar James daquele jeito. Ele não pronunciara uma palavra sequer durante o velório e o enterro. E, embora ela soubesse perfeitamente que James não costumava falar muito, o silêncio dele naquele dia estava mais pesado do que o normal. Era o tipo de silêncio de alguém que precisa falar, mas que não consegue reunir forças o suficiente para fazê-lo. E ela queria estar ali para quando ele conseguisse.
Quando chegaram ao apartamento de James, ele rumou imediatamente para seu quarto. Emmeline permaneceu na sala mal iluminada, pensativa. Achou melhor deixá-lo sozinho.
E então, ela se encaminhou para a cozinha, a fim de preparar um café para conseguir aguentar mais algumas horas acordada. Ela não dormira na noite anterior, uma vez que permanecera ao lado de James o tempo todo, no velório.
Abriu o armário da bancada e percebeu que ele estava quase vazio. Em meio a um suspiro, pegou o saco de grãos de café e o colocou sobre a pia. Em seguida, convocou uma xícara de porcelana. Enquanto moía os grãos com um jato de luz proveniente de sua varinha, Emmeline olhou para a cozinha mal arrumada com uma sensação de estranheza.
Ela achou que nunca mais pisaria naquele apartamento. Após a briga que tiveram na festa, James não a procurara e, pela primeira vez desde que aquelas brigas começaram a se repetir, Emmeline tampouco sentiu vontade de tentar consertar a situação. Na verdade, ela havia desistido completamente de insistir no relacionamento.
Mas quando recebera o patrono de Sirius, no dia anterior, Emmeline momentaneamente esquecera-se de todos os motivos pelos quais havia desistido de James. Ele precisaria de muito apoio para superar mais uma perda. Não era hora para colocar problemas menores no topo de suas prioridades, afinal, mesmo que ainda estivesse muito chateada com o descaso de James, Emmeline não poderia ignorar o que acabara de acontecer com ele.
James havia perdido a mãe.
— Emme? – ela ouviu a voz dele chamá-la, do quarto.
Emmeline deixou seu café de lado e adiantou-se pelo corredor. James estava sentado na borda da cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos, segurando a própria cabeça com ambas as mãos. Aquela imagem fez com que ela desabasse por dentro.
— Estou aqui.
Foi só então que Emmeline percebeu que James estava soluçando. Soluçando copiosamente. Ela se sentou ao lado dele, incerta se deveria dizer alguma coisa. Resolveu respeitar seu espaço e manteve-se quieta, aguardando. Afinal, se James a havia chamado ali, então aquilo significava que ele queria sua companhia, mesmo silenciosa.
A cada soluço, James encurvava-se mais. Ele enroscou os dedos por entre seus cabelos, como se fosse arrancá-los de seu couro cabeludo.
— Eu não fui jantar com ela. – ele falou. – Eu ignorei todas as cartas dela.
Emmeline passou um braço por cima dos ombros dele e o trouxe para mais perto. James soltou os cabelos e descansou os braços sobre os joelhos, mas continuou com o olhar fixo em algum ponto perdido pelo chão.
— Você não tinha como saber, James. – disse Emmeline, inclinando-se para encontrar os olhos dele. – Não se culpe, por favor. Você não poderia ter evitado.
James carregava uma expressão comovedoramente miserável. Seu cenho estava franzido sobre os olhos inchados e seu rosto estava totalmente úmido pelas lágrimas. Emmeline segurou-o pelos maxilares, obrigando-o a olhá-la nos olhos.
— James, você não tem culpa. – ela afirmou com toda a firmeza que fora capaz de aplicar na própria voz. Ela queria olhar melhor nos olhos dele, mas as lentes embaçadas dos óculos a impediam. Com cuidado, ela puxou os óculos pelas duas hastes e os colocou de lado, sobre a cama. – Por favor, não se deixe levar por essa ideia. Por favor.
James franziu ainda mais as sobrancelhas, como se estivesse se esforçando para se convencer daquilo. Emmeline nunca o vira daquele jeito. Nos últimos anos, James assumira um aspecto tão inexpressivo que vê-lo fragilizado daquela forma era algo definitivamente atordoante.
Por fim, ele meneou a cabeça e desviou o olhar. Emmeline viu os olhos dele se encherem de lágrimas novamente e, sem poder se conter mais, ela puxou-o para um abraço. Naquele momento, não havia nada que ela pudesse lhe dizer. Nada do que ela lhe dissesse faria alguma diferença, de qualquer forma.
James aceitou aquele abraço com mais urgência do que Emmeline poderia esperar. Ele a apertou com força, afundou o rosto em seu pescoço e chorou baixinho. Emmeline acariciou os cabelos dele suavemente, numa tentativa de acalmá-lo.
— Emme... – ele sussurrou, com a voz sufocada. – Você pode ficar aqui comigo hoje?
Emmeline não precisou pensar na resposta.
— É claro que posso.
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[Sábado, 06 de novembro de 1982, 17h37]
A caminho dos portões do cemitério de Godric’s Hollow, Remus Lupin subitamente interrompeu sua caminhada e virou a cabeça para a direita, na direção da colina. Percebeu que fazia meses desde a última vez em que visitara uma certa lápide e decidiu fazer-lhe uma rápida visita antes de retornar à Londres.
Caminhou a passos rápidos pelo corredor de lápides e alcançou o cume do cemitério em poucos minutos. E então, Remus percebeu que não fora a única pessoa que tivera a ideia de visitar a lápide de Dorcas Meadowes naquela noite.
Ele a reconheceu pela capa. Longa e preta, de veludo, exatamente como James descrevera. Conforme Remus avançava naquela direção, a figura de Lily Evans ajoelhada diante do túmulo de Dorcas ficava cada vez mais clara. Ele continuou se aproximando, silenciosamente, imaginando o que diria a ela quando a alcançasse.
Mas Remus pisou em um graveto particularmente mal posicionado e involuntariamente alertou-a de sua presença. Lily se colocou de pé no mesmo instante, mas não se virou para ver quem se aproximava. E, no segundo seguinte, ela começou a se afastar na direção oposta.
— Não precisa ir embora, Lily. – Remus disse. – Eu não mordo. Pelo menos, não quando a lua está nessa fase.
Remus sabia que aquele trocadilho enfraqueceria a determinação de Lily em manter-se distante. E ele estava certo. Lily deu meia volta e pendeu a cabeça para o lado. Remus parou de andar quando chegou ao mesmo local onde ela anteriormente estivera ajoelhada e suspirou.
— Eu sei que você visita o túmulo da Dorcas. – ele comentou, casualmente, abaixando a cabeça para ver a lápide. Ela cintilou à luz do poste de luz que se erguia ao lado. – Quero dizer, visitava. Faz um bom tempo que não vejo o lírio que você costumava deixar aqui.
Lily parecia estar em choque.
— V-você... sabia?
— Bom, eu não podia ter certeza. – Remus explicou, colocando a mão nos bolsos. – Mas gostava de achar que era você. Era uma forma de saber que você estava viva.
E então, para a surpresa de Remus, Lily se aproximou e parou ao seu lado. Ela abaixou o capuz da capa e seu rosto também foi iluminado pela luz do poste. Ela estava séria, mas sua aparência era decididamente triste.
— Foi culpa minha, Remus. – ela murmurou, olhando para o nome de Dorcas esculpido delicadamente na pedra de mármore. – Ela morreu por minha culpa.
— Não, Lily. – ele negou, gentilmente. – Aliás, fico feliz que você não estava lá naquela noite. Se estivesse, você provavelmente estaria sob alguma outra lápide desse cemitério agora mesmo. Você não conseguiria ter evitado o que aconteceu.
Lily virou o rosto para ele e, pelo canto do olho, Remus observou que sua expressão era de profundo terror. Ela não parecia capaz de acreditar nas palavras dele e aquilo o intrigou. Antigamente, Lily costumava enxergar apenas as melhores intenções na maioria das pessoas. O que poderia ter acontecido a ela nos últimos dois anos? Por que ela precisara ir embora? Por que ela não podia simplesmente explicar aos antigos amigos o que havia acontecido?
Talvez porque não houvesse um motivo plausível para todos aqueles acontecimentos.
Mas Remus preferiu não enunciar aquelas perguntas. Ele sabia que Lily não iria respondê-las, afinal, se ela quisesse dar-lhes qualquer explicação, ela já o teria feito assim que retornara ao Quartel.
— Por quê? – Lily perguntou, de repente. – Por que você não me questiona, Remus? Você não sente raiva de mim?
Remus só descobriu que possuía uma resposta pronta para aquela pergunta no exato momento em que começou a ponderar para respondê-la.
— No quinto ano, quando viramos monitores, todo mês você assumia as responsabilidades da monitoria por alguns dias porque eu precisava "visitar minha mãe". Você nunca me questionou. Você sabia que eu escondia alguma coisa. Você sabia que eu não podia te contar o que era e você respeitou o meu silêncio. – ele colocou uma mão sobre o ombro dela, deixando-a ainda mais horrorizada. – Então, dessa vez, é minha vez de respeitar o seu.
De repente, Lily levou as mãos ao rosto, tentando abafar o choro tímido que inesperadamente explodiu de dentro dela. Ela deu um passo para trás, tentando disfarçar, mas Remus não deixou que ela se afastasse. Ele a puxou para um abraço. E respeitou seu silêncio.
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Naquele momento, em sua bela mansão na cidade de Wiltshire, Lucius Malfoy recebia uma visita inesperada.
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