Zerstören
8 Capítulo 8 - Manchetes
Notas iniciais
Capítulo 8 – Manchetes
[Terça-feira, 03 de novembro de 1981, 23h09]
Havia três dias desde que acontecimentos consideravelmente estranhos começaram a acontecer por toda a Grã-Bretanha. Para comprovar as suspeitas da população britânica, a manchete da primeira página do Daily Mail trazia os resultados de uma curiosa pesquisa realizada por conta dos últimos fatos: era a primeira vez, em muitíssimos anos – os jornalistas não puderam apontar uma data específica, uma vez que jamais haviam realizado tal pesquisa antes –, em que tantas corujas foram vistas sobrevoarem o céu do país. Suspeitavam de uma migração repentina por conta do aquecimento global. O problema era que não havia sido possível distinguir se as aves estavam migrando para o norte, sul, leste ou oeste: elas foram vistas voando para todas as direções.
Outro evento inexplicável foi a interminável chuva de estrelas cadentes que iluminaram as noites daqueles primeiros dias de novembro. Embora o Conselho Astronômico da Grã-Bretanha, o qual era formado por pesquisadores renomados da Universidade de Cambridge, não pudesse fornecer qualquer justificativa razoável para aquela passagem incomum de milhares de meteoroides pela atmosfera terrestre, as pessoas não pareciam se incomodar com aquele magnífico espetáculo transmitido pelo céu. Para a maioria, tratava-se de um fenômeno maravilhoso demais para poder ser explicado por meros seres humanos.
E o céu estava igualmente agitado acima do povoado de Hogsmeade. No entanto, diferente da maior parte do país, a população local não parecia minimamente preocupada com misteriosa quantidade de estrelas cadentes. Ou com a súbita migração das corujas. Pelo contrário. As pessoas que transitavam por ali naquela noite de novembro eram as responsáveis por boa parte daqueles acontecimentos inusitados. Elas caminhavam pelas ruas, cantando hinos de vitória, segurando canecas de cerveja acima de suas cabeças, brindando uns com os outros. Afinal, a comunidade bruxa estava em festa por conta da queda de Lord Voldemort.
As portas do pub mais famoso do vilarejo, o Três Vassouras, se abriram para permitir que dois bruxos altos saíssem para a varanda. Atrás deles, dentro do bar lotado, uma festa estava acontecendo. O bruxo à esquerda, que usava óculos, levantou a cabeça para o céu iluminado e tateou o bolso interno das vestes.
— Diggle tem que parar com essas estrelas cadentes! – James Potter resmungou antes de levar um cigarro à boca. Apoiou a lateral do quadril no batente da varanda e virou-se para encarar Sirius Black. – Envie um Patrono para ele, Pads. Você leu os jornais? Os trouxas já estão desconfiando.
Mas Sirius rolou os olhos e cruzou os braços na frente do peito.
— A guerra acabou, James! Acabou! Todos estão comemorando! Em toda parte!
Um grupo barulhento de bruxos virou a esquina, com um pesado barril de cerveja amanteigada levitando ao seu lado. Passaram em frente ao pub e, ao notarem a presença de James e Sirius, acenaram animadamente. Um deles berrou:
— À paz! – e levantou uma taça de prata.
— Saúde! – Sirius ergueu sua caneca na direção deles, sorrindo animado.
Soltando gargalhadas embriagadas, o grupo desapareceu no fim da rua. James voltou a encarar as luzes coloridas cruzarem o céu.
— Já se passaram três dias, já era hora de–
— Hora de quê, James? Quem se importa com os trouxas agora? – Sirius começou a se irritar. – E hoje é o meu aniversário! – continuou, num tom indignado, como se o desânimo do melhor amigo fosse uma ofensa. – Será que nem assim você poderia deixar seu mau-humor de lado? Há quanto tempo não comemoramos alguma coisa?
James tragou o cigarro e assentiu com a cabeça, afastando o pensamento.
— Para que você me chamou aqui fora, afinal? – ele perguntou.
Sirius bebeu um gole de sua cerveja, enquanto pensava em uma forma para começar. James aguardou em silêncio.
— Marlene. – Sirius praticamente rosnou o nome da garota.
— Eu vi vocês conversando. – James contou. – O que ela queria?
— Ela veio me comunicar que não vai dormir na minha casa esta noite porque vai começar uma vida nova a partir de hoje. Ela disse que quer estabelecer metas, sair da casa dos pais e começar a pensar no futuro, já que não precisa mais viver como se fosse morrer a qualquer momento. E, aparentemente, ela decidiu tudo isso agora, já que mais cedo tudo estava... normal.
— Então vocês terminaram?
— Nós não tínhamos nada para terminar, Prongs. – Sirius deu as costas para a rua para se apoiar no batente da varanda, ao lado de James. – Passávamos a noite juntos de vez em quando só para aliviar a tensão da guerra. Nada mais. E agora que não há mais guerra, era esperado que isso fosse acontecer. Eu só não entendo por que ela quis falar disso bem agora, no meio da comemoração do meu aniversário. Ela não podia ter esperado outro dia? Amanhã, por exemplo?
James expirou a fumaça, abrindo um sorriso amargo.
— Você estava flertando com Rosmerta de novo, Padfoot.
— Eu não estava flertando, só estava conversando com ela.
— Vocês estavam flertando. Todo mundo reparou. Marlene deve ter ficado chateada.
Sirius desencostou-se do batente e lançou-lhe um olhar sombrio.
— Eu não estava flertando com Rosmerta. Não tenho mais quinze anos, James.
— Se você diz... – e James voltou a observar o movimento da rua, desinteressado demais para prolongar a discussão.
Sirius não aprovara o tom descrente do amigo. Na verdade, aquilo o irritou mais do que deveria. E, ao se dar conta de que James não tinha a mínima pressa para terminar seu cigarro, Sirius resolveu voltar para a festa. Caminhou até a porta do pub e, antes de abri-la, não pôde evitar dizer as palavras ácidas que se seguiram:
— Eu não estava flertando com a Rosmerta. Ela só queria saber como foi a noite do dia trinta e um, como todo mundo. Foi uma conversa absolutamente normal. Mas eu não espero que você entenda a diferença, afinal, há quanto tempo você não flerta com alguém?
No momento em que a porta bateu, James deu um longo trago no cigarro e cerrou os olhos para concentrar-se no efeito calmante que a nicotina lhe oferecia. Quando a brasa alcançou o filtro, James jogou o cigarro longe e voltou a adentrar o Três Vassouras.
Foi direto para o balcão do bar e pediu mais uma dose de firewhisky. Decidiu que terminaria de beber e voltaria para casa. Aquela última dose certamente lhe ofereceria o torpor necessário para que pudesse cair no sono sem delongas, assim que se deitasse.
— James? Posso falar com você?
Emmeline Vance, loira e imponente, surgiu ao seu lado e, sem esperar pela confirmação, sentou-se no banco vazio à sua esquerda.
— Eu já estava de saída. – James avisou.
Ele entornou o restante do whisky.
— Vou ser breve. – ela insistiu, após ouvir o baque do copo sobre o balcão.
James virou-se para ela muito lentamente. Percebeu que os cabelos de Emmeline estavam mais curtos, na altura dos ombros, e pensou em fazer um comentário a respeito, a fim de parecer menos mal-humorado. Mas Emmeline foi mais rápida:
— Eu quero saber por que você me deixou de fora da batalha do dia trinta e um. – ao terminar a sentença, James tentou interrompê-la, mas Emmeline fez um gesto pedindo silêncio. – Eu sei que foi você quem encontrou a memória do Caradoc e, por isso, você ganhou o direito de elaborar toda a emboscada, mas eu também sou membro da Ordem! Não sou auror, mas estive ao lado de vocês sempre que pude. Então por que você sequer me convocou? Dumbledore me disse que a decisão foi sua!
De todas as possibilidades que James poderia ter cogitado ouvir, aquela era certamente a última que ele estava esperando. Desde o fim da Batalha Final de Godric’s Hollow, as pessoas o abordavam apenas para agradecê-lo. Ou parabenizá-lo. Mas nunca, de maneira alguma, para questioná-lo daquela forma.
— Como é que é?
— E não venha me dizer que você só escolheu os membros da Ordem que também são aurores porque você também não convocou Dedalus! – Emmeline continuou seu protesto, seu rosto se tornando mais rosado a cada palavra. – Eu tinha o direito de escolher lutar, James!
James ponderou com muito cuidado antes de responder. Resolveu ser totalmente franco, a fim de tornar aquela conversa o mais breve possível.
— Assim que concebi toda a estratégia para armar a emboscada em Godric’s Hollow, eu me reuni com Dumbledore. – James fez uma breve pausa para se certificar de que Emmeline estivesse realmente prestando atenção. Ela estava. Seus olhos não piscavam. – Ele analisou meu esquema tático e concluiu que seria muito arriscado. Mas eu não iria perder aquela oportunidade. Eu não poderia. Não depois do esforço de Caradoc. Então ele me pediu para selecionar apenas alguns membros da Ordem, pois se todo o plano desse errado, ainda restariam outras pessoas para continuar e lutar.
— E posso saber qual foi seu critério de seleção? – Emmeline inclinou-se para frente, fulminando-o com o olhar. – Você não me acha boa o suficiente? Acha que eu não teria dado conta?
— Emmeline, eu deixei Albus Dumbledore de fora. – interpôs James, com firmeza. – Obviamente meu critério não foi baseado na competência individual de cada um.
Mas aquele argumento não fizera Emmeline se acalmar. Sua feição permanecera igualmente ultrajada.
— Se competência não foi o seu critério, então qual foi?
— Família.
— O QUÊ?
— Sim, família. – James repetiu, começando a perder a paciência. – Dumbledore pode ter só um irmão, mas Hogwarts precisa da proteção dele. O mesmo com a profa. McGonagall. Elphias Doge tem a irmã e os sobrinhos, que dependem dele, então também o deixei de fora. Dedalus Diggle tem a esposa e os filhos...
— Mas Marlene tem um pai, uma mãe doente e três irmãos mais novos e eles também dependem dela! Então por que ela pôde ir e eu não?
James bufou.
— Marlene estava na casa do Sirius quando eu fui chamá-lo. Ela não aceitou que eu dissesse não. E a família dela foi mencionada por Bellatrix Lestrange naquela memória, então achei que ela tivesse o direito de lutar para protegê-la.
— Ótimo! – Emmeline exclamou, chateada. – Mas e eu? E daí que tenho meus pais, você também tem sua mãe e Remus também tem o pai dele! Que família eu tenho a mais que vocês não têm?
James a olhou perplexo. Como ela se atrevia a perguntar aquilo? Por que ela estava se fazendo de desentendida daquela forma?
— Emmeline, você não vai se casar?
A expressão intimidante de Emmeline se desfez no mesmo instante em que James terminara de falar. Ela estreitou as pálpebras e desviou o olhar, parecendo desconcertada. Abriu a boca para contestar duas vezes antes de finalmente conseguir proferir:
— James, Collin foi embora do país. Há seis meses.
— Como?
— Você tem vivido em um mundo particular, não é possível. Você realmente não soube?
— Não. Ele precisou ir?
— Não, James. – Emmeline respondeu, cansada. – Collin quis ir embora. Ele não suportava mais viver com medo; não suportava mais a guerra. Ele quis que eu fosse com ele, mas eu obviamente não aceitei. Então ele foi sozinho.
James vasculhou sua memória em busca de alguma lembrança que envolvesse o recebimento daquela notícia, mas não conseguiu encontrar qualquer coisa. Subitamente, um sentimento de empatia começou a se formar dentro de James. Ele definitivamente sabia como era terrível ser deixado para trás pela pessoa na qual mais havia depositado sua confiança. A situação de Emmeline não era muito diferente da dele.
— Eu não sabia. – confessou, por fim.
Emmeline rolou os olhos, girou o torso para frente e apoiou os cotovelos no balcão. Sua postura agora estava pesarosa, totalmente diferente do início da conversa.
— Eu não acredito que perdi a chance de lutar porque você achou que... – ela voltou a falar, mais para si mesma do que para ele, mas sua voz morreu antes que a frase chegasse ao fim.
— Eu não sabia.
— É claro que não sabia. Você só tem olhos para você, para a sua dor. – Emmeline retorquiu, ainda encarando a parede oposta ao bar. A fim de afastar a raiva, ela fechou os olhos com força e completou: – Há muitas coisas que você não sabe sobre mim, James.
Ouvir mais uma crítica à sua personalidade em menos de dez minutos fez James finalmente compreender o quão distante ele estava dos amigos. Ele realmente não sabia mais nada sobre a vida de Emmeline Vance, fazia meses que não conversava com ela. E tê-la deixado de lado da batalha em Godric’s Hollow, achando que ela ainda estivesse planejando o casamento, provocou nele um desejo enorme de compensá-la. Assim como seus outros melhores amigos, ela merecia ter lutado ao seu lado. E, por culpa de sua falta de interesse sobre a vida alheia, Emmeline fora descartada injustamente.
— Então vamos mudar isso.
Emmeline virou o rosto para olhá-lo, sem compreender.
— O que você quis dizer?
— Você disse que há muitas coisas sobre você que eu não sei. Então, vamos mudar isso. Acho que temos mais coisas em comum do que pensamos.
Ela precisou de alguns momentos para finalmente assentir. James virou-se para frente e pediu mais duas doses de firewhisky para Madame Rosmerta.
Naquela noite, James e Emmeline dormiram juntos pela primeira vez.
Na manhã seguinte, James acordou sozinho.
—--
[Sexta-feira, 19 de novembro de 1982, 04h09]
Lily Evans estava profundamente adormecida. Estivera lendo sob a luz de uma vela, a única fonte de luz do pequeno quarto, por mais de seis horas. Agora seu corpo jazia debruçado sobre uma escrivaninha de madeira lascada e sua cabeça, apoiada sobre os braços cruzados. Uma posição que deixava claro que seu cansaço era tanto que não permitira que ela caminhasse até a cama, que ficava a apenas dois passos de distância.
Sobre a superfície da velha escrivaninha havia uma pena mergulhada em um tinteiro e uma confusão de jornais espalhados. A madeira gasta do móvel estava completamente encoberta por eles. A manchete de um deles dizia:
CRESCE A INFLUÊNCIA DE POTTER SOBRE AS FAMÍLIAS TRADICIONAIS
Filho de Charlus Potter, ex-chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia, e de Dorea Potter, diretora aposentada do Departamento de Cooperação Internacional em Magia, o jovem James Potter parece estar no caminho certo para obter o mesmo sucesso profissional de seus pais. Formado com louvor pela Academia de Aurores há seis meses, Potter tem trabalhado lado a lado com Alastor Moody e Caradoc Dearborn para impedir o crescimento do movimento liderado por Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado. Contudo, sua militância não se resume a apenas cumprir seu papel de auror quando a Marca Negra aparece no céu.
No último domingo, após a divulgação do assassinato do bruxo nascido trouxa John Madison, James Potter fez um notável discurso no Átrio do Ministério. Ele pediu o apoio da comunidade mágica mais antiga, denominada puro-sangue, que tem se mantido neutra ou a favor dos princípios ideológicos defendidos por Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado e seus seguidores. Em seu pronunciamento, Potter fez uso não apenas de palavras bem combinadas, mas também de seu status sanguíneo e do peso de seu sobrenome. Na semana que se seguiu após o evento no Átrio, muitos patriarcas das mais antigas famílias da sociedade britânica declararam seu apoio aos nascidos trouxas e mestiços. Para ler o discurso completo de Potter, vá para a página 3. (cont. pag. 3 coluna 2).
Sob os cotovelos de Lily, havia outra notícia recortada:
FALSO ATAQUE EM HOGSMEADE: POTTER E EVANS ENVOLVIDOS
Recém-formados da Academia de Aurores, James Potter e Lily Evans, 19, têm desempenhado um papel de destaque no Quartel General desde que foram contratados. Muitos os veem como uma esperança para o fim do caos instalado pelas forças das Trevas, mas muitos acreditam que não passam de dois jovens despreparados, frutos da nova graduação duvidosa da Academia (o período de formação de aurores foi reduzido pela metade desde o massacre de 1978). O fato é que ambos estão frequentemente envolvidos nas últimas intervenções do Ministério contra os ataques dos Comensais da Morte e, no intrigante evento de ontem à noite, em Hogsmeade, não foi diferente.
Fontes internas do Departamento de Aurores afirmam que o casal realmente esteve diante d’Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado. Mas pouco se sabe sobre o que, de fato, aconteceu. Uma mulher, cuja identidade será mantida em sigilo, contou à nossa equipe que estava presente quando Potter e Evans saíram do Três Vassouras – sem pagar a conta, ressalta ela – após terem visto a Marca Negra pela janela, por volta das dez horas da noite. O que se sabe a partir daí são apenas boatos.
“Você-Sabe-Quem sabia que eles estavam lá. A Marca foi conjurada a pouquíssimos metros do pub. Não houve ataque, ele só queria atraí-los para os arredores de Hogsmeade”, afirmou outra testemunha, um transeunte, que presenciou o casal correndo pela Rua Principal do vilarejo.
Potter e Evans se recusaram a conceder entrevistas e os demais aurores tampouco quiseram fornecer mais informações. Tudo o que se sabe é que não houve ataque.
No canto superior da escrivaninha, havia outro jornal mal dobrado, datado de abril de 1981. A manchete trazia o seguinte título: MAIS ATAQUES NOS ARREDORES DE MANCHESTER. À esquerda da notícia principal, havia uma coluna quase imperceptível; notável apenas por conta dos círculos feitos a mão, em torno de seu conteúdo.
EVANS AINDA DESAPARECIDA
Embora a generosa recompensa oferecida por James Potter em troca de qualquer informação tenha sido cancelada em dezembro do ano passado, o Departamento de Investigações do Ministério da Magia segue buscando pistas do paradeiro da auror Lily Evans, desaparecida desde setembro. Se você possuir qualquer notícia a respeito de Evans, escreva para...
Abaixo do pequeno anúncio, havia uma fotografia de uma Lily Evans sorridente, tirada em sua formatura em Hogwarts, provavelmente por um fotógrafo. Uma foto de domínio público e não um retrato proveniente do acervo pessoal de algum conhecido.
Mais abaixo, outra manchete em letras garrafais trazia a notícia:
DUMBLEDORE FALA SOBRE EPISÓDIO EM MOULD-ON-THE-WOLD
Uma semana após o épico duelo em Mould-on-the-Wold, Dumbledore finalmente concedeu uma entrevista ao Profeta Diário para revelar os pormenores de sua brilhante atuação na noite do dia 15 de outubro. Nossa equipe marcou um horário com ele em seu gabinete na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts e foi recebida com muito bom humor. Confira a entrevista exclusiva abaixo:
PD: Boa tarde, Prof. Dumbledore. Primeiro, quero agradecê-lo por ter concedido seu tempo para nos receber.
Dumbledore: O prazer é todo meu.
PD: Bom, o assunto de todas as rodas de conversa da comunidade mágica nesta última semana foi o inesperado episódio em Mould-on-the-Wold. O que se sabe é que o senhor simplesmente chegou ao vilarejo, encontrou dez Comensais da Morte e os enfrentou sozinho, tendo conseguido prender três. Correto?
Dumbledore: Receio que foi mais ou menos isso.
PD: O senhor costuma fazer visitas noturnas à antiga casa de sua família?
Dumbledore: Não, não costumo.
PD: Mas então como o senhor soube que os Comensais da Morte estariam lá, na noite de terça-feira?
Dumbledore: Ora, meu caro, não é porque eu não costumo visitar a casa que eu não a manteria bem segura, não é mesmo? Não foi a primeira vez que tentaram desfazer meus feitiços de proteção e, naturalmente, eu tenho meios de ser avisado quando o tentam. Por isso cheguei lá a tempo de surpreendê-los.
PD: E o senhor esperava que os intrusos fossem Comensais da Morte?
Dumbledore: Oh, mas é claro que não! Da outra vez em que a propriedade de meu pai foi invadida, no ano passado, encontrei o gato da vizinha entalado na chaminé. Achei que o episódio pudesse ter se repetido, porque...
No entanto, o restante da página estava encoberto por outro recorte particularmente grande. Sua manchete dizia:
31 DE OUTUBRO DE 1981: O VERDADEIRO FIM?
Apesar das prisões dos últimos Comensais da Morte e da súbita calmaria desde a fatídica noite do dia 31 do último mês, os detalhes referentes ao desfecho da Batalha Final de Godric’s Hollow continuam desconhecidos. Bagnold se reuniu ontem com todos os envolvidos no duelo e Albus Dumbledore, antes de conceder seu último pronunciamento oficial.
“Por motivos óbvios, o Ministério não entrará em detalhes a respeito da Batalha Final. Mas garantimos que todos os cidadãos estão em plena segurança e que Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado não possui a menor possibilidade de retornar”, declarou a Ministra da Magia em seu breve comentário a respeito da reunião.
Quando questionada sobre o que aconteceu a Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, uma vez que ele não foi levado a Tribunal e tampouco foi mandado à Azkaban, Bagnold respondeu: “A punição merecida por este homem vai muito além das propostas pela Lei, portanto seu destino só será conhecido pelos responsáveis por sua prisão, pela Confederação Internacional dos Bruxos e, evidentemente, por mim”.
Mesmo diante deste cenário positivo, muitos membros da comunidade bruxa da Grã-Bretanha ainda não se sentem completamente seguros para... (cont. pag. 2 coluna 5).
Lily abriu os olhos e levantou a cabeça. Levou as mãos à nuca e massageou cuidadosamente a região prejudicada pela posição desconfortável na qual adormecera. Pela segunda vez naquela semana, ela caíra no sono antes de ter tido tempo para ir até sua cama; sua coluna e pescoço latejavam como nunca.
Acendendo a ponta da varinha, Lily ergueu o braço direito e iluminou a parede junto à escrivaninha, na qual um relógio antigo estava pregado. Constatou, desanimada, que dormira menos de três horas. Mais uma vez.
—--
[Sexta-feira, 19 de novembro de 1982, 09h09]
James não conseguira dormir; havia passado a noite inteira revivendo todos os acontecimentos do dia anterior, imaginando se deveria ter insistido mais ou se deveria ter dito algo diferente. Gastou horas e horas da madrugada apenas divagando sobre o que realmente acontecera quando Snape abordara Lily na saída do hospital. O que ele teria de tão importante a dizer para ter precisado ir até ela pessoalmente? E por que Lily não queria lhe contar a verdade?
Sentindo a velha angústia suprimir os músculos de seu peito por pensar novamente naquele assunto, James passou a mão pelo rosto, a fim de esvaziar sua mente, e tentou se concentrar em seu trabalho. Diante dele, sobre a mesa, havia uma quantidade imensa de pergaminhos e memorandos esperando para serem lidos.
Mas alguém bateu na porta. E esse alguém era Lily.
— Posso entrar? – ela perguntou, hesitante.
O ritmo dos batimentos cardíacos de James acelerou exponencialmente. Sem conseguir formular qualquer resposta, ele apenas assentiu. Lily entrou na sala, fechou a porta e se sentou do outro lado da mesa, sem olhar em seus olhos nem uma única vez.
Durante os breves segundos de silêncio que se seguiram, James acreditou que ela estivesse ali para continuar a conversa da noite anterior. Afinal, ainda havia muito a ser dito. Mas então ele notou a pilha de pergaminhos que Lily trouxera consigo. Ela os colocou sobre a mesa, pigarreou baixinho e, sem levantar os olhos para fitá-lo, começou:
— Bom, esses três rolos de pergaminho aqui – ela apontou para alguns dos documentos. – contêm o resumo de todas as atividades realizadas no departamento durante as duas semanas em que você esteve ausente. Na quarta-feira passada, iniciamos uma investigação...
E, assim, Lily mergulhou em uma explicação minuciosa sobre tudo o que acontecera enquanto ele estivera fora. Ela falava pausadamente, com demasiada tranquilidade, agindo como se nada tivesse acontecido na noite anterior. Como se fossem apenas colegas de trabalho, sem qualquer história no passado. Como se não escondesse inúmeros segredos dele e de todos os antigos amigos. Como se fossem estranhos um para o outro.
E não eram?
— ...e as descrições dadas por Madame Atkinson nos levam a crer que Robin Mould também foi o responsável pela tentativa de furto no Empório das Corujas no início do mês. – informou ela, apontando a foto de um bruxo barbudo sobre a mesa. – Desconfiamos que ele tenha algum tipo de esconderijo nos arredores de Tinworth, pois foi visto pelas ruas da cidade duas vezes na última semana e...
James não podia acreditar que Lily escolhera agir daquela maneira. Como ela conseguia simplesmente ignorar tudo o que acontecera? De onde ela tirava tanta frieza? Em meio a seus novos questionamentos, ele reparou que as olheiras de Lily estavam sutilmente mais escuras do que no dia anterior. Será que ela também não conseguira dormir? Será que, assim como ele, Lily sentia-se aflita com toda aquela situação, embora fizesse o possível para transparecer o contrário?
— ...Frank esteve no centro de Tinworth ontem pela manhã e mostrou a fotografia de Mould para o dono da loja de caldeirões. O homem confirmou que havia sido o bruxo da foto quem...
A cada instante que se passava, James sentia-se ainda mais inquieto. Precisava terminar a conversa que começaram na Sala de Preparos. Precisava obter suas respostas. Ele definitivamente não podia mais tolerar que Lily continuasse com aquela encenação ridícula.
— Na segunda-feira, Mould paralisou duas bruxas pelas costas e convocou suas carteiras, desaparatando logo em seguida, perto da...
De repente, James bateu com o punho fechado sobre a mesa. Lily assustou-se, encolheu os ombros momentaneamente e fitou-o com os olhos arregalados e um ar interrogativo.
— Eu quero a verdade, Lily. O que aconteceu naquele dia vinte e seis de setembro?
Lily tinha um ar de pura indignação.
— Perdão?
— Você me ouviu.
— Eu estava falando sobre uma investigação importantíssima agora e você–
— Desculpe, mas eu não tenho estômago para participar do seu teatrinho. – James a interrompeu, estreitando as pálpebras para olhá-la. – Você me deve a verdade.
Lily cruzou os braços e as pernas, demonstrando impaciência.
— Eu já falei a verdade.
Ao detectar a postura inexpressiva que Lily assumia quando mentia, James não pôde mais conter seu temperamento. Levantou-se de sua cadeira, empurrando-a para trás e provocando um rangido incômodo, e apoiou as duas mãos sobre a mesa.
— Eu não acredito que você vai insistir naquela história sem sentido de novo!
Da mesma forma repentina e irritadiça, Lily também se colocou de pé e o encarou de igual para igual.
— Sem sentido? O que não faz sentido é você ter pensado, por todo esse tempo, que eu tinha fugido com Severus!
— Bom, se você tivesse tido a bondade de me deixar um bilhete explicando sua decisão, talvez eu não tivesse pensado!
Respirando fundo para impedir-se de retrucar, Lily endireitou a postura e ajeitou a blusa, que havia subido um pouco ao se levantar. Como sempre, ela trajava roupas trouxas e surradas, nada parecidas com as vestes elegantes que costumava usar antes de desaparecer. Lily puxou a manga comprida para baixo com veemência e suas clavículas apareceram pela abertura da gola. Estavam mais aparentes do que ele se lembrava.
— Onde você está morando? – James ouviu-se perguntar ao terminar de analisar a aparência cansada e simplória da nova Lily Evans.
— Em Londres.
James rolou os olhos.
— Onde, Lily?
Ela balançou a cabeça, como se admitisse estar desistindo da conversa, e virou-se para se dirigir à saída da sala.
— Os detalhes sobre a investigação de Robin Mould estão nos pergaminhos sobre sua mesa. – avisou Lily, por cima do ombro. – Moody pediu urgência nesse caso, sugiro que elabore um mandato de busca o quanto antes. Tenha um ótimo dia.
James contornou a mesa e avançou na direção dela.
— Você não vai sair daqui sem me dar uma resposta.
Ele alcançou a porta no segundo em que Lily tocou a maçaneta. Sem precisar de qualquer esforço, James segurou a esfera metálica a fim de impedir que ela pudesse girá-la e abrisse a porta.
— James! – exclamou ela, tentando virar a maçaneta mais uma vez, mas ele não a soltou.
Lily deu um passo para trás e o fulminou com o olhar. James imaginou que ela fosse sacar a varinha do bolso e afastá-lo da porta com um feitiço repelente. Mas Lily não se mexeu. E James imediatamente soube a provável razão para justificar sua falta de atitude: ela não queria que ele visse sua nova varinha novamente. Ela não queria lhe dar mais motivos para continuar com seus inúmeros questionamentos.
— O que aconteceu no dia vinte e seis de setembro? – James resolveu começar pelo início.
— James, por favor, não vamos voltar a esse assunto.
— Vamos sim. Vamos falar sobre isso até que você me conte a verdade.
James se aproximou, sem quebrar o contato visual. Lily estufou o peito.
— Eu já lhe falei tudo sobre o dia vinte e seis, James. Sua mãe me expulsou do hospital, Severus estava me esperando para me comunicar sobre a vingança de Voldemort, eu voltei para casa, fiz minhas malas e fui embora.
Era mentira. Lily estava mecânica e inexpressiva novamente.
— Eu sei que você está mentindo, Lily. Conheço você. – afirmou James, olhando dentro de seus olhos verdes. Naquele momento, eles ganharam um pouco de expressão. Lily franziu as sobrancelhas, como se suplicasse em silêncio para que ele acreditasse nela. – Mas eu mereço saber a verdade. Eu mereço saber porque eu arrisquei a minha vida para salvar você daquele feitiço e você só pôde ir embora porque fui eu quem acabou semimorto naquela cama de hospital, no seu lugar! Eu dei a minha vida para que você tivesse uma chance e você usou essa chance para ir embora sem dar qualquer explicação! Então o mínimo que você poderia fazer por mim, Lily, era me dizer a verdade!
Naquele momento, algo mudou. Lily desfez a expressão severa, como se tivesse acabado de compreender algo crucial, e elevou o olhar para poder fitá-lo nos olhos. Sem pensar duas vezes, James deu alguns passos em sua direção e eliminou qualquer distância que antes havia entre eles. Naquele momento, ele soube. Ele finalmente conseguira desarmá-la; havia escolhido as palavras certas.
Com aquela nova proximidade, Lily precisou inclinar a cabeça para cima para sustentar a troca de olhares. Permaneceram em silêncio por mais de um minuto, apenas contemplando-se, apreciando aquela nova sensação de empatia, sem mais barreiras. Pela primeira vez em dois longos anos, James não estava diante da mulher que o abandonara. Ele estava diante da mulher que o amara e que dividira a vida com ele.
— James... – Lily sussurrou. James sentiu-se arrepiar por ouvir seu nome ser pronunciado daquela antiga maneira, por aquela voz, àquela proximidade. – Eu sei que você se sentiu totalmente passado para trás quando soube que eu tinha partido, principalmente depois de ter quase morrido para me proteger daquele feitiço... mas não há nada que possa ser feito agora, entende? Já se passaram anos e... você pode não entender muito bem o que eu vou dizer agora, mas... as coisas estão muito bem como estão.
— Não, Lily. – ele negou prontamente. – Você sabe que isso não é verdade.
— Você não entende...
Lily estava prestes a se esquivar, mas James premeditou seu movimento e a segurou pelas mãos. Ela não tentou repeli-lo e James tomou aquilo como um bom sinal.
— Lily, quem você tem agora? Você não tem família e seus amigos se sentiram tão traídos por você quanto eu. Você não procurou nenhum de nós desde que voltou e seu comportamento esquivo e distante não nos deixa confiar em você, então como você pode dizer que “as coisas estão muito bem como estão”? Por que você não nos conta logo a verdade? Por que você voltou, se não queria nenhum de nós por perto?
James reparou que os olhos de Lily encheram-se d’água. Com isso, o verde da íris ganhou ainda mais vida e James involuntariamente aproximou seu rosto do dela para poder apreciar melhor aquela cor tão única. Lily entreabrira a boca, ele observou, mas ao contrário do que ele secretamente esperava, ela o fizera para dizer:
— Eu... preciso de mais tempo, James.
Pela expressão dolorida que tomara conta do rosto de Lily, exprimir aquelas palavras havia sido algo muito difícil. No entanto, ouvi-las produzira em James uma sensação de alívio. Então seus palpites estavam corretos, definitivamente havia uma verdade omitida. E Lily estava disposta a contá-la, em algum momento. Mas quando? Por que ela não podia dizer tudo ali, naquele instante? O que estaria impedindo que ela finalmente contasse toda a história por trás de sua fuga?
— Quanto tempo, Lily? – perguntou ele, apertando suas mãos.
Estavam tão próximos que James podia sentir a respiração ofegante dela bater em seu rosto.
— Não sei... – Lily franziu um pouco mais o cenho, esforçando-se para não se entregar ao choro. A primeira lágrima começou a se formar no canto de seu olho direito, obrigando-a a soltar uma das mãos e levá-la ao rosto para contê-la. – Eu só preciso... de mais algumas informações antes de... ter certeza... preciso ter certeza de que não foi tudo em vão, James, ou... – Mais uma lágrima começou a escapar, agora do olho esquerdo. – Ou nada do que aconteceu valeu a pena...
— O que você quer dizer com isso? – James rebateu, começando a se preocupar. Lily baixou os olhos inquietos, a fim de restabelecer o controle sobre suas emoções. Mas James temeu que ela recobrasse a postura fria e voltasse a mentir para afastá-lo. Para evitar que aquilo acontecesse, James tomou o rosto dela em suas mãos e ergueu-o para si, encontrando novamente aqueles olhos verdes. Há quanto tempo ele não sentia aquela pele sob seus dedos? Quantas vezes ele desejou tocá-la novamente nos últimos anos, sem fazer ideia de que ainda teria outra chance?
— James, por favor... – Lily tentou se afastar, mas ele não a soltou.
— Quais informações?
Lily negou com a cabeça e lançou-lhe um olhar de súplica, pedindo, em silêncio, para que ele não insistisse. Mais uma vez, os olhos de James recaíram sobre os lábios dela. Tão próximos...
A porta da sala se abriu e Lily se soltou de suas mãos no mesmo instante, dando um passo para trás. Tomado pela frustração por ter sido interrompido naquele momento, James lentamente abaixou os braços e virou a cabeça na direção da entrada. Emmeline havia acabado de entrar na sala.
Os olhos da recém-chegada alternaram algumas vezes de James para Lily e, por um breve segundo, ela pareceu sutilmente desconcertada. Mas no momento seguinte, Emmeline começou a falar, como se a cena que acabara de interromper fosse absolutamente casual.
— Acabei de saber que você voltou. Walden Gilliam, do meu departamento, precisa fazer uma reunião com o Auror Capitão urgente há dias. Ele acabou de saber que você está aqui e me mandou vir chamá-lo.
— Eu já estava de saída. – Lily interveio, adiantando-se à porta. Seu rosto estava visivelmente corado. – Com licença.
Com muito custo, James conseguiu afastar os pensamentos a respeito da conversa interrompida. Mas somente quando ouviu o ruído da porta se fechando após a saída de Lily, ele finalmente conseguiu absorver as informações trazidas por Emmeline.
— Walden Gilliam. Reunião. – repetiu ele, mecanicamente, balançando a cabeça. – Certo. Estarei lá.
Emmeline lançou-lhe um olhar demorado sem expressar qualquer emoção. James não conseguiu encará-la e apenas desejou que ela não fizesse perguntas.
— Precisamos conversar, James. – Emmeline falou, com a voz firme. – Amanhã à noite podemos nos encontrar?
— Não posso, é meu plantão. Vou virar a noite aqui.
— E domingo, você está livre?
James levantou os olhos para encará-la e confirmou com um aceno breve. Após receber sua resposta, Emmeline girou os calcanhares e saiu da sala.
—--
[Sábado, 20 de novembro de 1982, 13h49]
Marlene McKinnon não pôde mais se conter e consultou o relógio de ouro em seu pulso mais uma vez, embora tivesse plena certeza de que havia se passado apenas três minutos desde a última vez em que olhara as horas. Odiava trabalhar aos sábados e odiava, principalmente, ter de trabalhar sob o disfarce abominável de Noah Nott. Fazia semanas desde que tivera de beber a Poção Polissuco temperada com o cabelo asqueroso daquele homem pela última vez, mas, para sua infelicidade, o retorno de James ao Quartel trouxera à tona aquela investigação inútil na Travessa do Tranco. E ele exigira que ela retomasse suas buscas na região.
A fim de analisar a situação pelo lado positivo, Marlene tentou se sentir aliviada ao constatar que só precisava trabalhar por mais onze minutos e, então, ela finalmente estaria livre para começar a aproveitar o fim de semana. Resolveu, portanto, fazer uma última ronda e tentar ouvir algumas conversas para ter o quê escrever em seu relatório.
Fingindo olhar as vitrines da Borgin & Burkes, Marlene enfiou as mãos nos bolsos das enormes calças de Nott, como se estivesse muito interessada no crânio empoeirado que estava exposto. Contou até dez e voltou a caminhar lentamente, como se estivesse fazendo compras. Uma bruxa idosa e encurvada, que vinha da direção oposta, abriu-lhe um sorriso desdentado.
— Oh! Quanto tempo, Sr. Nott!
Marlene apenas assentiu e continuou caminhando. Ela não podia dar atenção às pessoas que vinham papear com Noah Nott, afinal, sua voz e jeito de falar iriam denunciá-la. Seguiu pela ruela torta mantendo-se próxima às vitrines e, consequentemente, próxima aos transeuntes que passeavam por ali.
A rua continha várias bifurcações ao longo de sua extensão. Ao passar por elas, pelo canto do olho, Marlene podia ver pessoas conversando baixinho, encostadas às paredes. Eram nessas bifurcações onde algumas negociações ilegais eram feitas, mas, naturalmente, os malfeitores jamais se deixavam ser pegos. Marlene perdera a conta de quantas vezes havia adentrado aquelas ruas estreitas a fim de tentar flagrar algo ilegal, mas os contrabandeadores rapidamente se calavam até que ela – ou qualquer outra pessoa que fizesse o mesmo – desaparecesse ao final da passagem. O que deixava claro o quão inútil era aquela investigação.
Ao passar por mais uma daquelas bifurcações durante a caminhada, Marlene quase foi levada ao chão por alguém que surgira correndo da ruela. Se não fossem pelas espessas camadas de tecido adiposo que moldavam o corpo de Noah Nott, ela certamente teria sido derrubada com a colisão inesperada.
— Não vê por onde anda, seu verme? – vociferou o homem. Marlene reconheceu-o assim que conseguira se recompor. Era Lucius Malfoy.
— Desculpe. – ela murmurou, engrossando a voz.
Malfoy fitou o rosto rechonchudo de Nott por alguns instantes, reconhecendo-o com algum esforço.
— Therence não vai gostar de saber que você continua perambulando por aqui. – Malfoy declarou com desagrado, afastando uma poeira invisível do ombro que encostara em Marlene. – E infelizmente eu terei de contar a ele sobre nosso breve encontro, Nott. Passar bem.
Em seguida, Malfoy voltou a caminhar apressadamente e desapareceu na primeira bifurcação do lado oposto da rua principal, olhando para os lados a fim de verificar se estava sendo observado. Mas antes que Marlene tivesse tempo de formular qualquer opinião sobre o comportamento suspeito de Lucius Malfoy, uma voz muitíssimo familiar soou atrás dela.
— Com licença, senhor?
Marlene virou-se e encontrou Lily Evans. Ela mantinha a cabeça baixa e estava inteiramente coberta por sua capa preta de veludo. Marlene jamais a teria reconhecido se não fosse por sua voz. Em meio àquela surpresa, Marlene tentou parecer indiferente com a situação, pois sabia que Lily não conhecia a aparência do homem no qual ela se disfarçava semanalmente. Sem conseguir nomear um motivo realmente racional, Marlene achou melhor manter aquela vantagem só para si.
— Sim?
— O senhor viu para onde o Sr. Malfoy foi? – Lily puxou o capuz para frente, a fim esconder o rosto por completo por baixo do tecido. – Eu estava com ele, mas o perdi de vista.
Marlene estreitou os olhos para analisar a figura sob a capa que estava diante dela. Percebeu que a mão de Lily que segurava a borda do capuz estava tremendo. Havia uma atmosfera definitivamente suspeita pairando no ar.
— Senhor? – Lily insistiu. Ela claramente tinha pressa para retomar o caminho.
Marlene não sabia o que responder. Lily evidentemente mentira quando disse que estava com Malfoy, pois independentemente a quem ela se afiliara nos últimos anos, Marlene sabia que ele jamais andaria por aí com uma bruxa nascida trouxa lado a lado. E o que Marlene deveria dizer em uma situação tão difícil como aquela? O que Lily pretendia com Malfoy? Dar-lhe a informação correta era o certo a ser feito? Não ajudá-la significava, por consequência, ajudar Malfoy – alguém a quem Marlene jamais ajudaria?
A longa pausa fez com que Lily levantasse um pouco o capuz para olhar nos olhos de Noah Nott. Seu olhar beirava o desespero. E aquele rápido contato visual fez com que Marlene tomasse sua decisão.
— Ele foi por ali. – respondeu, apontando para a estreita ruela por onde Malfoy embrenhara-se.
Lily virou-lhe as costas e saiu correndo. Mordendo o lábio inferior com força, Marlene assistiu à capa esvoaçante desaparecer viela adentro, enquanto seu coração se dividia entre o medo e a preocupação.
—--
[Sábado, 20 de novembro de 1982, 15h59]
Houve um silêncio mortal quando James terminou de contar sobre as últimas conversas que tivera com Evans após seu retorno ao Ministério. Ele não fizera a menor questão de tentar ocultar o tom discretamente esperançoso que tomara conta de suas palavras. Acostumados à habitual secura de seus discursos, Sirius, Remus e Peter não puderam evitar se entreolharem algumas vezes durante a minuciosa narrativa.
Mas mesmo com a mudança sutilmente positiva no humor de James, Sirius não gostara muito do fato do melhor amigo estar se reaproximando da ex-namorada. Se Evans tivesse mesmo a intenção de justificar suas decisões do passado, ela os teria procurado imediatamente após seu retorno. O comportamento dela era esquivo e, ao mesmo tempo, desdenhoso, portanto Sirius não podia sequer cogitar a possibilidade de acreditar em qualquer palavra que ela dissesse.
— Então você acha que ela está mesmo escondendo a verdade? – Sirius finalmente quebrou o silêncio que dominara a sala de seu apartamento. Virou a cabeça lentamente para encarar James, que estava sentado no parapeito da janela. Ele não retribuiu o olhar; apenas tragou o cigarro e continuou fitando o batente oposto àquele no qual estava apoiado. – Mesmo depois de tudo, você realmente prefere acreditar que ela foi embora por um motivo “maior” e não porque enjoou da guerra bruxa e resolveu voltar a conviver entre os trouxas, o que seria muito fácil para ela, já que ela também pertence ao mundo deles?
Remus assumiu uma expressão cansada, em discordância. Peter, por outro lado, balançou a cabeça afirmativamente.
— Você tem tantas provas de uma possibilidade quanto tem da outra. – James retrucou, tentando parecer indiferente.
Sirius segurou a ponte do nariz momentaneamente antes de prosseguir.
— Não, Prongs. Use um pouco de lógica. Você nunca reparou nas roupas dela? São todas à moda trouxa. Aliás, por que ela teria comprado uma varinha nova recentemente? Será que é porque ela não precisava de uma varinha quando estava vivendo entre os trouxas?
James jogou o que restava de seu cigarro pela janela com veemência e passou as mãos pelo rosto, demonstrando irritação. Sirius rapidamente identificou que o amigo estava travando um diálogo interno com os próprios pensamentos.
— Discordo de você, Sirius. – Remus tomou a palavra. – E acho que Lily já contou mais do que poderia contar para o James, ontem. Não é a toa que ela está de volta há um mês e, nesse tempo todo, ela nunca nos procurou para contar o que aconteceu no passado. Tudo o que podemos fazer agora é esperar até que Lily esteja pronta para contar o resto.
James desceu do parapeito da janela e caminhou até a poltrona na qual Remus estava acomodado.
— Você tem conversado com ela, Moony? Ela já te contou alguma coisa?
Negando com a cabeça, Remus colocou-se de pé para olhar nos olhos de James.
— Não. Lily só fala comigo sobre trabalho. Ela nunca me procurou para conversar e eu também nunca tive a intenção de enchê-la de perguntas.
Ao ouvir a resposta de Remus, Peter produziu uma interjeição de escárnio. Os outros três se voltaram para ele e Sirius reparou que jamais vira o rosto do amigo tão escarlate como naquele momento.
— Qual é o seu problema? – Remus perguntou, impaciente.
— Qual é o meu problema? – Peter repetiu e a coloração de sua face beirou o a cor roxa. – Qual é o problema de vocês dois, isso sim! – ele fez uma pausa para levantar-se bruscamente do sofá, mantendo os olhos fixos na direção de James e Remus. – Por que vocês insistem em arranjar desculpas para as atitudes dela? “Vamos respeitar o silêncio dela”, “ela só precisa de um pouco mais de tempo para poder se abrir”! – Peter acrescentou, fazendo uso de um falsete. Depois, inspirou profundamente, procurando manter a calma. – Como você pode ser tão cego, James? Aquela vagabunda te trocou por outro e abandonou a Ordem da Fênix sem pensar duas vezes quando viu que as coisas só tendiam a piorar–
De repente, James avançou na direção de Peter.
— Prongs!
Sirius imediatamente se colocou entre os dois para impedir a briga. James o empurrou e tentou se desvencilhar, completamente tomado por uma fúria descomunal. No instante seguinte, Remus surgiu por trás e segurou-o pelos ombros.
Mas Peter não terminara de falar:
— E como se não bastasse tudo o que aconteceu dois anos atrás, ela resolveu voltar para o Departamento, conseguiu assumir a liderança sem nenhuma dificuldade e não sofreu qualquer penalidade por ter roubado itens caríssimos do estoque de poções! E o que vocês dois fizeram? Acobertaram aquela piranha!
— Peter, chega... – Sirius ordenou, por cima do ombro, jogando o próprio corpo contra o de James para conseguir contê-lo. Por mais que concordasse com o desabafo do amigo, Sirius tinha pela consciência de que Peter não estava expondo sua opinião da melhor maneira.
— Não! – Peter berrou, agora tão furioso quanto James. – Eu não aguento mais ouvir vocês falarem dessa vadia! Desde que ela voltou, não houve um dia em que ela não foi o assunto entre nós!
— Chame-a assim outra vez e você nunca mais vai conseguir dizer qualquer coisa de novo, seu...
Mas as ofensas que se seguiram foram abafadas pelo som da campainha. Aquele barulho estridente despertou James de seu torpor colérico e Sirius finalmente pôde relaxar os músculos dos braços e soltar o amigo. Ao final do breve confronto, os quatro rapazes ofegavam. E a campainha soou novamente.
Sirius deu-se conta de que estavam esperando que ele fosse atender a porta, afinal, aquele era seu apartamento. Sem fazer ideia de quem poderia ser, pois todas as pessoas que o visitavam ultimamente já estavam presentes naquela sala, Sirius caminhou até a porta e a abriu.
Ele precisou de um segundo para assimilar a imagem de Marlene McKinnon, coberta de suor e desesperadamente sem fôlego, trajando roupas masculinas e larguíssimas – as quais ele imaginou serem as roupas de Noah Nott – e com os cabelos desgrenhados, como se tivesse ficado exposta ao vento por muito tempo.
— O que você está fazendo aqui? – Sirius perguntou, sem entender. Afinal, fazia um ano inteiro que Marlene estivera ali pela última vez.
Mas ela não parecia ter tempo para responder; adentrou a sala sem esperar o convite para entrar e levou a mão ao peito quando reparou na presença de James, Remus e Peter.
— Ah, que ótimo que vocês também estão aqui!
— Por que você ainda está com as roupas de Nott? – James indagou, confuso.
— Eu acabei de presenciar uma coisa muito estranha na Travessa do Tranco. – começou Marlene, despindo a capa e jogando-a sobre o sofá. – Malfoy topou comigo na rua principal. Ele ficou muito irritado por ter encontrado alguém conhecido, foi grosseiro comigo de graça, e depois saiu correndo. Quando eu me preparei para ir atrás dele, algo totalmente inesperado aconteceu: a Lily veio da mesma ruela de onde Malfoy tinha vindo e perguntou para mim, quero dizer, para Noah Nott, por onde ele tinha ido. Ela estava muito nervosa, as mãos dela tremiam. E ela também estava usando aquela capa que vimos quando estávamos naquele café em frente à saída do Ministério, lembra-se, James?
— Você tem certeza do que viu, Marlene? – James se aproximou dela; sua expressão era de pura perplexidade.
— Absoluta! – afirmou. – Era ela.
— Por que não estou surpreso? – Peter provocou. – Quero ver vocês arranjarem uma desculpa para mais essa agora...
— E o que você respondeu, Marlene? Você disse a ela aonde Malfoy tinha ido? – Sirius apressou-se a perguntar, a fim de interromper uma possível discussão.
Marlene estacou e olhou para baixo. Suas bochechas enrubesceram quase imperceptivelmente.
— Bem... eu... eu respondi a verdade. – confessou. – Quero dizer... entre ajudar ela ou ajudar Malfoy, eu achei menos pior ajudar a Lily.
— E depois? – James quis saber.
— Ela foi atrás dele, claro. Fiquei um tempo um pouco atordoada, pensando se tinha feito a coisa certa, até que decidi ir atrás dos dois. Tomei mais uma dose da Poção Polissuco e segui pelo mesmo caminho que Malfoy e Lily tinham ido, mas... não os encontrei. Algum tempo depois, ouvi um barulho de explosão vir do fim da via principal, mais precisamente da praça. Fui até lá o mais rápido que pude, mas quando cheguei encontrei apenas uma multidão confusa e um monumento em pedaços. Ouvi um comerciante contar a algumas pessoas que saiu de sua loja para ver o que estava acontecendo assim que ouviu toda a confusão, mas não viu ninguém pela praça. Circulei um pouco por ali, não descobri nada de útil, e então voltei a procurá-los por todos os lugares que conheço, todas as ruelas, todos os becos. Eles não estavam em lugar algum.
— Mas você procurou direito, Marlene? – James insistiu.
— Eu passei as últimas três horas procurando, James! Tive que desistir quando o efeito da última dose da Poção Polissuco acabou. – ela respirou fundo, encerrando sua história. – Eles sumiram. Não temos como saber aonde foram.
Todos ficaram em silêncio, assimilando as novas informações. Sirius teve de acender um cigarro para conseguir processar tudo o que ouvira; Remus desabou sobre a mesma poltrona na qual estivera sentado antes; Peter cruzou os braços e foi tomado por um semblante impaciente; Marlene voltou a olhar para os próprios pés, revivendo mentalmente tudo o que acabara de presenciar e James subitamente marchou até a porta da sala.
— Hoje é meu plantão, então vou passar a noite vasculhando a Travessa do Tranco. Vou dizer a Moody que quero investigar o que aconteceu. – passou a mão pelos cabelos, raciocinando. – Qual é mesmo o nome daquele ladrão foragido?
— Robin Mould? – Sirius respondeu, imaginando como era possível alguém do Departamento de Aurores não saber o nome do sujeito.
— Exato! – James exclamou, agarrando a maçaneta. – Vou dizer a Moody que desconfio que o ocorrido seja obra desse Robin Mould. – ele abriu a porta e atravessou a passagem. Antes de fechá-la novamente, acrescentou: – Gostaria que vocês não comentassem com os outros aurores sobre o que Marlene viu. Conto com a discrição de todos. Obrigado.
Após a saída de James, Sirius, como anfitrião, sentiu-se compelido a perguntar:
— Alguém aceita firewhisky?
—--
[Domingo, 21 de novembro de 1982, 08h09]
CONFUSÃO NA TRAVESSA DO TRANCO DEIXA MONUMENTO DE PAPUS EM RUÍNAS
O histórico busto do bruxo Papus foi literalmente arruinado na tarde de ontem. Até o momento, não obtivemos quaisquer informações necessárias para podermos confirmar a causa de toda a confusão. O Sr. Talbot, dono da livraria na praça em cujo centro situa-se o busto de Papus, contou-nos que ouviu a explosão por volta das duas horas da tarde. “Estava tirando pó das prateleiras dos fundos da loja quando ouvi o primeiro feitiço. Ouvi mais um quando já estava me encaminhando para fora para averiguar e, quando saí para a praça, não encontrei ninguém. Só poeira. Tanta poeira que, mais tarde, tive de tirar pó da loja inteira de novo”.
Um representante do Departamento de Aurores declarou que há grandes chances de que o ocorrido tenha alguma relação com o criminoso foragido, Robin Mould, que era um transeunte assíduo da Travessa do Tranco até poucos meses atrás. O busto será restituído ainda esta semana... (cont. pág. 3)
James passou os olhos pela manchete e expirou aliviado quando constatou que sua história sobre Robin Mould fora bem aceita. Não queria expor Lily. Afinal, se Lily fosse exposta, ela evidentemente passaria a tomar mais cuidado e James provavelmente nunca descobriria o que ela estava escondendo, apenas quando ela decidisse contar – o que poderia levar anos.
Ao consultar as horas no relógio de pulso, James descobriu que estava nove minutos atrasado. Tinha combinado de tomar café da manhã com Emmeline no Caldeirão Furado às oito em ponto, quando acabasse seu turno. Emmeline não costumava se atrasar. Mas, como sempre, James a deixou esperando. Pela última vez.
James pagou pelo jornal, guardou-o no bolso interno das vestes e começou a descer a rua em direção ao pub. As ruas do Beco Diagonal estavam vazias naquela manhã cinzenta de domingo, da mesma forma que sua área mais obscura, a Travessa do Tranco, havia permanecido a noite inteira. James não vira nada de interessante pelas proximidades da praça e tampouco houve gente circulando pelas ruelas tortuosas da região.
Coçando os olhos cansados pela noite não dormida, James virou a esquina do Gringotes e continuou seguindo seu caminho. Poucos metros à frente, ele finalmente pôde avistar a parede de tijolos no fim da rua atrás da qual estava a entrada para o Caldeirão Furado. Sentiu vontade de acender um cigarro, mas ao pensar em seu encontro com Emmeline e o que seria dito nele, decidiu não fumar. Ele não precisava deixar tudo aquilo ainda mais desagradável para ela.
— Potter?
James virou a cabeça na direção da voz e deparou-se com Mundungus Fletcher. O homem rapidamente fechou o sobretudo preto e apertou a bolsa contra o corpo, como se não quisesse que James visse o que portava consigo.
— Bom dia, Dung.
— Eu só estava... indo ao banco. Guardar umas coisas lá. – Mundungus explicou-se, como se James estivesse minimamente interessado. Mas James naturalmente não estava. – Aliás, vocês, aurores, não precisam se preocupar com esta área, está limpa desde o ano passado, desde os tempos ruins... não há nada suspeito. Eu sempre estou de olho.
James olhou o relógio mais uma vez. Doze minutos atrasado.
— Olha, Dung, eu tenho que ir...
— Claro, claro, não quis tomar seu tempo. – Mundungus exibiu seus dentes amarelos em um sorriso disforme. – Tenha um bom dia, Potter!
— Você também.
Mas antes que pudesse apreciar o alívio por ter se livrado da figura de Mundugus Fletcher, James foi chamado pelo homem novamente.
— Potter?
James o olhou por cima do ombro.
— O que foi, Dung?
— Eu vi sua namorada lá no Caldeirão Furado. Ela não parecia muito bem.
— Eu estou indo encontrá-la lá agora mesmo. – James contou, com impaciência. – Obrigado.
A fim de não permitir que Mundungus dissesse mais alguma coisa, James imediatamente iniciou sua caminhada rumo ao seu encontro com Emmeline.
Não foi difícil localizá-lo no pub. O ambiente do bar estaria quase vazio se não fosse por ela e um grupo de bruxos estrangeiros, que provavelmente estavam hospedados no local. Emmeline estava sentada junto ao balcão diante de uma xícara de café e não se virou para olhá-lo quando ele se sentou ao seu lado.
— Desculpe o atraso, precisei vir andando da Travessa do Tranco até aqui. – começou James. – Já pediu algo para comer?
— Não, só pedi esse café.
— Onde está o Tom? – James inclinou-se sobre a bancada, procurando o dono da instalação. – Tom?
— Eu não estou com fome, James. – Emmeline disse, secamente. James voltou a se sentar.
Após uma longa pausa, Emmeline girou o corpo e finalmente o encarou. James reparou que os olhos dela estavam um pouco vermelhos, embora sua aparência permanecesse imponente como de costume.
— Bom. – ela voltou a falar. Respirou sonoramente e completou: – Não dá mais. As coisas precisam mudar.
James aguardou alguns segundos e, por fim, assentiu.
— Você tem razão. Há quanto tempo estamos adiando essa conversa? – refletiu ele, com um meio sorriso, tentando diminuir a tensão. Emmeline o olhou com discreta expectativa. James prosseguiu: – Reconheço que tenho estado distante e isso está atrasando o inevitável. Aconteceram muitas coisas nas últimas semanas e–
— Últimas semanas? – repetiu Emmeline, incrédula. – Últimas semanas? James, você sempre esteve distante. Desde o início.
James franziu as sobrancelhas. Durante os últimos meses, ele ensaiara aquele término inúmeras vezes dentro de sua cabeça. Já havia até decorado todo o discurso que faria para justificar sua decisão. Mas ao ouvir a última sentença acusadora proferida por Emmeline, aquele discurso desaparecera de sua mente.
— Eu... – James tentou formular uma resposta, mas ele soube que ela tinha razão sem nem mesmo precisar vasculhar suas memórias. E, até aquele momento, James não fazia a menor ideia de que seu jeito introspectivo a incomodava tanto. – Eu não sabia que você pensava assim.
— É claro que não sabia. Você só tem olhos para você, para a sua dor. – Emmeline retorquiu. – Mesmo estando comigo por um ano inteiro, há muitas coisas que você ainda não sabe sobre mim, James.
Aquelas palavras o feriram mais do que o esperado. Mas elas não lhe provocariam sentimento algum se ele não tivesse captado a clara referência à conversa que tiveram na noite em que ficaram juntos pela primeira vez. Foi então que James se deu conta de que Emmeline não estava ali para terminar com ele: ela estava propondo um recomeço. E descobrir que ela ainda tinha esperanças provocou-lhe uma sensação tão vertiginosa quanto um golpe no estômago.
James não tinha qualquer intenção de oferecer-lhe uma bebida ou sugerir que mudassem aquela situação, como fizera na noite em que dormiram juntos pela primeira vez. Portanto, ele permaneceu em silêncio e Emmeline não demorou para compreender o que aquilo significava.
— Eu fiz uma escolha, James. – ela voltou a falar, agora num tom baixo e triste. – Quando ela voltou, eu escolhi você. Escolhi continuar com você, insistir no nosso relacionamento. Na quinta-feira, eu falei com ela no Quartel. Tentei, na verdade, porque ela mal me respondia. – Emmeline suspirou, pensativa. – Percebi que ela se tornou outra pessoa, não tem mais nada da garota que foi minha melhor amiga em Hogwarts. E, mais uma vez, eu escolhi você...
— Emme...
— Eu não terminei de falar. – ela o interrompeu. James se calou imediatamente. – Escolher você entre vocês dois não foi nada fácil. Acho que foi a coisa mais difícil que fiz, James. Eu só queria que você soubesse disso.
Emmeline desviou os olhos marejados para conter as lágrimas. James tomou as mãos dela nas suas e inclinou-se para frente, fitando-a com carinho.
— Emme, você é uma mulher incrível. Eu nunca vou me esquecer de todo o apoio que você me deu nas horas mais difíceis. Você olhou para mim e teve paciência comigo quando ninguém mais teve e eu nunca vou me esquecer disso. – James trouxe as mãos dela até os lábios e cerrou os olhos. – Mas...
Ao ouvir sua última palavra, Emmeline recolheu os braços e colocou as mãos sobre o colo.
— Mas você também fez uma escolha. – ela completou sua sentença, com a voz embargada.
— Sim. – James admitiu, olhando-a nos olhos.
Permaneceram contemplando-se por algum tempo, experimentando uma despedida silenciosa. Por fim, James colocou-se de pé, sendo rapidamente imitado por Emmeline, e puxou-a para um abraço forte e agradecido.
—--
Naquele momento, Marlene McKinnon acabava de constatar que a cama na qual estava acordando não era a sua.
Fale com o autor