Zerstören

9 Capítulo 9 - Interrupção


Notas iniciais
Oi, gente, tudo bem? Primeiramente, quero dedicar esse capítulo a quatro pessoas. À Naty Poulain (u/110353/), à isabela (u/531185/) e à JPetit (u/684106/) por terem escrito LINDAS recomendações para Zerstören. A cada recomendação que recebia, mais vontade de escrever me dava. Muito obrigada por isso, meninas! ♥ A quarta pessoa a quem quero dedicar esse capítulo é a Pokie (u/270260/), que me incentivou a continuar todos os dias, com memes, montagens no twitter, conselhos no chat do facebook e sugestões maravilhosas. Obrigada por tudo, querida! Esse capítulo só foi terminado graças a você. Conte comigo para tudo! ♥ —-- Agora, seguem abaixo as datas importantes: 23 de setembro de 1980 – Batalha contra os cinco Comensais na qual James é estuporado. 26 de setembro de 1980 – Lily é vista pela última vez, no Cabeça de Javali 30 de setembro de 1980 – James acorda no Hospital St. Mungus, sozinho. 30 de setembro de 1980 – James vai procurar por Lily no apartamento que ela dividia com Dorcas. 31 de outubro de 1981 – Batalha de Godric's Hollow, na qual Voldemort é derrotado. 22 de outubro de 1982 – Moody anuncia o retorno de Lily ao Quartel. 05 de novembro de 1982 – Dorea Potter morre. 18 de novembro de 1982 – James volta a trabalhar no Quartel. 18 de novembro de 1982 – Peter acusa Lily de ter roubado ingredientes do estoque de poções.

Capítulo 9 – Interrupção

[Segunda-feira, 22 de setembro de 1980, 23h59]

James entornou o que restava de sua taça de vinho e apoiou as costas no encosto da poltrona. Contemplou o fogo da lareira por um momento, procurando afastar os pensamentos apreensivos que rodeavam sua mente. A sensação de impotência latejava por todos os poros de seu corpo e ele apenas desejou desesperadamente acender um cigarro, embora fizesse quase três anos desde a última vez que levara um à boca.

De repente, ele ouviu três batidas na porta. Incerto se as ouvira realmente ou se as batidas haviam sido imaginadas por sua mente exausta, há dias sem dormir, James virou-se imediatamente para a porta e aguardou, prendendo a respiração e afundando os dedos nos braços da poltrona. Vinte segundos depois, a quarta batida finalmente soou.

Lily estava de volta. Finalmente.

Em um salto, ele colocou-se de pé, murmurando o contrafeitiço para destrancar a porta. Após um estalo, a passagem se abriu. E lá estava ela.

Ao vê-lo, Lily abriu um sorriso dividido entre o alívio e a exaustão. Sem poder aguardar mais um segundo, James a abraçou com força e a trouxe para dentro de seu apartamento, fechando a porta logo em seguida.

— Você está bem? Então Moody conseguiu te encontrar? As vilas do sul do País de Gales estão seguras? – James apertou os braços em volta dos ombros dela e beijou o alto de sua cabeça. – Ah, eu fiquei tão preocupado, Lily...

— Sim, eu estou bem, deu tudo certo. – Lily o tranquilizou, com a voz meiga, o rosto encostado em seu peito. Ela respirou fundo e preparou-se para continuar, mas James a interrompeu.

Nunca mais. – começou ele, soltando-a do abraço para poder fitá-la nos olhos. Quando aquele rosto oval e bem desenhado entrou em foco, ele sentiu os olhos arderem. Tê-la novamente em seus braços era tudo o que mais desejara nos últimos dias. – Nunca mais você vai viajar para a Ordem sem mim. Nunca. Mais.

Lily franziu as sobrancelhas; sua expressão anteriormente aliviada transformara-se em dolorida.

— Isso nem sempre será uma opção, James. Você sabe disso. – falou ela, com carinho na voz. – A Ordem é uma sociedade secreta e os espiões de Voldemort desconfiariam demais se nós dois sempre nos ausentássemos do Ministério ao mesmo tempo. Um de nós sempre vai ter que ficar para comandar o Quartel, Moody acha que é muito arriscado se–

— Eu estou pouco me lixando para o que Moody acha! – James explodiu, sua voz saindo mais alta do que pretendia. – Você tem alguma ideia de como eu me senti quando recebi o Patrono dele com a notícia de que ele tinha perdido o seu rastro? – ele andou alguns passos para trás, subitamente sentindo-se zonzo. – Dumbledore é outro imbecil, aquele velho não mexeu um músculo para ir atrás de vocês e também não quis me passar qualquer informação sobre onde vocês estavam! – James percebeu que estava quase gritando e, a fim de acalmar-se, passou as mãos pelo rosto, respirando fundo. Lily franziu as sobrancelhas ao captar o álcool em seu hálito, mas ele não se importou. – Eu não quero mais você em missões suicidas, Lily! Se Moody não se importa em acabar morto por aí, o problema é dele–

— James, chega. – Lily o interrompeu e ele se calou no mesmo instante. – Ir ou não em alguma missão da Ordem é uma decisão somente minha. Se houver qualquer possibilidade de impedir Voldemort de continuar com essas atrocidades, eu não hesitarei em ir. Você precisa entender isso.

A fim de encerrar a discussão, Lily começou a despir o casaco e virou-se para pendurá-lo atrás da porta. Tirou as botas e o cachecol, ainda de costas para ele, e, após respirar fundo, ela lentamente virou-se para James. Naquele momento, ele compreendeu que aquela conversa não os levaria a lugar algum. Estavam há dias sem qualquer contato e, durante a maior parte daquele período, James estivera profundamente atormentado com possibilidade de tê-la perdido para sempre. Tudo o que ele queria naquele momento era abraçá-la por horas e horas.

— Você é tudo para mim. – James concluiu, apreciando a sensação de alívio por tê-la ali, sã e salva. Aproximou-se e envolveu-a em seus braços novamente, com a intenção de tranquilizá-la; Lily desfez a expressão severa e sorriu de lado. – E eu não suportaria perder você.

— Não vamos pensar mais nisso. – ela respondeu, com firmeza. – Eu estou aqui agora, não estou?

— Eu senti tanto a sua falta...

Voltando a parecer preocupada, Lily abriu a boca para dizer alguma coisa, mas James fora mais rápido e a beijou. Ela demorou uma fração de segundo para ceder e retribuí-lo; e o fez com todas as suas forças. Após dias sem notícias um do outro, no auge da maior guerra bruxa já vivida na Grã-Bretanha, eles estavam juntos novamente. E, naquele momento, nada mais tinha importância.

No minuto seguinte, os dois se encaminharam para o quarto, trocando beijos e carícias durante o percurso. Quando chegaram ao aposento, Lily puxou sua camisa para cima, obrigando-o a interromper o beijo para despi-la. Depois de jogar a peça de qualquer maneira no chão, James conduziu Lily para a cama e colocou-se por cima dela, apoiando o peso do corpo em seu cotovelo esquerdo.

Com a mão direita, James começou a desabotoar a blusa da namorada, sem nenhuma pressa e de modo propositalmente lento, para provocá-la. Lily gemeu baixinho quando ele finalmente se livrou do último botão e interrompeu o beijo para dar atenção aos seus seios.

— James, eu... – Lily começou de repente, como se tivesse acordado de um transe. – Eu preciso falar com você.

— Assim que eu terminar. – sussurrou ele, roçando os lábios pela região do decote de seu sutiã. O corpo de Lily se retesou sob o seu. – Você precisa relaxar.

Mas James jamais poderia imaginar que, se tivesse permitido que Lily lhe contasse o que a estava preocupando, tudo teria sido muito diferente.

—--

[Segunda-feira, 22 de novembro de 1982, 10h02]

Sentado desconfortavelmente em uma antiga cadeira de madeira, Benjamin Fenwick inclinou-se para frente e apoiou os cotovelos sobre os joelhos. À sua frente, Lily Evans mexia o conteúdo do caldeirão com delicadeza; com a outra mão, ela despejava cascas de Wiggentree picadas no líquido borbulhante, contando-as baixinho. Ele sabia que Lily pararia de contar quando chegasse ao número dezesseis, quantidade equivalente aos cem gramas necessários para preparar a poção Wiggenweld.

— Hora de adicionar mais Ditamno? – indagou ele, assim que Lily terminou de contar. Ela levantou o rosto para fitá-lo e arqueou uma sobrancelha, tentando não sorrir.

— Hora de adicionar mais Ditamno. – ela repetiu, em concordância.

Um mês antes, Benjamin não seria capaz de nomear um único ingrediente de qualquer poção usada pelo Departamento de Aurores. Um mês antes, Benjamin acreditou que sua carreira de auror chegara ao fundo do poço quando Potter, o Auror Capitão e, consequentemente, seu superior, decidira afastá-lo das investigações e colocá-lo para vigiar uma colega de trabalho, uma tarefa que sequer existia dentre as atividades do Quartel.

Benjamin sabia que o Auror Capitão não o escolhera ao acaso. Potter era despreparado e mesquinho, mas não era nenhum estúpido. Segundo os últimos comentários de Alastor Moody, Benjamin estava prestes a receber sua merecida promoção, após quase treze anos de trabalho intenso no departamento. E Potter resolvera deixá-lo propositalmente de escanteio, a fim de ofuscá-lo.

Mas Benjamin não permitiu que tal acontecimento o enfraquecesse. Aos poucos, ele percebeu que a tarefa miserável que lhe fora incumbida poderia se tornar extremamente interessante. Ainda nos primeiros dias, quando as horas na Sala de Preparos transcorriam no mais profundo silêncio, a dedicação e segurança com as quais Lily trabalhava lhe roubaram toda a atenção. Ele nunca realmente acreditara que ela houvesse se aliado às trevas, como alguns de seus colegas. Acreditou que ela apenas tivesse fugido, como muitos de seus conhecidos nascidos trouxas fizeram durante a guerra. No entanto, após um mês de convivência, aquela teoria havia sido derrubada por completo.

Se aquela mulher tinha tido coragem de voltar, apesar de tudo, e tinha forças para aturar os olhares acusadores e as ofensas subliminares que os demais aurores lhe dirigiam diariamente, sem demonstrar qualquer traço de desistência, de uma coisa Benjamin podia ter certeza: de covarde, Lily Evans nada tinha.

— Ben? – Lily quebrou o silêncio, trazendo-o à realidade. Em seguida, ela repousou a colher junto à borda do caldeirão e o encarou. Ela tinha os olhos mais bonitos que ele já vira. – O que aconteceu com seu pulso?

Benjamin automaticamente baixou os olhos para conferir seu antebraço. Em seu pulso direito, dois cortes cicatrizados se sobressaíam à pele branca e lisa.

— Nada de mais. Foi... um acidente. – ele tentou parecer indiferente ao puxar a manga das vestes para cobrir as cicatrizes. Quando ergueu os olhos novamente, encontrou Lily fitando-o de modo assombrado. Ele precisou consertar: – Você não está pensando que eu tentei me matar, não é?

— Não. – Lily balançou a cabeça. – É só que... eu percebi que todos vocês têm a mesma cicatriz no mesmo lugar. Moody, James, Sirius, Remus, Marlene, você... – ela engoliu em seco. – Isso não é coincidência.

— Não, não é. – Benjamin suspirou, cedendo. Mais uma vez, Lily o surpreendia com sua perspicácia. E, diante de tal observação, nada lhe restava a não ser a franqueza: – Mas, como você deve imaginar, eu não posso falar sobre isso. – terminou de falar com uma piscadela charmosa.

Lily não pareceu desapontada. Lançou-lhe um olhar de compreensão e voltou a mexer o conteúdo do caldeirão com a colher. O ambiente foi tomado por um silêncio desconfortável. Benjamin tentou pensar em alguma coisa para dizer e diminuir a tensão, mas a lembrança do surgimento daquelas cicatrizes tomou conta de seus pensamentos e impediu-o de obter sucesso em suas intenções.

— Tem a ver com a Batalha de Godric’s Hollow, não é? – Lily perguntou, de repente. Benjamin arregalou os olhos antes que pudesse conter qualquer reação surpresa que o entregasse. Como era possível que ela fosse tão inteligente? No último ano ele ouvira inúmeras perguntas de seus familiares e amigos sobre aquelas cicatrizes, mas nenhuma, absolutamente nenhuma, fora tão certeira quanto aquela que Lily acabara de enunciar. – Não se preocupe, não precisa me responder. – Lily acrescentou. – Eu sei que tem. Só quem esteve em Godric’s Hollow naquela noite tem esses cortes no pulso.

Benjamin estava atordoado demais para conseguir bancar o desentendido ou fingir que nada do que estava ouvindo fizesse sentido. A segurança com a qual Lily afirmara sua teoria dispensava qualquer encenação daquele tipo. De alguma forma, ela sabia. Será que Potter lhe contara algo? Era improvável, Potter claramente não confiava nela – Benjamin estava ali justamente para vigiá-la – e, portanto, não fazia sentido ele ter-lhe contado uma informação tão sigilosa como aquela.

— Como você...?

— Reparei que Emmeline Vance não tem essas cicatrizes. – Lily constatou, inclinando-se em sua direção para apanhar um frasco na prateleira atrás dele. Benjamin apreciou o aroma de seus cabelos inconscientemente. Voltando a se endireitar, Lily abriu o frasco e começou a despejar algumas gotas do líquido no conteúdo do caldeirão. – Ela não estava na Batalha, lembro que ela não recebeu as condecorações na festa do Ministério, mês passado. Não foi difícil relacionar uma coisa à outra.

Benjamin flagrou-se sem palavras. Não podia simplesmente congratulá-la pela precisão de sua constatação e tampouco conseguiria encontrar argumentos falsos para desmenti-la. Lily não estava mais questionando; ela estava enunciando uma verdade incontestável. O que o protocolo recomendava ser feito em uma situação como aquela?

Durante aquela breve pausa, a poção de Lily atingira a coloração esverdeada que anunciava sua conclusão. O verde absoluto do líquido do caldeirão chamou-lhe atenção imediatamente: era perfeito, exatamente o mesmo verde inatingível dos livros de poções. Benjamin surpreendeu-se, mais uma vez, com a eficiência de Lily.

— Como você consegue? – indagou ele, cruzando os braços na frente do peito e olhando admirado para a poção borbulhante.

Com um aceno de varinha, Lily apagou as chamas que aqueciam o fundo do caldeirão.

— Como eu consigo o quê? – ela lhe devolveu a pergunta.

— Ser assim. – Benjamin esticou o braço e apontou para ela. – Boa em tudo. Você não tem ideia do quanto eu gostaria de conhecer melhor a verdadeira Lily.

Lily se levantou de seu assento, mirando-o desconfiada.

A verdadeira Lily? – repetiu, em tom de confusão.

— Sim. – Benjamin resolveu colocar-se de pé também, para olhá-la melhor. – A Lily por trás da auror, da mestra em poções. O que você faz depois do trabalho? O que gosta de comer? Que livro está lendo? Quero descobrir como sua mente funciona. – Benjamin lançou-lhe seu olhar mais penetrante e deu um passo à frente. – Vamos jantar hoje à noite, Lily. Onde você quiser. O que acha?

— Ben, eu já lhe falei que não tenho tempo para sair. – Lily virou-se e dirigiu-se à prateleira de ingredientes que ficava do outro lado da sala. – Agora, por favor, vamos voltar ao trabalho. Preciso que você separe os hemeróbios, pode ser? Eu vou picar as peles de ararambóia.

Benjamin não ocultou seu desgosto diante da negativa indireta que havia recebido como resposta. Mas, para sua sorte, Lily permanecera de costas para ele, apanhando alguns recipientes da prateleira, e não pôde ver seu sorriso galante se desmanchar, dando lugar a uma expressão contrariada.

Passando a mão pela barba, Benjamin não pôde evitar formular alguns questionamentos. Qual era o problema dela, afinal? Lily definitivamente não tinha ninguém, não tinha amigos, não tinha família, absolutamente nada; então o que impedia que ela lhe desse uma chance? Por que ela não o deixava se aproximar? O que ele poderia fazer para que ela o visse com outros olhos?

De repente, Benjamin compreendeu algo crucial. Voltando a sorrir, ele esperou Lily terminar de selecionar os ingredientes e caminhar em direção à mesa, abraçando alguns frascos contra o peito. Sem levantar os olhos para ele, ela começou a empilhar os frascos sobre a superfície, cuidadosa para não derrubar nenhum. Benjamin tomou fôlego e tentou sua cartada final:

— Você está investigando sobre a noite de Godric’s Hollow, não está?

No mesmo instante, Lily atrapalhou-se com um dos recipientes e o derrubou. O frasco transformou-se em inúmeros cacos de vidro quando se chocou contra o chão.

— O que foi que você disse?

— Você quer saber o que houve na Batalha Final, não é? – Benjamin reformulou a questão, estreitando as pálpebras. Sentia-se orgulhoso de sua própria inteligência. – É por isso que lê jornais do ano passado. É por isso que reparou na coincidência das nossas cicatrizes. – ele pensou em voz alta, absorto em suas descobertas. Lily estava nitidamente nervosa e isso era justamente o contrário do que ele queria. – Não tenha medo, Lily, eu não pretendo comentar sobre suas perguntas com ninguém. Você pode confiar em mim. – Benjamin a tranquilizou, abrindo um sorriso. – Tenho certeza de que você tem bons motivos para estar investigando esse assunto e, como você já deve imaginar, eu sei de informações que você jamais encontrará nos jornais. Mas aqui não é o melhor lugar para termos essa conversa, não é? O que acha de sair comigo agora?

Lily estacou, pasma demais para formular qualquer coisa. Ela precisava de tempo para assimilar sua proposta, mas Benjamin não tinha pressa alguma; poderia ficar o dia inteiro apreciando o quão adorável ela estava com aquela expressão surpresa. E, quando Lily abriu a boca para responder, a porta da Sala de Preparos foi escancarada.

James Potter adentrou o aposento acompanhado por um apressado Dedalus Diggle, que trajava sua inseparável cartola roxa e exalava o ar bem-humorado de sempre.

— Bom dia. Diggle acabou de retornar ao Quartel, portanto, a partir de agora... – Potter interrompeu-se ao encarar Lily. Ela sequer parecia ter notado sua entrada, sua feição permanecia completamente estarrecida e seus olhos ainda estavam cravados em Benjamin. – Você está bem, Lily?

Ela sacudiu a cabeça.

— Sim, estou.

— Senhorita Evans! – Diggle exclamou, sorrindo. – Quanto tempo não a vejo! Como tem passado?

Ainda totalmente atordoada, Lily aceitou o aperto de mão excessivamente caloroso de Diggle.

— Bem, eu... estou bem. – respondeu ela, automaticamente. – Obrigada.

— Antes de você voltar, Lily, era Diggle quem estava cuidando das poções. – Potter tomou a palavra novamente, ainda notavelmente intrigado. – E agora que voltou das férias, ele vai retomar as atividades aqui e vai trabalhar com você. Fenwick, você já pode retornar à equipe de campo.

Benjamin arqueou as sobrancelhas castanhas. Sentia as entranhas se revirarem intensamente sempre que o Auror Capitão lhe dava ordens, independentemente de quais fossem. E, daquela vez, Benjamin teve ainda mais motivos para se sentir contrariado: ele sabia que, se fosse afastado da Sala de Preparos, consequentemente se afastaria de Lily.

— Eu estou perfeitamente ajustado neste setor do departamento, Potter. Posso continuar aqui sem problemas.

Potter passou a mão pelos cabelos e lançou-lhe um olhar desprezivelmente arrogante.

— Se não me falha a memória, Fenwick – começou ele, num tom presunçoso –, lembro-me de que você foi à minha sala, poucas semanas atrás, para reclamar de ter sido transferido para a Sala de Preparos. – Potter ajeitou o sobretudo, fazendo o distintivo de Auror Capitão reluzir. – E eu disse que você trabalharia aqui até Diggle voltar de férias, não disse? Pois bem, Diggle está de volta e você está dispensado desta tarefa.

O tom de Potter fora incisivo e não permitia qualquer abertura para réplicas. Benjamin assentiu, sem esconder a má vontade, e tornou a se virar para Lily. Ela o observava sem piscar.

— Certo. – concordou, começando a se encaminhar para a saída. – Foi um prazer trabalhar com você durante esse mês, Lily. – acrescentou, piscando-lhe com um olho só. Pôde sentir o olhar de Potter fuzilar sua nuca e tal reação deixou-o muito satisfeito. – Se precisar falar comigo, sabe onde me encontrar.

Quando estava passando entre Diggle e Lily para ir em direção à porta, ela o segurou pelo braço, como se tivesse se esquecido momentaneamente da presença dos recém-chegados.

Sim. – disse ela, olhando-o nos olhos.

O breve contato visual que sustentaram trouxe-lhe a confirmação de que aquele “sim” possuía um sentido muito mais profundo do que Potter e Diggle poderiam compreender. E, contrariando todas as probabilidades, Benjamin Fenwick saiu da Sala de Preparos com um sorriso vitorioso nos lábios.

—--

[Sexta-feira, 26 de novembro de 1982, 12h06]

James estava lendo um comunicado do Chefe do Departamento de Acidentes e Catástrofes Mágicas quando subitamente compreendeu que Lily o evitara durante toda a semana. Na terça-feira, ela apertara o passo ao cruzar com ele no corredor, mesmo quando ele fizera menção de abordá-la. Na quarta-feira, com a desculpa de verificar se Diggle estava se saindo bem, James foi até a Sala de Preparos para dar continuidade à conversa interrompida, mas Lily subitamente lembrou-se de buscar um ingrediente no estoque e demorou tanto para voltar que ele não pôde continuar esperando. E, por fim, mais cedo naquele dia, em vez de ter ido dizê-lo pessoalmente, Lily preferira lhe enviar um memorando para lhe informar que os hemeróbios haviam acabado e que ele precisaria encomendar mais.

Não era coincidência que ela estivesse agindo daquela forma justamente quando James havia conseguido arrancar-lhe as primeiras respostas. Ele a conhecia bem demais para ignorar a casualidade de tais eventos. Mas James estava decidido a insistir até descobrir o que acontecera com ela e o que a fizera ir embora – e nada o faria desistir. Não enquanto tivesse certeza de que Lily fizera tudo aquilo por não ter tido escolha.

Tomado por uma imensa ansiedade, James se colocou de pé e saiu decidido de sua sala. Quando virou o corredor, encontrou Peter vindo do sentido oposto.

— Prongs! – ele exclamou ao ver James. – Eu preciso falar com você.

Não haviam se falado desde a discussão no apartamento de Sirius e, embora James acreditasse que Peter provavelmente estivesse querendo se desculpar pelas ofensas despejadas, naquele momento ele tinha outras prioridades.

— Agora não, Peter. Mais tarde.

James sentiu seu estômago se contorcer. Aproximou-se da porta entreaberta lentamente, segurando a respiração. Estava pronto para intervir, mas seu lado racional abruptamente dominou seus pensamentos e impediu-o de escancarar a porta e azarar o ex-Comensal da Morte. Naquela fração de segundo, James decidiu esperar para agir, afinal, havia algo inegável acontecendo entre os dois. E ouvir aquela conversa até o fim talvez fosse sua única chance de descobrir o que era.

— Abaixe essa varinha, sua sangue-ruim. O Lorde das Trevas deveria ter acabado com você quando teve a oportunidade...

Saia daqui, Malfoy.

— Fique longe do meu caminho, Evans. Esse é o meu último aviso.

James ouviu passos e correu encostar-se junto à parede ao lado da porta, a fim de não ser visto quando Malfoy saísse do aposento. Malfoy abriu a porta, deixando James atrás dela, e seguiu pelas escadas circulares sem olhar para trás. Quando o som de seus passos desapareceu, James finalmente expirou todo o ar de seus pulmões, aliviado.

Após ter certeza de que Malfoy já havia se afastado o suficiente, James entrou na Sala de Preparos.

Encontrou Lily parada atrás de seu caldeirão, ofegante, com a varinha ainda em mãos e o olhar perdido em algum ponto do chão. Ao perceber a entrada de James, ela recuou.

— Lily, o que está acontecendo? – perguntou ele, marchando em sua direção.

— James, agora não. – ela encolheu os ombros, andando para trás, fugindo de seu toque. – Por favor, agora não.

— Fale comigo, Lily. Por favor, fale comigo. – James insistiu, segurando-a pelos braços e obrigando-a a olhá-lo. Ela tremia. – O que você está tramando? Eu ouvi o fim da sua conversa com Malfoy, não ouse negar que algo está acontecendo! O que ele quis dizer quando falou que Voldemort teve a chance de acabar com você? Você esteve com eles, quando foi embora? Malfoy está atrás de você, não está?

Lily virou o rosto, recusando-se a encará-lo, negando-lhe uma resposta. Após alguns segundos em silêncio, ela se soltou de suas mãos e começou a se afastar. James não tentou segurá-la.

— Lily, por favor, fale comigo...

— Não, James! – ela o olhou por cima do ombro, guardando a varinha no bolso interno do casaco enquanto caminhava até a porta. – Isso não é da sua conta, pare de ficar se metendo na minha vida!

— Lily, espera!

Mas ela não esperou. James seguiu-a escada acima, chamando-a pelo nome, mas Lily não se virou nem uma vez. Quando alcançaram o corredor do segundo nível, James puxou-a pela mão, tentando fazê-la parar, mas ela se desvencilhou e continuou marchando na direção oposta.

— Aonde você está indo? – ele perguntou, logo atrás dela.

Lily não respondeu, mas também não precisou. Haviam parado diante da porta do Quartel General dos Aurores. A ruiva a abriu sem hesitar.

No amplo aposento encontravam-se apenas Sirius, Remus, Marlene, Alice e Peter. Os cinco estavam agrupados em volta de um livro, que repousava sobre a mesa redonda no centro do ambiente. Com a abrupta chegada de Lily e James, todos levantaram a cabeça simultaneamente para conferir quem havia entrado. E, diante do aspecto desesperado de James e do semblante atordoado de Lily, nenhum deles voltou a se debruçar sobre o livro novamente.

— Lily, o que está acontecendo? – James insistiu, imaginando desesperadamente o que poderia fazer para fazê-la falar. – Por que Malfoy estava te ameaçando?

— James, já chega! – Lily parou de andar, girou os calcanhares e o encarou, suas pálpebras estreitando-se. – Você me sufoca com tantas perguntas! Você não entende que minha vida não tem mais nenhuma relação com a sua? Você não vê que nada disso é da sua conta?

— Você está em perigo? – James continuou, ignorando todos os seus protestos. – Você precisa de ajuda? Lily, espera! Espera! Aonde você vai?

No meio de sua segunda pergunta, Lily desistiu da discussão e começou a andar na direção da lareira. James não tentou segurá-la daquela vez; achou melhor não continuar sufocando-a, como ela o acusara de fazer, e apenas assistiu-a se afastar, sendo tomado por uma inevitável sensação de derrota. Quando a mão dela estava a poucos centímetros do reservatório de Pó de Flu, que ficava no parapeito da lareira, um baque inesperado ecoou pela sala, fazendo-a interromper o movimento e virar-se para trás. James também foi atraído pelo som.

E foi só naquele momento que os dois perceberam que não estavam sozinhos.

Num movimento brusco e propositalmente barulhento, Peter apanhara o livro que estava sobre a mesa e começou a caminhar pisando forte em direção à lareira; seus olhos estavam vidrados em Lily. Ele parecia furioso.

Quem você está querendo envenenar, Evans?

Peter parou de andar apenas quando a distância entre eles se resumiu em poucos centímetros. Seu olhar e sua postura eram questionadores e hostis. Mas Lily permaneceu imóvel.

— Do que você está falando?

— Não comece a se fazer de sonsa!

Peter abriu o livro na página marcada e empurrou-o contra Lily, atingindo-a no braço e fazendo-a ter de dar um passo para trás para poder se manter em pé. Aquela atitude deliberadamente agressiva fez o sangue de James ferver. Ele se postou imediatamente ao lado de Lily, inclinou-se para frente e encarou Peter de modo perigosamente intimidador.

O que você pensa que está fazendo? – rosnou.

Prongs. – Sirius surgira ao seu lado e colocou uma mão em seu ombro, tentando atrair sua atenção. Ele ostentava uma expressão forçosamente calma e estava ali com a óbvia intenção de evitar um confronto. Remus veio logo em seguida e parou do outro lado de Lily.

O silêncio que se seguiu ancorou uma atmosfera extremamente pesada sobre os presentes. James continuou fuzilando Peter com o olhar. Suas têmporas latejavam no mesmo ritmo de sua respiração.

— Aqui! – Peter ergueu o livro alguns centímetros, decidindo ignorar o pequeno alvoroço e fingindo não se importar com o olhar furioso de James. – Responda, Evans. – ele apontou impacientemente para um trecho do texto. Lily baixou os olhos lentamente para conferir a página, ainda em choque. – Quem você quer envenenar? Porque eu sei que você está preparando poções do Morto-Vivo. Os ingredientes que sumiram, e que, aliás, continuam sumindo, são exatamente os mesmos ingredientes dessa poção!

Lily balançou a cabeça negativamente, parecendo confusa.

— Não, Peter, eu não–

— O novo lote de raízes valerianas já desapareceu! E agora as losnas acabaram também! Como você explica isso? – Peter encheu os pulmões para continuar, mas James não pôde mais se conter. Antes que pudesse medir seus movimentos, ele deu um passo à frente e pegou Peter pelo colarinho das vestes. O amigo fechou a boca no mesmo instante e subitamente pareceu apavorado.

Controle-se. – James ordenou, entredentes.

— Eu não consigo acreditar que você esteja defendendo essa mulher! – Peter grunhiu, ofegando. Após alguns segundos de tensão, ele retirou as mãos de James de suas vestes e ofereceu-lhe o livro que ainda segurava. James não relutou em soltá-lo, mas não desfez seu semblante intimidador. – Veja a lista de ingredientes da Poção do Morto-Vivo, Prongs! Agora vá conferir os ingredientes que desapareceram do estoque! Você acha que isso é coincidência? Porque ninguém aqui acha! – Peter olhou para Sirius, depois para Remus e, em seguida, deu meia volta para poder olhar para Marlene e Alice, que ainda permaneciam junto à mesa, caladas. Remus foi o único que não retribuiu o olhar de apoio.

— Alice passou mal ontem, depois de beber o elixir energético que Evans preparou. – Sirius contou.

— Eu não coloquei nada nele! – Lily protestou, inconformada com a acusação. Esticando o pescoço para que Alice entrasse em seu campo de visão, ela acrescentou: – Alice, eu não coloquei nada na sua bebida. Eu juro que não coloquei.

Alice não olhou para ela.

— Como podemos ter certeza disso, se não sabemos de que lado você está?

Um silêncio cortante se seguiu após a pergunta de Alice. James esqueceu-se de Peter por um momento e virou-se para conferir Lily. Ela estava boquiaberta, ultrajada, e parecia estar procurando palavras para formular uma resposta.

— Vocês... – ela começou, a voz começando a se alterar, tornando-se trêmula. – Vocês não fazem ideia do que estão dizendo.

— Ah, para com isso! – Peter reclamou num tom de deboche. – Como você consegue ser tão cínica?

— Peter... – Remus tentou interrompê-lo, mas foi em vão.

— Para começar, você foi vista com Snape antes de ir embora. Uma semana depois, Dorcas foi assassinada no apartamento que vocês dividiam. E agora você resolveu voltar, mas se recusa a dar qualquer explicação, está roubando nossos estoques descaradamente, anda metida com Lucius Malfoy e ainda tem coragem de bancar a vítima? VOCÊ ACHA QUE SOMOS ESTÚPIDOS, EVANS? É ISSO?

— Não!

— ENTÃO DIGA DE UMA VEZ O QUE VEIO FAZER AQUI! – Peter explodiu novamente. – PROVE QUE VOCÊ NÃO VOLTOU PARA TENTAR TRAZER SEU MESTRE DE VOLTA! PROVE QUE NÃO TRAIU A ORDEM DA FÊNIX!

— Eu não traí a Ordem da Fênix! – Lily garantiu.

— Ah, não? – desdenhou Peter, descrente. – Prove.

— Estamos todos aqui, não estamos? – Lily abriu os braços, indicando todos os presentes. – Se eu tivesse traído a Ordem, todos vocês estariam mortos! Isso não é óbvio?

Peter cruzou os braços e estudou Lily por alguns instantes.

— Mostre seu braço esquerdo.

O quê?

— Prove que não traiu a Ordem, Evans. – Peter abriu um sorriso orgulhoso. – Mostre seu braço esquerdo. Se você não se aliou a Voldemort, seu braço esquerdo não tem marca alguma, não é? Então prove para nós.

Mas ao contrário de todas as expectativas de James, Lily colocou o braço esquerdo sobre o peito e passou o direito por cima, protegendo-o. Ela deu um passo para trás, os olhos verdes arregalados de pavor.

— Peter, isso n–

— O que você está escondendo aí, Evans? – Peter vociferou, entorpecido pela ideia de tê-la finalmente encurralado. – Por que não pode nos mostrar esse braço? PENSA QUE EU NUNCA REPAREI QUE VOCÊ ESTÁ SEMPRE DE CASACO? – ele atirou o livro de poções para longe, provocando um estrondo e estabelecendo um clima de absoluta tensão. James se posicionou para afastá-lo de Lily, caso ele ameaçasse se aproximar mais. Sirius preparou-se para conter James, caso ele se tornasse violento como em seu apartamento. Marlene e Alice resolveram chegar mais perto para ver, ambas assustadas com a cena que Peter estava fazendo. – PARA MIM CHEGA, EVANS! VOCÊ VAI ME MOSTRAR ESSE BRAÇO AGORA!

Tudo aconteceu muito rápido e ao mesmo tempo. Peter avançou para Lily, agarrando-a pelo braço esquerdo sem a menor delicadeza. Ela não cedeu e gritou de dor quando ele tentou puxar seu pulso mais uma vez, fazendo mais força do que da primeira tentativa.

E, em meio a toda aquela agitação, aos palavrões que Sirius começara a disparar e às tentativas inúteis de Remus de apaziguar a situação, James agiu por impulso. Puxou Peter pelas vestes, fazendo-o se desequilibrar e consequentemente soltar Lily; em seguida, virou-lhe um soco na altura do olho. No segundo seguinte, os ossos de sua mão latejaram e aquela dor tirou-lhe a cegueira provocada pelo ódio. Ele viu Peter no chão, apoiado nos cotovelos. Um fio de sangue começou a escapar do supercílio atingido. Mas James não sentiu qualquer sombra de arrependimento.

Não toque nela.

— VOCÊ É UM FILHO DA PUTA, PRONGS! – Peter trovejou.

O xingamento não o afetou. James já havia liberado toda sua cólera naquele golpe; nada havia restado para fazer seu sangue ferver diante daquele disparate.

Nunca mais. – James continuou, em tom de ameaça. – Nunca mais encoste nela, Pettigrew.

A porta do Quartel foi escancarada e Alastor Moody passou por ela. Seu olho mágico rodopiava desesperadamente e James compreendeu que o chefe provavelmente conseguira ver o tumulto através das paredes.

— Potter. – falou ele, o peito arfando e o rosto cheio de cicatrizes coberto de suor. Ele viera correndo de sua sala para interromper a discussão. – Minha sala. Agora.

James tentou uma troca de olhares com Sirius, mas ele não retribuiu. Em vez disso, Sirius se inclinou para baixo e estendeu a mão para Peter, oferecendo-lhe apoio para levantar. Peter a aceitou, ao passo em que James se adiantava na direção de Moody, sendo observado por todos.

Ao se virar para fechar a porta, antes de sair, James viu Lily se dirigir à lareira e desaparecer em meio às chamas esverdeadas do Pó de Flu.

—--

[Sexta-feira, 26 de novembro de 1982, 18h25]

— Você não devia ter feito isso. – foi o que Sirius lhe disse quando entrou em sua sala, mais tarde.

James tirou os pés de cima da mesa e lançou-lhe um olhar inconformado.

— Você viu o que ele fez, Padfoot?

— Você não precisava ter batido nele, James! – Sirius retrucou, apoiando as mãos sobre a mesa e inclinando-se para frente. – Você tinha todo o direito de interferir, mas não podia ter dado um soco na cara dele, porra! Como as coisas vão se resolver agora? Vocês já estavam se distanciando e Peter–

Peter passou dos limites. – James tinha um tom definitivo.

Sirius bufou e endireitou a postura, decidindo não dar continuidade à discussão. James tampouco insistiu; já havia ouvido o suficiente de Moody, mais cedo. E ele tinha coisas mais importantes com as quais se ocupar naquele momento.

As novas perguntas não o deixavam em paz. O que mais Lily estaria lhe escondendo? Por que ela não levantara a manga do casaco? Seria por conta do comportamento agressivo de Peter? E o que Malfoy quisera dizer sobre Voldemort ter tido a oportunidade de eliminá-la?

— Você não terminou com a Emmeline porque está pensando em voltar com a Evans, não é? – Sirius quebrou o silêncio ao reparar na expressão preocupada do melhor amigo.

James não gostara do tom. Levantou-se da cadeira para responder:

— Terminei com a Emmeline porque não estávamos mais dando certo. Você sabe disso.

— Ah, me poupe, James. – Sirius cruzou os braços e assumiu um ar entediado. – Vocês nunca deram certo. Então é coincidência demais vocês só terminarem agora, que a Evans voltou.

— Quer parar de chamar ela de Evans?

— James, abra os olhos. – Sirius estava muito sério. – Ela não é quem você pensa, você sabe disso. Aquela mulher que você namorou não existe, cara.

Antes, porém, que James pudesse contestá-lo, alguém bateu na porta. A contragosto por ter sido interrompido, ele mandou entrar. Era Benjamin Fenwick.

— Potter. Black. – ele meneou a cabeça e parou do outro lado da mesa, ao lado de Sirius e diante de James.

— O que foi, Fenwick? – James definitivamente não estava disposto a ouvir os comentários fúteis do recém-chegado sobre as tarefas do dia. Ainda estava com a cabeça quente por conta da tarde conturbada que tivera e tudo o que não precisava era de Fenwick e sua mania pomposa de querer mostrar serviço.

— Bom. – Fenwick pigarreou, ganhando tempo para formular sua resposta. – Eu quero trocar minha folga com a McKinnon. Preciso do próximo final de semana livre, então vou trabalhar nesse e ela, no próximo. Já conversei com ela e ela topou trocar comigo.

— Então ela não vai mais trabalhar nesse final de semana? – Sirius perguntou, subitamente interessado.

— Se era ela quem ia trabalhar e eu acabei de dizer que troquei com ela, então, sim, Black, isso só pode significar que ela não vai mais trabalhar nesse final de semana. – Fenwick respondeu, num tom de obviedade. – Eu vou.

Sirius apenas revirou os olhos e voltou a exalar o ar entediado de sempre, desinteressado demais para se irritar com Fenwick àquela hora da sexta-feira. James, por sua vez, achou-o desnecessariamente insolente e sentiu uma vontade imensa de fazê-lo pagar por aquela resposta mesquinha. Mas esforçou-se para abandonar as ideias de vingança, pois tinha ciência de que só queria descontar sua frustração pelo dia ruim em alguém. E mesmo que Fenwick merecesse, não seria justo.

— Você fumou aqui dentro? – Fenwick farejou, torcendo o nariz. – Que eu saiba, isso é proibido, Potter.

E então, James mudou de ideia.

— Ok, Fenwick. Vocês podem trocar os finais de semana da folga. – James largou-se em sua cadeira. – Eu só preciso que você formalize esse pedido por escrito.

Fenwick franziu a testa.

— Como assim? Já troquei de folga mil vezes e nunca precisei fazer isso.

— Pois é, mas agora precisa formalizar por escrito. – James cruzou os dedos atrás da nuca, contemplando a expressão confusa do outro.

Assim que compreendeu as intenções de James, Sirius conjurou um rolo de pergaminho e muito solicitamente estendeu-o a Fenwick, lutando para permanecer sério.

— Mas desde quando? – Fenwick questionou, ainda confuso.

— Desde agora. – James sorriu.

Ao ouvir sua última sentença, o rosto de Fenwick tornou-se imediatamente vermelho. Ele finalmente percebeu que estava pagando pela resposta sarcástica que dera a Sirius anteriormente.

— Ah, qual é, Potter...

— Sem essa justificativa por escrito, não poderei autorizar. Sinto muito.

Engolindo uma réplica potencialmente ofensiva, Fenwick pigarreou, assentiu e aceitou o pedaço de pergaminho que Sirius ainda lhe oferecia.

— Pode usar minha pena. – James indicou-lhe o objeto sobre a mesa. – E não se esqueça de colocar todos os seus dados e especificar o motivo para a troca, por favor. Obrigado.

Fulminando-o com o olhar, Fenwick colocou o pergaminho sobre a mesa, debruçou-se sobre ela e apanhou a pena. Antes de afundar sua ponta no tinteiro, ele abriu um sorriso breve. James trocou um olhar divertido com Sirius quando o ruído da pena arranhando o pergaminho pôde ser ouvido.

Quando terminou de escrever sua justificativa, Fenwick largou a pena e tornou a endireitar a coluna. Ele parecia menos contrariado do que James gostaria.

— Terminei.

— Então já pode ir. Tenha um ótimo final de semana.

Com um sorriso bem humorado, Fenwick agradeceu, deu meia volta e saiu da sala, fechando a porta atrás de si. Um segundo após sua saída, Sirius rendeu-se à gargalhada que estivera segurando desde o início.

— Boa, Prongs! – ele apoiou o quadril na borda da mesa e esticou o braço para alcançar o pergaminho que Fenwick preenchera. – Vamos ver qual o motivo para ele querer trocar a folga. Almoço na casa da vovó? Aniversário do peixe de estimação? Eu chuto a primeira e você?

James apenas abriu um sorriso fraco, mas logo o desfez. As perguntas sobre os acontecimentos daquela tarde tornaram a invadir seus pensamentos e as palavras de Peter ecoaram em seus ouvidos. A lembrança do rosto assustado de Lily fez seu estômago se contorcer. O que ele podia fazer para ampará-la, se ela não permitia que ninguém se aproximasse?

— Estou preocupado com a Lily, Sirius. – James confessou de uma vez, embora imaginasse que a reação do amigo não fosse ser das mais compreensivas. Sirius estava lendo a justificativa de Fenwick e seu sorriso se desmanchou. Mesmo prevendo uma discussão, James continuou com o desabafo: – Ela está com problemas, eu sei que está. Eu só–

— Prongs...

Sirius estendeu-lhe a justificativa de Fenwick, mas James não tinha interesse algum em lê-la naquele momento.

— Eu sei que você não me apoia nisso, mas eu a conheço como ninguém, Sirius. Ela está nos escondendo alguma coisa, eu sei que está. E ela tem medo de me contar. Toda vez que eu me aproximo dela, ela faz de tudo para me afastar. Ela tem medo de ceder, porque provavelmente algo terrível pode acontecer a ela se–

— James, pare de se ilu–

— Eu não estou me iludindo, Sirius! – James insistiu. – Lily tem medo de que eu me aproxime demais. Mas ela não tem ninguém, está totalmente sozinha, e se envolveu em algum tipo de problema muito sério e–

Prongs. – Sirius balançou o pergaminho na altura de seus olhos. – Ela não está sozinha, porra. Leia essa merda. Ela só não está interessada em você, cara! Será que agora você vai entender o que eu e o Wormy estamos tentando te dizer? Será que agora você vai parar de bancar o idiota?

Sem fazer ideia do que Sirius estava falando, James aceitou o pergaminho. A letra cursiva e cuidadosa de Benjamin Fenwick dizia o seguinte:

Eu, Benjamin Paul Fenwick, auror, Ordem de Merlin, primeira classe, portador da carteira de identidade nº 86.998, de nacionalidade inglesa e residente da cidade de Londres, solicito por meio do presente instrumento a troca de minha folga para o primeiro final de semana do mês de dezembro do ano de 1982. Motivo: no final de semana mencionado acima, terei um encontro com Lily Evans e, portanto, a troca de folgas entre mim e Marlene McKinnon é fundamental para que eu atenda a esse compromisso. Atenciosamente, B. P. Fenwick.

—--

[Sexta-feira, 26 de novembro de 1982, 23h59]

James entornou o que restava de seu copo de whisky e apoiou as costas no encosto da poltrona. Contemplou o fogo da lareira por um momento, procurando afastar os pensamentos apreensivos que rodeavam sua mente. A sensação de impotência latejava por todos os poros de seu corpo e ele apenas desejou desesperadamente acender um cigarro, embora fizesse menos de um minuto desde que havia terminado de fumar o último.

De repente, ele ouviu três batidas na porta. Incerto se as ouvira realmente ou se as batidas haviam sido imaginadas por sua mente exausta, James virou-se imediatamente para a porta e aguardou, prendendo a respiração e afundando os dedos nos braços da poltrona. Vinte segundos depois, a quarta batida finalmente soou.

Não podia ser.

Ele se dirigiu imediatamente à porta e a abriu sem hesitar. Para sua surpresa, encontrou Lily do outro lado, coberta por sua inseparável capa preta. Ao vê-lo, ela abaixou o capuz para revelar o rosto e seu semblante estava inegavelmente perturbado.

— Posso entrar?

James descobriu que a presença dela não lhe causava mais a mesma sensação de preocupação de poucas horas atrás. Agora ele sentia um ressentimento talvez ainda maior do antes de ter visto a memória de sua mãe – o evento que o fizera enxergar as decisões de Lily por um ângulo diferente. A dor em seu peito parecia tão aguda quanto à dor da época em que descobrira que ela havia partido sem dizer adeus. Ele se sentia igualmente traído, daquela vez por si mesmo, por ter acreditado – apesar de todos os indícios apontarem o contrário – que Lily havia voltado por ele e que só estava aguardando o momento certo para lhe explicar seus motivos para tê-lo abandonado dois anos antes. No entanto, ela havia sido enfática desde o primeiro dia. Lily nunca lhe dera qualquer esperança.

Ao ser tomado por aquela onda de consciência, as palavras dela martelaram seus pensamentos como um mantra: "Eu não voltei por você, James". Como ele pôde ter sido tão cego?

Absorto naquelas novas percepções, James deu passagem para ela passar, sem dizer nada. Lily entrou em seu apartamento e observou com curiosidade o ambiente que havia sido o cenário de inúmeras memórias. Os móveis eram os mesmos, mas a disposição deles havia sido totalmente reformulada. Havia algumas embalagens de comida congelada sobre a mesa de centro. Havia copos vazios espalhados por todas as superfícies. Não havia mais o arranjo de lírios na janela. E não havia mais nenhuma foto nos porta-retratos, que agora estavam vazios.

— O que você veio fazer aqui? – James quebrou o silêncio.

Lily se virou para ele, seu cabelo avermelhado escorregando lentamente pelos ombros.

— Eu... – começou ela, procurando as melhores palavras para explicar. James percebeu que ela não planejara aquela visita, provavelmente viera sem parar para pensar. – Primeiramente, eu gostaria de agradecer por ter me defendido hoje.

Ele sentiu um pouco de raiva ao se lembrar do ocorrido. Por culpa dela, brigara com um de seus melhores amigos. E só agora conseguia compreender que Peter estivera certo em desconfiar dela o tempo todo. Como pôde se deixar enganar daquela forma? Por que se recusara tanto a enxergar o que sempre fora tão evidente aos amigos?

— O que você veio fazer aqui, Lily? – James repetiu a pergunta.

Lily nitidamente percebeu que algo estava diferente.

— Eu preciso falar com você.

Comigo? – James cruzou os braços, analisando-a com frieza. – Sobre o quê?

— Eu preciso da sua ajuda, James. – ela admitiu, em voz baixa.

James riu pelo nariz, sem exalar humor algum. Era uma risada desacreditada.

— É mesmo? – indagou, incapaz de acreditar no que acabara de ouvir. Lily franziu as sobrancelhas ao captar o álcool em seu hálito, mas ele não se importou. – Você precisa da minha ajuda? E posso saber para quê?

Lily hesitou, estranhando sua indiferença. Sua fisionomia foi tomada por um ar de genuína incompreensão, o que certamente o teria feito ceder em ocasiões anteriores. Mas James estava farto de se sentir enganado.

— E-eu não posso contar exatamente o que está acontecendo. – Lily foi direta, embora transparecesse receio por sua reação. – Mas preciso que você confie em mim, James.

— Como você tem coragem de vir aqui e me pedir isso? – James disparou, fazendo uso de toda a sua franqueza. – Estou há semanas tentando conversar com você, tentando entender o que aconteceu com você dois anos atrás e, durante todo esse tempo, você se recusou a responder qualquer pergunta. Hoje mesmo você pediu para que eu não me metesse mais na sua vida, não foi? Estou mentindo? – ele fez uma pausa. Lily encolheu-se e negou com a cabeça discretamente. Após obter sua resposta, James prosseguiu: – E mesmo depois de tudo, você tem coragem de aparecer na minha casa de surpresa e pedir para que eu te ajude em algo que você também não vai me contar o que é? Você acha que isso é justo comigo, Lily?

Quando James terminou seu raciocínio, Lily lhe lançou um olhar de desculpas. Ele pensou ter visto seus olhos verdes encherem-se de água, mas desviou o olhar antes que pudesse confirmar. O calor do whisky espalhara-se por todo seu corpo; e ele forçou-se a mirar a lareira, procurando se acalmar.

— James, eu sei que estou pedindo demais. – Lily tomou a palavra novamente. – Eu sei disso. Mas preciso mesmo da sua ajuda, eu...

— Certo. – James voltou-se para ela e e resolveu propor-lhe uma troca. Ele deu um passo à frente, ficando muito próximo de Lily, que enfrentou seu olhar com firmeza. – Você quer minha ajuda? Quer mesmo? Então comece me respondendo: o que Snape disse para te fazer ir embora?

— James, você sabe que eu não–

— Não pode me responder essa? Tudo bem, Lily, eu tenho outras mil perguntas. Responda uma, apenas uma, e eu ajudo você no que quiser. Por onde você andou nesses últimos dois anos? O que aconteceu com a sua varinha? Ah, você também não pode responder essas perguntas? Ok, então responda: como Moody te encontrou? O que está acontecendo entre você e Lucius Malfoy? Por que está roubando ingredientes do estoque do departamento? O que você tem no braço esquerdo?

Passando os dedos pela bochecha para afastar uma lágrima solitária que havia escapado, Lily recuou e balançou a cabeça negativamente mais uma vez.

— Sinto muito.

James ainda tinha uma última pergunta a fazer. Ele tornou a avançar para dela, parando apenas quando estava muito próximo. Lily pareceu assustada com aquela proximidade intimidante e, portanto, deu mais passo para trás. Suas costas se chocaram contra a parede. Mas James não parou de se aproximar.

— Fenwick pediu para tirar folga no fim de semana que vem e escreveu o motivo na justificativa. Quero que me responda pelo menos isso, Lily. É verdade que vai sair com ele?

Quando não havia mais como seguir em frente, James parou diante dela e apoiou a mão esquerda contra a parede. Ele inclinou-se para frente para aguardar sua resposta, sentindo a respiração ofegante dela soprar suavemente em seu rosto. Sem interromper o intenso contato visual, Lily franziu a testa e estreitou as pálpebras, assumindo uma expressão quase dolorida. O silêncio que se seguiu foi mais afirmativo do que qualquer confirmação verbal que ela pudesse ter enunciado.

Por fim, ela respondeu:

— Sim, é verdade. Mas não é nada disso que você está pens–

— Confesso que não esperava por essa. – James a interrompeu, arrastando os olhos para sua boca entreaberta, que naquele momento estava a pouquíssimos centímetros de distância. – Mas acredito em você agora, Lily. Você realmente não voltou por mim.

James estudou-a atentamente, como se estivesse tentando memorizar cada detalhe de seu rosto. Muito devagar, ele desapoiou a mão da parede, andou dois passos para trás e deu-lhe as costas.

Caminhou até a lareira e parou diante das chamas que iluminavam a sala. Tirou o maço de cigarros do bolso, escolheu um deles e o acendeu com a ponta da varinha. James cerrou os olhos, mas a imagem de Lily encostada à parede com o rosto banhado em lágrimas ainda estava assustadoramente nítida em sua mente.

De repente, sua garganta se fechou. Mas James engoliu com força, recusando-se a expor sua dor.

— James... – Lily o chamou, com a voz suave.

— É melhor ir embora, Lily.

Ela não insistiu. James ouviu o farfalhar de sua capa acompanhar o som de seus passos em direção à saída. Em seguida, ouviu a maçaneta ser girada e, por fim, a porta se fechar.

Mas James jamais poderia imaginar que, se tivesse permitido que Lily lhe contasse o que a estava preocupando, tudo teria sido muito diferente.

—--

Naquele momento, em sua sala no segundo nível do Ministério da Magia, Alastor Moody assinava a ordem de demissão de um de seus aurores.

Notas finais
Eu confesso que nunca estive tão curiosa para saber o que vocês estão pensando. Por favor, me contem suas teorias! O que posso dizer é que, mais do que nunca, eu inseri dicas sobre o que nos aguarda no futuro dessa história. E, pela primeira vez, dei algumas respostas bem claras às perguntas de vocês. Será que conseguiram perceber? E aí, o que acharam de tudo? Quem será o auror demitido, James, Lily ou Peter? A única coisa que posso adiantar é que tudo vai mudar, a partir do próximo capítulo :) Estou respondendo os comentários ainda, portanto, se você ainda não recebeu sua resposta, aguarde! ♥ Obrigada a todos que ainda acompanham a fic, de verdade! Beijos e até o próximo! ♥ Carol Lair (@carollairr)